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1 Sumário Agradecimentos... 7 Introdução Um menino fora do seu tempo O bom atraso e o vestido rosa O pequeno grande amigo A vingança O fim da dor Mundo injusto A despedida Unidos na amizade Boas recordações O último encontro dos três no pé de jabuticaba Ironia do tempo Palavras não ditas Sem máscaras A conversa Tempo de escuridão A mudança Novos sonhos

2 Tempo de Descoberta 18 - A surpresa A fuga O atraso Vida sem máscaras A viagem A revelação A despedida A escolha O reencontro Final

3 Um menino fora do seu tempo Capítulo 1 O tempo é muito lento para os que esperam, muito rápido para os que têm medo, muito longo para os que lamentam, e muito curto para os que festejam. Mas, para os que amam, o tempo é eternidade. William Shakespeare E ra uma manhã chuvosa e fria, mesmo já sendo primavera no final do ano de 1961, na cidade de Divinópolis, interior de Minas Gerais, a água batia forte na janela de madeira, como se alguém batesse desesperadamente querendo entrar. Ao mesmo tempo, alguns raios de sol apareciam sutilmente no chão passando através da janela, como se estivessem bravamente vencendo a guerra contra a tempestade que não dava tréguas do lado de fora. Era uma janela como tantas outras, nada de especial, mas o barulho da chuva, o silêncio da casa e a solidão da alma fazia com que Maria das Dores, que estando em dores, enxergasse mais do que uma simples janela, mais do que um vidro molhado, era como um espelho refletindo a sua vida como até então tinha sido, em sua grande parte atribulada e com dores, mas com momentos felizes e, no exato momento, com dores, felicidade e medo, muito medo de perder novamente, assim, assentada na cadeira com a mão na barriga, olhando para a janela, lembrava de sua história. Tinha sido uma vida difícil. Maria das Dores teve um pai alcoólatra e a mãe morreu quando tinha apenas 7 anos. Vivia doente às vezes achava que era maldição pelo nome era criada pelo pai, outras épocas, pela avó solitária ou ainda pela tia solteira cheia de gatos, os quais fizeram Maria das Dores pegar aversão por gatos. Nunca foi destaque na escola, pois não era muito inteligente, 13

4 Tempo de Descoberta 14 mas também não era medíocre, não se destacava pela beleza, mas não era feia, tinha 1,67m de altura, cabelos castanhos um pouco abaixo dos ombros e sempre os mantinha presos com um laço. O que ela não gostava muito era dos lábios por os achar grandes, mas gostava particularmente das orelhas, simetricamente perfeitas, porém ficava pensando se alguém iria reparar em suas orelhas. Por ser tímida sempre ficava só, namorando sem namorar, sonhando só um sonho a dois. Na multidão de adolescentes da escola se via apenas como mais uma, mas sabia que não era mais uma, que não existia mais uma, pois cada um tem sua história, seus sentimentos e sua vida. Mesmo ninguém sabendo quem ela era, queria ser alguém, ela era alguém, alguém para ela principalmente, e esse sentimento ambíguo batia forte em sua cabeça: ser ignorada por todos fazendo com que se achasse ninguém ou lutar contra isso e saber que era alguém, alguém especial. Um dia conheceu um vendedor de ilusões, e ela, como todo ser humano, resolveu comprar ilusões, pois era muito mais fácil do que encarar a vida, pelo menos assim pensava, pois sempre existia um se. Foi assim que ela conheceu o seu marido Caio, que parecia ser uma boa pessoa e não bebia, pois pelo trauma que possuía de ter um pai alcoólatra a única coisa que ela pedia a Deus, mesmo não sendo religiosa, era um marido não alcoólatra. Ele foi o brilho de luz na tempestade da vida, um bom homem, 12 anos mais velho do que ela, é verdade, mas um bom homem, religioso, não bebia e não fumava. Ela o conheceu, inclusive, num daqueles momentos da vida onde parece que entramos nos filmes românticos e protagonizamos o principal personagem. Estava Maria das Dores voltando da escola, com seu habitual vestido rosa, que gostava de usar, pois além de ser um dos poucos presentes que havia ganho de seu pai, era herança de sua mãe e, como seu pai gostava de dizer, ela só tinha usado uma vez, quando eles se conheceram no casamento de um amigo em comum. Este vestido a fazia se sentir mais mulher e lhe trazia à memória lembranças de sua mãe, talvez muitas destas lembranças eram apenas fantasias de sua

5 Ca p ít u lo 1 - Um m e n i n o f o r a d o s e u t e m p o cabeça, mas gostava de assim imaginar, era num tom de rosa suave com flores delicadas que vinha até quase o tornozelo, meio antigo para a época, mas ela não ligava, afinal, era a identificação que tinha com a sua mãe. Enfim, ela voltava da escola mais triste e solitária que o normal, pois já estava com 17 anos, nunca tinha namorado ou feito algo extraordinário na vida, estava entrando no último mês de aula do último ano da escola, e por não ter dinheiro para pagar uma faculdade particular e nem ter estudado em uma boa escola para entrar em uma escola estadual, teria que trabalhar em algo que não tinha a menor ideia do que seria e, talvez, passar a vida inteira trabalhando só. Foi nessa tarde, após uma tempestade que havia caído, que Maria das Dores, ao ir atravessar a rua, passou um carro a toda velocidade jogando uma grande quantidade de água sobre ela, e, ao tentar recuar, tropeçou na sarjeta, quebrando a sola do sapato e caindo com o traseiro na poça enlamaçada. No mesmo instante, ela pensou que a vida já lhe tinha dado tanta humilhação que não precisaria passar por outra ainda. Tinha medo de olhar para os lados e ver a quantidade de pessoas que assistiram a cena, quantos amigos da escola, talvez um dos rapazes que ela sempre teve vontade de conversar; talvez o Maurício, que depois de três anos estudando juntos, finalmente naquela semana veio pela primeira vez conversar com ela, deixando-a sem reação; quantas pessoas será que estavam presenciando e rindo da situação? Na lama, era assim que ela se sentia. Talvez aquele fosse o lugar dela, pensou com um ar de autopiedade. A vontade era se enfiar no bueiro à sua frente. Ah, quanta vontade do bueiro estar sem tampa para se atirar lá, no infinito e nunca mais sair. - Maria, tudo bem? Precisa de ajuda? Dê-me a sua mão! Quem será que estava falando? A vontade de Maria era de sumir ainda mais, mas quem era? A voz vinha de um carro que havia parado na sua frente. Mas, quem dos seus muitos amigos tinha carro? Num sinal de coragem resolveu olhar para cima e reconheceu o jovem professor de 29 anos, que há pouco tempo tinha sido contratado 15

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