IV Encontro Anual da ANDHEP. 08 a 10 de outubro de 2008, Vitória (ES) Grupo de Trabalho: Cultura e Educação em Direitos Humanos

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1 IV Encontro Anual da ANDHEP 08 a 10 de outubro de 2008, Vitória (ES) Grupo de Trabalho: Cultura e Educação em Direitos Humanos

2 Os direitos humanos e a formação dos profissionais de educação Ana Paula Tatagiba Universidade Federal do Rio de Janeiro Resumo: O estudo em curso propõe a articulação da Educação Infantil com os Direitos Humanos em dois eixos: a formação profissional como fator de garantia de direitos e o trabalho masculino na creche. Intenta-se dimensionar a influência da política brasileira de DH na política municipal de educação, analisando as determinações socioculturais de classe e gênero. Com base na análise de discurso, além dos dados trazidos pelas entrevistas, fazse acompanhamento de site de relacionamento. Os relatos evidenciam as demandas de trabalho: Todos os dias assistimos a diversos casos de abusos contra crianças. Já imaginou chegar na creche de manhã (...) e descobrir que um "barbado" (...) vai dar banho na sua filhinha? Lá na minha creche não tem homem e as mulheres não podem nem ouvir falar em homem trabalhando lá. Até a diretora (...) diz que quase tem um treco de pensar que poderia entrar homem lá. 1. Introdução O debate sobre a infância de 0 a 6 anos, intensificado a partir de 1980, possibilitou a inclusão das creches e pré-escolas no elenco de reivindicações contempladas no texto constitucional vigente. Em 1996, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional LDB - regulamentou a questão, instituindo a Educação Infantil. Uma das repercussões dessa lei no sistema de ensino da cidade do Rio de Janeiro ocorreu em 2001: a transferência das creches situadas em diferentes comunidades antes vinculadas à Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social SMDS 1 para a Secretaria Municipal de Educação SME. No início de 2008, além das 1058 escolas municipais, 245 creches públicas compunham o sistema municipal de ensino carioca, atendendo crianças de 4 a 6 anos de idade e bebês e crianças. 2 No que se refere aos profissionais responsáveis por este atendimento, o ano corrente marca um momento de transição: é realizado o primeiro concurso para o acesso ao cargo de Agente Auxiliar de Creche no Quadro de Pessoal de Apoio à Educação - passo importante para a estruturação das creches. Esclarece-se que o pontapé inicial 1 Desde 06 de maio de 2004, esta Secretaria passou a denominar-se Secretaria Municipal de Assistência Social SMAS -. Optou-se pela utilização da nomenclatura anterior para manter fidelidade à forma utilizada no período a qual faz-se referência. 2 Dados pesquisados em em 13 de fevereiro de 2008.

3 desse processo foi a lotação de professores efetivos da SME para os cargos de Diretor(a) e Professor(a) Articulador(a) da creche. Segundo a Lei 3985/2005, o acesso ao cargo de Agente auxiliar de Creche dar-seá através de concurso público de provas e títulos, podendo a seleção ocorrer de forma regionalizada, por CRE. 3 Com salário inicial de R$ 461,34, 4 o agente auxiliar de creche será um profissional com nível fundamental completo e trabalhará durante 40 horas semanais para realizar, entre outras, as seguintes tarefas: - participar em conjunto com o educador do planejamento, execução e da avaliação das atividades propostas às crianças; - participar da execução das rotinas diárias, de acordo com a orientação técnica do educador; - receber e acatar criteriosamente a orientação e as recomendações do educador no trato e atendimento à clientela; - disponibilizar e preparar os materiais pedagógicos [...] - responsabilizar-se pela alimentação direta das crianças; - cuidar da higiene e do asseio das crianças... A ausência de esclarecimento sobre quem é o educador que, por repetidas vezes, é posto como referência para o agente auxiliar de creche chama a atenção. Assim, evidencia-se que a separação entre o que é visto como pedagógico e o que não é conduziu a elaboração do documento. Desta forma, a disposição da LDB de que "a formação mínima para o exercício do magistério na educação infantil [...] [é] a oferecida em nível médio, na modalidade Normal" (BRASIL, 1996, art. 62) é escamoteada com a divisão de tarefas: o agente auxiliar de creches que cursou, obrigatoriamente, até o Ensino Fundamental não está exercendo o Magistério, ele é só um Apoio. Quem exercerá o magistério, sem se envolver com atividades que não remeta ao pedagógico no sentido mais latu do termo -, será o docente que, um dia, chegará nas creches públicas cariocas. Para a pesquisadora Carmem Maria Craidy, a questão da existência de profissionais que trabalham auxiliando ao professor nas turmas de educação infantil deve ser vista com bastante cuidado: 3 O referido concurso foi concluído e os primeiros profissionais aprovados começaram a tomar posse em março do ano corrente. Foram oferecidas 1600 vagas, sendo 81 para pessoas portadoras de necessidades especiais. Cento e dez mil e oito profissionais participaram do processo seletivo (PREFEITURA DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO, 2008). 4 Com acréscimo de auxílio-transporte, esse valor passa a R$ 671,10 (RIO DE JANEIRO, 2007).

4 Outro desafio presente entre os educadores na educação infantil é a persistência da figura do monitor, ou professor auxiliar, ou pagem, crecheira, etc. Essa figura aparece como forma de burlar a exigência mínima de formação, não porque essa não seja desejada ou possível, mas porque o profissional que a possui custa mais caro. (...) A figura do auxiliar sem a devida formação é a consagração da velha dicotomia, já tão denunciada e repudiada, da separação entre o cuidar e o educar. (CRAIDY, 2008). Além da questão da formação profissional, a produção dos Fóruns de Educação Infantil reunidos no Movimento Interfóruns de Educação Infantil do Brasil MIEIB -, expressa outras preocupações em relação a esse segmento educacional. Para os profissionais reunidos no MIEIB, necessita-se unir forças em torno do fortalecimento da educação da crianças de 0 a 6 anos (2002, p. 10), baseando-se nos seguintes princípios norteadores: - o reconhecimento do direito constitucional das crianças de 0 a 6 anos (independentemente de raça, idade, gênero, etnia, credo, origem sócioeconômica-cultural, etc.) ao atendimento em instituições públicas, gratuitas e de qualidade. - a indissociabilidade cuidar/educar, visando (...) o pleno desenvolvimento da criança... - a implementação de políticas públicas que objetivassem a expansão e a melhoria da qualidade do atendimento... - a identificação da Educação Infantil, enquanto campo intersetorial, interdisciplinar, multidimensional e em permanente evolução. (MIEIB, 2002, p. 11). Embora o MIEIB tenha, nos princípios norteadores de suas ações supra citados, assumido o gênero como algo a ser considerado como fator de inclusão de todas as crianças no atendimento efetivado pelo poder público, os debates no campo da educação infantil e das políticas educacionais de forma geral, desenvolvidos tanto no campo acadêmico como político, têm negligenciado essa categoria como referência analítica. Maria Malta Campos (2006, p. 99) também analisa que há escassez de estudos, no campo da educação infantil, que considerem as determinações socioculturais como classe e gênero em suas análises. Tal fato, além de referir-se a trabalhos que focalizam as crianças atendidas, é extensivo àqueles que se ocupam dos profissionais de educação que atuam no segmento. Corroborando a análise de existência dessa lacuna, o Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos PNEDH -, lançado em dezembro de 2003, apresenta duas exigências fundamentais para a educação básica ao afirmar que esta deve favorecer desde a infância a formação de sujeitos de direito e priorizar pessoas e grupos excluídos, marginalizados e discriminados pela sociedade. (BRASIL, 2003, p. 16).

5 Infantil: Assim, constituem-se, entre outras, as seguintes linhas de ação para a Educação 2 - Estimular experiências de interação da escola com a comunidade que contribuam na formação da cidadania democrática. [...] 6 - Universalizar a educação infantil para crianças de 4 a 6 anos e ampliar esse atendimento para crianças de 0 a 3 anos. 7 Desenvolver projeto culturais e educativos de luta contra a discriminação racial, de gênero e outras formas de intolerância. [...] 15 Implantar condições de trabalho e formação adequadas ao profissional da educação infantil. (BRASIL, 2003, p. 18;19). 2. Mulheres e creches: educando a infância Segundo Maria Vittoria Civiletti (1991, p. 37; 38) a preocupação com as crianças, filhas das mulheres inseridas na esfera produtiva, remete-se ao final do século XIX, corroborando que a creche começou a ser pensada como uma instituição feita somente para as mulheres que precisavam trabalhar e não tinham condições de dedicar-se, em tempo integral, aos cuidados com a prole no ambiente doméstico. A pesquisadora pontua que o ideal de mulher-mãe, totalmente disponível para responsabilizar-se pelos cuidados com o lar e com a família, era característico das classes mais favorecidas, numa época em que às mulheres a sociedade fechava as possibilidades de estudo e trabalho (CIVILETTI, 1991, p. 38). A atuação profissional extra-domiciliar da mulher passava a ser uma espécie de atestado de pobreza, pois às mulheres das classes abastadas, destinava-se a maternidade. Às pobres, o trabalho. (CIVILETTI, 1991, p. 38). Kuhlmann Jr. (2001, p. 188) ressalta que o significado implícito atribuído à mãe que procurasse a creche, e mesmo a pré-escola, seria a sua suposta incapacidade de cumprir com o dever natural, biológico, da maternidade. A mãe seria culpada por trabalhar e a instituição seria um paliativo para remediar a vida da criança. Desta forma, as observações de Nunes (2000, p. 97) são bastante pertinentes: a autora analisa que, com um atendimento atrelado à participação feminina na esfera produtiva, "as crianças de 0 a 6, por serem menores e naturalmente mais dependentes, se tornam visíveis através, sobretudo, de suas mães". Na avaliação de Fúlvia Rosemberg (1984, p. 75) foi a vinculação das políticas de creche aos programas de promoção social - uma das vertentes assumidas pela assistência - e ao trabalho materno, que determinou a mistificação da creche enquanto instituição: encarada sempre como substituta da mãe que trabalhava fora, a creche amargou o não reconhecimento social e a desvalorização do pessoal que nela atua, além

6 de consolidar uma má fama, pois a freqüência ao seu espaço não é uma experiência vivida por todas as crianças. Por tudo isso, a creche aparece sempre como um mal menor e não como um local específico tendo um valor próprio. (ROSEMBERG, 1984, p. 74). 3. Apontamentos de pesquisa A pesquisa em tela, cujo objeto de estudo é a inserção masculina nas instituições de educação infantil cariocas, ainda em fase inicial, é de natureza qualitativa e desenvolve-se através de pesquisas bibliográfica e documental, tendo como principal fonte de coleta de dados o acompanhamento de uma comunidade no site de relacionamentos Orkut 5. Para análise dos dados coletados optou-se pela análise do discurso, apoiando-se no arcabouço teórico desenvolvido por Bakhtin, entre outros autores. Bakhtin trouxe contribuições relevantes para os debates no campo da linguagem ao abordar a dialética do signo, concebendo-o como efeito das estruturas sociais. Signos estes que caracterizam-se por serem dialéticos, dinâmicos e plurivalentes, embora segmentos sociais hegemônicos tenham interesse em mostrar uma falsa monovalência (BAKHTIN, 1988, p. 15). Todo signo, assim, é ideológico, servindo para exprimir a ideologia sendo, portanto, modelados por ela (BAKHTIN,1988, p. 31). A palavra, neste contexto, é o modo mais puro e sensível de relação social, (...) é o signo ideológico por excelência, já que ela registra as menores variações das relações sociais (BAKHTIN, 1988, p. 36); ou, ainda como afirma Bakthin, (...) a palavra é uma arena onde se confrontam os valores sociais contraditórios; os conflitos da língua refletem os conflitos de classe no interior mesmo do sistema... (BAKHTIN, 1988, p. 14). O autor pontua que, a língua é um fato social, fundada na necessidade de comunicação, sendo a expressão das relações e lutas sociais, veiculando e sofrendo o efeito desta luta, servindo, ao mesmo tempo, de instrumento e de material (BAKHTIN, 1988, p. 31); valorizando, assim, a fala, a enunciação. No campo dos estudos de gênero, Guacira Lopes Louro critica o esquema binário rígido que serve de base às práticas sociais, incluindo-se a prática educativa desenvolvida nas escolas e similares que compõem os sistemas formais de ensino, que 5 Apesar de ter se originado nos EUA e, inicialmente, utilizar o inglês como idioma oficial, o orkut.com é o site mais acessado do Brasil, onde tem mais de 20 milhões de usuários (NÓBREGA, 2007).

7 reproduzem relações que contrapõem e dicotomizam os universos masculino e feminino, a partir de uma matriz heterossexual, sem que sejam problematizadas diferenças existentes no âmbito de cada gênero, além das variáveis de geração, etnia e classe social. (Louro, 1997, p ). A autora também destaca a linguagem como uma das mais eficazes e persistentes instâncias de estabelecimento das desigualdades, instituindo, através de uma pseudonaturalidade, relações, poderes e lugares sociais. (Louro, 1997, p. 65). Considerando a importância do reconhecimento da escola como um lócus de produção das concepções de gênero presentes na sociedade, Louro enfatiza que é impossível pensar sobre a instituição sem que se lance mão das reflexões sobre as construções sociais e culturais de masculino e feminino. (Louro, 1997, p. 89). Hoje, quando uma das discussões mais significativas no âmbito educacional remete a novas formas de cuidado e educação das crianças em espaços diferentes ao da família, subsidiados pelo poder público, é pertinente pensar sobre a reconfiguração dos espaços público e privado, ampliando-se o debate sobre os processos de conformação das funções socialmente atribuídas a homens e mulheres e do relacionamento destes entre si, bem como das lutas para que este se reconfigurem embates estes acirrados a partir do século XIX e que se estendem até à atualidade. Neste sentido, a lotação de agentes auxiliares de creche do sexo masculino nas creches cariocas têm suscitado polêmica e demandado preocupação dos gestores públicos a fim de lidar com o estranhamento explicitado pelas famílias e por organizações da comunidade que, ainda reclamam algum poder nas questões dessas instituições que, muitas vezes, ajudaram a organizar A análise dos relatos Conecte-se... Conheça... Compartilhe... O convite, feito através do site de relacionamentos Orkut (assim nomeado por causa de seu criador, o engenheiro de software da Google, Orkut Buyukokkten) desde janeiro de 2004, têm permitido que, além da elaboração de perfis individuais - nos quais o interessado cadastra seus dados gerais e/ou preferências e se habilita a interagir com os demais membros cadastrados em todo o mundo -, as pessoas agrupem-se em comunidades a partir de um interesse comum. O Orkut é um software que permite a pesquisa de comunidades por palavraschave, tendo como referência de busca o nome das mesmas.

8 Em recente busca no site foram localizadas 215 comunidades sobre Educação Infantil, 996 sobre creche e 5 sobre auxiliar de creche. 6 A comunidade dos auxiliares de creche que tem mais membros reúne 1309 profissionais e interessados no assunto; no entanto, na definição de seus criadores, a Comunidade [é] destinada às pessoas que se classificaram ou estão aguardando vaga no concurso público de Agente auxiliar de Creche SME RJ. Criada em abril de 2008, em verdade, é um desdobramento de uma comunidade que já existia anteriormente (formada ainda durante a fase de preparação para a realização do referido concurso público) e foi excluída do Orkut por problemas de acesso (motivado pela ação de hackers que conseguiram tornar a comunidade inoperante utilizando-se de vírus). Pesquisando o fórum existente na comunidade nos três primeiros meses de uso (de 29 de abril data da primeira postagem - até o dia 31 de julho), dois tópicos chamam a atenção dos interessados nas questões de gênero que perpassam o cotidiano das instituições de educação da criança de 0 a 6 anos: para os homens q já estão trabalhando nas creches! e em relação aos homens (sic). Já de início, a majoritariedade feminina, característica da carreira do Magistério, é comentada: A= Poxa, na minha creche tem 5 homens, tirando um q ja ta de licença, o resto tá se saindo muito bem, inclusive um rapaz fica sozinho de 15 as B= Na minha creche só tem eu de homem, + as meninas estão me passando o serviço muito bem!!! são bem pacientes. o trabalho é bem cansativo na parte da manhã até eles dormirem às 11 horas depois é + tranquilo, + é muito gratificante trabalhar com crianças são tão carinhosas e carentes. tenho um coração muito mole, ainda ñ sei ser firme com elas e elas abusam um pouco + nada de anormal rsrsrs. ainda tenho q aprender muito e vou fazer de tudo pra me aperfeiçoar... C= Na minha também sou o único, seria legal se tivesse mais. A natureza das tarefas desenvolvidas pelos homens é posta em xeque, como os relatos evidenciam: 6 Acesso feito em 03 de outubro de Diálogo 1: Z (SM - Sexo masculino)= galera vcs tao limpando [...] bebe ou tao fazendo mais serviços de recreação? X= Nós homens não damos banho nem limpamos criança por enquanto. V (SF - Sexo feminino) = aí é mole, né...rssss Z= ainda bem, tomara q nunca.essa parada e sinistra. quero fk com o serviço mais de recreação essa coisas T= As minha amigas auxiliares ficaram preocupadas com minha roquidão e cansaço desses dias. Fazer a parte recreativa,tb tem muito trabalho,além tb termos os cuidados com as crianças fora o banho.

9 V = vcs ficam com a parte recreativa e nós com o banho e higiene? é assim? Diálogo 2: A=Lá na minha creche os homens não trocam fraldas, não dão banho, e eu estou achando uma injustiça com as mulheres, já que somos todos agente auxiliar de creche. B= Na minha creche eu trabalho no banho indiretamente:fico com as crianças que ñ estão no banho,separo as roupas,ajudo a vestir as crianças,etc... Só ñ dou o banho diretamente,ou seja,ñ passo o sabonete,pra evitar preconceitos futuros,e acho muito inteligente da parte de minha diretora. Calma,estamos chegando aos poucos,tb tem a adaptação dos homens nas creches. C (perguntando a A)= Quantos homens trabalham em sua creche?pois vc colocou no plural,eu acho isso tão raro,na minha creche só existe eu. B (Comentários sobre o relato de C)=Na verdade pra ser justo,como auxiliar de creche sou o único,mas tem um companheiro de trabalho,por sinal bem legal,que trabalha nos serviços de limpeza da creche, inclusive ele trabalha muito bem,pois minha creche é super limpinha. A (respondendo à B)= Lá na minha creche são 05 auxiliares homens, e um rapaz na limpeza que tb trabalha muito, pra vc ter uma ideia eles chegaram no começo do mês e agora é que estão jogando as fraldas que nós estamos trocando na lixeira, eu reclamo um pouco mas no fundo eu gosto deles... S = até agora só recreação!!! o banho fica a cargo das meninas. eu só seco e ajudo a botar as roupinhas... Y = Eu tb não troco mais fralda nem dou banho, no máximo troco fralda dos meninos. Foi um pedido da diretora pra evitar algum comentário maldoso, mas no começo eu fazia de tudo sem grilos e nunca ninguem falou nada. Pelo já exposto em relação à vinculação da educação da infância à figura feminina, as características historicamente assumidas pelo quadro de pessoal que atua nas instituições de educação infantil demonstram o quanto este atendimento não foi pensado, desde o início, numa perspectiva profissional : as primeiras experiências eram similares à organização doméstica era como se uma mãe, pudesse ser responsável pela criação de muitas crianças cujas mães estivessem ausentes. Desta forma, duas ou três pessoas do sexo feminino cuidavam de x crianças, em locais improvisados, devendo zelar pela limpeza do local, preparar a alimentação, atender às variadas demandas surgidas (como atendimento ao público interessado no serviço), além do atendimento efetivo às crianças atendidas. Nesse contexto, tal atendimento era considerado como um favor àquelas mulheres que necessitavam trabalhar e não podiam, assim, exercer a maternidade em sua plenitude, dedicando-se integralmente à educação e cuidado de seus filhos.

10 Desta forma, ainda que a creche se abra à presença masculina, ao longo do tempo o trabalho dos homens esteve vinculado a tarefas tidas como viris : como auxiliares de serviços gerais cuidavam da parte elétrica e hidráulica, além da segurança da creche. O concurso público com ampla concorrência, exigindo apenas a conclusão do Ensino Fundamental, possibilitou o ingresso de homens para o trabalho diretamente desenvolvido com as crianças. E nesse ponto, os aspectos culturais fazem-se presente e, conseqüentemente, grassa o preconceito e a desinformação para que seja mantida a mesma divisão de tarefas que relega às mulheres todos os cuidados necessários à manutenção e à reprodução da vida. Oliveira fornece elementos importantes à reflexão dessa temática ao avaliar que a luta pela igualdade, empreendida pelas mulheres, transformou-se numa armadilha, num grande equívoco, pois estas não atentaram para a necessidade de exigir uma contrapartida dos homens, quando passaram a assumir espaços fora do âmbito doméstico. Desta forma, as mulheres passaram a fronteira do mundo dos homens escamoteando o lado feminino da vida. Enfrentaram a concorrência no espaço público carregando consigo, escondidas, as raízes no espaço privado. (OLIVEIRA, 1990, p. 60). Sempre desconectados da função cuidadora, sobre os homens que aproximamse destas funções, recai a desconfiança: H (SF) = Sinceramente, não deveria haver diferença alguma, sabemos que cuidar da parte da higiêne estava previsto no edital, acho injusto separar as funções de homens e mulheres, quem fez este concurso sabia que a função incluia a parte desta situação, poderia até ser revessado, mas não direto somente com uma função tipo homens não dão banho e só são recreadores e vice versa, as diretoras devem tomar atitudes a respeito, a mãe que não quizer que um homem, que embora concursado, cuide da higiêne do seu filho, que ponha seu filho em alguma creche que não haja homens, mas se os filhos estão lá tem que aceitar as regras, os direitos e deveres deste cargo não é diferente para ambos os sexos, todos tem que dividir as tarefas para que ninguém se sinta sobrecarregado, neste cargo, homens e mulheres são iguais. X (SM)= (...) não é tão simples assim. A maioria das creches ficam em comunidades onde as pessoas não tem a cabeça tão aberta quanta a nossa. Todos os dias assistimos a diversos casos de abusos contra crianças. Já imaginou chegar na creche de manhã com a sua princesinha de 2 meses e descobrir que um "barbado", "desconhecido" vai dar banho na sua filhinha? Vai mudar, mas tem que ser devagar. Q = o banho ñ é só passar sabão,eu ajudo separando e entregando as roupas,vestindo,isso ñ é cuidados de higiene?eu,apesar de fazer muito bem a parte recreativa e por isso até deixam mais pra mim,tb cuido sim das crianças,ñ existe distinção ñ,vamos ser claros;os homens ñ passam o sabonete nas crianças,vcs já sabem o porquê. [...]e aí eu acho certo sim as direções de bom senso,evitarem futuros problemas.

11 N = na minha opinião, poderia-se dividir o banho assim: OS HOMES dariam BANHO nos MENINOS AS MULHERES dariam banho nas MENINAS. ACREDITO QUE NÃO DARIA PROBLEMA ALGUM! Segundo Jardim e Abramowicz, a educação escolar é uma síntese de determinadas práticas de fabricação de indivíduos, de discursos, de formação, de valorização e representação e de formas de subjetivação de homens e mulheres, possibilitando o desenvolvimento de ações que contribuam para a desmistificação do que seriam os fazeres próprios de cada um (2005, p. 97). Ainda que sejam raros, já relatos de instituições que encaram a proximidade masculina com as tarefas de higiene ligadas ao corpo com menos reserva: F = Na minha creche os tios que tem lá, que são 2 dão banho e fazem tudo igual a nós, pois a nossa amada diretora deu uma reunião aos pais e avisou que o trabalho seria igual aos da gente, pois senão ficariamos sobre carregada e os pais não só aceitaram e ainda apoiaram os tios que lá estão. M = Na creche em que eu estou não tive nenhum problema em relação a isso, estou auxiliando as meninas na hora do banho das crianças, troco frandinha e me relaciono muito bem com os pais (responsavel) das crianças. Por incrivel que pareça nenhum responsavel se queixou ou se quer fez qualquer comentário pelo fato de ter um homem trabalhando na creche. De acordo com os relatos, por vezes, a presença masculina é rechaçada pelas demais profissionais que atendem às crianças, pois demandariam novos posicionamentos institucionais e a realização de um trabalho, muitas vezes inexistente, com toda a comunidade escolar. Encarar esta necessidade ainda é um desafio para os gestores. Por isso, Beatriz Teixeira (2005, p. 149) ressalta que é fundamental o envolvimento de todos no processo educacional e da convivência em estruturas democráticas de decisão, orientadas por regras democráticas para seu funcionamento e valendo-se da informação socialmente disponível para dirimir as confusões que pode ser a base dos preconceitos. Eleni Varikas, ao retomar a afirmação o pessoal é político, propalado pelo movimento feminista francês no século XIX, lembra que: Esta afirmação insistia [...] sobre o caráter estrutural da dominação expresso nas relações da vida cotidiana, dominação cujo caráter sistemático tinha sido precisamente obscurecido, como se fosse o produto de situações pessoais. Não se tratava de escolher entre mudar as mentalidades e mudar as instituições, pois esta escolha implica numa concepção de privado e do público que as feministas denunciavam precisamente como uma mistificação. Tratava-se sobretudo de mostrar que a dominação era ao mesmo tempo oculta e assegurada

12 através de poderosas instituições como a família, a heterossexualidade institucionalizada, a divisão e a estrutura sexuada do trabalho e do emprego. (1996, p. 66). Os relatos a seguir são exemplares, nesse sentido: R= Poxa,na minha creche entraram 13 concursados, mas nenhum homem.rsrs X (indagando à R)= (...) você gostaria de trabalhar com homens? Muito obrigado. Tem muitas colegas que torcem o nariz pra gente não sei porque. Trabalhamos igual ou mais até. C= Lá na minha creche não tem homem e as mulheres não podem nem ouvir falar em homem trabalhando lá.até a diretora mesmo,apesar de ser gente finissima,diz que quase tem um treco de pensar que poderia entrar homem lá. Realmente no berçário eu não consigo imaginar homem trocando fralda suja e tal.mas isso só porque realmente não é algo que a gente ve muito por aí.mas não tem nada a ver com capacidade não,pq tudo se aprende é só ter esforço e força de vontade. Eu mesma sou mulher e minha maior dificuldade tá sendo as fraldas sujas. J = Na minha creche entrou um homem e foi para o berçario, a diretora colocou ele lá porque é um lugar mais "isolado" não fica muito na vista da maioria dos pais, ela disse que passou a noite anterior a apresentação dele sem dormir pensando onde iria colocá-lo e sobre como ele iria ser recebido na comunidade, mas graças a Deus, foi uma pessoa muito legal para nossa creche, tipo paizão mesmo, conquistou todo mundo desde o primeiro dia, e virou o centro das atenções, as crianças adoraram e até as cozinheiras andam paparicando ele que dá até raiva, no começo toda novidade assusta, mas depois nós acabamos nos adaptando a elas. Assim, também é importante lembrar que há uma processualidade no ato de educar em direitos humanos, sendo necessário baseá-lo na adesão de valores que os corporificam e não podem ser impostos: a tolerância com as diferenças e sua aceitação, a cooperação para o bem comum e o entendimento da vocação de todos à dignidade, o que pressupõe a vivência da solidariedade. (TEIXEIRA, 2005, p ). 3. Considerações Finais Em 1973, no artigo Creches e pupileiras trabalho originalmente publicado na revista francesa Courrier, em 1959 lia-se que é preciso ter sempre presente no espírito que toda criança, pelo menos até a idade de 3 anos, está melhor em seu lar do que numa creche, por melhor que ela seja. (FUNABEM, 1973, p. 63). Passadas duas décadas, Maria Clotilde Rosseti-Ferreira e Ana Paula Soares Silva pontuam que em [...] geral, as pesquisas demonstram que é possível um

13 desenvolvimento sadio em contextos diversos do familiar, mesmo para crianças em seus primeiros anos de vida, desde que assegurado um atendimento de qualidade. (1998, p. 175). Qualidade esta que se concretiza, entre outras vias, pelo trabalho conjunto realizado entre família e a creche. As autoras concluem que: O maior número de mulheres que têm crianças pequenas e trabalham fora de casa é resultante tanto da necessidade de contribuir para o sustento econômico da família, como do desejo de realização pessoal e profissional. O próprio pensar da mulher acerca de si e de sua atuação na sociedade a levou a questionar seu papel dentro e fora da família, repercutindo na maneira de cuidar dos filhos. [...] Esses fatores contribuem para a busca de novas formas e lugares para o desenvolvimento do convívio social das crianças. Hoje, em todas as classes sociais, a preocupação dos pais quanto a uma vida saudável para os filhos inclui a procura por instituições que compartilhem com eles o cuidado e a educação da criança. (SILVA; FERREIRA, 1998, p ). Atualmente, entende-se que a criança é uma pessoa em desenvolvimento - sem que isso se converta numa releitura do vir a ser pelo qual estes só tinham valor por representarem gerações que seriam o futuro da nação. Pelo contrário, atualmente, há, no plano formal, o reconhecimento de que são cidadãs hoje e merecem atendimento qualificado, condizente com o tempo de vida em curso. No que se refere aos direitos da criança à educação, a Educação Infantil, desde 1996, é o segmento dedicado aos bebês e crianças até 6 anos de idade; devendo, concretizar-se prioritariamente, através de políticas municipais, respeitando-se a opção da família em sua procura. Logo, não é etapa obrigatória de escolarização, devendo, no entanto, enquanto política pública, existir efetivamente, com instituições capazes de garantir o desenvolvimento das atividades de educação e cuidado com a qualidade que todo ser humano é credor. Qualidade que, entre tantos outros aspectos, deve ser mensurada a partir da consideração da existência de ações sistemáticas que contribuam para o estabelecimento de novas condutas, calcadas em formas de relacionamento e de inserção social mais igualitárias entre homens e mulheres, já que as instituições educativas, devem ser extintas todas as formas de classificação, elemento fundador da discriminação. (SINGER, 2005, p. 180).

14 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAKTHIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: HUCITEC, BRASIL. Lei Nº 9394, de 20 de dezembro de Estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 08 dez p BRASIL.Comitê Nacional de Educação em Direitos Humanos. Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos. Brasília: Secretaria Especial dos Direitos Humanos; Ministério da Educação, CAMPOS, Maria Malta. A qualidade da educação infantil brasileira: alguns resultados de pesquisa. Cadernos de Pesquisa, v. 36, n. 127, p , jan./abr CIVILETTI, Maria Vittoria Pardal.. O cuidado às crianças pequenas no Brasil escravista. Cadernos de Pesquisa, São Paulo: Fundação Carlos Chagas, n. 76, p , fevereiro FUNABEM - FUNDAÇÃO NACIONAL PARA O BEM-ESTAR DO MENOR. Creches e Pupileiras. Revista Brasil Jovem. Rio de Janeiro, ano VII, n. 25, p , 1º quadrimestre JARDIM, Silvia Regina Marques e ABRAMOWICZ, Anete. Tendências da produção paulista sobre gênero e educação: um balanço de dissertações de mestrado. Revista Brasileira de Pós-Graduação, v. 2, n. 3, p , mar KUHLMANN JR., Moysés. Infância e Educação Infantil: uma abordagem histórica. 2. ed. Porto Alegre: Editora Mediação, p. LOURO, Guacira Lopes. Gênero, sexualidade e educação: uma perspectiva pósestruturalista. 9. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, MOVIMENTO INTERFÓRUNS DE EDUCAÇÃO INFANTIL NO BRASIL. Infantil: Construindo o Presente. Campo Grande: Ed. UFMS, Educação NÓBREGA, Marcelo. Orkut chega ao Brasil em versão de carne e osso. Jornal do Brasil. 28 de março de Disponível em:<http:/www.jbonline.terra.com.br>. Acesso em 18 de jun NUNES, Deise Gonçalves. Da Roda à Creche Proteção e reconhecimento social da infância de 0 a p. Tese (doutorado em Educação) Faculdade de Educação,Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro PREFEITURA DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO. Fundação João Goulart. Informações sobre concurso público de Agente Auxiliar de Creche. Disponível em:<http:/www.rio.rj.gov.br/fjg>. Acesso em 21 de jan

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