Entrevistado: Almir Barbassa Entrevistador: - Data:11/08/2009 Tempo do Áudio: 23 30

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1 1 Entrevistado: Almir Barbassa Entrevistador: - Data:11/08/2009 Tempo do Áudio: Entrevistador- Como o senhor vê a economia mundial e qual o posicionamento do Brasil, após quase um ano da quebra do Lehman Brothers e do agravamento da crise? Barbassa- O que percebemos da economia mundial é que, embora não haja ainda uma certeza de que o pior período já passou, são boas as indicações de que isso tenha ocorrido, e já há sinais de recuperação em algumas economias importantes. O mercado emergente sofreu menos nessa crise e a periferia aqui ajudou (risos). Essa foi uma crise gerada nas economias mais desenvolvidas, que sofreram muito mais. Nessas economias já há sinais, às vezes não muito seguros, mas já positivos. Isso quer dizer o pior momento ficou para trás. Quanto à economia brasileira, a performance foi relativamente muito boa. Enquanto outros países estavam salvando empresas da pior situação, muitas vezes da falência, nós estávamos mantendo e estimulando o crescimento. Alguns setores, principalmente aqueles voltados mais para a exportação, sofreram um pouco mais no Brasil. Mas os segmentos voltados para o mercado doméstico tiveram performances fantásticas e até melhores do que em bons momentos do passado. Entrevistador- Em relação ao Brasil, especificamente, o período do fim do ano passado, início desse ano, foi um pouco delicado, caiu muito a produção na indústria. O senhor considera que a crise, diante daquele cenário que estava pintando, bateu aqui com menos força do que poderia se imaginar naquele momento? Barbassa- Acho que sim, a crise foi relativamente fraca aqui no Brasil, embora tenha nos afetado. A indústria tem um componente bom de exportação, e achamos que ela sofreu mais por isso do que pela economia interna. O brasileiro médio, o brasileiro trabalhador, eu acho que raramente sentiu a crise enquanto, nos países mais desenvolvidos, a questão foi socialmente séria, e ainda continua. Em alguns casos, o indivíduo perde o trabalho, perde a casa, ou seja, perde tudo. Aqui, não vimos nada disso. Entrevistador- É no emprego que o brasileiro sente mais? Barbassa- Exatamente. O Brasil é visto lá fora hoje como uma excelente oportunidade de investimento por causa dessa situação positiva e crescente. Isto porque o país conseguiu navegar pela crise e sair dela numa situação ainda melhor, relativamente a seus pares.

2 2 Entrevistador- Qual é a sua avaliação sobre a Petrobras antes e depois da crise? Sabemos que as empresas de energia sentiram bem menos e, no caso da Petrobras, ela até ampliou o plano de investimento. A Petrobras ganhou alguma coisa com a crise? Barbassa- Eu acho que sim. E tive essa visão no início da crise, mesmo no auge do segundo semestre do ano passado, logo após a quebra do Lehman. E via isso como um mal que poderia resultar em benefícios para a Petrobras, porque o primeiro semestre do ano passado foi de inflação de custo na indústria de petróleo. E nós, que temos um portfolio muito grande de projetos, muita operação, muito investimento e crescimento ímpar na indústria, vínhamos pagando caro por essa efervescência. A inflação de custo estava batendo muito diretamente em nossas atividades. A crise veio amortecer os preços que deixaram de crescer e muitos sofreram redução. Para alguns equipamentos que precisávamos, não havia disponibilidade na indústria que os produzia. Havia fila e era preciso fazer reserva de espaço na indústria para encomendas futuras. Essa situação mudou completamente. Hoje, ninguém consegue adicionar, como antes, pedidos para a sua indústria. As empresas de equipamentos e serviços estão vivendo daquela lista de pedidos que tinham conseguido obter no apogeu do crescimento. Esta redução de custos é positiva para a Petrobras que passa por uma fase de vultosos investimentos, o que vai resultar em maior produção no futuro. Na medida em que conseguirmos investir com menores custos, mais lucrativa será a empresa. Entrevistador- Vocês estavam discutindo com a indústria para reduzir esses custos. Já houve algum resultado prático? Barbassa- Continuamos debatendo e brigando por cada contrato diariamente e, dependendo do segmento, há uma variação muito grande. Há setores que já mostram algum resultado e outros que têm uma visão de mais longo prazo. Isto porque, às vezes, o investimento para construir o bem ou o meio para prestar determinado serviço demanda mais tempo. Quando se trata de um bem que leva até quatro anos para ser produzido, um ano de preços menores não afeta tanto, mas não deixa também de repercutir na queda da demanda. Não foram todas as empresas que mantiveram investimento e também cresceram, como a Petrobras. Nossa programação foi aumentada em 55% em janeiro deste ano, e estávamos no ápice da crise. Há um efeito, senão de redução, pelo menos de parar de crescer. Entrevistador- Eu creio que outras empresas não tenham investido, não tenham seguido à risca essa receita da Petrobras. O senhor vislumbra que esse investimento em plena crise vai resultar efetivamente num ganho de mercado da Petrobras em quanto tempo? Barbassa- Quando a Petrobras anunciou crescimento de 55% no seu investimento, não estava olhando para a crise que, para nós, era quase como uma oportunidade para conseguir os

3 3 equipamentos e os serviços de que precisávamos para fazer esse investimento. Isto porque, na realidade, os projetos da Petrobras são de maturação no longo prazo e começam a apresentar resultados em um prazo de cinco a dez anos, dependendo da fase em que o projeto se encontra. Isso deu à Petrobras uma característica muito particular, quando comparada com a indústria em geral, ou seja, uma de visão de longo prazo. Nós não trabalhamos com aquela visão míope de olhar para o amanhã, quando você pode ter a dificuldade pela crise. Trabalhamos olhando para a demanda de seu produto daqui a cinco, dez anos. Isso dá força à alavancagem e se torna um diferencial muito grande para a Petrobras. Porque não há dúvida de que a energia é um bem que vai continuar a ser consumido. Hoje, energia é sinônimo de conforto e a sociedade não vive sem energia. O petróleo é um bem finito e representa o grande fornecedor de energia para o mundo. Até o momento não existe um substituto capaz de fornecer energia em um volume que substitua o petróleo, do ponto de vista econômico. Isso é o que nós dá um conforto para afirmar: podemos investir porque no futuro vai continuar tendo demanda e nós vamos ter preço. Assim podemos passar com tranquilidade por fases de crise. É claro que a crise representa uma série de restrições, particularmente na área financeira, que foi a sua origem. Entrevistador- O senhor mencionou que a Petrobras não teve essa visão míope. O senhor pode fazer esta afirmação em relação a outras empresas do setor? Isso pode resultar, daqui a alguns anos, num avanço maior da Petrobras por ter essa visão diferenciada? Barbassa- Sem dúvida a Petrobras já está sendo vista dessa forma pelo mercado. Tanto é que o crescimento do valor da Petrobras, nesse primeiro semestre, foi diferenciado em relação às demais. Entrevistador- Até que ponto o pré-sal influenciou a ampliação destes investimentos? Barbassa- O pré-sal deu um impulso especial na Petrobras e, sem dúvida, é um dos um dos acontecimentos mais importantes da sua história. Se você olhar o volume de investimento que estamos programando para os próximos cinco anos, o pré-sal ainda é pequeno, um pouco menos que US$30 bilhões, num total de US$174 bilhões. Mas, como força, teve um poder especial porque alavancou ainda mais essa visão de longo prazo da empresa. Mas ainda vamos crescer muito, e temos muito a fazer no pós-sal. O crescimento da produção, até 2013, quando devemos ultrapassar 3,5 milhões de barris por dia, vai ser essencialmente fora do pré-sal. Só depois de 2015 é que o pré-sal começa a aparecer com volumes mais significativos. Começamos a investir devagar, vai amadurecendo os projetos e no médio prazo vem a resposta. Entrevistador- No auge da crise havia uma dificuldade para se obter crédito no mercado, mas a Petrobras, para esse ano e para o ano que vem, já garantiu recursos suficientes. Como o senhor vê essa questão do crédito no mercado como um todo? Já está realmente se normalizando?

4 4 Barbassa- A Petrobras, nesse aspecto, foi bastante diligente porque conseguiu, mesmo nesse período de crise, quebrar o recorde histórico de captação. Em cinco meses conseguimos obter US$31 bilhões. Isso nunca aconteceu na Petrobras, mas também ela nunca foi do tamanho atual e nem teve as características que tem hoje. Entrevistador- Isso foi de janeiro a maio? Barbassa- Sim, de janeiro a maio. Esse dinheiro é suficiente para tocar os projetos e, dependendo do preço do petróleo, pode chegar até Estamos, nesse aspecto, bastante confortáveis e, além disso, o mercado se estabilizou. Sempre surgem novas oportunidades, que precisam ser buscadas no momento certo. No mercado de capitais, que é fonte importante para uma empresa do tamanho da Petrobras, já fizemos duas operações neste ano, e captamos US$2,75 bilhões. As agências de crédito à exportação se tornam uma fonte muito boa para a Petrobras nesse momento. Isso porque, com nosso portfolio de projetos, acabamos tendo que importar boa parte de serviços e equipamentos, uma vez que não dá para fabricar tudo aqui no Brasil. Embora tenhamos políticas de conteúdo nacional, é impossível para um país fabricar tudo que a indústria de petróleo necessita. Então, somos grandes importadores e, como tal, nesse momento de crise, o que os demais países mais querem é vender para nós e aí estendem as linhas de crédito. Entrevistador- Até porque, lá fora, tem pouca gente comprando. Barbassa- Exatamente. É quase a joia da coroa, todo mundo quer vender alguma coisa para nós. E então afirmamos que compramos, mas queremos comprar financiado, e eles financiam, porque querem estimular a sua própria indústria. Entrevistador- Vimos que, com a crise, o preço do petróleo, que estava explodindo, teve uma bela queda: agora está entre 60 a 70 dólares. Pode-se considerar que essa crise foi positiva para se estabelecer um preço mais real para o petróleo? A cotação do barril estava em um patamar que não era verdadeiro? Barbassa - Eu acho que são coisas muito relativas. A indústria de petróleo não funciona no curto prazo, suas respostas ocorrem no médio e longo prazos. Hoje, o mundo consome cerca de 80 a 85 milhões de barris por dia. Os campos de petróleo que produzem esse volume têm uma vida finita. A previsão é que, em 2020, eles deverão estar produzindo uns 50 milhões de barris, quer dizer, cerca de 30 a 35 milhões a menos. Daqui a 2020, onde vamos buscar 30 milhões de barris por dia, mais o crescimento que virá do aumento de consumo de várias economias? O preço vai ser resultante disso tudo. Quando você diz que o preço certo é 70, 100, ou 150 dólares, tudo isso é relativo. Hoje podemos dizer que 70 dólares é um bom preço mas, olhando no longo prazo, a situação pode muito bem ser outra.

5 5 Entrevistador- A Petrobras está vendo uma estabilidade maior no preço, depois desse período de crise? Barbassa- Nesse momento, considerando ainda a fraqueza das diversas economias das principais nações consumidoras, até o preço corrente é relativamente alto. Mas isso também em função da expectativa. Como já há sinais de recuperação, as pessoas retomam o emprego, começam a queimar gasolina e tudo volta ao nível de antes. É muito mais fácil se ajustar a um nível de riqueza maior do que menor. Entrevistador- O senhor considera que, de certa forma, essa crise deixa alguma espécie de novo direcionamento para governos em relação às economias, para as administrações das empresas? O que vai mudar depois dessa crise? Barbassa- Eu acho que o balanço mundial muda. Conforme conversamos no início os países emergentes ganharam outro peso, no conjunto das economias. Ainda continuam relativamente pequenos, em termos de PIB, mas ganharam uma perspectiva diferenciada. Essa é a grande resultante dessa crise. É claro que vamos gerar uma série de defesas para as situações ocorridas, mas isso não quer dizer que, no futuro, não ocorram outras situações. Entrevistador- Com os emergentes se tornando uma espécie de protagonistas? Barbassa- Há uma multipolarização econômica do mundo. Eu acho que o Brasil, particularmente, ganhou um status diferenciado com isso tudo. Entrevistador- Gostaria de agradecer ai senhor pela atenção. Barbassa- Disponha. Entrevistador- E até sexta-feira, que é quando sai o Balanço, não é? Barbassa- É.

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