UM NOVO PARADIGMA PROCESSUAL CIVIL BASEADO NA MAIOR RESPONSABILIDADE DO ADVOGADO

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1 UM NOVO PARADIGMA PROCESSUAL CIVIL BASEADO NA MAIOR RESPONSABILIDADE DO ADVOGADO I INTRODUÇÃO: O tema da Reforma da Justiça que, em boa hora, ocupa os trabalhos do VII Congresso dos Advogados Portugueses, tem tanto de estafado, como de primordial. Trata-se de uma espécie de El Dorado da Justiça Portuguesa, que todos desejam, todos procuram, mas que ninguém encontrou e, ao que tudo indica, ninguém sabe muito bem como prosseguir. Ao longo de décadas e após sucessivos Governos, as medidas tomadas nunca deixaram de parecer casuísticas, desligadas entre si e alheias a uma visão de conjunto e a uma perspectiva de futuro para o sector. E o que é certo é que os resultados estão à vista. Sendo consensual a vertiginosa subida dos indicadores de desenvolvimento de Portugal, a Justiça ocupa o lugar de parente pobre, incapaz de dar resposta às necessidades. A esta situação não será alheio o facto de nunca se ter alcançado um acordo alargado entre as diferentes forças políticas e entre os diversos sectores da Justiça de modo a delinear uma política de justiça a, pelo menos, uma década, devidamente focalizada nos seus objectivos.

2 Ora, a Administração da Justiça é uma das funções inalienáveis dum Estado de Direito e a sua área de influência não se cinge ao respectivo espaço funcional, assumindo um papel determinante na segurança e pacificação social, na afirmação do sentimento de comunidade e confiança dos cidadãos na autoridade do Estado e no desenvolvimento económico e competitividade, nomeadamente ao nível da atracção do investimento e da fixação de empresas e de empreendedores. São conhecidos os factores que, nas últimas décadas, contribuíram para uma erosão profunda da imagem da Justiça: lentidão, descoordenação e conflitualidade, má qualidade das leis e uma comunicação inexistente ou inepta. Importa, por isso, restaurar a credibilidade das Instituições da Justiça, promover a confiança nos seus agentes e assegurar as condições para a celeridade dos seus procedimentos, contando com os Magistrados, Funcionários e Advogados como parte da solução e nunca como alegada origem do problema. Em suma, é necessário empreender, final e decisivamente, a Reforma da Justiça e essa reforma passa, também e para o que aqui interessa, por uma urgente mudança do paradigma processual civil, já que o actual não se adapta às necessidades e aos recursos disponíveis. Nesta mudança, os Advogados, auxiliares na Administração da Justiça, podem e devem reclamar uma maior responsabilidade. É essa a proposta que, partindo de reflexões e trabalhos anteriores, apresentados nos mais diversos fóruns, trazemos a este Congresso e que a seguir se desenvolverá. II DESENVOLVIMENTO: A reforma do direito processual civil é, como se disse, um vector fundamental na Reforma da Justiça.

3 Uma Justiça célere e adequada à dinâmica do nosso tempo exige que, sem apriorismos e respeitando escrupulosamente os princípios e direitos fundamentais, se ultrapassem ortodoxias e se superem modelos passaditas. Numa perspectiva transversal, é absolutamente decisivo melhorar a qualidade das leis, evitando o casuísmo, revogando toda a legislação em desuso e obsoleta e, pura e simplesmente, banindo todos os regimes contraditórios, sobrepostos e redundantes que consomem tempo e recurso aos intervenientes processuais. Paralelamente, há que identificar e atacar os factores de litigiosidade. E, não menos importante, promover uma rigorosa uniformização jurisprudencial. No tocante ao processo em concreto, importa encurtar a fundamentação das decisões, apostar na oralidade dos procedimentos, limitar a duração e amplitude das diligências, promover a especialização dos intervenientes. É fundamental a simplificação e concentração dos actos processuais, a oralidade das decisões, uma maior amplitude dos poderes do juiz na condução do processo com reforço do princípio da adequação formal - e uma crescente generalização da produção antecipada de prova. Deve ser fixada uma calendarização realista e peremptória para a prática dos actos processuais, aplicáveis a todos os intervenientes e não apenas aos Advogados. Tendencialmente, a fase de saneamento e instrução dos processos deverá passar a ser da responsabilidade exclusiva dos Advogados. Deve estabelecer-se como objectivo ainda que de aplicação inicialmente experimental, voluntária e/ou restrita a acções de determinado valor a implementação de uma forma única de processo, integralmente saneada e instruída pelas partes, apresentada a

4 julgamento com uma produção de prova em audiência meramente residual - e decisão oral, após alegações públicas e presenciais junto de um Tribunal Colectivo Cível, tudo com amplo recurso às novas tecnologias e desenvolvimento das plataformas disponíveis. Deve ser revalorizada e alargado o campo de aplicação da prova pericial e firmemente responsabilizadas as partes que a apresentem pela respectiva fidedignidade. Deve ser previsto, de uma vez por todas, um regime de elaboração e disponibilização às partes, em tempo real, das actas dos actos processuais, sob pena de nulidade dos actos. Deve ser implementado o registo áudio e vídeo das audiências de julgamento, com vista ao respectivo visionamento em sede de recurso, prevendo-se especificamente a possibilidade de utilizar este suporte como meio de justificar a manutenção ou alteração das decisões recorridas. Deve ser revisto o regime da litigância de má-fé, com especial enfoque na vertente do combate às medidas dilatórias e às demandas injustificadas, processo em que a Ordem dos Advogados, enquanto titular exclusiva da acção disciplinar sobre os Advogados, deverá ser especialmente responsável. Devem ser alterados e actualizados critérios de cálculo da procuradoria e o regime das custas de forma a, dentro dos princípios constitucionais da proporcionalidade e igualdade, caminhar para uma tendencial e efectiva responsabilidade da parte vencida pelo ressarcimento de todas as despesas com o processo. Em suma, com estas e com muitas outras medidas, integradas num complexo lógico e estruturado, deve dar-se um passo decisivo para a desritualização dum processo civil pesado e ineficaz, a caminho de uma Justiça moderna, num pressuposto de maior responsabilização das partes e, acima de tudo, dos Advogados.

5 III CONCLUSÕES: 1. Reformar a Justiça exige mudar o paradigma processual civil. 2. Melhorar a qualidade das leis. 3. Promover uma rigorosa uniformização jurisprudencial. 4. Atacar os factores de litigiosidade. 5. Encurtar a fundamentação das decisões. 6. Implementar a oralidade dos procedimentos e das decisões. 7. Limitar a duração e amplitude das diligências. 8. Promover a especialização. 9. Simplificar e concentrar os actos processuais. 10. Reforçar os poderes do juiz na condução do processo. 11. Reforçar o princípio da adequação formal. 12. Generalizar a produção antecipada de prova. 13. Implementar um calendário realista e peremptório para a prática dos actos processuais. 14. Responsabilizar os Advogados pelo saneamento e instrução do processo. 15. Implementar uma forma única de processo, integralmente saneada e instruída pelas partes, apresentada a julgamento com uma produção de prova em audiência meramente residual - e decisão oral após alegações públicas e presenciais junto de um Tribunal Colectivo Cível. 16. Revalorizar a prova pericial. 17. Disponibilizar, em tempo real, as actas das audiências. 18. Registar em suporte áudio e vídeo as audiências e utilizar esses registos em sede de recurso. 19. Rever o regime da litigância de má-fé. 20. Actualizar os critérios de cálculo da procuradoria e o regime das custas com vista a uma efectiva responsabilização da parte vencida pelas despesas com o processo. 21. Responsabilizar os Advogados.

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