LUCIANA DOS SANTOS GONÇALVES PSICOPEDAGOGIA: FORMAÇÃO, IDENTIDADE E ATUAÇÃO PROFISSIONAL

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1 LUCIANA DOS SANTOS GONÇALVES PSICOPEDAGOGIA: FORMAÇÃO, IDENTIDADE E ATUAÇÃO PROFISSIONAL PUC - CAMPINAS 2007

2 LUCIANA DOS SANTOS GONÇALVES PSICOPEDAGOGIA: FORMAÇÃO, IDENTIDADE E ATUAÇÃO PROFISSIONAL Monografia de Conclusão de Curso apresentado à Faculdade de Educação, da PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE CAMPINAS, como requisito parcial para a obtenção do título de Especialista em Educação e Psicopedagogia, sob orientação da Profa. Ms. Maria Regina Peres. PUC - CAMPINAS 2007

3 A verdadeira viagem da descoberta não consiste em procurar novas paisagens, mas em possuir novos olhos. Marcel Proust

4 Dedico este trabalho especialmente ao meu marido Gabriel e a todos aqueles que de alguma maneira colaboraram para sua execução e souberam valorizar a sua importância.

5 AGRADECIMENTOS À Deus, primeiramente, que pela sua força me conduziu até o final do curso. Minha eterna gratidão e reconhecimento às pessoas cuja contribuição tornou-se decisiva para a realização desse trabalho: A toda equipe de docentes que constituíram o curso de Especialização em Educação e Psicopedagogia, em 2007, da Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Em especial, Mônica Hoehne Mendes, atual presidente da ABPp-Seção São Paulo, pela ajuda e, que generosamente, compartilhou suas experiências cedendo seu trabalho. À Profa. Ms. Maria Regina Peres pelas orientações e críticas, bem como apoio, dedicação e disponibilidade na elaboração desta pesquisa. Aos colegas de curso pelos momentos que compartilhamos na busca pelo saber. Ao meu marido que tive paciência e entendeu a minha ausência durante a realização do curso e que sempre acreditou que eu era capaz, por meio de palavras encorajadoras muito me estimularam. E a todas as pessoas que, direta e indiretamente, cooperaram para a concretização desse projeto de pesquisa.

6 SUMÁRIO Introdução...08 Capítulo I Aspectos históricos da formação da Psicopedagogia na Argentina e no Brasil...12 Capítulo II Experiências atuais na formação e atuação do Psicopedagogo na Argentina e no Brasil...26 Capítulo III A identidade do psicopedagogo brasileiro...46 Metodologia...52 Resultados obtidos e análises...55 Considerações Finais...59 Referências Bibliográficas...62 Anexo I...65 Anexo II...68

7 GONÇALVES, Luciana dos Santos. Psicopedagogia: formação, identidade e atuação profissional. Monografia (Especialização em Educação e Psicopedagogia). Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Campinas, São Paulo, pp. 71. RESUMO Este trabalho se propõe a pesquisar sobre a formação do profissional em Psicopedagogia, sua identidade e atuação profissional no Brasil e na Argentina. Objetiva-se a reflexão sobre o esboço histórico da Psicopedagogia e sua atual perspectiva. Apresenta-se o percurso argentino entrelaçado com a realidade psicopedagógica brasileira. Para a metodologia de trabalho utilizou-se a abordagem qualitativa enfocando a pesquisa bibliográfica. Utilizou-se como referencial teórico um estudo científico de vários profissionais da educação, em especial, de psicopedagogos, acerca da psicopedagogia bem como, as reflexões pessoais sobre o objeto a ser investigado. Também se considerou a análise da construção da identidade do Psicopedagogo nas questões vinculadas a sua ação profissional. Como resultados obtidos, destaca-se a importância da regulamentação da profissão diante da atuação psicopedagógica, bem como a necessidade de estudos mais aprofundados sobre o tema. Palavras chaves: psicopedagogia, formação, identidade, atuação profissional, regulamentação.

8 ABSTRACT This work is the search on the training of the formation Psychopedagogy professional Psychopedagogy, their identity and professional practice in Brazil and Argentina. The objective is to consider the Psychopedagogy. Historical outline and his current perspective. It presents the Argentine's journey coupled with Brazilian Psychopedagogy's reality. For the methodology of work a qualitative approach was used focusing the research literature. As a benchmark theoretical scientific studies of various professionals in education were used, in particular, the Psychopedagogy Professionals, on the topic as well as the personal reflections on the subject being investigated. It also considered the analysis of the construction of the identity of the Psychopedagogy professional on issues linked to his professional action. As results, it highlights the importance of the profession regulation front of the psychopedagogy performance, and the need for further investigation on the subject. Key- words: Psychopedagogy, formation, identity, Professional practice, regulations.

9 8 Introdução A Psicopedagogia nasceu da necessidade de uma melhor compreensão do processo de aprendizagem e se tornou uma área de estudo específica que busca conhecimento em outros campos e cria seu próprio objeto de estudo (Bossa, 2007, p.24.). Ocupa-se do processo de aprendizagem humana: seus padrões de desenvolvimento e a influência do meio nesse processo. Considerando essas idéias, dentre outras, esta pesquisa aborda a temática da formação de psicopedagogos e sua identidade, no contexto das políticas educacionais que têm repercussão nos processos de formação e na atuação profissional dos psicopedagogos. Com isso, este estudo procura refletir sobre a formação do psicopedagogo a partir de dados bibliográficos, tendo como referencial o estudo da legislação e da reflexão teórica no que se refere à Psicopedagogia no Brasil como também na Argentina. Para atingir os objetivos foram realizadas leituras e pesquisas em livros e artigos publicados em revistas nacionais e estrangeiras. Dentre elas a Revista da Associação Brasileira de Psicopedagogia e a Aprendizaje Hoy da Universidad del Salvador (Usal) da Argentina. Nosso objetivo foi buscar uma revisão mais apurada da literatura disponível na investigação do tema. Também foram identificados e estudados os instrumentos legais: leis, pareceres, resoluções, sobre a formação do psicopedagogo, em especial os documentos sobre a legislação vigente, tanto no Brasil como na Argentina. Da coleta e análise dos dados, do estudo da legislação e da reflexão teórica referente à Psicopedagogia, buscou-se a compreensão crítica da

10 9 Psicopedagogia na Argentina e no Brasil, a formação do psicopedagogo e sua identidade. Algumas questões nortearam esta pesquisa: Qual a identidade do psicopedagogo? Qual é a sua atuação profissional, enquanto psicopedagogo? Como ocorre a formação do Psicopedagogo na Argentina e no Brasil? Existe uma legislação que regulamenta a profissão na Psicopedagogia? Essas interrogações crescem, exponencialmente, quando voltamos nosso olhar para a realidade da formação do Psicopedagogo, uma vez que no Brasil ainda há poucos registros dedicados a esta temática. São objetivos desta pesquisa: resgatar o processo histórico da constituição da psicopedagogia; analisar as contribuições da Psicopedagogia Argentina; compreender o contexto atual da Psicopedagogia no Brasil; resgatar através da pesquisa bibliográfica, como esta organizada, a formação do Psicopedagogo na Argentina e no Brasil; analisar o atual contexto da psicopedagogia argentina e a brasileira. Destacamos a relevância desta pesquisa, uma vez que ela já se inicia a partir do seguinte questionamento. Qual a formação do Psicopedagogo no Brasil?, podemos aqui enunciar o que nos apresenta Bossa (2007:37), O movimento da psicopedagogia no Brasil remete ao seu histórico na Argentina. Isso nos auxiliaria a melhor compreender a atual formação da psicopedagogia no Brasil e suas possíveis tendências. Dessa maneira, é importante recorrer ao contexto histórico da Psicopedagogia Argentina, assim uma aproximação inicial a temática da constituição da Psicopedagogia, nos conduziu a identificação sobre sua trajetória e seu contexto atual.

11 10 Ao estudar os aportes teóricos da psicopedagogia na Argentina, podemos constatar, especialmente, a presença dos trabalhos de autores como: Jorge Visca, Alicia Fernádez e Marina Müller. Assim, por exemplo, em seu artigo Perspectivas de la psicopedagogia em el comienzo del milenio, Müller (1995) comenta que na Universidade de Salvador, há cinco décadas, surgiu a psicopedagogia como uma disciplina. Disciplina esta que trabalha com a aprendizagem, como atividade que inclui a relação entre ensino e aprendizagem, em contextos sistemáticos ou não. Deste modo, nasceu a psicopedagogia como carreira universitária de três anos, no ano de Ela confluiria da carreira de Psicologia e da Pedagogia. O esboço histórico da psicopedagogia na Argentina e seu atual contexto nos conduzirão a uma leitura aprofundada da formação do psicopedagogo no Brasil. Segundo Bossa (2007) A questão da formação do psicopedagogo assume um papel de grande importância na medida em que é a partir dela que se inicia o percurso para a formação da identidade desse profissional. (p. 63) Na citação mencionada, podemos perceber quão importante é identificar a formação do profissional em psicopedagogia. A construção da identidade do psicopedagogo está correlacionada com a própria identidade da Psicopedagogia. ao enfatizar: Ampliando as idéias anteriores temos as contribuições de Masini (2006) A identidade da psicopedagogia não está ainda bem delimitada como área de estudos, apesar de décadas de existência, no Brasil e na Europa, comprovadas em livros e revistas especializadas. Permanecem discussões e em bates com pares, em meio a mal entendidos sobre fins, locais, modalidades e recursos de atuação. (p.249)

12 11 Diante disto, podemos observar que persistem os questionamentos acerca da identidade da psicopedagogia. Com isto ao tomarmos a psicopedagogia como o fenômeno a ser estudado e analisado nesta pesquisa, temos que esta área é entendida como atividade que abrange a educação, compreendida como prática social, tanto em seu contexto sistemático como informal. Logo, o que se pretende é entender as perspectivas sobre o psicopedagogo e a Psicopedagogia, para explicar e compreender a formação e a atuação do psicopedagogo, a partir de dados bibliográficos e da síntese do percurso teórico percorrido pelos psicopedagogos nos dois paises citados. Assim, esta pesquisa pretende contribuir para o conhecimento da Psicopedagogia enquanto área de estudo e atuação relacionada com a aprendizagem e dar-se-á por meio da análise e reflexão da Psicopedagogia no Brasil e seus aportes teóricos na Argentina.

13 12 Capítulo I Aspectos históricos da formação em Psicopedagogia na Argentina e no Brasil Historicamente, segundo Bossa (2007) os primórdios da Psicopedagogia ocorreram na Europa, ainda no século XIX, sustentada pela preocupação com os problemas de aprendizagem na área médica. Os primeiros Centros Psicopedagógicos foram fundados na França, em 1946, com o objetivo de desenvolver um trabalho voltado para crianças com problemas escolares ou comportamentais atendidos por uma equipe da área de Psicologia, Psicanálise e Pedagogia. Bossa (2007) apresenta que: A literatura francesa influencia as idéias sobre psicopedagogia na Argentina a qual, por sua vez, influencia a práxis brasileiras. A psicopedagogia francesa apresenta algumas considerações sobre o termo psicopedagogia e sobre a origem dessas idéias na Europa, e os trabalhos de George Mauco, fundador do primeiro centro médico psicopedagógico na França, em que se percebem as primeiras tentativas de articulação entre medicina, psicologia, psicanálise e pedagogia, na solução dos problemas de comportamento e de aprendizagem (p. 39) Observamos que a Psicopedagogia teve uma trajetória significativa tendo, inicialmente, um caráter médico-pedagógico já que a equipe de trabalho era composta por médicos, psicólogos, pedagogos, psicanalistas e reeducadores de psicomotricidade e da escrita. Ao final dos anos 60, na Argentina, o trabalho entre os psicopedagogos e a escola e sua relação com os psicólogos e os pedagogos influenciaram significativamente os profissionais argentinos na sua atuação psicopedagógica. Conforme Alicia Fernández, psicopedagoga Argentina, a graduação em Psicopedagogia passou a existir na Argentina há mais de 30 anos, criada na Universidade de Buenos Aires (UBA). Deste modo, Buenos Aires foi a primeira

14 13 cidade argentina a oferecer o curso de Psicopedagogia. (apud BOSSA, 2007, p.42-43) Entretanto, na prática, a atividade psicopedagógica iniciou-se antes da criação do próprio curso. Profissionais que possuíam outra formação viram a necessidade de ocupar um espaço que não podia ser preenchido pelo psicólogo nem pelo pedagogo. Desta maneira, começaram fazendo reeducação, com o objetivo de resolver fracassos escolares. De acordo com Peres (1998) A Psicopedagogia passa a despertar a atenção de vários países que, preocupados com os altos índices de fracassos escolares passam a buscar novas alternativas de trabalho. Dentre estes países, na Argentina, a psicopedagogia tem recebido um enfoque especial, sendo considerada uma carreira profissional. (p.42) Inicialmente, a Psicopedagogia aparece como uma disciplina na Facultad del Psicología da Universidad del Salvador, Buenos Aires. Já em 1956, a Psicopedagogia constitui-se como curso de graduação de três anos, para formar professores com capacitação em psicologia escolar, na confluência da psicologia e pedagogia. Segundo Arias (2007), há uma estreita relação histórica entre a Psicopedagogia e a Pedagogia, porém El 2 de mayo de 1956, en la Universidad del salvador y desde el Instituto de Psicopedagogía, ingresa a la enseñanza oficial una nueva carrera de grado: la Psicopedagogía.(p.57) Müller (1995) aborda em seu artigo Perspectivas de la psicopedagogia em el comienzo del milenio, que as novas tendências do sistema educativo na Argentina, para melhor distribuição de recursos econômicos e humanos, atualmente organiza a estrutura do curso de Psicopedagogia em ciclos, propondo uma carreira de quatro anos.

15 14 Portanto, estabelecendo uma grade curricular de dois anos de formação básica compartilhada com a carreira de Psicologia e fixando dois anos de formação psicopedagógica específica. Existem também os cursos de mestrados e doutorados, possibilitando especialização de um ano de duração, como formação acadêmica para a docência superior e pesquisa. Deste modo, como do interior da carreira de Psicologia se criou à carreira de Psicopedagogia, que no começo não tinha caráter universitário, mas, conforme adquiria significado mediante definições e aportes teóricos de especialistas, aos poucos, foi se construindo o seu objeto de estudo próprio: o sujeito em processo de ensino-aprendizagem. Em outras palavras, o sujeito como agente da sua própria aprendizagem. Com isso, a psicopedagogia argentina se origina como um conhecimento empírico, a partir da necessidade de atender as crianças com problemas de aprendizagem escolar. Para Visca (1987), A psicopedagogia nasceu como uma ocupação empírica pela necessidade de atender as crianças com dificuldades na aprendizagem, cujas causas eram estudadas pela medicina e psicologia. Com o decorrer do tempo, o que inicialmente foi uma ação subsidiária destas disciplinas, perfilou-se como um conhecimento independente e complementar, possuidor de um objeto de estudo (o processo de aprendizagem) e de recursos diagnósticos, corretores e preventivos próprios (p.33) O autor acima citado merece muita consideração neste trabalho, entendendo-se que a psicopedagogia nasceu na Argentina a partir dos seus estudos acerca da epistemologia da psicopedagogia, no que se chamou de epistemologia convergente 1. 1 Epsitemologia Conversente é o resultado da assimilação recíproca de conhecimentos fundamentados no construtivismo, no estruturalismo construtivista e no interacionismo. Isto é, linha teórica que propõe um trabalho com a aprendizagem integrado com três linhas de Psicologia: Escola de Genebra (Piaget), Escola Psicanalítica (Freud) e a Escola de Psicologia Social (Pichon-Rivière). Para uma melhor compreensão a respeito do tema, sugerimos a leitura do livro Psicopedagogia: novas contribuições da autoria de Jorge Visca, edições Nova Fronteira, ano de 1991.

16 15 Jorge Visca é considerado pela literatura dos profissionais da área, como pai da psicopedagogia. Estaremos assumindo aqui a definição, de vários autores, que consideram a Psicopedagogia como uma área de conhecimento que se dedica ao diagnóstico, tratamento e prevenção das dificuldades de aprendizagem escolar. Estaremos também considerando a Psicopedagogia como área que trabalha com a aprendizagem no seu sentido mais amplo, possibilitando a todos, principalmente a quem ensina, a oportunidades de lidar com seus próprios processos de aprendizagem como aprendizes. Na realidade, a Psicopedagogia é uma área do conhecimento que se apóia nas diferentes Ciências, tais como Pedagogia, Psicologia, Psicanálise, Neurologia, entre outras, integrando seus conhecimentos e princípios coerentemente, tendo como finalidade adquirir uma melhor compreensão a respeito dos diversos processos inerentes a aprendizagem. De acordo com Fernández (1994), a partir do objeto de estudo da psicopedagogia o processo de aprendizagem ainda não foi possível construir uma teoria acerca dessa prática psicopedagógica. Ela menciona que Estamos tentando construir nossa própria teoria, nosso específico enquadramento, os rasgos diferenciadores de nossa técnica e nosso lugar como especialistas em problemas de aprendizagem. (p.102) Como psicopedagogos nossa tarefa é ajudar as pessoas, quer sejam crianças ou jovens, até adultos, a se descobrirem como indivíduos criativos, livres, potencializando suas próprias soluções diante das dificuldades que encontramos. Do ponto de vista de Müller (1984), ao se referir sobre o objeto de estudo da psicopedagogia, deve-se levar em conta como se desenvolve a aprendizagem. É importante, para ela, considerar:

17 16 Que leis regem estes processos; que dificuldades interferem ou impedem; de que maneira é possível favorecer as aprendizagens ou tratar suas alterações. (p.7-8) Para esta autora, a Psicopedagogia liga-se as características da aprendizagem, como se educa, como se ensina, como se aprende, como surgem os problemas da aprendizagem, quais as propostas para tratá-lo, que fazer para preveni-los e promover mudanças nos processos de aprendizagem. O transcurso da prática profissional desenvolvida durante vários anos, define um marco contextual teórico e elabora a pratica em Psicopedagogia, gerando novos enfoques conceituais no interior de si mesmas. Isto demanda realizar uma análise dos próprios pressupostos teóricos da Psicopedagogia, como por exemplo, a que se dedica um psicopedagogo, qual o campo atual da psicopedagogia na Argentina? A graduação em psicopedagogia surgiu há mais de 30 anos na Argentina, na Universidade de Buenos Aires (UBA). Entretanto, o curso passou por três instâncias em relação ao plano de estudo: nos anos de 1956, 1958 e 1961 a ênfase esteve na formação biológica e psicologica; evidenciava-se a formação instrumental do psicopedagogo nos anos de 1963, 1964 e 1969; Assim, com a criação da licenciatura, o enfoque passou a ser clínico e para a obtenção do título de psicopedagogo, a carreira de graduação passou de quatro para cinco anos de duração em 1978, tal como hoje em dia. Bossa (2007), afirma que: Acontece assim, em 1978, o terceiro momento do curso de psicopedagogia, com a criação da licenciatura na matéria, tal como existe atualmente, ou seja, uma carreira de graduação com duração de cinco anos. (p. 43) Durante os trinta anos que se passou desde o seu estabelecimento na Argentina, a Psicopedagogia tem ocupado um significado espaço no âmbito da educação e da saúde. Nesse processo evolutivo, é importante destacar um fato

18 17 relevante que permitiu mudanças na abordagem da Psicopedagogia: da reeducação à clínica. Esse fato se relaciona a década de 70 em que surgiram, em Buenos Aires, os Centros de Saúde Mental, onde atuavam equipes de psicopedagogos que faziam diagnóstico e tratamento para os problemas relacionados à aprendizagem. Esses profissionais observavam que, depois de um ano de tratamento, quando os pacientes retornavam para controle, haviam resolvido os seus problemas de aprendizagem. Mas, surgiam graves distúrbios de personalidade, produzindo-se, pois, um deslocamento de sintoma. A partir daí ocorre uma grande mudança na abordagem psicopedagógica. Os psicopedagogos começam a incluir no seu trabalho a clínica da Psicanálise, resultando no atual perfil do psicopedagogo argentino. Em 17 de setembro de 1982 foi fundada a Federación Argentina de Psicopedagogos (FAP) por um Colegiado Profissional de Psicopedagogos. E esse dia se estabeleceu como o Dia Nacional de Psicopedagogo. Em 1983 foi criada a Asociación de Psicopedagogos de Capital Federal - PSP 2. Mas foi no ano de 1986 que PSP passou a reconhecida juridicamente. È uma instituição que vem trabalhando para o auxílio do psicopedagogo universitário, dos formados em nível de pós-graduação, defendendo o campo profissional, a ética profissional, preservando e enriquecendo o conceito humano de nossa profissão. De acordo com Lamarra (2007), a legislação referida a Educação Superior consagra a autonomia universitária: 2 Para mais informações consulte o site da PSP;

19 18 La Ley Feredal de educación N o , sancionada en el año 1993 y la Ley de Educación n o sancionada emn el año 1995, regulan el sitema educativo en su totalidad y el sistema de educación superior, en particular. La Ley de Educación superior es la primera ley que abarca, en su conjunto, la educación superior universitaria y no universitaria. Ademá, crea la Comisión Nacional de Evaculuación y Acreditación Universitaria (CONEAU) como organismo encargado de la evaculación externa y acreditación de las carreras de posgrado y de las de grado con títulos correspondientes a profesiones regulares por el Estado, fija las normas y las pautas para el reconocimiento de las universidades privadas y los regímenes de funcionamiento de las mismas, tanto provisorio como definitivo. (p. 47) Na Argentina, a especialização em Psicopedagogia tem sido oferecida de forma geral pelos institutos terciários que não contam com autorização do Ministério da Educação, CONEAU, para funcionamento e emissão de certificados com validade acadêmica. Lamarra (2007) argumenta que El Sistema de Educación Superior de Argentina es de carácter binario, es decir está integrado por dos tipos de instituciones: las universidades y los institutos universitarios y los institutos superiores no universitarios (llamados terciarios) que comprende a los institutos técnicos, de formación profesional, de formación docente, etc. Según información suministrada por la Comisión Nacional de Mejoramiento de la educación Superior (CONEDUS), al año 2001 existían alrededor de carreras universitarias de grado y de pregado (3514 carreras de grado y 932 carreras de pregado) y carreras no universitarias. Estas ultimas otorgan títulos como de psicopedagogo y además de las de profesor en las carreras de formación docente. (p ) A constituição nacional da Argentina consagra o respeito pelo direito a educação e a autonomia universitária. Porém, não são delegadas funções para o desenvolvimento da educação garantindo a qualidade do ensino. O sujeito-objeto da psicopedagogia é o ser humano em situação de aprendizagem, contextualizado. (Müller, 1984) 3 A lei foi recentemente revogada a partir da sanção da nova Ley de Educación N o , a qual inclui muito genericamente a Educação Superior em seu artigo.

20 19 Numa entrevista realizada por um site 4, Mônica K. de Rojas Silveyra, psicopedagoga e atual Vice-Presidente da Asociación de Psicopedagogos de Capital federal, argumenta sobre as questões legais acerca do exercício da profissão de psicopedagogo na Argentina: En este momento histórico de la Asociación estamos trabajando conjuntamente con la Federación Argentina de Psicopedagogos, institución de 2do. Grado que agrupa a todos los psicopedagogos universitarios del país, y con la Confederación de Profesionales Universiarios de la República Argentina (CGP) que agrupa a todos los profesionales (médicos, psicólogos, psicopedagogos, etc). Allí se discuten y se defienden en las distintas comisiones los temas relacionados ala problemáticas de cada profesión. En cuanto a la Legislatura de la Ciudad de Buenos Aires, se ha presentado un Anteproyecto de Ley n o 4071 del Ejercicio Profesional del Psicopedagogo en el anõ de 1997, y la suerte corrida es similar. Pero no nos desanimamos, seguiremos y la obtendremos. Conforme a Resolução n o 2473/84, as incumbências profissionais aprovadas pelo Ministério de Educação Nacional, estabelecem que o psicopedagogo possa atuar na área da saúde e da educação, ao que diz respeito à aprendizagem, tendo como intervenções preventivas ou assistenciais. Assim, sua atuação profissional dar-se-á em âmbito do sistema de saúde e no âmbito do sistema educativo em seus diferentes níveis ou modalidades na dimensão pública e/ou privada. A nova Ley de Educación Nacional, Ley N o , publicada no dia 28 de dezembro de 2006, promulga no Capítulo V, artigo 34, que: Articulo 34. La Educación Superior comprende: a) Universidades e Institutos Universitarios, estatales o privados autorizados, en concordancia con la denominación establecida en la Ley N o b) Institutos de Educación Superior de jurisdicción nacional, provincial o de la Ciudad Autónoma de Buenos Aires, de gestión estatal o privada. (p.10-11) No Capítulo IV sobre a Educação Secundaria, a Ley de Educación Nacional também estabelece que: 4 ml (Entrevista extraída em 02 de julho de 2007).

21 20 Articulo 32. El Consejo Federal de Educación fijará las disposiciones necesarias para que las distintas jurisdicciones garanticen: h) La atención psicológica, psicopedagógica y médica de aquellos adolescentes y jóvenes que la necesiten, a través de la conformación de gabinetes interdisciplinarios en las escuelas y la articulación intersectorial con las distintas áreas gubernamentales de políticas sociales y otras que se consideren pertinentes. (p.9-10) Na Argentina, a psicopedagogia tem um caráter diferenciado da psicopedagogia no Brasil, pois naquele país é permitida a aplicação de testes, como, por exemplo, as provas de inteligência, mais conhecidas por teste de Quociente de Inteligência 5 (Q.I.) pelos psicopedagogo. Enquanto, no Brasil, somente os psicopedagogos com formação em Psicologia podem fazer o uso destes tipos de testes. De acordo com BOSSA (2007) alguns instrumentos de uso freqüente por psicopedagogos argentinos não são permitidos aos brasileiros No Brasil não é permitido ao psicopedagogo recorrer a muitos dos instrumentos que são de uso do psicólogo. O psicopedagogo, que não tem formação em Psicologia, quando a situação requer, solicita ao psicólogo ou, dependendo do caso, a outros profissionais (neurologistas, fonoaudiólogos, psiquiatras), habilitados e de sua confiança, as informações necessárias para completar o seu diagnostico. (p. 100) Na década de 60, advém a Psicopedagogia no Brasil, surgindo as primeiras iniciativas de atuação psicopedagógica. Neste período os problemas de aprendizagem eram associados a uma disfunção neurológica: disfunção cerebral mínima 6 (DCM). O rótulo DCM foi apenas um dentre os vários diagnósticos empregados para camuflar problemas de origem sociopedagógicos, termos como Transtorno 5 De acordo com o Dicionário Técnico de Psicologia (2001) o Teste de Inteligência destina-se a avaliar a inteligência geral ou nível mental do indivíduo; pode, inclusive, avaliar certos aspectos da inteligência condensados num só resultado, procurando-se, tanto quanto possível, obter uma avaliação independente dos antecedentes culturais. (p.162) 6 Garcia (1998) diz que durante os anos 50 e 60, considerava a hiperatividade motora como originados por alterações neurológicas ou, inclusive, como o extremo ao longo de um contínuo dentro da variabilidade normal. Isto apontou para uma mudança de nome, de lesão cerebral mínima até a de disfunção cerebral mínima (...) para Transtorno por Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) a partir dos anos 80. (p.74)

22 21 de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDH/A), dislexia e outros mais, são conceitos usados ideologicamente para esse fim. Em 1958, no Brasil surge o Serviço de Orientação Psicopedagógica da Escola Guatemala (Escola Experimental do INEP - Instituto de Estudos e Pesquisas Educacionais do MEC), na Guanabara, atualmente Estado do Rio de Janeiro, tendo como principal objetivo a melhoria da relação professoraluno. Segundo Peres (1998), acredita-se que a primeira experiência psicopedagógica no nosso país ocorreu em 1958, com a criação do Serviço de Orientação Psicopedagógica (SOPP) da Escola Guatemala na então Guanabara. O SOPP tinha como meta desenvolver a melhoria da relação professor-aluno e criar um clima mais receptivo para a aprendizagem, aproveitando para isso as experiências anteriores dos alunos. (p.43) No Brasil, por volta dos anos 70, alguns profissionais preocupados com os altos índices de evasão escolar e repetência, engajados no estudo das causas e intervenções dos problemas educacionais relacionados ao fracasso escolar trouxeram da França para a Argentina os aportes teóricos sobre a Psicopedagogia. Mais recentemente, isto é, desde 1980 até hoje, passamos a conceber o fracasso escolar também como problemas de ensinagem, e não somente de aprendizagem. Essas contribuições foram trazidas para o Brasil, tanto por meio de palestrantes oriundos da França como da Argentina, como também, por meio de professores que participavam de palestras, cursos a respeito da experiência psicopedagógica voltada para a educação. Em decorrência de novas descobertas científicas e movimentos sociais, a Psicopedagogia sofreu muitas influências.

23 22 Em 1979, decorrido quase vinte anos de prática psicopedagógica, surge na cidade de São Paulo, o primeiro curso em nível de pós-graduação em Psicopedagogia no Instituto Sedes Sapientiae, indicando como a área de psicopedagogia é relativamente nova no Brasil. Para Fagali (2007), uma das matrizes geradoras do curso de Psicopedagogia é o Instituto Sedes Sapientiae. Ela ressalta que A retomada das raízes do curso de formação em Psicopedagogia do Sedes Sapientiae justifica-se por ter sido um curso pioneiro na realidade de São Paulo, gerador de líderes de mudança que prosperaram em projetos como o da construção da Associação de Psicopedagogia em São Paulo (p ) Podemos dizer que alguns profissionais que terminavam sua especialização em Psicopedagogia, no Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo, organizaram um grupo para estudar e definir a prática psicopedagógica que melhor trabalhasse os problemas de ensinagem, dando origem a Associação Estadual de Psicopedagogia de São Paulo (AEP). Segundo Rubinstein (1987) A Associação Estadual de Psicopedagogia de São Paulo foi criada por um grupo de profissionais que já atuava na área, acabava de fazer sua formação em Psicopedagogia no Instituto Sedes Sapientiae e sentia a necessidade de ser reconhecido como categoria profissional, consciente de seu papel na comunidade. Tendo a Associação se expandido, pois temos associados do interior de São Paulo e de outros Estados da União e este crescimento faz com que sintamos a necessidade de efetivar a proposta da criação da Associação Brasileira de Psicopedagogia. (p. 13) Após seis anos, de funcionamento a AEP, se tornou a Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPp). Há neste caminho uma diferença fundamental, pois se assume a área de conhecimento psicopedagógico, a partir de um órgão de classe.

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