TAIPA DE MÃO NA MATA DOS COCAIS: UM PATRIMÔNIO CULTURAL

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1 TAIPA DE MÃO NA MATA DOS COCAIS: UM PATRIMÔNIO CULTURAL SILVA, MÔNICA DE L. P. DA (1); MACEDO, ADELAIDE I. DE F. (2); SOUZA, VANESSA C. L. DE (3) 1. Centro Universitário Uninovafapi. Arquitetura Avenida Rachid Abdalla, N 91, Bairro Centro. Timbiras MA CEP: Centro Universitário Uninovafapi. Arquitetura Avenida Tancredo Neves, N 1016, Bairro Vila Militar. Presidente Dutra MA. CEP: Centro Universitário Uninovafapi. Arquitetura Rua Porto, N 1186, Bairro Pio XII. Teresina Piauí CEP: RESUMO Com a evolução tecnológica e a globalização, novos métodos e materiais construtivos surgem constantemente na busca da otimização dos custos e do desempenho de tais, submetendo assim sistemas primitivos ao esquecimento e consequentemente a sua perda. No Brasil, a Taipa de Mão, método construtivo que utiliza madeira, argila e fibra, foi muito utilizada no início da colonização por diversos motivos, como em construções temporárias e mediante a dificuldade de obtenção de materiais mais sofisticados, seja pela dependência de Portugal e/ou por limitações econômicas que a população recente da colônia possuía. Atualmente, a aplicação desta pratica no cenário brasileiro se restringe às construções de baixa renda em estados com Indicie de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M) médio das regiões Norte e Nordeste. Portanto, o presente artigo consiste no estudo da prática e de suas características, com enfoque nos exemplares da região do ecótono da Mata dos Cocais no estado do Maranhão, através da análise da dissertação A Técnica do Pau-a-Pique: subsídios para sua preservação de Mônica Olender, dentre outros artigos, e buscando com isto destacar essa tipologia de arquitetura vernacular em uma tentativa de resgate à importância do patrimônio e da cultura que a técnica representa juntamente de seu acervo. Palavras-chave: Técnicas construtivas; Taipa de Mão; Ecótono da Mata dos Cocais; Arquitetura vernacular; Patrimônio.

2 1.0 INTRODUÇÃO No início da colonização do Brasil, os métodos construtivos lusitanos contribuíram para a modificação das práticas indígenas e africanas devido à escassez de outros materiais. A terra crua se tornou matéria primordial nas construções da época, encontrada em abundância e de fácil manuseio por mão de obra habituada, de forma que as primeiras construções durante o estabelecimento da colônia são provenientes do barro. Em todo o território nacional elas são encontradas diferenciando em diversas técnicas adaptadas ao tipo de vegetação, clima e revelo de cada região a qual estão inseridas. A taipa de mão é um exemplo de técnica construtiva oriunda dessas modificações, e segundo DI MARCO (1984, apud LOPES, W.; INO, AKEMI. 2000, p. 174): Consiste no preenchimento com uma mistura de água, terra e fibras, de uma ossatura interna de madeira ou bambu, formada por ripas horizontais e verticais, com amarração feita de tiras de couro, cipó, barbante, prego ou arame. Esta mistura de terra é jogada com as mãos do lado de dentro e, de fora ao mesmo tempo, e apertada sobre a trama da parede. E dependendo da região em que é empregada, os materiais utilizados diferem, como a exemplo obras do conjunto urbano de Diamantina em Minas Gerais (OLENDER, 2006, p. 02.) produzidas com estruturas mais sofisticadas, como ripas completamente retas sem protuberâncias, e moradias de baixa renda da região norte e nordeste do país, em que normalmente são utilizadas hastes de folhas de palmeiras na produção da trama. Diversas obras arquitetônicas produzidas utilizando este método fazem parte do acervo arquitetônico brasileiro devido sua importância durante a colonização, e a grande maioria delas está sujeita à ignorância pela população, de modo que é natural a falta de reconhecimento e/ou interesse por elas, já que a desconexão cultural, a não relação da consciência histórica para com os artefatos ou construções locais, torna corriqueiro o desprezo a estes. É lastimoso que, mesmo depois ter sido uma técnica usada em larga escala e apesar de estar interligada à nossa cultura, ao longo dos tempos o valor da taipa de mão tenha sido modificada, e infelizmente para o lado negativo, já que na atualidade esta técnica é associada a construções provisórias em invasões a terrenos privados nas periferias de grandes cidades, ou até mesmo a pobreza extrema. Essa discriminação se deve não só à industrialização da construção civil, como também a perda de suas características de execução por falta de conhecimentos apropriados da parte dos construtores, de tal maneira que a consequência

3 mais comum é a diminuição da qualidade final da obra (LOPES, Wilza Gomes Reis et al., p. 72). Consequentemente, a desvalorização de técnicas tradicionais ou regionais é proveniente das alegações de que tais métodos construtivos são ultrapassados, criando uma reconfiguração cultural em que tais métodos são esquecidos e descartados devido a suas características primitivas, fenômeno que decorre do desenvolvimento tecnológico e da globalização. Este trabalho visa então dar relevância as características diferenciais do método de taipa de mão produzido no ecótono da Mata dos Cocais (Figura 1.), que de acordo com (NUNEZ, L. A. P. L. et al, 2012, p. 31) é um tipo de cobertura vegetal de transição entre os climas semiárido, equatorial e tropical, ou seja, gerada pela transição entre os biomas da Amazônia, Cerrado e Caatinga, cobrindo principalmente o estado do Maranhão e sendo marcada pela presença de palmeiras como o Babaçu (Orbignya Speciosa), da qual são retirados alguns dos insumos presentes nas construções de pau-a-pique tão desvalorizadas a nível cultural pela sociedade contemporânea. Figura 1. Mapa do ecótono da Mata dos Cocais (Disponível em: < bf13-2d864e4b097b.jpg> Acesso em Out )

4 De fato, a técnica em Taipa de Babaçu tal qual é reproduzida na região só manteve sua continuidade porque, assim como em outras regiões de um país de proporções continentais, em suma maioria era e é realizada em regiões de difícil acesso, geograficamente interiorizadas e isoladas dos polos de desenvolvimento e capitais presentes mais à costa brasileira. Ainda, o presente estudo foi fundamentado através da análise e levantamento bibliográfico de livros e pesquisas publicadas acerca do tema da taipa de mão, sobretudo da dissertação de Mônica Olender A técnica do pau-a-pique: subsídios para a sua preservação, (2006.), em que esta apresenta definições e elementos importantes, como dados e imagens explicativas, e de seus assuntos derivados que necessitaram da pesquisa de obras como o Dicionário de Ecologia e Ciências Ambientais (2001.) de Henry W. Art, em que foi extraída a definição de ecótono, e (NUNES, L. A. P. L. et al, 2012; SANTOS-FILHO, Francisco Soares; et al, 2013.), assim como outros trabalhos como base para as informações sobre a Mata dos Cocais e apoio de pesquisa. 2.0 HISTÓRIA E CARACTERÍSTICAS DA TAIPA DE MÃO 2.1 A taipa no mundo desde sua origem na arquitetura da terra A terra é uma das matérias mais abundantes no planeta, possui um excelente potencial para ser utilizado como base para a construção, apresentando ainda, dentre outras mais, as vantagens de poder ser utilizada como material construtivo sem necessitar de processos de transformação dispendiosos, isso em termos energéticos, apresentar um bom comportamento térmico e acústico, ser reutilizável e reciclável. Ponte (2012, p. 13), afirma que É no Médio Oriente que nascem as primeiras civilizações arquitetônicas erguidas com o próprio solo do local, espalhando-se posteriormente para outras zonas do globo. Existem evidências arqueológicas com aproximadamente 10 mil anos, de cidades inteiras construídas em terra, algumas delas sobreviventes até os dias de hoje: a cidade de Jericó na Cisjordânia com cerca de anos a.c, totalmente construída em adobe; Çatal Huyuk datada de a.c na Turquia também em tijolos secos ao sol [...], tal como Zigurates na Mesopotâmia com a.c; [...] E que desta maneira as construções em terra são tão antigas quanto o homem que passava a tornar-se sedentário ao deixar de ser nômade. Construções diversas foram e podem ser feitas completas ou parcialmente de terra crua, dependendo fundamentalmente de sua localização, do clima, dos recursos disponíveis, do

5 custo e do uso que se fará do mesmo. As paredes podem ser erguidas de forma monolítica ou não, já que também podem ser empregadas na constituição de elementos construtivos na forma de tijolos, blocos ou painéis. Portanto, nada mais lógico que várias civilizações em todos os continentes, no decorrer da história humana, fizessem uso de tal material em suas construções até os dias atuais, e o Brasil não é exceção, como demonstra Mônica quando diz que [...] foi possível notar o quanto se utilizou, nas duas primeiras décadas do Brasil descoberto, a terra como material de construção. Por sua ocorrência, as técnicas da taipa de pilão, do pau-a-pique e do adobe foram constantemente mencionadas nos relatos dos viajantes que aqui estiveram e nas cartas enviadas do Brasil a Portugal. (OLENDER, 2006, p. 22) A partir do conhecimento de Portugal sobre as novas terras promissoras da América em 1500, a tomada, ou melhor, apropriação das terras para criação de uma colônia seria e foi inevitável, e a partir disto o Brasil, que ainda não possuía tal nome, passou então a ser terra de Portugal, uma simples e valiosa colônia de exploração, fatos estes que são de conhecimento geral e facilmente encontrados em livros de história. Desta forma, os exploradores e desbravadores de novas terras conforme a colônia se iniciava e desenvolvia, deparavam-se com a dificuldade de reproduzir as técnicas tais quais eram familiarmente empreendidas nas construções portuguesas porque, a princípio, não possuíam os materiais necessários, ou mesmo a mão de obra especializada para a execução. Além disso, outros condicionantes eram elementos importantes a se considerar na equação, como o clima, os custos e a cultura dos indígenas. A taipa de mão então, por sua versatilidade de emprego de materiais simples, baixo custo e facilidade de manuseio para execução por se tratar de uma técnica homogenia e muito intuitiva de forma que instruir outros a realiza-la também não era um obstáculo, provou na época ter um enorme potencial contra as adversidades propostas. Mônica Olender (2006. p ) ainda diz que, com o desenvolvimento da colônia, depois das primeiras duas décadas as quais foram marcadas por construções de taipa, os novos materiais como o barro cozido, o ferro e posteriormente o cimento minguaram a necessidade de seu uso, mesmo que ainda em posse de seu espaço na construção civil. Isto posto, o que realmente foi prejudicado durante esse período foi a qualidade a nível executivo da técnica, degradada pelo início da perda do conhecimento do processo em si em edificações de terra crua, e que só mudou já no século XX em meados da década de 70 através do surgimento de pesquisas sobre o uso de técnicas tradicionais e sua aplicabilidade.

6 2.2 Características do método da Taipa de mão A Taipa de Mão (Figura 2.) é também chamada como pau a pique, taipa de sebe, taipa de pescoção, ou taipa de sopapo, sopapo, tapona, e os nomes variam regionalmente (CANTEIRO, PISANI, 2006), assim como o método, podendo haver adições a técnica convencional de madeira, cipós e terra. É uma sistema construtivo ágil, possibilitando o uso de materiais encontrados no entorno da propriedade, e a montagem da estrutura é feita em madeira em que são armadas em tramas de varas/ripas horizontais com espessuras finas, as verticais são os esteios de corpo mais espesso seguindo a função estrutural de auxílio aos pilares, e a peça de arremate final é o frechal que distribui as cargas vindas da cobertura sendo de espessura maior comparada as varas. Figura 2. Representação Esquemática da Taipa de Mão (Disponívem em:< Acesso em Out ) O fechamento das frestas é feito pelo bairro umedecido em consistência pastosa, atribuindo a função de argamassa, sendo 30% de argila e 70% de areia e água. A mistura é composta in loco, amassadas com os pés ou com auxílio de instrumentos agrícolas, até homogeneizar completamente a massa. A fundação consiste em perfurações que são feitas para fixação de hastes verticais com espessura robusta de altura predeterminada, e a disposição da trama de madeira é feita por varas verticais e horizontais de menor espessura amarradas a estrutura, o enlace das peça e quantidade de varas variam com a necessidade da obra, apresentando diversidade de entrelaçados, o número de peças é definido pelo construtor, definido pelo grau de resistência adequada para a obra, os cipós são usados como elo de ligação, entrelaçando cada peça a estrutura, a terra umedecida após sua preparação, será compactada por meio de batidas manuais, modeladas diretamente com mão. A realização do trabalho deve ser feito por dois homens, pois a medida que o barro é lançado de um lado da estrutura, do outo é necessário o suporte para conter a massa, para que não ultrapasse totalmente pelas aberturas. Segundo (PINTO, E. DA S. 2016, p. 41).

7 Para execução das paredes de taipa de mão, é desenvolvido uma trama de madeira, formada pelos paus a pique (peças verticais) e varas (peças horizontais, de madeira ou bambu), fixadas entre si utilizando os mais variados materiais (cipós, fibra de cisal, arame, prego, etc). Várias camadas devem ser postas para que a parede atinja a espessura adequada, cada camada deve ser posta após um breve ressecamento da camada posterior, seguindo esse parâmetro muitas camadas podem ser adicionadas após a finalização do fechamento inicial, a parede chega atingir 15 centímetros de espessura, contando com reforços de camadas posteriores. Após uma breve secagem da camada inicial, nota-se a formação de inúmeras rachaduras provenientes da perca de água, e para não comprometer a acomodação e fixação das camadas vindouras, é fundamental que a aplicação seja feita com cada camada ainda umedecida antes de secar totalmente. Tais camadas auxiliares são recomendadas para reforçar o isolamento termo acústico, pois elas definem a espessura final da parede e quanto mais fina a parede, maior será a necessidade de manutenção dela, já que o ressecamento gera fissuras que fragilizam a camada fina e levando-a a se desprender da estrutura. As últimas camadas têm a função de nivelar as imperfeições causadas pelas rachaduras e suavizando as fissuras feitas pelo ressecamento, provocadas no processo de perda de água, a massa deve preencher todas as fendas abertas, podendo ser desenvolvida a base de areia e água. A eficiência desse método é atribuída ao processo de execução das camadas, pela formação da massa e pela compactação correta para prevenir o desgaste da massa e seu desprendimento da parede. É indispensável o suporte de outros materiais, para aumentar a durabilidade e minimizar os danos pelas intempereis naturais a estrutura. A adição de cimento a massa de barro aumenta a resistência não permitindo o esfarelamento da massa, a medida de adição do cimento como agregado é feita por medida de uma lata para 12 de barro, conservando o princípio rustico e vernácula da técnica. Segundo (MARTINS, A. I. S. 2005, p.3). Para o problema causado pela água das chuvas, temos como exemplo, uma solução simples, que seria construir a casa um pouco acima do nível do solo, exatamente 15 cm, para impedir a erosão das paredes. Outra solução a ser acrescentada a essa seria dar acabamento às paredes, rebocando-as com o mesmo barro que foi usado nas paredes, mas dessa vez fortificando-o com 1 lata de cimento para cada 12 de barro. Essa proporção permite que as

8 paredes se tornem mais maciças, impedindo a eflorescência do barro ocasionado pela umidade. Em vista disso, as chuvas são um dos agravantes mais incisivos a esse tipo de construção, pois o contato direto com a umidade ou a absorção de água fragiliza a estrutura rompendo a massa gradativamente. A proteção da parede pode ser feita através da fundação, sendo ela mais elevada que solo, semelhando as casas coloniais que se utilizam pedras para isolar as paredes do contato direto com a umidade do solo. A medida de cautela aumenta a durabilidade da estrutura e a conservando sem manutenção frequentes. Hoje, reformulaçoes da técnica da taipa de mão permitem que a estrutura receba aplicação de pintura após a nivelação e finalização da secagem, podendo durar um mês para a conclusão do processo. Tintas à base de água são adequadas para a pintura do barro, e existem grande variedade em colorações de barros e minerais. O exemplo mais utilizado é o cal. A importância do acabamento se dá por potencializar a durabilidade da parede, tornando-se fundamental para melhorar a estética da obra, outras misturas podem ser adicionadas a fundação para barrar a infiltração, diminuindo radicalmente o risco de umidade, protegendo a estrutura do acesso de insetos aos espaços não compactados, pois a aglomeração de microrganismos vivos as estruturas comprometem a durabilidade da construção, a combinação de cola branca e pó de madeira vedam as superfícies suscetíveis a danos. De acordo com DI MARCO (1984, apud LOPES, W.; INO, AKEMI. 2000, p. 7) O acabamento dos encaixes do baldrame foi feito com cola branca misturada com pó de madeira, vedando-se os espaços fragilizados, mais sujeitos à infiltração de água e à penetração de insetos. [...] As instalações elétricas e hidráulicas foram embutidas, entre os paus-a-pique de eucalipto roliço, e as paredes foram preenchidas com uma mistura de terra e água, em duas camadas, finalizando com reboco de cimento e areia e pintura em cal. O desempenho da estrutura está totalmente atrelado a execução, e o modo como as tramas são dispostas é livre e dinâmica, pois dependendo do peso ou extensão da construção a quantidade de amarrações mudam, variando com a necessidade da obra, a quantidade de varas e esteios é equivalente ao peso da cobertura, que deve ser distribuídos. A nivelação deve ser feita adequadamente para prevenir o desprendimento da massa, dando aspecto de uniformidade, os materiais de complemento devem ser escolhido a partir da necessidade local. Pois o tipo de solo e espaço em qual está inserido interfere nas escolhas de cada material. Segundo (MARTINS, A. I. S. 2005, p.3),

9 Trata-se de medidas simples que aumentariam o espaço de tempo entre futuras manutenções, que serão auto-sustentáveis devido à abundância das matérias primas empregadas na construção, além do fato de ser um trabalho artesanal. Outro ponto positivo [...], que além de utilizar material abundante na região, é ecologicamente correta pelos impactos mínimos que gera ao meio ambiente. Os novos elementos potencializam a eficiência final da construção, como com a adição de materiais como arame e pregos, aumentando a rigidez na amarração das varas e esteios, ampliando resistência da estrutura e a degradação natural com o passar do tempo. O princípio da técnica não muda mesmo com a adição de novos materiais, mas impulsionam a permanência da construção intacta sem patologias. Segundo DI MARCO (1984, apud ARAÚJO, G. B. FERREIRA, E. D. A. M. CÉSAR, S. F. 2000, p. 4) Para Di Marco (1984), esta técnica, conhecida no Brasil como taipa de sopapo ou de mão, consiste numa estrutura principal em madeira, um entramado em madeira ou bambu, formado por ripas horizontais e verticais amarradas com tiras de couro, cipó, barbante, prego ou arame e preenchido com uma mistura de solo, água e fibras. As patologias devem ser prevenidas desde fundação, com drenagem coerente evitando áreas de acúmulos de águas, é essencial que haja impermeabilização das varas e dos esteios, pois o contato direto dessa estrutura ao solo compromete a durabilidade da construção. Ocorrendo o surgimento precoce de manchas desgastando e comprometendo a estrutura, sendo necessário a troca da peça e manutenções frequentes. Segundo (ARAÚJO, G. B. FERREIRA, E. D. A. M. CÉSAR, S. F. 2000, p. 5) A falta de drenagem, de modo a evitar o acúmulo de águas próximo à construção, a falta de tratamento e impermeabilização das peças de madeira em contato direto com o solo e o uso inadequado da chamada popularmente madeira branca, que é aplicada sem tratamento, diminui e muito a durabilidade da edificação. A falta de uniformidade, tanto em relação aos tipos de madeira, como à seção das peças com mesma função provoca a não estanqueidade da construção. Outro elemento que pode contribuir para a longevidade da moradia é a correção do solo local que se mostra com plasticidade elevada e alta compressividade. O tipo de esquadria usado localmente precisa ser revisto, de forma a possibilitar a iluminação natural e a ventilação quando a mesma se encontra fechada. A longevidade da construção para esse tipo de técnica depende então das precauções que devem ser adotadas desde início da obra, da verificação do solo e observando o grau de umidade, a definição da impermeabilização da fundação e dos elementos de sustentação, tudo isso adaptado para cada região a técnica é locada, pois o clima e as mudanças de estações são características distintas interferem diretamente no desempenho e na

10 durabilidade da construção que podem persistir por séculos como muitos exemplares da arquitetura colonial brasileira A Taipa de mão da Mata dos Cocais Devido a abundância de coqueirais nativos da região, a técnica maranhense apropria-se do uso do lenho e outros insumos da palmeira de Babaçu (Orbignya Speciosa), podendo então ser definida como Taipa de Babaçu, que semelhante à taipa de mão de onde se originou, possui o mesmo esquema de montagem e se diferencia nos materiais utilizados em sua composição. A parte primária da construção é feita por perfurações do solo para receber a fundação e o encaixe das estruturas verticais, após o encaixe do frechal determinando a altura final das paredes, a montagem do telhado é decisiva para o sucesso do preenchimento das estruturas. As camadas demandam tempo de secagem, com controle de evaporação, pois as camadas seguintes dependem da umidade da anterior para aderir na estrutura. A proteção do telhado previne a incidência direta de chuva podendo causar o desmanche da estruturação da massa, promovendo o equilíbrio na secagem do barro. Na parte estrutural, ou nas forquilhas, é comum o uso de madeiras nativas e alta resistência como a Aroeira (Myracrodruon urundeuva), Ipê (Tabebuia serratifolia) para os esteios madeiras, e para os caibros e frechais é comum o uso do Bacurizeiro (Platonia insignis), da Maçaranduba (Manilkara huberi), Tauari (Couratari guianensis) e Sapucarana (Lecythis lúrida) ou, embora raramente, as vezes são extraídos do tronco da palmeira de Babaçu. O principal uso da palmeira de babaçu na construção é, portanto, no emprego das hastes das folhas que servem para compor a trama que irá suportar a fixação do barro, e da palha também utilizada para forração das coberturas e ou fechamentos de painéis para segregar os ambientes, economizando espaços e permitindo a ventilação mutua entre eles. Já para as amarrações, são usados certas espécies de cipós excepcionais por sua maleabilidade e resistência encontrados na mata, o mais evidentes deles é o Cipó Escada (Bauhinia angulosa Vogel), ou escada de macaco, interligando e prendendo cada peça da estrutura de varas verticais e horizontais da trama (Figura 3.).

11 Figura 3 Amarração das hastes sendo realizada (Fonte: Mônica Silva 2017) As paredes então são preenchidas com barro (Figura 4.) para realizar o fechamento, e só então, usando uma ferramenta como uma desempenadeira, é que o acabamento é finalizado. Figura 4. Aplicação das camadas de barro umedecido (Fonte: Mônica Silva 2017)

12 Segundo (AMARAL, F. A. 2017, p.4), as casas de taipa São construções permeáveis à luz e aos ventos, que utilizam como materiais predominantes a madeira e o barro para estrutura e fechamentos, a palha babaçu para fechamentos e cobertura, os cipós timbó, titica ou envira para amarração. Produtos retirados diretamente da mata, cujas técnicas de beneficiamento se transmite por gerações, através da passagem de conhecimento de pais para filhos. A apropriação na retirada dos materiais denota assim o forte elo com a natureza e a fácil interação repassada em cada geração, demonstrada na extração dos materiais de forma não exploratória, como por exemplo, para a composição da cobertura, a palha é retirada do ponto mais alto de cada palmeira e dessa maneira não há dano à sobrevivência das palmeiras da qual as folhas foram extraídas. O isolamento alternativos dos cômodos também é digno de ser notado, já que a palha é usada para a confecção de esteiras feitas por entrelaçamento de variais folhas. Das unidades que fornecem os cipós para amarração, são aproveitados o tronco para estrutura do telhado na sustentação das palhas. De acordo com (NEVES. L. 2008, p.4), A forma de assimilação dos materiais demonstra um vínculo estreito com a natureza e a preocupação em preservar para as futuras gerações. Para a montagem da cobertura em palha, retira-se apenas uma palha do olho de cada palmeira babaçu, procedimento que garante sua sobrevivência. [...] Quando o fechamento lateral das habitações é feito em barro, a técnica utilizada é o pau-a-pique associado à taipa de mão. De forma que a Taipa de Babaçu representa os saberes do povo e sua preocupação com a Mata dos Cocais. 3.0 RELEVÂNCIA DA PRESERVAÇÃO DA TAIPA DE BABAÇU A NÍVEL DE PATRIMÔNIO CULTURAL IMATERIAL De acordo com pesquisa encontrada no sítio eletrônico do IPHAN, Os bens culturais de natureza imaterial dizem respeito àquelas práticas e domínios da vida social que se manifestam em saberes, ofícios e modos de fazer; celebrações; formas de expressão cênicas, plásticas, musicais ou lúdicas; e nos lugares (como mercados, feiras e santuários que abrigam práticas culturais coletivas).

13 Características que qualificam assim o método construtivo da Taipa de Babaçu como manifestação do patrimônio imaterial brasileiro, já que faz parte da cultura local de um povo, neste caso, da população da Mata dos Cocais, e seu status de reconhecimento é que é desconhecido, uma vez que há pouco acervo bibliográfico sobre. Desta forma, é notável o descaso no meio acadêmico, como afirma (LOPES, W.; INO, AKEMI, p. 02) Atualmente a taipa de mão, embora sendo uma técnica de uso corrente em quase todo território brasileiro e amplamente utilizada, desde os primórdios de nossa colonização, encontra-se abandonada, e quase totalmente desconhecida, como possibilidade construtiva, inclusive nas escolas que formam profissionais ligados à construção civil. Ou seja, elas são apenas relembradas ou superficialmente citadas, ligadas apenas a soluções de um passado remoto e não mais necessárias para a formação profissional, de forma a contribuir para o descaso e esquecimento de tais métodos. Logo, mesmo que a arquitetura vernacular, a bio-arquitetura e a taipa de mão estejam sendo relativamente reavivadas com o crescimento do interesse arquitetônico nas técnicas tradicionais, tanto no Brasil como em outros países, a qualidade estética é o único aspecto que se evidencia, dentre vários outros atributos explorados no presente cenário do mercado construtivo contemporâneo. No caso da Taipa de Babaçu, a indiferença para com o método é ainda mais evidente porque nesta região ela é somente, se não com raras exceções, utilizada pela população de baixa renda que a executam de forma precária em casas construídas por diversas vezes pelos próprios moradores por não poder angariar os custos da produção, gerando um caráter efêmero e frágil a um tipo de arquitetura que até hoje perdura em tantos edifícios históricos no país. A falta de conhecimento da técnica então colabora para uma má execução que permite a propagação de insetos como o barbeiro (Triatoma Infestans), e as residências tornaram-se sinônimo da doença de Chagas, sendo que o acabamento do barro quando realizado de maneira correta dificilmente apresenta tais riscos. Como afirma Pelegrini (2006, p. 116) Nos recônditos da memória residem aspectos que a população de uma dada localidade reconhece como elementos próprios da sua história, da tipologia do espaço onde vive, das paisagens naturais ou construídas., e querendo ou não um método construtivo que gera moradias insalubres, independentemente de quais materiais são usados em sua construção, dificultam o reconhecimento além da criação de um vínculo

14 afetivo da população da Taipa de Babaçu como elemento compositor da cultura e do patrimônio imaterial brasileiro. Dessa forma, Paoli (1992, p. 02), afirma que é necessário a [...] produção de uma cultura que não repudie sua própria historicidade, mas que possa dar-se conta dela pela participação nos valores simbólicos da cidade, como o sentimento de fazer parte de sua feitura múltipla. Portanto, a Taipa de Babaçu é também digna de reconhecimento por ser resultante de uma adaptação distinta dentro da técnica da taipa de mão, com características próprias que a identificam e distinguem suas particularidades da original, ou mesmo da Taipa de Carnaúba produzida no estado do Piauí, e espera-se que com este trabalho seu que seu significado cultural seja identificado, em especial sua relevância histórico-artística para a memória e preservação dos métodos tradicionais brasileiros. 4.0 REFERÊNCIAS OLENDER, Mônica Cristina Henriques Leite. A técnica do pau-a-pique: subsídios para a sua preservação DI MARCO, A.R. Pelos caminhos da terra. Projeto. 1984, n.65, p LOPES, W.; INO, AKEMI. habitação em taipa de mão: alternativa de construção mais sustentável. ENCONTRO NACIONAL DE TECNOLOGIA NO AMBIENTE CONSTRUÍDO, p , 2000 ART, H. W. (Ed.). Dicionário de Ecologia e Ciências Ambientais. 2. ed. São Paulo: Editora UNESP - Companhia Melhoramentos, SANTOS-FILHO, Francisco Soares; JÚNIOR, Eduardo Bezerra Almeida; SOARES, Caio Jefiter Reis Santos. COCAIS: ZONA ECOTONAL NATURAL OU ARTIFICIAL?. Revista Equador, v. 2, n. 1, p , PINHEIRO LEAL NUNES, Luís Alfredo et al. Caracterização da fauna edáfica em sistemas de manejo para produção de forragens no Estado do Piauí. Revista Ciência Agronômica, v. 43, n. 1, PINTO, Eduardo da Silva. Solo-cimento compactado: proposta de métodos de ensaio para dosagem e caracterização física e mecânica. 16 de Outubro de p. Pós graduação - Universidade Estadual Paulista. Bauru, São Paulo.16/10/2016. PONTE, Maria Manuel. Arquitetura de terra Dissertação de Mestrado.

15 LOPES, Wilza Gomes Reis et al. A Taipa de Mão em Teresina, Piauí, Brasil: a Improvisação e o Uso de Procedimentos Construtivos. digitar-revista Digital de Arqueologia, Arquitectura e Artes, n. 1, MARTINS, Sandra Cristina Fernandes; ROSSIGNOLO, João Adriano. FICHAS DE INVENTÁRIO: SICG (SISTEMA INTEGRADO DE CONHECIMENTO E GESTÃO) DO IPHAN ESTUDO DE CASO EM PATRIMÔNIO RURAL. digitar-revista Digital de Arqueologia, Arquitectura e Artes, n. 1, CANTEIRO, F.; PISANI, MAJ. Taipa de mão: História e Contemporaneidade TIRELLO, Regina A. A arqueologia da arquitetura: um modo de entender e conservar edifícios históricos. Revista CPC, n. 3, p , AMARAL, Francisco Armond do et al. Bloco de adobe: efeitos da adição de fibra do epicarpo do babaçu NEVES, Leticia et al. A arquitetura popular ribeirinha na Amazônia e a Elaboração de diretrizes de construção sustentável: O caso das reservas extrativistas riozinho do Anfrísio e rio iriri. 10/10/2008. p XI Encontro Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído. Fortaleza CE, 10/10/2008. MARTINS, Ana Isabela Soares. A taipa de pilão como método construtivo de casas populares. 25/08/2005. II Jornada Internacional de Políticas Públicas. p Universidade Federal do Maranhão. São Luís MA, 25/08/2005. ARAÚJO, Geraldo Bezerra. FERREIRA, Emerson de Andrade Marques. CÉSAR, Sandro Fábio. A Técnica Mista Em Assentamentos Humanos De Interesse Social: Um Estudo De Caso No Bairro Do Alegre, Em São Sebastião Do Passé - BA. Universidade Federal da Bahia Mestrado em Engenharia Ambiental Urbana. Salvador BA. PELEGRINI, Sandra CA. Cultura e natureza: os desafios das práticas preservacionistas na esfera do patrimônio cultural e ambiental. Revista brasileira de história, v. 26, n. 51, p , PAOLI, Maria Célia et al. Memória, história e cidadania: o direito ao passado. O direito à memória: patrimônio histórico e cidadania. São Paulo: DPH, v. 99, p. 5-8, IPHAN (Org.). Patrimônio Imaterial, Disponível em:< Acesso em out