OS LIMITES DO DESENVOLVIMENTO LOCAL: ESTUDOS SOBRE PEQUENOS MUNICÍPIOS DO INTERIOR DE SÃO PAULO

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1 OS LIMITES DO DESENVOLVIMENTO LOCAL: ESTUDOS SOBRE PEQUENOS MUNICÍPIOS DO INTERIOR DE SÃO PAULO Tayla Nayara Barbosa 1 RESUMO: O presente estudo científico teve como objetivo estudar mais detalhadamente os impactos das décadas de ausência de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento regional. Neste sentido, esse trabalho buscou contribuir com a discussão da dinâmica regional paulista, focando em duas áreas do estado de São Paulo: a Região Administrativa Central e a Região Administrativa de Sorocaba. O que se buscou analisar foi o desenvolvimento recente dessa região, sua dinâmica e suas formas de integração na economia paulista, em especial, nas duas últimas décadas e, em particular, nos municípios de Dourado, Ribeirão Bonito, Buri e Campina do Monte Alegre, notadamente com menor expressão econômica. PALAVRAS-CHAVE: desenvolvimento; municípios; política. INTRODUÇÃO O debate intelectual, nos últimos anos, tem se centrado em torno dos estudos das escalas espaciais, tais como globalização e desenvolvimento local. As políticas públicas, norteadas por esses debates, são baseadas, cada vez mais, em políticas de curto prazo voltadas para o desenvolvimento de escalas cada vez menores tais como a região, o município, o local, etc. Em vista disso, o presente estudo buscou contribuir, de modo crítico, para a discussão sobre o desenvolvimento regional, tendo como parâmetro o estado de São Paulo. Desse modo, foi proposto uma análise socioeconômica de municípios com pouca expressão econômica, visto que este é um passo fundamental para a compreensão das dinâmicas desiguais do desenvolvimento. Sendo assim, instituiu-se como recorte espacial o estudo de duas áreas do estado: a Região Administrativa Central, que é formada por 26 municípios, nucleados por São Carlos e Araraquara; e a Região Administrativa de Sorocaba, que engloba 79 municípios. Dentro deste espaço, os 1 Universidade Federal de São Carlos/UFSCar, Graduanda em Ciências Sociais.

2 municípios de Dourado e Ribeirão Bonito, da região de governo de São Carlos; e os municípios de Buri e Campina do Monte Alegre foram escolhidos pelos seus indicadores econômicos menos expressivos se comparados aos municípios restantes. No que diz respeito ao recorte temporal, o período analisado foi pós-2000, já que a intenção era avaliar os impactos recentes das políticas econômicas e sociais de cunho neoliberal. O principal objetivo do estudo era organizar um conjunto de informações relevantes que possibilitassem a análise dos traços mais gerais do processo de desenvolvimento econômico ocorrido nessas duas regiões do estado de São Paulo no período mais recente. Assim, foram levantados dados importantes sobre a estrutura econômica e social dos municípios selecionados, classificados de acordo com os seguintes temas: demografia, economia, finanças públicas, educação, saúde, assistência social e saneamento básico. A partir desses dados, foi possível observar problemas sociais importantes para nortear as políticas públicas nas esferas municipal, estadual e até federal. Foi feito também uma análise histórica do processo de formação e desenvolvimento territorial da Região Central e da Região Administrativa de Sorocaba, que destacou as mudanças estruturais dos setores econômicos, como, por exemplo, o aumento da importância do setor terciário nos últimos anos. Em síntese, foram elaborados quatro diagnósticos socioeconômicos dos municípios de Dourado, Ribeirão Bonito, Buri e Campina do Monte Alegre visando a socialização das informações coletadas e dos resultados obtidos. METODOLOGIA A metodologia utilizada no presente estudo consistiu em três caminhos principais. O primeiro foi uma revisão bibliográfica da literatura nacional e regional sobre desenvolvimento, conforme apontado nas referências bibliográficas. O segundo procedimento metodológico empregado, foi a pesquisa e a análise dos dados secundários das economias municipais selecionadas, oriundas de instituições públicas e

3 privadas, nacionais e estaduais, como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e a Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (SEADE). O terceiro caminho foi a pesquisa de campo, que priorizou o levantamento de informações primárias obtidas in loco por meio de entrevistas e diretamente nas instituições municipais, como a prefeitura. Por fim, o presente estudo situa-se em um contexto de valorização das análises territoriais sobre o desenvolvimento na escala regional, tomando como base os casos empíricos dos municípios selecionados. Porém, mais que um estudo acadêmico, os resultados apresentados podem auxiliar no direcionamento de políticas públicas que diminuam as desigualdades regionais. DIAGNÓSTICOS SOCIOECONÔMICOS Devido às limitações deste artigo, entre as nove variáveis avaliadas (demografia, economia, mercado de trabalho, finanças públicas, educação, saúde, assistência e desenvolvimento social, saneamento básico e meio ambiente), serão apresentados os dados relacionados a apenas uma dimensão estudada nos municípios: a economia. Conhecer as características gerais das atividades econômicas e mais específicas de alguns setores é essencial para um diagnóstico. As principais variáveis macroeconômicas a serem vistas para uma avaliação econômica são o Produto Interno Bruto (PIB) do município e a participação dos setores econômicos no valor agregado ou adicionado nas atividades locais. Observada a evolução destes números podemos saber quais setores ou ramos da economia são mais dinâmicos. A presente análise do mercado de trabalho dos municípios tem como base os dados disponíveis na Fundação SEADE e no Atlas de Desenvolvimento Humano, bases estas que disponibilizam informações sobre emprego formal, população economicamente ativa, distribuição do emprego formal por setores de atividade

4 econômica e do rendimento médio real do emprego formal por setores de atividade econômica. O PIB estadual, regional e municipal sofreram crescimento nos últimos dez anos, apesar dos números da região de Itapeva e do município de Buri estarem muito distantes do total do estado. A participação da região de governo de Itapeva e do município de Buri no PIB do estado de São Paulo é muito pequena. Em 2010, por exemplo, apenas 0,33% do PIB do estado pertencia à região de Itapeva, sendo que este número para Buri era de 0,02%. Na composição do Valor Adicionado que é o valor que a atividade econômica agrega aos bens e serviços consumidos no seu processo produtivo demonstra que, para Buri, a participação setorial possui grande participação dos setores de comércio e serviços e da agropecuária, quando comparada com a do estado de São Paulo e a do Brasil. O valor adicionado é uma variável muito relevante para saber a estrutura econômica assim como sua evolução, pois permite que se veja o valor gerado por um agente ou setor econômico específico. A indústria sofreu oscilações no período, contudo, manteve-se na faixa dos 8% ao final da série. O ganho mais expressivo foi o da agropecuária que metodologicamente inclui a pecuária, agricultura, pesca e silvicultura e exploração florestal. Para efeitos de comparação, o estado de São Paulo, o setor que apresentou maior valor adicionado nos últimos dez anos foi o de serviços, seguido pela indústria, a administração pública e a agropecuária. Para se ter uma ideia da magnitude dos percentuais apresentados, em termos absolutos, Buri apresentou, em 2010, R$ 111,29 milhões para agricultura e pecuária e outras atividades do setor primário, R$ 23,91 milhões para a indústria como um todo e R$ 145,9 milhões para o setor de serviços, incluída ai a administração pública, que sozinha apresentou R$ 42,62 milhões. No caso, da Região de Governo na qual Campina do Monte Alegre está inserida, é notória, a sua baixa participação na dinâmica econômica mais geral do estado, tendo participação inferior a 1% no total do PIB estadual. A economia de Campina do Monte Alegre, em termos estaduais, apresenta participação igual a 0,01% do PIB, o que, para

5 2010, foi igual a R$ 91,4 milhões. A composição do Valor Adicionado, demonstra que, para Campina do Monte Alegre, a participação setorial foi marcada pela concentração no setor de comércio e serviços, sendo que o restante se dividia entre a indústria e a agropecuária. Esta última, por sua vez, ultrapassou o setor industrial nos últimos anos e diminuiu a predominância do setor de comércio e serviços. Por outro lado, é visível a baixa participação de Dourado na dinâmica econômica de sua RG e do estado de São Paulo, tendo participação inferior a 1% no total do PIB estadual. Em termos exatos, a economia do município, em relação ao estado, apresentou participação igual a 0,01% do PIB em A composição do Valor Adicionado, demonstra que, para Dourado, o setor de comércio e serviços destaca-se na participação setorial, quando comparada com a RG e o estado. No estado de São Paulo e na região de governo de São Carlos, observa-se que o valor adicionado dos quatro setores aumentou nos últimos dez anos, sendo que a indústria lidera esse quadro de avanços. No município de Dourado, também verificou-se o aumento do valor adicionado nos setores da atividade econômica, mas é o setor de serviços que predomina desde Neste ano, o ranking ficou o seguinte: o setor de serviços (1º) no município apresentou valor adicionado, seguido pela administração pública (2º), a agropecuária (3º), e por último a indústria (4º). Para se ter uma ideia da magnitude dos percentuais, em termos absolutos, no município de Dourado, especificamente, o setor de serviços evoluiu de 21,17 milhões de reais, em 1999, para 77,05 milhões de reais, em Em segundo lugar, aparece a indústria, com 24,44 milhões de reais em Logo em seguida está a administração pública com 19,99 milhões de reais e a agropecuária com 15,30 milhões de reais no mesmo ano.

6 Assim como Dourado, Ribeirão Bonito também possui baixa participação na dinâmica econômica de sua RG e na mais geral do estado, tendo participação inferior a 1% no total do PIB estadual. Em termos exatos, a economia do município, em relação ao estado, apresentou participação igual a 0,0014% do PIB em No que se refere ao seu valor adicionado, a participação setorial é bastante equilibrada, quando comparada com a RG e o estado. No município de Ribeirão Bonito, também verificou-se o aumento do valor adicionado nos setores da atividade econômica, mas é o setor de serviços que predomina desde Neste ano, o setor de serviços no município apresentou valor adicionado de 31,91 milhões de reais correntes, seguido pela administração pública (10,73 milhões de reais correntes), pela agropecuária (7,8 milhões de reais correntes) e a indústria, ficou em quarto lugar, com 5,76 milhões de reais correntes. Em 2010, o setor de serviços figurava em primeiro lugar com valor adicionado de 81,53 milhões de reais correntes, seguido pela agropecuária que chegou a 44,75 milhões de reais, pela indústria que aumentou seu valor adicionado para 14,08 milhões de reais correntes e a administração pública caiu para quarto lugar, com 27,02 milhões de reais correntes. CONSIDERAÇÕES FINAIS A partir da análise dos dados dos municípios de Dourado, Ribeirão Bonito, Buri e Campina do Monte Alegre conclui-se que a dinâmica do desenvolvimento não se dá de maneira uniforme. Municípios pequenos e com menos expressão econômica, mesmo situados em uma região de governo com índices econômicos considerados expressivos, não são beneficiados por efeitos de transbordamento per se. As desigualdades das estruturas socioeconômicas são patentes e notórias, haja vista a distância entre os municípios investigados quando comparados com grandes municípios como São Carlos ou Araraquara. Neste sentido, cabe acrescentar que os municípios com maior dinâmica econômica e maior peso demográfico acabam concentrando maior atenção das políticas públicas, maiores recursos e acabam, também drenando a renda gerada nos demais municípios por conta de seu comércio mais diversificado.

7 Desse modo, os resultados do presente estudo fornecem dados, informações e importantes instrumentos analíticos, que possibilitam a identificação das necessidades e das potencialidades do desenvolvimento socioeconômico das regiões estudadas. De maneira geral, a análise das configurações sociais e econômicas desses municípios demonstra que suas economias são baseadas no chamado setor terciário, isto é, comércio e serviços, entretanto, em que pese o peso e a importância local, não incapazes de competir com o setor terciário dos municípios considerados polos regionais. Outro fator que chama a atenção é a importância da agricultura, que muitas vezes acaba sendo subestimado nos dados secundários por conta do baixo valor adicionado que ela gera. Com baixa densidade demográfica e renda per capita, os municípios analisados seguem a tendência nacional e estadual de envelhecimento populacional. Este fenômeno, somado aos baixos índices de educação e de saúde municipais, deve ser uma das prioridades para o planejamento das prefeituras de Dourado, Ribeirão Bonito, Buri e de Campina do Monte Alegre. Contudo, a observação das finanças públicas desses municípios demonstra a situação de déficit das contas governamentais, o que dificulta a implementação de programas que lidem com os segmentos mais vulneráveis da sociedade. Fica patente que os dois municípios analisados, diante da dificuldade de geração de receita própria, acabam por ter, nas transferências de receitas (do estado e da União) a principal sustentação da administração pública, o que, impele a necessidade premente de buscar mecanismos de aumento de receita própria, sem com isso, onerar mais o contribuinte do município. Diante do exposto, o presente estudo apresentou os desdobramentos do desenvolvimento no nível local em pequenos municípios em duas regiões de governo de destaque e se propôs a avançar na temática, focando áreas notoriamente pobres do estado de São Paulo, notadamente na sua porção sudoeste. Em outras palavras, tentou aprofundar o debate sobre os limites e as escalas do poder local.

8 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Assembleia Legislativa O Estado dos municípios : IPRS Índice Paulista de Responsabilidade Social. São Paulo, Assembleia Legislativa. Brasil. Ministério do Desenvolvimento Agrário. Secretaria de desenvolvimento Territorial. Referências para uma estratégia de desenvolvimento rural sustentável no Brasil. Brasília, DF, (Série Documentos Institucionais SDT, n. 1) Cano, W. 1998a. Raízes da Concentração Industrial em São Paulo. São Paulo, T. A. Queiroz. Republicado pela editora do Instituto de Economia da Unicamp. (30 anos de Economia Unicamp, 1) b. Desequilíbrios Regionais e Concentração Industrial no Brasil ( ; ). 2 ed. Campinas: Unicamp/Instituto de Economia, Campinas.. (Coord.) A interiorização do desenvolvimento econômico no estado de São Paulo ( ). São Paulo: Fundação Seade, 3v.. (Coord.) São Paulo no limiar do século XXI. Cenários e diagnósticos: a economia no Brasil e no mundo. Fundação Seade, 8v. São Paulo, SP Soberania e Política na América Latina. Editora Unesp: São Paulo. Carneiro, R Desenvolvimento em crise: a economia brasileira no último quarto do século XX. Editora Unesp: São Paulo. Carvalho, J. G Questão agrária e assentamentos rurais no estado de São Paulo: o caso da Região Administrativa de Ribeirão Preto. Tese de doutorado. IE/Unicamp. Carvalho, J. G Dimensões regionais e urbanas do desenvolvimento socioeconômico em São José do Rio Preto. Ed. Microlins, São José do Rio Preto. Carvalho, J. G Integração e dinâmica regional: o desenvolvimento recente da Região Administrativa de São José do Rio Preto ( ). Instituto de Economia/Unicamp, Campinas. (Dissertação de mestrado). Cepêda, Vera Inclusão, democracia e novo desenvolvimentismo um balanço histórico. Estudos Avançados. São Paulo, v.26. n.75. Cunha, J. M. P. e Baeninger R A Migração nos Estados Brasileiros no período recente: principais tendências e mudanças. IN: Hogan, D.J.; Cunha, J.M.P.; Baeninger,

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