COMUNICAÇÃO E CULTURA POPULARES: A RECONVERSÃO CULTURAL EM CONTEXTOS POPULARES

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1 COMUNICAÇÃO E CULTURA POPULARES: A RECONVERSÃO CULTURAL EM CONTEXTOS POPULARES Margarita de Cássia Viana Rodrigues - Curso de Mestrado em Administração Rural e Comunicação Rural/UFRPE Severino Capitulino de Queiroz Filho - Curso de Especialização em Associativismo/UFRPE Maria Salett Tauk Santos - Curso de Mestrado em Administração Rural e Comunicação Rural/UFRPE Esse trabalho analisa a reconversão cultural nas organizações populares envolvidas pelo poder local, através de uma administração participativa de desenvolvimento local no município de Camaragibe/PE. Essa experiência desenvolvida sob a coordenação do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento/PNUD e colaboração de Bancos e diversas Organizações que visa prioritariamente a geração de emprego e renda para a população envolvida. A análise se baseia nos estudos de Nestor Garcia Canclini sobre a reconversão cultural como estratégia da hibridização das organizações populares de inserção no mercado. As culturas populares se caracterizam pela contingência de usufruirem as riquezas do mundo de modo desnivelado. São assim, culturas híbridas combinações da cultura local com a cultura massiva transnacional. COMUNICAÇÃO E CULTURA POPULARES: A RECONVERSÃO CULTURAL EM CONTEXTOS POPULARES Margarita de Cássia Viana Rodrigues - Curso de Mestrado em Administração Rural e Comunicação Rural/UFRPE Severino Capitulino de Queiroz Filho - Curso de Especialização em Associativismo/UFRPE Maria Salett Tauk Santos - Curso de Mestrado em Administração Rural e Comunicação Rural/UFRPE Esse estudo analisa a reconversão cultural nas organizações populares envolvidas pelo poder local, através de uma administração participativa de desenvolvimento local no município de Camaragibe em Pernambuco, onde 90% dos seus empreendimentos estão no setor terciário, com 83% na

2 informalidade (SEBRAE). É também denominado município "dormitório" uma vez que a maioria da população trabalha no Recife. Essa experiência desenvolvida pela administração municipal, sob a coordenação do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento - PNUD e colaboração de Bancos Estatais (Bancos do Estado de Pernambuco - BANDEPE e do Nordeste - BNB), Organizações-Não-Governamentais (CEAS - Urbano, Centro Josué de Castro e Ação da Cidadania), AD-DIPER (Agência de Desenvolvimento do Estado de Pernambuco), Fundação de Desenvolvimento Municipal do Interior de Pernambuco (FIAM), Secretaria de Planejamento do Estado de Pernambuco e o Serviço de Apoio à Pequena Empresa (SEBRAE) que visa prioritariamente a geração de emprego e renda para a melhoria da qualidade de vida da população envolvida. Para Nestor Garcia Canclini a política participativa busca "repensar a cidadania como estratégia política para reivindicar os direitos de aceder e pertencer ao sistema sócio/político, como também o direito de participar na reelaboração do sistema, definindo portanto, aquilo que queremos fazer parte" (1996 : 23). Assim, a política participativa é uma "nova concepção estratégica do Estado e do mercado que articula as diferentes modalidades de cidadania nos velhos e novos cenários"(canclini, 1996 : 24). Estado esse hegemônico, levando em conta as "novas condições culturais de articulação entre o público e privado" (Canclini, 1996 : 24). As culturas populares são caracterizadas pela contingência de usufruirem as riquezas do mundo de modo desnivelado. São assim, culturas híbridas - combinações da cultura local com a cultura massiva transnacional, que em determinados casos são conflituosas (SANTOS, 1997). Ou seja, o imaginário popular se perde entre a fantasia de riqueza e de comportamentos transmitidos pelo burguês e o drama do cotidiano limitado pela carência dos serviços essenciais elementares, resultante da falta de políticas públicas (RODRIGUES, 1996). Esses conflitos, muitas vezes, provocam rejeições por parte das organizações populares que refuncionalizam a proposta hegemônica, culminado em processos híbridos que levam em conta a diferença porque as culturas populares fazem a reconversão dos símbolos da ordem hegemônica. (SANTOS, 1997). A reconversão é uma estratégia da hibridização das elites e das organizações populares de inserção no mercado hegemônico. A hibridização sócio/cultural, com freqüência, surge da intenção de reconverter um patrimônio - um conjunto de técnicas e saberes, para se reinserirem em novas condições de produção e mercado (CANCLINI, 1996 : 3).

3 As estratégias de reconversão mostram que a hibridização interessa tanto aos setores hegemônicos como aos populares que querem apropriarem-se dos benefícios da modernidade. As vezes, os grupos subalternos recorrem a técnicas ou procedimentos políticos tradicionais, incorporando de um modo híbrido o 'diferente/moderno' como estratégia de sobrevivência freqüente às políticas econômicas e culturais que os prejudicam. (CANCLINI, 1996 : 3). Os métodos utilizados foram o heurístico e hermenêutico para compreender como as organizações populares reconvertem o patrimônio cultural transmitido pela proposta hegemônica. As técnicas utilizadas foram observação participante, entrevistas não estruturadas. Análise do material didático e os meios de comunicação utilizado pelo Programa PNUD. As organizações populares (re) conhecem suas potencialidades, limitações e sua condição de subalteridade ao "poder hegemônico global" (SANTOS, 1997) ao eleger para o cargo de Prefeito um partido que tem como proposta uma administração participativa voltada para o popular, que desvela a importância da legitimidade das suas reivindicações junto ao poder público para o atendimento de suas necessidades imediatas, estimulando o sentimento de pertencimento e de cidadania no novo cenário local. Essa administração participativa atua como agente mediador e facilitador entre as organizações populares e o poder hegemônico, através do estabelecimento de parcerias com o Programa PNUD/BNB para a promoção do desenvolvimento local, auxiliando de forma indireta no processo de reconversão cultural das organizações populares nas novas condições de produção, de trabalho e de mercado hegemônico. O Programa PNUD/BNB desenvolve uma estratégia de participação através da capacitação de técnicas e saberes utilizando os mais diversos meios de comunicação populares como panfletos, rádio, jornais, teatro de bonecos, bilhetes, convites, boca-a-boca, carro de som, etc. E, através de oficinas, com utilização intensiva de audiovisuais, dramatrizações, jogos, constrói coletivo e participativamente estratégias de aprendizagem de inserção no mercado econômico e cultural dos participantes, como também uma percepção de seus papéis como cidadãos e produtores na sociedade local e no mundo hegemônico globalizado. Essa forma de trabalho desenvolvido tem possibilitado um desdobramento de situações e processos os mais diversos que virão a ser alvo de estudos no futuro próximo. Através de mensagens informativas e persuasivas cotidianamente, inclusive em datas comemorativas das organizações, os técnicos reelaboram continuamente as estratégias de atuação fazendo leituras e análises dos vídeos gravados por ocasião das oficinas.

4 Dessa forma os participantes são orientados a assumirem seus próprios interesses e negócios e a se organizarem e reivindicarem junto aos poderes públicos seus diretos. Este processo utilizado, participativamente, pelo Programa PNUD/BNB - a metodologia GESPAR, naturalmente permite e facilita a todo momento a reconversão cultural dos participantes, fazendo com que descubram suas potencialidades e limitações frente ao mundo hegemônico globalizado, refuncionalizando a cultura massiva transnacional a seu ambiente. A discussão das situações, das circunstâncias peculiares a cada participante, tem possibilitado o surgimento de novas lideranças e grupos específicos de interesse. A condução desses grupos freqüentemente é assumida pelos próprios participantes, e os técnicos ficam limitados a condição de espectador privilegiado. Essa política de administração participativa atua como agente mediador e facilitador entre as organizações populares e o poder hegemônico. Através do estabelecimento de parcerias com o Projeto coordenado pelo PNUD/BNB auxilia de forma indireta o processo de reconversão cultural das organizações populares para a promoção do desenvolvimento local. O Projeto do PNUD/BNB busca inserir as organizações populares nas novas condições de produção, de trabalho e de mercado hegemônico construindo coletivamente estratégias de aprendizagem de inserção no mercado econômico e cultural como também estimulando a percepção de seus papéis como cidadãos e produtores na sociedade local e no mundo hegemônico globalizado. BIBLIOGRAFIA CANCLINI, N. G. (1997). Culturas híbridas estratégias para entrar e sair da modernidade. Edusp. São Paulo. CANCLINI, N. G. ( 1996). Consumidores e cidadãos - conflitos multiculturais da globalização. Ed. UFRJ. Rio de Janeiro. CANCLINI, N. G. (1996). Culturas híbridas y estratégias comunnicacionales. Seminário "Fronteiras culturales: ydentidad y comunicación en América Latina". Universidade de Stirling. 16 a 18 de octubre de SANTOS, M. S. T. (1997).. Notas em sala de aula. Recife.

5 GRAMSCI, A. (1991). Os intelectuais e a organização da cultura. 8 a ed. Editora Civilização Brasileira. Rio de Janeiro. GRUPPI, L. (1980). O conceito de hegemonia em Gramsci. 2 ª ed. Editora Graal. Rio de Janeiro. SEBRAE (1995). Diagnóstico sócioeconômico do município de Camaragibe.

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