MEIO AMBIENTE DE TRABALHO RURAL (condições ambientais de trabalho agrícola nos cerrados piauienses)

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1 1 UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ (UFPI) Núcleo de Referência em Ciências Ambientais do Trópico Ecotonal do Nordeste (TROPEN) Programa Regional de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente (PRODEMA) Mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente (MDMA) THAIS BARBOSA REIS MEIO AMBIENTE DE TRABALHO RURAL (condições ambientais de trabalho agrícola nos cerrados piauienses) TERESINA - PIAUÍ 2010

2 2 THAIS BARBOSA REIS MEIO AMBIENTE DE TRABALHO RURAL (condições ambientais de trabalho agrícola nos cerrados piauienses) Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa Regional de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente da Universidade Federal do Piauí (PRODEMA/UFPI/TROPEN), como requisito para a qualificação de Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente. Área de Concentração: Desenvolvimento do Trópico Ecotonal do Nordeste. Linha de Pesquisa: Políticas de Desenvolvimento e Meio Ambiente. Orientadora: Prof. Dra. Maria Dione Carvalho de Morais TERESINA - PIAUÍ 2010

3 3 THAIS BARBOSA REIS MEIO AMBIENTE DE TRABALHO RURAL (condições ambientais de trabalho agrícola nos cerrados piauienses) COMISSÃO EXAMINADORA Prof. Dra. Maria Dione Carvalho de Morais - UFPI Prof. Maria do Carmo Bédard Membro Prof. José Ribamar de Sousa Rocha Membro

4 Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós. A Ele seja a glória! Ef. 3:20 4

5 OFEREÇO Aos meus pais, Zelene e Homero À minha filha Anne 5

6 6 AGRADECIMENTOS À Deus, pela vida, saúde e capacidade para o trabalho. À professora orientadora Dra. Maria Dione Carvalho de Morais, pela competência, dedicação e compartilhamento seus conhecimentos. Ao meu pai, pelo apoio, conversas, viagens, troca de conhecimentos e por ser um grande exemplo de vida À minha mãe, por ser avó e mãe nos períodos de minha ausência e pela dedicação, apoio, encorajamento, paciência e amor. À minha filha Anne, por ser minha fonte de inspiração e por entender minhas ausências. Ao meu querido José Abreu, pelo amor, companheirismo, paciência e ajuda neste trabalho. Ao meu irmão André, pelos encontros em Uruçuí, pela ajuda e troca de idéias. À minha irmã Nathalie, pelo apoio, dedicação e amor. Ao meu Danielzinho, pela alegria e amor. Aos meus avós Nimpha, Jarbas, Zenaide e Waldomiro, pelas orações e apoio. Aos meus cunhados, pela amizade e encorajamento. Aos professores, amigos e funcionários do mestrado. Especialmente, agradeço: A trabalhadores, trabalhadoras, empresários rurais e administradores das fazendas Brasil Agrícola, Canel, Cimpar, Condomínio União 2000, Itália e Progresso, os quais, nas entrevistas e conversas, possibilitaram a execução desta pesquisa Ao Sr. José Azevedo, técnico de segurança do trabalho, pela viagem de pesquisa, conversas, troca de informações e amizade construída. Ao Sr Altair Domingos Fianco, esposa e filhas, pela amizade, conversas e troca de experiências. Aos amigos do STTR de Uruçuí, na pessoa de Manoel Messias de Sousa Aos auditores e auditoras fiscais da Superintendência Regional do Trabalho do Piauí, nas pessoas de Dr Luis Lima, Dra. Soraya, e Dra. Paula Mazullo.

7 7 RESUMO O amplo desenvolvimento do capitalismo, após a segunda metade do século XX, fez com que a sociedade incorporasse a ciência e a tecnologia no sistema de produção, com importantes desdobramentos, dentre os quais as consequências para o meio ambiente de trabalho. No setor rural brasileiro, o meio ambiente de trabalho agrícola passou gradativamente por profundas mudanças, a partir de 1950, devido à implementação de novas tecnologias na produção, as quais tomaram corpo nos anos de 1960 e No caso dos cerrados do sudoeste do Piauí a partir da segunda metade de 1980, tem início uma ocupação, que se intensificou na década de 1990, com a instalação de grandes projetos agropecuários voltados para a produção de grãos, em especial da soja, para exportação. O município de Uruçuí tem papel histórico nessa trajetória, sendo o local empírico desta pesquisa. Nesse contexto, a presente pesquisa se propôs a verificar as condições ambientais de trabalho em empresas agropecuárias de grande porte, incluídas no complexo carnes/grãos, com vistas a analisar o meio ambiente de trabalho, utilizando como recursos metodológicos observação direta com entrevistas, diário de campo e registros fotográficos. As conclusões da presente pesquisa são que as empresas agropecuárias dos cerrados piauiense vêm, ao longo dos anos, se adequando às normas ambientais laboras, destacando-se a NR 31, embora ainda apresente problemas importantes. A visão dos trabalhadores sobre o meio ambiente laboral é a de um ambiente perigoso, desprotegido, exaustivo. Palavras-chaves: meio ambiente de trabalho, trabalhador rural, cerrados, agricultura.

8 8 ABSTRACT The extensive development of capitalism after the second half of the twentieth century, meant that the company incorporates science and technology in the production system, with important consequences, among them the consequences for the working environment. In rural Brazil, the agricultural work environment has undergone profound changes gradually, from 1950, due to the implementation of new technologies in production, which took shape in the 1960s and 1970s. In the case of the cerrados of southwestern Piauí from the second half of 1980, opened an occupation, which intensified in the 1990s with the establishment of large agricultural projects aimed at the production of grains, especially soybeans for export. The municipality has Uruçuí historic role in this trajectory, and the location of this empirical research. In this context, this research aimed to verify the environmental conditions of employment in large agricultural enterprises, including in complex meat and grain, in order to analyze the work environment, using methodological resources direct observation with interviews, field journal and photographic record. The findings of this research are that the agricultural companies of Piaui are closed over the years, adapting themselves to environmental standards work, emphasizing the NR 31, but still important problems. The sight of workers labor on the environment is an environment dangerous, unsafe, exhausting. Key words: work environment, rural worker, cerrados, agriculture

9 9 LISTA DE FIGURAS p. Figura 01 Distribuição geográfica do cerrado brasileiro Figura02 - A região do cerrado brasileiro Figura 03 Distribuição geográfica do cerrado no Piauí Figura 04 Distribuição das cidades do Piauí. Projeção do município de Uruçuí Figura 05 Distribuição geográfica as mesorregiões do Piauí Figura 06 Fotografia do alojamento da Faz. Brasil Agrícol, em 09/02/ Figura 07 Fotografia do alojamento da Faz. Canel com presença de trabalhador, em 10/02/ Figura 08 Fotografia do alojamento da Faz. Progresso, em 05/05/ Figura 09 Fotografia do alojamento da Faz. Itália, em 05/02/ Figura 10 Fotografia do banheiro da Faz. Canel, em 10/02/ Figura 11 Fotografia do banheiro da Faz. Itália, em 05/02/ Figura 12 Fotografia do banheiro da Faz. Itália, em 05/02/ Figura 13 Fotografia do banheiro da Faz. Progresso, em 02/05/ Figura 14 Fotografia do refeitório da Faz Progresso, em 02/05/ Figura 15 Fotografia do refeitório da Faz Itália, em 05/02/ Figura 16 Fotografia do refeitório da Faz Cimpar, com presença de trabalhador, em 09/02/ Figura 17 Fotografia do refeitório da Faz Canel, em 10/02/ Figura 18 Fotografia da cozinha da Faz. Canel, com presença de cozinheira, em 10/02/ Figura 19 Fotografia da cozinha da Faz. Progresso, com presença de cozinheiro, em 02/05/ Figura 20 Fotografia da cozinha da Faz. Cimpar, com presença de cozinheira, em 09/02/ Figura 21 Fotografia da cozinha da Faz. Itália Figura 22 Fotografia do campo de futebol da Faz. Cimpar em 09/02/ Figura 23 Fotografia da sala de televisão da Faz. Cimpar, com presença de trabalhador, em 09/02/

10 10 Figura 24 Fotografia da sala de televisão da Faz. Progresso, em 02/05/ Figura 25 Fotografia da mesa de sinuca da Faz. Brasil Agrícola, em 09/02/ Figura 26 Fotografia do galpão de máquinas da Faz. Itália, em 05/02/ Figura 27 Fotografia do galpão de máquinas da galpão de máquinas. Faz. Canel, em 10/02/ Figura 28 Fotografia do depósito de agrotóxico da Faz. Canel, em 10/02/ Figura 29 Fotografia do interior do depósito de agrotóxico da Faz. Canel, em 10/02/ Figura 30 Fotografia do depósito de agrotóxico da Faz. Itália, em 05/02/ Figura 31 Fotografia do local para higienização de funcionários da Faz. Canel, em 10/02/ Figura 32 Fotografia da estrada de Uruçuí para a faz. Brasil Agrícola e Cimpar I, em 09/02/ Figura 33 Fotografia da estrada de Uruçuí para a faz. Brasil Agrícola e Cimpar II, em 09/02/ Figura 34 Fotografia da estrada de Uruçuí para a faz. Progresso, em 02/05/ Figura 35 Fotografia da estrada de Uruçuí para a faz. Progresso II, em 02/05/ Figura 36 Fotografia da estrada em frente a faz. Progresso, em 02/05/ Figura 37 Fotografia da estrada que passa pela comunidade do Sangue, em Uruçuí, em 09/02/

11 11 LISTA DE QUADROS Quadro 1- Perfil das fazendas Quadro 2 Normas Regulamentadoras do ambiente laboral Quadro 5 Convenções Internacionais de prevenção do ambiente laboral Quadro 4 Tipos e fatores de riscos e suas consequências Quadro 5 EPIs e sua finalidade Quadro 6 Censo demográfico de Uruçuí Quadro 7 Produção agrícola do cerrado do Piauí em Quadro 8 Produção agrícola do município de Uruçuí em Quadro 9 Classificação dos/as trabalhadores/as sindicalizados Quadro 10 Instrução dos/as trabalhadores/as sindicalizados Quadro 11 funções dos/as trabalhadores/as e suas respectivas remunerações

12 12 LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1 Escolaridade dos/as trabalhadores/as Gráfico 02: Origem social dos/as trabalhadores/as Gráfico 03: Função dos/as trabalhadores/as Gráfico 04: Idade dos/as trabalhadores/as

13 13 LISTA DE ANEXOS Anexo I- Programa do seminário sobre agrotóxicos e normas gerais de meio ambiente de trabalho Anexo II Carta de Uruçuí Anexo III Convenção Coletiva de Trabalho do Setor Graneleiro do Piauí ( ) Anexo IV NR

14 14 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS CTPS Carteira de Trabalho e Previdência Social SRTE Superintendência Regional do Trabalho e do Emprego IBAMA Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis IBGE Instituto Brasileiro de geografia e estatística INSS Instituto Nacional da Seguridade Social MPT Ministério Público do Trabalho NRs Normas Regulamentadoras NRRs Normas Regulamentadoras Rurais OIT Organização Internacional do Trabalho OMS Organização Mundial de Saúde SPR Sindicato dos Produtores Rurais SRT Superintendência Regional do Trabalho STTR Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais

15 15 SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO Sobre a incorporação agrícola dos cerrados No Brasil No Nordeste No Piauí Meio ambiente de trabalho rural em empresas agropecuárias dos cerrados piauienses Meio ambiente e meio ambiente de trabalho Meio ambiente de trabalho rural, tecnologia e os desafios do equilíbrio ambiental laboral Sobre a proteção legal do meio ambiente de trabalho NR Saúde e segurança como dimensões da dignidade de trabalhadores/as Do meio ambiente de trabalho rural em empresas agropecuárias do cerrado piauiense Alojamentos Instalações sanitárias Refeitório Lazer Manutenção das máquinas e equipamentos Depósito de agrotóxicos Equipamentos de proteção individual EPIs Transporte Anotação na carteira de trabalho Fiscalização Treinamentos Jornada de trabalho Comissão Interna de Prevenção de Acidente de Trabalho CIPA Visão dos empregadores sobre a mão de obra local Aspectos estruturais da região de Uruçuí que afetam o meio ambiente de trabalho rural O meio ambiente de trabalho na visão de trabalhadores/as rurais Quem são esses/as trabalhadores/as

16 Meio ambiente de trabalho na visão dos/as trabalhadores/as rurais Sobre jornada e ritmo de trabalho O trabalho com agroquímicos: uso e (des) proteção Sobre o uso de equipamentos de proteção individual EPIs Acidentes de trabalho e CIPA na visão de trabalhadores/as rurais Dos mecanismos de controle do tempo e do corpo de trabalhadores/as rurais CONCLUSÃO REFERÊNCIAS

17 17 1. INTRODUÇÃO Os amplos desdobramentos, sobretudo, tecnológicos, do processo de desenvolvimento do capitalismo, na segunda metade do século XX, fizeram com que a ciência e a tecnologia fossem, definitivamente, incorporadas ao sistema de produção, o qual passou por inúmeras transformações causadas, principalmente, pela ampliação das fontes de energia, aumento da produtividade do trabalho, novas tecnologias, utilização de novas matérias. Essas mudanças exigem, constantemente, novas formas de reestruturação e adaptação e provocam um uso intenso do meio ambiente natural, com sérias conseqüências para o meio ambiente de trabalho, diretamente para trabalhadores e trabalhadoras e indiretamente à sociedade. Põe-se, assim, a necessidade de estudar o meio ambiente de trabalho, porquanto o/a trabalhador/a permanece, ali, grande parte da sua vida, sofrendo os seus impactos. Com efeito, a qualidade de vida do/a trabalhador/a está diretamente ligada à do seu meio ambiente de trabalho, o qual, para garantir-los a dignidade, saúde e segurança, deve ser sadio, adequado, e equilibrado. Convém lembrar que o meio ambiente de trabalho não se restringe ao espaço físico da empresa ou estabelecimento, sendo entendido como o local onde o/a trabalhador/a desenvolve a atividade. O meio ambiente de trabalho é um espaço onde todos os elementos, inter-relações e condições que influenciam o trabalhador/a em sua saúde física e mental, comportamento e valores estão reunidos. E não há como compreende-lo sem considerar o ponto de vista do/a trabalhador/a, figura essencial para se caracterizar um meio ambiente como de trabalho (ROCHA, 2002). Assim, a característica fundamental que distingue o meio ambiente de trabalho dos outros ambientes é justamente a ação antrópica delimitadora e transformadora do espaço físico através do seu labor.

18 18 Em suma, o ambiente de trabalho constitui-se em esfera circundante do trabalho, espaço transformado pela ação antrópica. Por exemplo, uma lavoura, por mais que seja realizada em permanente contato com a terra, caracteriza-se como um meio ambiente do trabalho pela atuação humana. Em outras palavras, apesar de a natureza emprestar as condições para que o trabalho seja realizado, a mão semeia, cuida da planta e colhe os frutos da terra, implantando o elemento humano na área de produção (ROCHA, 2.002, p. 131) (grifo meu). Convém lembrar que o meio ambiente de trabalho rural, via de regra, constitui-se de bens ambientais que necessitam de preservação, para que trabalhadores/as possam viver uma vida com qualidade, garantindo assim a dignidade da pessoa, protegida, no ordenamento jurídico brasileiro, pela Constituição Federal de Com efeito, o artigo 7º dispõe sobre direitos de trabalhadores e trabalhadoras urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social, como a redução dos riscos inerentes ao trabalho, por meio de normas de saúde, higiene e segurança (inciso XXII), o adicional de remuneração para as atividades penosas, insalubres e perigosas, na forma da lei (inciso XXIII), e seguro contra acidentes de trabalho, a cargo do empregador, sem excluir a indenização a que este está obrigado, quando incorrer em dolo ou culpa (inciso XXVIII). Para maior compreensão do meio ambiente de trabalho rural, de que trata esta pesquisa, assente-se que a agricultura do Brasil, a partir de 1950, sofreu uma grande mudança em seu padrão tecnológico, em decorrência da introdução, no país, do pacote tecnológico da chamado Revolução Verde 1 (agrotóxicos, insumos, financiamentos, introdução de maquinários, etc.), ocorrendo, como lembra Silva et al (2.005, p. 895), uma passagem do complexo rural para o complexo agroindustrial 2. 1 Revolução Verde refere-se à invenção e disseminação de novas sementes e práticas agrícolas que permitiram um vasto aumento na produção em países ditos menos desenvolvidos durante as décadas de 1960 e O modelo se baseia na intensiva utilização de sementes melhoradas (particularmente híbridas), insumos industriais (fertilizantes e agrotóxicos), mecanização e diminuição do custo de manejo, além do uso extensivo de tecnologia no plantio, na irrigação e na colheita, assim como no gerenciamento de produção (BOURLAUG, 2009) 2 Complexo Rural, ligado ao capital comercial, encontrava-se atado ao comércio externo por um produto valorizado no mercado internacional, sendo as unidades produtoras (fazendas e engenhos/usinas) quase autos-suficientes. Para realizar a produção, voltada à exportação, elas se proviam, dentro de suas possibilidades, de artesanatos e manufaturas, e produziam equipamentos rudimentares para o trabalho, e insumos simples, além de transporte, um contexto no qual a divisão social do trabalho apresentava-se bastante incipiente. É interessante

19 A partir de 1975, com o I Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), houve a abertura do Brasil ao comercio internacional dos produtos agrícolas e, com isso, incentivam-se os produtores a usar enorme quantidade de agrotóxicos, inclusive com financiamentos para isso. Dessa forma tem-se uma grande expansão na produção agrícola, principalmente via médios e grandes proprietários, voltada ela para a exportação. No Brasil, esse processo de modernização agrícola foi, em grande medida, ancorado na incorporação agrícola dos cerrados (MORAES, 2000),seja pela facilidade do cultivo com maquinários e facilidade de adubação e irrigação,seja pelo baixo custo da terra. Assim, o meio ambiente de trabalho rural, em especial nos cerrados, passou por intensas transformações. Este processo, que se deslancha no Brasil na década de , atinge o Estado do Piauí, sobretudo na região sudoeste 19 a incorporação dos cerrados piauienses ao agronegócio do complexo carnes/grãos é, como foi dito, caudatária do processo que incorporou as chapadas do Centro-Oeste brasileiro e do sul do Maranhão e oeste da Bahia. O fato de a incorporação do Piauí ter-se dado mais tardiamente (embora seja o Piauí, dos estados nordestinos, o que possui maior área de cerrados), vincula-se a certas questões de âmbito interno e externo ao estado (MORAES, 2000, p 206) No caso do sudoeste do Piauí, há antecedentes importantes dessa expansão já na década de 1970 com a constituição de um mercado de terras estimulado pela Sudene, através do Finor agropecuário (MONTEIRO, 1993; MORAES, 2000). Na segunda metade dos anos 1990, esse processo se intensificou com a instalação, na região, de grandes projetos agropecuários. Nesse sentido, a partir de meados da década de 70 o Cerrado Piauiense começa a despertar o interesse de diversas empresas agropecuárias e investidores individuais de outros Estados para a exploração da pecuária de corte e reflorestamento com caju destaque para o Rio Grande do Sul, Pernambuco, São Paulo e Mato Grosso que instalaram e desenvolveram extensos projetos agropecuários na região, em ressaltar que o desenvolvimento industrial brasileiro, indutor de mudanças no setor agropecuário, ocorreu, ao contrário dos países centrais, sem o substrato da revolução agrícola. Já o omplexo Agroindustrial o processo histórico da passagem do denominado complexo agrário ao complexo agroindustrial encontra-se envolvido na substituição da economia natural por atividades agrícolas integradas à moderna industrialização, a intensificação da divisão do trabalho e das trocas intersetoriais, a especialização da agricultura e a substituição das importações pelo mercado interno (ERTHAL, 2006) 3 Para detalhes, ver Moraes (2000)

20 20 decorrência das condições edafo-climáticas favoráveis ao plantio de culturas comerciais, pois permite a mecanização dos solos, conta com insumos básicos, motivados pelas jazidas de calcário e fosfato relativamente abundantes, o crédito rural, disponível por meio dos bancos oficiais (Banco do Brasil e Banco do Nordeste) e dos baixos preços das terras. Mais recentemente (início da década de 90), os investidores passaram a explorar a agricultura para a produção de grãos, arroz de sequeiro de terras altas, milho e, principalmente, soja, com a obtenção de elevada lucratividade (OLIMPIO, 2005, p. 5). Atualmente, os grandes projetos agropecuários do complexo carnes-grãos instalados no sudoeste do Piauí voltam-se para o cultivo de grãos, dentre eles soja, milho e arroz, além do algodão, e utilizam tecnologias avançadas, destacando-se, entre outros, maquinários, adubos, agrotóxicos e sementes modificadas geneticamente, sem dizer da armazenagem da produção. O município de Uruçuí 4 tem papel histórico nessa trajetória de incorporação dos cerrados piauienses, sendo, por isso, o local empírico desta pesquisa 5. Com toda essa inovação na produção agrícola, o meio ambiente de trabalho rural sofreu inúmeras mudanças, as quais atingiram diretamente a vida do/a trabalhador/a rural. Sem dúvida, o conjunto de transformações referidas trouxe avanços no trabalho agrícola, como a diminuição, em muitos casos, da penosidade do trabalho, em muitas tarefas. No entanto, a utilização indevida das tecnologias modernas da agricultura, a jornada de trabalho excessiva, a não observação das leis de proteção à saúde e segurança do/a trabalhador/a, a falta de infraestrutura da região, dentre outros, causam a degradação do meio ambiente de trabalho rural, pondo a vida desses/as trabalhadores/as em risco iminente, principalmente no que tange aos acidentes laborais, como os decorrentes de manuseio de ferramentas manuais, máquinas e implementos, contato com animais peçonhentos, exposição a agentes químicos, infecciosos e parasitários endêmicos, exposição às radiações solares por longos períodos, exposição a ruído e vibração excessivos, exposição a partículas de grãos 4 O município de Uruçuí foi sede dos primeiros testes de experimentos de pesquisa científica sobre soja adaptada iniciada em 1978 e lançada em 1980 pela Embrapa-UEPAE-Teresina, as quais foram divulgadas no I Seminário sobre Cerrado Piauiense, que ocorreu em Além disso, Uruçuí foi um dos municípios-base do chamado Pólo de Desenvolvimento Integrado Uruçuí-Gurguéia nos anos 1990 (MORAES, 2000). 5 Em termos de territórios de desenvolvimento e territórios de desenvolvimento e de cidadania, Uruçuí localiza-se no território Tabuleiros do Alto Parnaíba-PI

21 armazenados, exposição a fertilizantes, exposição a agrotóxicos e jornadas extensas (SILVA et al, 2005): Como se vê, o meio ambiente de trabalho agrícola moderno é muito amplo e envolve vários aspectos do meio ambiente mais amplo. A importância do estudo aprofundado do meio ambiente de trabalho, tema, ainda, tão pouco aclarado e discutido pela doutrina e jurisprudência pátria, deriva do fato de ser este o aspecto da interação do homem com o seu meio ambiente no qual se desenrola boa parte de sua vida, enquanto busca sua sobrevivência através do trabalho, cuja qualidade de vida está, por isso, em íntima dependência da qualidade desse ambiente.(padilha, 2002) 21 Com base no exposto, a presente pesquisa se propôs a verificar as condições ambientais de trabalho em empresas agropecuárias desse complexo, com ênfase no ponto de vista dos/as trabalhadores/as. A problemática inicial da pesquisa pôde ser assim esboçada: diante da tecnologia utilizada na agricultura moderna, da falta de infraestrutura da região de Uruçuí no que tange a acesso a serviços governamentais básicos, do choque cultural entre produtores e trabalhadores/as rurais, o meio ambiente de trabalho rural em propriedades agrícolas do município de Uruçuí é adequado à garantir a saúde e segurança desses/as trabalhadores/as? No andamento da pesquisa, o problema foi sendo reformulado na seguinte direção: quais são as condições ambientais de trabalho assalariado em empresas agropecuárias do município de Uruçuí-PI que utilizam tecnologias avançadas na produção? Como pressupostos iniciais, delineou-se que o uso inadequado da tecnologia disponível na agricultura moderna, a falta de infraestrutura na região de Uruçuí a ponto de inibir o acesso à serviços básicos (saúde, educação, INSS, justiça, saneamento básico) e a não compreensão do universo cultural de trabalhadores/as comprometem as condições ambientais de trabalho, causando danos aos/as trabalhadores/as rurais e pondo em risco a sua dignidade, em especial a saúde e segurança do trabalho. O objetivo geral da presente pesquisa foi analisar as condições ambientais de trabalho assalariado em propriedades agrícolas que utilizam tecnologia moderna na produção de grãos do cerrado piauiense, no município de Uruçuí.

22 22 Os objetivos específicos foram os seguintes: Verificar a aplicação das normas de proteção ao/a trabalhador/a rural no que tange à saúde, segurança e dignidade. Averiguar se há fiscalização adequada desse trabalho por meio dos órgãos públicos; Compreender as práticas culturais dos/as trabalhadores/as rurais sobretudo no tocante a utilização por estes dos equipamentos de proteção individual (EPI); Examinar a infra-estrutura do município de Uruçuí, no que tange a oferta de serviços básicos como saúde, educação, acesso a justiça, INSS; Apreender a qualidade do meio ambiente de trabalho em propriedades agrícolas do cerrado piauiense, no município de Uruçuí, inclusive do ponto de vista dos/as trabalhadores/as. Métodos de investigação As primeiras sondagens no campo de estudo para a formulação do problema de pesquisa e dos pressupostos iniciais se deram em duas viagens. A primeira sondagem ocorreu em abril de 2008, quando visitei duas fazendas, às quais tive acesso pela mediação do Sr. João Emanuel, que trabalhou em Uruçuí como gerente de uma revenda de máquinas e equipamentos para agricultura e, por essa razão, tem grande amizade com alguns empresários rurais. Nessa ocasião, conversei com alguns proprietários sobre os problemas de meio ambiente de trabalho da região e também com três auditores da Superintendência Regional do Trabalho (SRT), os quais contactei por meio da minha orientadora do mestrado, prof. Dione Morais, o que se revelou fundamental para reunir elementos para delimitar o objeto de estudo e reformular o desenho da pesquisa.

23 23 A segunda viagem ocorreu em novembro do mesmo ano, quando participei do Seminário sobre Agrotóxicos e Normas Gerais de Meio Ambiente de Trabalho, em Uruçuí, promovido pelo Ministério do Trabalho (anexo 1). No período da manhã, o Seminário contou com três palestras: a primeira sobre Efeitos dos agrotóxicos no organismo humano e meio ambiente do trabalho, ministrada pelo Dr. Francisco Luis Lima, médico e auditor fiscal da SRT-PI; a segunda sobre Responsabilidades legais quanto à saúde e segurança no trabalho, ministrada pelo Dr. Edno Carvalho, procurador do Trabalho da 22ª Região, e a terceira sobre Manuseio correto dos agrotóxicos e aspectos legais do transporte, comercialização e destino final das embalagens, ministrada pela dra. Ana Telma Maria Soares, coordenadora regional de operações do Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias (Inpev). À tarde, foram realizadas três oficinas: Proteção dos trabalhadores no uso de agrotóxicos e destinação das embalagens ; Direitos e deveres dos trabalhadores rurais quanto às normas de saúde e segurança no trabalho e Receituário agronômico, prescrição e legislação. O seminário ainda contou com debates sobre agrotóxicos e meio ambiente de trabalho, dos quais participaram representantes do Ministério Público do Trabalho (MPT), do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), da Superintendência Regional do Trabalho, dos Sindicatos dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais (STTR s) e do Sindicato dos Produtores Rurais. Nas discussões foi possível vislumbrar graves problemas enfrentados por trabalhadores/as e produtores rurais na região de Uruçuí como a ausência de posto do INSS e de representação local da Justiça do Trabalho, dificuldades de infraestrutura (estradas precárias, atendimento precário de saúde, falta de médicos capacitados para tratar de problemas de saúde relacionados ao trabalho rural), situações que permitiram uma melhor apreensão da situação do meio ambiente de trabalho rural na referida região. Ao final do seminário elaborou-se a Carta de Uruçuí (Anexo 2), com compromissos firmados por representantes do MPT, IBAMA, SRT, STTR e SPR.

24 24 Após as sondagens iniciais de campo, deu-se a identificação de situações que influem no meio ambiente de trabalho rural, dentre estas, o choque cultural entre empresas e trabalhadores/as. Na região de Uruçuí, os produtores agrícolas modernos, os chamados gaúchos 6, vieram em sua maioria do Centro-Oeste, Sudeste, e Sul do país. Por seu termo, a maioria dos/as trabalhadores/as rurais são da região, tem origem social na agricultura familiar camponesa local. Assim, se os produtores rurais chegam para a instalação de projetos voltados para a agricultura tecnificada, a mão de obra é constituída de trabalhadores/as que nasceram e cresceram no âmbito do campesinato, muitos/as dos quais sem o ensino fundamental completo e sem nenhum contato, até então, com tecnologias utilizadas no padrão de agricultura moderna que se instalou no cerrado do Sudoeste piauiense. Isso, em certa medida, acaba por dificultar a inserção desse/a trabalhador/a no processo produtivo da agricultura tecnificada. Tal empecilho não pode ser vista como mera incompetência ou despreparo de trabalhadores/as locais. Na verdade trata-se de uma passagem de um campesinato, como diz Moraes (2000), de um modo de vida entre baixões e chapadas, para o trabalho assalariado em empresas agrícolas modernas. Esse campesinato que vivia, assim, nas marcas de uma agricultura de aprovisionamento nos baixões, associada ao uso da chapada, inclusive no que tange ao extrativismo, vê-se às voltas com o trabalho assalariado nas empresas agropecuárias de grande porte, instaladas nas chapadas. Mesmo sem negar a capacidade de aprendizado e de adaptação dessa população camponesa a novas situações, não há como ignorar diferenças importantes em termos de lógica produtiva (aprovisionamento X mercado); escala de produção (cultivo de tarefas X cultivo de milhares de hectares); tecnologia (agricultura de sequeiro no sistema roça-de-toco X agricultura moderna); uso de tempo (controle do tempo X tempo controlado); trabalho (familiar X assalariado); 6 O termo gaúchos refere nos cerrados nordestinos, em especial, no Piauí, os novos produtores rurais, predominantemente do Sul do país, mas não apenas do Rio Grande do Sul. Os gaúchos, a partir da década de 1980 aportaram na região, atraídos pela abundância de terras, as quais comparadas às das suas regiões de origem e bem mais baratas (MORAES, 2000)

25 autoridade (do pai X do patrão, capataz); riscos (mais ou menos conhecidos e controlados X riscos desconhecidos e fora do controle), dentre outros. Ante a complexidade do tema, convém assinalar que a interdisciplinaridade é fundamental para esta abordagem. De fato, 25 O estudo do meio ambiente do trabalho passa hoje a ter um caráter marcadamente interdisciplinar, não se recusando a colher os subsídios de outras disciplinas e ciências. (FIQUEIREDO, 2.007, p. 32) Assim, necessário se fazem conhecimentos de outras áreas como direito, sociologia, antropologia, filosofia, economia, geografia, dentre outras como se verá ao longo do texto dissertativo. Na configuração metodológica da pesquisa, foi realizado um estudo de caso (GOLDEMBERG, 2001; MAY, 2004) no município de Uruçuí-PI em empresas agropecuárias. Visando a uma descrição densa (GEERTZ, 1989), a abordagem da pesquisa teve cunho predominantemente qualitativo (ALVES- MAZZOTI, 2004; GOLDENBERG, 2001), o que não excluiu a utilização de informações e dados quantitativos. O conjunto de métodos empregados compreendeu pesquisa bibliográfica e documental (MAY, 2004; SPINK, 2000, RUIZ, 2006) e de campo (GOLDENBERG, 2001, COUTINHO, 2004). No trabalho de campo, as técnicas utilizadas para a construção de inferências empíricas foram observação direta (COUTINHO, 2004); diário de campo (WITHAKER, 2008) conversas informais no cotidiano (MENEGON, 2000) e entrevistas semiestruturadas com tópicos-guia (GASKEL, 2003) com proprietário/as, administradores/as e trabalhadores/as agrícolas de empresas agropecuárias de Uruçuí, funcionário/as do STTR e da SRT. As entrevistas foram gravadas, transcritas e processadas visando à análise de seu conteúdo na perspectiva de construção de sentidos (APPOLINÁRIO, 2006), (SPINK, 2000). O diário de campo, de suma importância para anotação de observações feitas no cotidiano de pesquisa, foi utilizado para registro das observações, conversas informais e entrevistas com gravações impossibilitadas por não consentimento da pessoa entrevistada. As entrevistas com proprietários e administradores das empresas agropecuárias se realizaram nas próprias sedes locais das fazendas, oportunidade em que o processo de observação direta, no trabalho de campo,

26 26 pode ser registrado por imagens fotográficas, alem do diário de campo. Observaram-se, assim, as condições estruturais das fazendas, como alojamentos, banheiros, refeitórios, cozinhas, depósito de agrotóxicos, galpões de máquinas e espaços de lazer. Foram visitadas seis empresas. Entrevistaram-se dois empresários rurais de duas delas e cinco administradores, sendo um de cada uma. Através das informações fornecidas pelos empresários e administradores, montou-se seguinte quadro com o perfil de cada uma (quadro 1): Empresa Nº de Nº de Ha Produtos Ano de Origem funcio nários funcionários temporários 1 cultiva dos cultivados estabelecimento dos produtores Brasil a Soja, milho, arroz 2004 EUA Agrícola Canel a Soja, milho, arroz 1988 SP Cimpar Soja, milho, arroz RS Condomí 13 7 a Soja, milho, arroz 2000 PR nio União 2000 Itália Soja, milho, arroz, 1994 MS algodão Progresso a Soja, milho, arroz, 1992 MG algodão 1. Os funcionários temporários são contratados nos períodos de plantio e colheita, com contratos de trabalho de 45 dias. Quadro 1: Perfil das empresas do município de Uruçuí, As entrevistas com trabalhadores/as foram feitas em suas residências, na sede do município, e no Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais - STTR de Uruçuí. O acesso aos trabalhadores se deu via sindicato e através de um moto-taxista, o Sr. Sebastião, com ponto de trabalho na rua a trás do hotel em que me hospedei. O Sr. Sebastião conhecia vários/as trabalhadores/as e me levou às suas casas. Na oportunidade, pude observar a infraestrutura da cidade, com praticamente todas as ruas sem nenhum tipo de calçamento e com buracos e valetas grandes decorrentes das chuvas. As casas dos/as trabalhadores/as entrevistados/as localizam-se em bairros perifericos e, embora simples, são construídas com alvenaria e com piso de cimento (somente uma era de taipa). São casas com aparelho de televisão, de digital vídeo disc - dvd, fogão, refrigerador doméstico, antena parabólica e móveis como sofá, cadeiras e estantes.

27 27 Foram entrevistados, ao todo, dezoito trabalhadores e duas trabalhadoras rurais de quatro empresas agropecuárias instaladas e operando no município de Uruçuí. A pedido dos/as entrevistados/as, eles/as não são identificados/as pelo nome, a fim de não sofrerem prejuízo na empresa onde trabalham. Entrevistaram-se também o presidente do STTR de Uruçuí, o vicepresidente do Sindicato dos Produtores Rurais - SPR de Uruçuí, dois auditores fiscais da SRT-PI, um agrônomo que atua como autônomo na região, um vendedor de produtos químicos utilizados na agricultura e o técnico de segurança do trabalho de cada uma das fazendas pesquisadas. Foram realizados dois relatórios parciais de pesquisa solicitados pela orientadora no processo de orientação, acompanhamento e (re)direcionamento. Neste relatório final, a dissertação, a exposição textual se compõe, além da introdução, de três capítulos e conclusão e anexos. O Capítulo I aborda elementos do processo de incorporação dos cerrados brasileiros pela agricultura moderna, tecnificada e intensiva. Refere a essa incorporação como o chamado celeiro do mundo, especificando o processo no Nordeste, em especial, no Sudoeste do Piauí, tido nas narrativasmestras como ultima fronteira agrícola (MORAES, 2005).O Capítulo II enfoca teoricamente o tema meio ambiente de trabalho, em sua necessária relação com os temas teóricos meio ambiente, Direito ambiental e direito do trabalho, e os referentes à proteção legal, saúde e segurança do trabalhador e a busca de um meio ambiente laboral equilibrado. Nesse mesmo capítulo descreve-se o meio ambiente de trabalho rural em empresas agropecuárias do cerrado, tendo como base a pesquisa de campo realizada em 2009, e as condições estruturais da região de Uruçuí que nele interferem.o Capítulo III trata da visão que trabalhadores/as rurais das empresas agropecuárias pesquisadas têm sobre o seu meio ambiente de trabalho rural. Neste capítulo, privilegiam-se as vozes de trabalhadore/as, na perspectiva não apenas descritiva mas interpretativa dos sentidos por ele/as agenciados às relações que experienciam, no sentido que Thompson (1981) atribui ao termo experiência. Isto se escreve com base no trabalho de observação direta realizado na pesquisa de campo, e nas entrevistas e conversas com trabalhadores e trabalhadoras das empresas agropecuárias abordadas na pesquisa. Busca-se, assim, trazer à tona o

28 28 pensamento social (STROH, 2003) do grupo investigado, frente às condições ambientais laborais. Por fim, na conclusão, apresentamos uma síntese do que foi averiguado e apontamos para outras possibilidades de investigação a partir desta pesquisa. O presente estudo buscou realizar uma descrição densa do meio ambiente de trabalho rural em empresas agropecuárias do cerrado piauiense, tendo como lócus empírico o município de Uruçui, averiguando-se a partir da análise das condições laborais de trabalhadores/as, como está sendo utilizada a mão de obra assalariada nessas propriedades. Pretensão maior é contribuir para o debate público dos riscos à saúde e à segurança de trabalhadores/as rurais e da adequação do meio ambiente de trabalho rural a um padrão ideal.

29 29 2. SOBRE A INCORPORAÇÃO AGRÍCOLA DOS CERRADOS O presente capítulo aborda o processo de incorporação agrícola dos cerrados brasileiros que, como afirma Moraes (2000), são tratados, nas narrativas-mestras de desenvolvimento, como uma passagem de um espaço vazio a outro, preenchido pela agricultura moderna, chamado de celeiro do mundo. Assim, será referida a incorporação dos cerrados no Centro-Sul e no Nordeste brasileiro e, especificamente, no sudoeste do Piauí 7, tido nas mencionadas narrativas, como a ultima fronteira agrícola brasileira. 2.1 No Brasil O bioma cerrados 8 abriga pelo menos 6 mil espécies de plantas lenhosas, com elevado grau de endemismo, e mais de 800 espécies de aves, agregadas a uma variedade de peixes, abelhas e outros invertebrados. Gramíneas são mais de 5 centenas, na maioria endêmicas, perdendo espaço para os capins exóticos utilizados na formação de pastagens. A biodiversidade do cerrado representa 5% da do planeta (MMA, 2005) e 20% brasileira. Os cerrados brasileiro localiza-se, predominantemente, no plano central do Brasil e constitui a segunda maior formação vegetal brasileira (fig. 1), 7 Os cerrados do sudoeste do piauiense se estendem pelos seguintes municípios: Ribeiro Golçalves, Santa Filomena, Uruçuí, Antônio Almeida, Bertolínea, Eliseu Martins, Manoel Emídio, Landri Sales, Marcos Parente, Floriano, Guadalupe, Itaueira, Jerumenha, Barreira do Piauí, Bom Jesus, Gilbués, Monte Alegre do Piauí, Santa Luz, Palmeira do Piauí, Corrente, Cristalândia do Piauí, Cristino Castro, Baixa Grande do Ribeiro e Currais. O Estado possui outras áreas de cerrados, mas nesta investigação se volta às referidas regiões. 8 Bioma semelhante recebe o nome de savanas que se caracteriza por uma vegetação com predominância de gramíneas, árvores esparsas e arbustos isolados ou em pequenos grupos. Normalmente, as savanas são zonas de transição entre bosques e prados, sento típicos das regiões de clima tropical com estação seca, sendo as da África o exemplo clássico e uma das mais famosas é o Serengueti, que fica na área leste do continente, próximo à Etiópia.

30 30 sendo a primeira a Floresta Amazônica. Com uma área de aproximadamente dois milhões de Km², o que equivale a 22% do território nacional, ocupando a totalidade do Distrito Federal, mais da metade dos estados de Goiás (97%), Maranhão (65%), Mato Grosso do Sul (61%), Minas Gerais (57%) e Tocantins (91%), além de outras unidades federativas, dentre eles o Piauí, onde corresponde a porções distribuídas nas regiões Centro-Oeste, Centro e Norte (MMA, 2005). Figura 1: Distribuição geográfica dos biomas brasileiros Fonte: IBGE (2004) Os cerrados são a segunda maior região biogeográfica do Brasil, englobando 12 estados (fig. 2). Sua área nuclear ocupa todo o Brasil central,

31 31 incluindo Goiás, Tocantins, Mato Grosso do Sul, a região sul de Mato Grosso, o oeste e norte de Minas Gerais, o oeste da Bahia e o Distrito Federal. Prolongações dessa área nuclear, denominadas áreas marginais, estendem-se em direção ao norte do país, alcançando o centro-sul do Maranhão e norte do Piauí, para oeste, até Rondônia. Existem ainda fragmentos desta vegetação e formam as áreas disjuntas do cerrado e ocupam 1/5 de São Paulo e os estados de Rondônia e Amapá. Além disso, podem ser encontradas manchas de cerrado incrustadas na região da caatinga, floresta atlântica e floresta amazônica (MMA, 2005). Uma das particularidades desse bioma é que, apesar de apresentar uma vegetação de dossel mais baixo, dependendo de suas variações, com árvores tortas, troncos e galhos revestidos por uma camada mais grossa e seca, trata-se de região rica em água subterrânea, sendo a aparência das árvores e dos arbustos mais uma proteção contra as temperaturas mais elevadas e a baixa umidade relativa do ar que indicio de pobreza hídrica (MMA, 2005).

32 32 Figura 2: A região do cerrado brasileiro Fonte: EMBRAPA (2003) O bioma cerrados se caracteriza, também, por suas diferentes paisagens, que vão desde o cerradão (árvores altas, densidade maior e composição distinta), passando pelo cerrado, este mais comum no Brasil central (árvores baixas e esparsas), até o campo cerrado, campo sujo e campo limpo (com progressiva redução da densidade arbórea). Ao longo dos rios há fisionomias florestais, conhecidas como florestas de galeria ou matas ciliares. Essa heterogeneidade abrange muitas comunidades de mamíferos e de invertebrados, além de uma importante diversidade de micro-organismos, como fungos, associados às plantas da região (MMA, 2005). Os cerrados são cortados por três das maiores bacias hidrográficas da América do Sul: Tocantins, São Francisco e Prata, isso favorece a manutenção de uma biodiversidade surpreendente. O clima é tropical, com

33 33 uma estação seca pronunciada 9 e a topografia da região varia entre plana e suavemente ondulada, favorecendo a agricultura mecanizada e a irrigação. (WWF, 2008). Os cerrados são, assim, caracterizados cientificamente como região fitogeográfica e endafoclimática, ou seja, territórios mareados por tipos de vegetação, solos e climas específicos, favoráveis à agricultura, o que justifica sua decantada vocação agrícola (MORAES, 2000). Até os anos 1930, a extensa região hoje conhecida como cerrados eram sertões, caracterizados por autores do pensamento social brasileiro como interior (distante da costa), selvagem (etnicamente povoado por indígenas), pastoril e extensivo (sem a civilização da agricultura), agricolamente pobre (onde dificilmente se produz), ambientalmente árido (discurso da seca), anárquico (Estado está ausente e ordem privada), deserto desabitado (baixa densidade populacional). A partir da década de 1950 os cerrados começam a ser descobertos e construídos como um potencial celeiro do mundo, ocorrendo a inflexão semântica de sertão para cerrado sobretudo com base em pesquisas pioneiras da universidade de São Paulo - USP, que determinaram a presença de água como elemento diferenciador. No processo de modernização agrícola que se deslanchou a partir de 1970, os cerrados passaram a ser vistos como espaços a serem ocupados, domados, vencidos e modernizados pela moderna tecnologia (MORAES 2000). No dos anos 1970, acenava-se, no Programa de Metas e Bases para a Ação do Governo com o propósito dessa incorporação que se concretizou na mesma década, com o Plano Nacional de Desenvolvimento (IIPNS). A base tecnológica foi a introdução, no Brasil, do pacote da Revolução Verde, nos anos 1960, que trouxe tecnologias para a agricultura capazes de corrigir as deficiências do solo (no caso dos cerrados, a acidez), controlar pragas, selecionar sementes e mudas e mecanizar todas as fases do processo produtivo (MORAES, 2000). As políticas de incorporação dos cerrados, no Brasil, privilegiavam produtores dotados de conhecimento tecnológico e espírito empresarial, excluindo, assim, os ditos pequenos produtores Nesse processo, excluiram-se, inclusive, produtores locais, pois, ao contrário do que diziam as narrativas 9 Esta estação seca, no cerrado do Sudoeste piauiense, corresponde, em regra, aos meses de maio a outubros

34 34 mestras, os cerrados não eram espaços vazios, mas utilizados pelo extrativismo vegetal para a produção de carvão e pecuária extensiva (MORAES, 2000). Para suprir a falta de conhecimento técnico da região, o governo e empresas privadas investiram em pesquisas. A expansão das atividades agropecuárias nos cerrados é fenômeno bastante recente na história brasileira. Ela se deu tanto pelo aumento da área plantada quanto pelos aumentos das produtividades viabilizados pela mecanização, adubação e calagem e pelo uso de cultivares melhorados e da irrigação (ALMEIDA, 2001, p. 25) Assim, a incorporação agrícola dos cerrados se deu pela facilidade do cultivo com maquinários, de adubação e de irrigação e pelo baixo custo da terra. Nesse processo, ainda na década de 1970, Brasil e Japão deram início a um acordo de cooperação internacional para a exploração agrícola dos cerrados brasileiros, no qual os japoneses exportariam seu potencial econômico-tecnológico e importariam os produtos alimentares produzidos nesse espaço territorial. No âmbito do acordo, o desenvolvimento científico e tecnológico também foi fator determinante para alavancar a produção agrícola, de sorte que a agricultura praticada nos cerrados brasileiros foi, desde o início, voltada para a produção moderna, com utilização das mais novas tecnologias. As pesquisas realizadas foram fundamentais para difundir a tecnologia na produção agrícola, pois proporcionaram um profundo conhecimento do ecossistema e dos solos dos cerrados e possibilitaram a correção de suas deficiências e o desenvolvimento de plantas adaptadas ao ambiente. Tais pesquisas foram encabeçadas pela Universidade de Brasília - UnB e Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - Embrapa que, em 1975 criou o Centro de Pesquisa Agropecuária dos Cerrados - Embrapa/CPAC. Além dessas, outros centros nacionais e internacionais de pesquisas se articularam a essa dinâmica. (MORAES, 2000). Alguns programas e políticas foram definidas no processo de incorporação dos cerrados, principalmente criando infraestrutura, incentivos fiscais e crédito supervisionado. Destacam-se o Programa para o Desenvolvimento dos Cerrados Polocentro 10, que vigorou de 1975 a 1980 e 10 O Polocentro foi criado para desenvolver a agricultura nos cerrados, vigorou de 1975 a 1980

35 35 atuou no Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins e Minas Gerais; e o Programa de Cooperação Nipo-Brasileira para o Desenvolvimento dos Cerrados - Prodecer 11, que vigorou de 1975 a 1980 e atuou no Mato Grosso do Sul, Goiás e Tocantins (MORAES, 2000). Os recursos destinados ao Polocentro abrangeram vários setores, como energia, assistência, pesquisa e agropecuária, transporte e crédito rural, além de outras medidas infraestruturais, como eletrificação rural, mecanização e utilização intensiva de corretivos do solo. Isso permitiu o aumento de produtividade média de áreas do cerrado acima da média nacional, e suas ações estimularam a criação do Prodecer, resultante do acordo de cooperação entre os governos brasileiro e japonês, estabelecido em 1976 pelo presidente Geisel. A Companhia de Promoção Agrícola - Campo, empresa mista de capital público e privado criada em 1979 por brasileiros e japoneses, para planejar, assistir e coordenar o Prodecer, foi a responsável por sua execução.(silva, 2000). Outra política governamental de grande importância para a sustentação da agricultura nos cerrados foi a do preço mínimo, pela qual o governo passou a adquirir grande quantidade de produção, principalmente de arroz, soja e milho, a um preço unificado. 2.2 No Nordeste A região de cerrados nordestinos incorporadas pela modernização agrícola, compreende, dos pontos de vistas socioeconômico e político, o oeste baiano, o sul do Maranhão e sudoeste do Piauí. Sua incorporação teve como e foi concebido para os pólos de crescimento (Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins e Minas Gerais). Alocou recursos para melhoria de infraestrutura já disponível e para um generoso programa de crédito subsidiado através de três linhas de crédito fundiário, investimento e custeio com juros baixos e sem correção monetária. Foi um programa de custo social elevado que, ao induzir a expansão da agricultura comercial nos cerrados, criou e sustentou alguns privilégios (MORAES, 2000) 11 O Prodecer também foi criado para desenvolver a agricultura nos cerrados via um acordo de de cooperação nipo-brasileiro para assentamento de colonos através de cooperativas credenciadas. Trata-se de um programa de colonização privada, com participação do Estado, promovido pelo governo japonês, com crédito supervisionado e taxas de juros reais positivas para investimento e custeio. A primeira etapa iniciou-se em 1980 em Minas Gerais, a segunda em 1987 e a terceira na década de 1990, com expansão para Tocantins, Maranhão e Piauí (MORAES, 2000)

36 causa as mudanças ocasionadas pelo processo de integração da economia regional à nacional nos anos e resulta no que veio a ser chamado nos anos de 1990 de novo nordeste dos cerrados (MORAES, 2000). A área do Nordeste brasileiro é de aproximadamente km², equivalente a 18% do território nacional. É a região que, apesar de possuir a maior costa litorânea, tem os estados com a maior e menor costa litorânea 13, Bahia, com 932 km de litoral, e Piauí, com 60 km. Uma das características importantes do relevo nordestino é a existência de dois antigos e extensos planaltos, o Planalto da Borborema e o Planalto da Bacia do Parnaíba 14 e de algumas áreas altas e planas que formam as chamadas chapadas, como a Chapada Diamantina e a Chapada Araripe 15. Entre essas regiões ficam algumas depressões, nas quais se localiza o sertão semiárido. O Nordeste do Brasil apresenta temperaturas elevadas, com média anual entre 20 a 28 C. Nas áreas situadas acima de 200m e no litoral oriental, as temperaturas variam de 24 a 26 C. As médias anuais inferiores a 20 C encontram-se nas áreas mais elevadas da Chapada Diamantina e da Chapada da Borborema. O índice de precipitação anual fica entre 300 a mm. Três dos quatros tipos de climas do Brasil estão presentes no Nordeste: equatorial úmido, litorâneo, tropical e tropical semiárido. O Nordeste possui importantes bacias hidrográficas, dentre as quais destacam-se a Bacia do São Francisco, a do Parnaíba, a do Atlantico Nordeste Oriental, a do Atlantico Nordeste Ociental, a do Atlântico Leste. A região compreende as seguintes Zonas Geográficas: Meio-norte: faixa de transição entre a Amazônia e o sertão que abrange os estados do Maranhão e Piauí, também chamada de Mata dos Cocais, devido às palmeiras de babaçu e carnaúba, com chuva no litoral de cerca de 2000 mm anuais, nível que mais para o leste e/ou para o interior cai 12 Sobre este processo de integração da economia regional à nacional, na década de 60, atividades urbano-industriais também ganham espaço no Nordeste (Petrobrás Bahia, e Vale do rio Doce Maranhão) (MORAES, 2000). 13 A região toda possui km de praias. Está situado entre os paralelos de 01 02' 30" de latitude norte e 18 20' 07" de latitude sul e entre os meridianos de 34 47' 30" e 48 45' 24" a oeste do meridiano de Greenwich. Limita-se a norte e a leste com o Oceano Atlântico; ao sul com os estados de Minas Gerais e Espírito Santo e a oeste com o Pará, Tocantins e Goiás 14 O Planalto da Borborema localiza-se de Alagoas ao Rio Grande do Norte e o Planalto da bacia do Parnaíba localiza-se no leste da Bahia e porção oriental do Tocantins. 15 A Chapada da Diamantina localiza-se na parte central da Bahia e a Chapada do Araripe na divisa do Ceará, Piauí e Maranhão. 36

37 37 para 1500 mm anuais. No Sudoeste do Piauí, uma região mais parecida com o sertão, só chove, em média, 700 mm por ano. Sertão: localizado no interior da região, tem clima semiárido, chegando, em estados como Ceará e Rio Grande do Norte a alcançar o litoral, e, descendo mais ao sul, atinge o norte de Minas Gerais, estado da região Sudeste. As chuvas são irregulares e escassas, com constantes períodos de estiagem, sendo a vegetação típica a caatinga. Agreste: faixa de transição entre a Zona da Mata e o Sertão, é, pela localização, no alto do Planalto da Borborema, um obstáculo natural à chegada das chuvas ao Sertão. Estende-se do sul da Bahia até o Rio Grande do Norte e tem como principal acidente geográfico o Planalto da Borborema. Do lado leste do planalto estão as terras mais úmidas (Zona da Mata) e do outro lado, para o interior, o clima vai ficando cada vez mais seco (Sertão). Zona da Mata: localizada ao leste, entre o Planalto da Borborema e a costa, estende-se do Rio Grande do Norte ao sul da Bahia, tendo chuvas abundantes. A zona recebeu esse nome pela cobertura da Mata Atlântica. Nela, os cultivos de cana-de-açúcar e cacau substituíram, gradativamente, as áreas de florestas, desde o povoamento do Brasil colonial (MMA, 2005). A vegetação nordestina é bastante rica e diversificada, havendo da Mata Atlântica no litoral à Mata dos Cocais no Meio-Norte ecossistemas como manguezais, caatinga, cerrados, restingas, dentre outros, com fauna e flora exuberantes, variadas espécies endêmicas, uma boa parte da vida no planeta e animais ameaçados de extinção. O processo histórico e sócio-econômico de ocupação do Nordeste contou com economia açucareira e pecuária (Rio Grande do Norte e Alagoas), um complexo gado-algodão-agricultura (Ceará); pólos e complexos industriais (Sergipe e Bahia) e zona de expansão recente das fronteiras agrícolas, os cerrados, do Oeste baiano, Sul do Maranhão e Sudoeste do Piauí (Moraes, 2000). Em décadas finais do século XX houve, porém, uma mudança das áreas de modernização, ancoradas pelos subsistemas regionais de fronteiras agropecuárias, para Polos de Desenvolvimento Integrado, contexto em que se insere, em 1998, o Polo de Desenvolvimento Integrado Uruçuí-Gurgueia que compreende o sul do Maranhão e o Sudoeste do Piauí.

38 38 Até os anos 1970 o Nordeste era tido como atrasado. Uma das medidas tomadas pelo governo federal para enfrentar a situação foi a criação de médias e grandes empresas rurais pelo Programa de Redistribuição de Terras e de Estímulo à Agroindústria do Norte e Nordeste - Proterra, instituído em 1973, e o Programa de Desenvolvimento de Áreas Integradas do Nordeste Polonordeste, estabelecido em A finalidade desses programas era transferir o modelo industrial para o campo e modernizá-lo (MORAES, 2000). Com efeito, a produção agropecuária nordestina sofreu profundas mudanças a partir da década de 1970, com a introdução de culturas não tradicionais, destacando-se a soja nos anos 1980, que se expandiu nos 1990, destinada, em grande parte, a atender a demanda do mercado externo. Nesse processo, a incorporação dos cerrados nordestinos deu-se em duas etapas: a primeira a partir dos anos 1980, pela expansão da agricultura intensiva de grãos do Centro-Oeste do Brasil em direção ao Oeste Baiano. Ali expandiu-se rapidamente o cultivo de soja, com a participação de produtores oriundos do Sul do país; a segunda, nas chapadas do Sul do Maranhão e Sudoeste do Piauí, pelo cultivo de grãos, em especial da soja, atendendo os mercados do Centro Sul do país e internacionais (MORAES, 2000). A cultura principal na incorporação dos cerrados foi a soja, tanto no oeste baiano, quanto no Maranhão e Piauí. Essa agricultura intensiva nos cerrados implica um número reduzido de mão de obra e grandes extensões de terras, além do uso de tecnologias para correção da acidez do solo, controle de pragas e aumento de produtividade. O oeste baiano contou com dois momentos de ordenação territorial. O primeiro (década de 1950/60) se caracterizou por uma divisão de trabalho entre gerais (cerrados) e sertão (vale do São Francisco, semiárido), ambos voltados para a pecuária extensiva. O segundo momento ocorreu depois da construção da capital federal, Brasília, que contou com a abertura de grandes ferrovias e mudou o padrão de divisão de trabalho nos cerrados, que passou a ter sua incorporação destinada para a agricultura intensiva, tecnificada e mecanizada, que se deu especificamente no início dos anos 1980 (MORAES, 2000). Essa onda modernizadora da agricultura não se preocupou com questões ambientais e, em decorrência disso, ocorreu uma destruição

39 39 desenfreada da biodiversidade local. Ademais, a mudança no padrão de trabalho na agricultura abarcou trabalhadores assalariados, expulsando, assim, pequenos e médios produtores da região. Na década de 1990 tinha-se, no Oeste baiano, um intenso processo de territorialização da capital, com a acelerada expansão da cultura da soja. A incorporação dos cerrados maranhenses teve como incentivo o Programa de Redistribuição de Terras e de Estímulo à Agroindústria do Norte e Nordeste - Proterra, criado em 1973 e, nos anos 1980, o Finor-Agropecuário, pelo BNDES. Essa incorporação deu-se através de gaúchos, que introduziram o cultivo do arroz, com vista a superar a forma de produção considerada atrasada: a chamada agricultura de toco 16, praticada por camponeses (MORAES, 2000). Na década de 1980, ocorre a introdução do cultivo de soja nos cerrados do sul do Maranhão, um processo que desencadeou problemas ambientais, fundiários, trabalhistas e danos à saúde e segurança dos trabalhadores rurais. Implantou-se o Programa de Cooperação Nipo-Brasileira para o Desenvolvimento do Cerrado (Prodecer) através do projeto de Colonização Geral de Balsas (PC-GERAL), contribuindo para a atração de investidores o incremento na produção agrícola e o baixo preço das terras. Da mesma forma que em outros lugares, a incorporação dos cerrados maranhenses também expulsou camponeses locais, sob a justificativa de que teriam baixa capacidade produtiva. Assim, a incorporação dos cerrados nordestinos se deu, principalmente, por sulistas, embora houvesse, no processo, empresas do Centro-Oeste, Sudeste e até do próprio Nordeste. 2.3 No Piauí O Piauí é um dos nove estados da região Nordeste do Brasil, que forma com o Maranhão, o chamado Meio Norte ou Nordeste Ocidental. 16 Agricultura de toco é denominação corrente dado ao sistema de agricultura camponesa tradicionalmente praticada na região, no qual a vegetação baixa é cortada (ou roçada), as árvores maiores são derrubadas e após a queima, a madeira é aproveitada. Nesse sistema, planta-se um período de três a quatro anos numa mesma área, que então se deixa em descanso, partindo para outra (MORAES, 200).

40 40 Ocupando km2 (16,2 %) dos km2 do Nordeste brasileiro, é o terceiro maior estado nordestino, com área inferior apenas à Bahia e ao Maranhão, e o décimo em tamanho, do país, com 2,9 % do território nacional. Ao Norte, limita-se com o Oceano Atlântico, na Barra das Canárias, na Ilha Grande de Santa Isabel, município de Parnaíba e ao Sul, com Tocantins e Bahia sendo a Chapada da Limpeza, no município de Cristalândia, o ponto extremo. A leste, esse ponto situa-se no município de Pio IX, na nascente do rio Marçal, na serra do Marçal com limites Ceará e Pernambuco. A oeste, limita-se com a curva do rio Parnaíba, no município de Santa Filomena, divisa com o Maranhão até o extremo norte. O limite com o Maranhão, o maior, é de 1492 km, e com o Tocantins, o menor, é de apenas 21 km, menos que com o Oceano Atlântico (66 km). O Piauí se situa entre duas regiões climáticas bem distintas: o Sertão semiárido e a Amazônia quente e úmida, sendo uma autêntica faixa de transição. Dessa forma, pode-se dizer que a dinâmica climática do estado caracteriza-se por uma grande complexidade. A classificação do relevo do Piauí agrupa cinco chapadas ou chapadões: 1.O Arco da Fronteira, que se divide em duas secções pela Chapada do Araripe, constituindo-se ao sul no divisor das bacias hidrográficas do Parnaíba e do São Francisco e ao Norte separando os vales piauienses dos cearenses; 2.Os Chapadões do Sul, que correspondem às escarpas do Arco da Fronteira, que vão perdendo altitude no sentido sul-norte ; 3.As Cuestas do Centro, que apresentam mergulho das camadas de leste para oeste; 4.Os Contrafortes da Ibiapaba, que são identificados como cuestas do setor norte do Arco da Fronteira; 5.Os Morros Isolados, que apresentam as formas de pequenas altitudes que intercalam as de maior expressão espacial. O Estado do Piauí é um dos mais ricos do Nordeste em acumulação de água natural de superfície, pois dispõe de cerca de 69 lagoas, com um volume aquifero da ordem de 584 milhões de metros cúbicos. Essas lagoas se distribuem por todo o estado, ocorrendo, com maior frequência, no Baixo Parnaíba. Quanto à hidrografia fluvial, o principal rio perene é o Parnaíba, que separa/une Piauí e Maranhão e corre por km até desembocar no Oceano Atlântico. Sua vazão, no período de cheias, é superior a 230 m 3 por segundo,

41 41 em Luzilândia (Baixo Parnaíba). A Bacia do Parnaíba, que ocupa 72,7% do território piauiense, pode ser considerada a segunda, em importância, do Nordeste, levando-se em consideração três fatores: área drenada ( km²), extensão (1.485 km²) e perenidade do rio principal. Integradas a ela, existem, no território piauiense, outros 140 rios, com mais de Km de extensão, dos quais 2,6 mil são perenes. O Piauí é ainda o estado brasileiro com o maior potencial de águas subterrâneas, com reservas reguladoras de 2,5 bilhões de metros cúbicos, correspondentes aos volumes infiltrados anualmente. Cerca de 83% da superfície estadual encontra-se sobre terrenos sedimentares, onde se destacam os aquíferos. A cobertura vegetal do Piauí é bastante diversificada. Dentre as formações vegetais existentes, destacam-se as seguintes: caatinga arbórea e arbustiva (no Leste e Sudeste do estado), cerrado e cerradão (Centro-Leste e Sudoeste), floresta decidual (vales do Baixo e Médio Parnaíba) e formação pioneira e mangue a aluvial (litoral). As formações vegetais são separadas por zonas de contato, nas quais ocorrem dois ou mais tipos de associações de plantas, constituindo agrupamentos de transição. O Piauí possui, aproximadamente, 11,5 milhões de hectares de cerrados que representam 5,56% dos cerrados brasileiros, correspondendo a 46% da superfície do estado e localizados em vários pontos (ARAUJO, et al, 2007) (fig. 3). Estão agrupados nos seguintes sistemas geoambientais (MONTEIRO, 2002): a) Vale do Gurgueia, limite leste e por isso zona de transição entre floresta e caatinga para cerrado; b) Chapadas do Alto Parnaíba, planaltos entre os rios Gurgueia e Parnaíba; c) Cabeceiras do Parnaíba, zona do alto curso do rio Parnaíba; d) Chapada das Mangabeiras, região fronteiriça entre a Bahia e o Piauí, divisor de águas entre as bacias hidrográficas do São Francisco e Parnaíba.

42 42 Figura 3: Distribuição geográfica dos cerrados no Piauí. Fonte: IBGE Geomorfologicamente o que se chama de cerrados piauienses são, na verdade, estruturas tabulares de chapadões, caracterizados por uma superfície plana ou levemente ondulada, com inclinação para o noroeste da ordem de 2m a 3m/km, encontrando-se limitada por escarpas abruptas que chegam a atingir mais de 100m de altura. Essas estruturas tabulares ou chapadões possuem altitudes em torno de 600 metros e recebem o nome de serras (Uruçuí, Mundo Novo, do Congo, Calhaus, etc.) e são resultantes do processo erosivo de

43 esculturação do relevo devido, principalmente, aos diferentes graus de resistência e inclinação de sedimentos, aliados ao trabalho erosivo dos rios. (INSTITUTO DESERT, 1998, p. 125). Atualmente, o cerrado do sudoeste do Piauí contempla 24 municípios 17, dentre os quais Uruçuí (fig. 4), situado na Mesorregião do Sudoeste Piauiense e na Microrregião do Alto do Parnaíba (fig. 5), com uma área física de 8.578,5 km2, ou 3,57% da área total do estado, temperatura média anual de 27 C e pluviosidade média de 1.059,7mm (AGUIAR, 2005) Os cerrados piauiense se estende pelos municípios de Ribeiro Golçalves, Santa Filomena, Uruçuí, Antônio Almeida, Bertolínea, Eliseu Martins, Manoel Emídio, Landri Sales, Marcos Parente, Floriano, Guadalupe, Itaueira, Jerumenha, Barreira do Piauí, Bom Jesus, Gilbués, Monte Alegre do Piauí, Santa Luz, Palmeira do Piauí, Corrente, Cristalândia do Piauí, Cristino Castro, Baixa Grande do Ribeiro e Currais.

44 Figura 4: Distribuição das cidades do Piauí. Projeção do município de Uruçuí. Fonte: IBGE, adaptado para esta pesquisa. 44

45 45 Figura 5: Distribuição geográfica das mesorregiões do Piauí. Fonte: IBGE, Desde o período colonial até meados do século XIX a principal atividade econômica no Piauí foi a pecuária extensiva. No início do século XX,

46 a economia piauiense insere-se no mercado internacional pelo extrativismo vegetal da borracha da maniçoba, cera de carnaúba e amêndoa de babaçu. Até a década de 1970, o cerrado piauiense era considerado um vazio estagnado e sem grande utilidade econômica (MORAES, 2000). É no final dos anos 1970 que, no Piauí, começa a circular o discurso da vocação agrícola (MORAES, 2005), com a implantação de incentivos governamentais, como o Programa de Desenvolvimento de Áreas Integradas do Nordeste (Polonordeste). Esses programas traziam em seus documentos o discurso da promoção de uma agricultura eficaz, com aumento de oferta de emprego e melhoria da renda no meio rural. 46 Efetivamente, em 1978 chegava ao Piauí a primeira missão do Banco Mundial e, em 1981, assinavam-se os acordos de empréstimo e do projeto de ampliação da área de atuação do Polonordeste no Estado, com o nome de Projeto Vale do Parnaíba. Entre 1982 e 1986, a intervenção governamental, no meio rural piauiense, gerou, como lembra Domingos Neto (1988), intensa produção de siglas e nomes: PDRI, Perímetros Irrigados, Polonordeste, Projeto Sertanejo, Nordestão, Projeto Vale do Gurgueia, Projeto Vale do Fidalgo, Programa de Apoio ao Pequeno Produtor Rural (PAPP) etc. Na atual região dos cerrados, apenas a área restrita do Vale do Gurguéia foi contemplada (MORAES, 2000, p. 184). Somente a partir da segunda metade de 1980 tem início uma ocupação, que gradativamente se acelera e se intensificou nos anos 90, com a instalação de grandes projetos agropecuários voltados para a produção de grãos, em especial da soja, para exportação. Esse processo teve como causa os preços extremamente baixos das terras (MONTEIRO, 2002), fato que atraiu capitais privados e a implantação de grandes projetos agropecuários na região, financiados pelo Fundo de Investimento do Nordeste Agropecuário - Finor Agropecuário, que por sua vez se constituiu em um mecanismo facilitador da aquisição de terras por empresários do Centro-Sul e do próprio Nordeste. A incorporação dos cerrados piauienses pelo agronegócio do complexo carnes/grãos é (...), caudatária do processo que incorporou as chapadas do Centro-Oeste brasileiro e do sul do Maranhão e oeste da Bahia. O fato de a incorporação do Piauí ter-se dado mais tardiamente (embora seja, o Piauí, dos estados nordestinos, o que possui maior área de cerrados), vincula-se a certas questões de âmbito interno e externo ao estado (MORAES 2000, p 206) Sobre as referidas questões, ver MORAES (2000).

47 47 O município de Uruçuí tem papel histórico nessa trajetória, pois foi sede dos primeiros testes de experimentos de pesquisa científica sobre soja adaptada, iniciada em 1978 e lançada em 1980 pela Embrapa-UEPAE- Teresina, as quais foram divulgadas no I Seminário sobre Cerrado Piauiense (1985). Além disso, Uruçuí foi um dos municípios-base do chamado Pelo de Desenvolvimento Integrado Uruçuí-Gurguéia nos anos 1990 (MORAES, 2000). Em 1985, houve a implementação do Programa de Apoio ao Pequeno Produtor (PAPP), porém a ideia de vocação agrícola dos cerrados piauienses não se concretiza com base na pequena produção, já que, os pequenos produtores dos cerrados piauienses constituíram um setor marginalizado pelo modelo de desenvolvimento implementado na região (MORAES, 2000). Dessa forma, a região dos cerrados do sudoeste do Piauí tornou-se um cenário de uma agricultura altamente moderna que utiliza as mais novas tecnologias e se volta para a produção intensiva, no âmbito do complexo carnes/grãos (fig. 6). Assim, os cerrados do sudoeste do Piauí, incluindo Uruçuí, vêm, da última década do século XX em diante, sendo locus de implementação de projetos agroindustriais, sobretudo os voltados para exportação, devido ao baixo custo das terras, aos solos favoráveis à mecanização, a proximidades com o mercado externo e ao esgotamento dos solos em outras áreas do país (AGUIAR, 2005). As atividades principais nessas propriedades são o cultivo de grãos, como soja, milho, arroz e algodão. O governo do Estado do Piauí (1985) anunciava, já em meados dos [anos 19] 80, que os cerrados piauienses respondiam por 24% da produção estadual de algodão herbáceo, 14% da produção de arroz, 10% da de feijão, 10% da de milho e 9% da de mandioca. Quanto aos novos produtos, a soja e o caju apareciam como prioritários para exploração. Em relação ao caju, registrava-se então, mais de 90 mil hectares, ou 80% de toda a área cultivada. No início dos anos 90, proliferaram as falas oficiais sobre os cerrados piauienses, com o então Governo Freitas Neto incluindo em seus relatórios oficiais, o tema da incorporação dos cerrados ao processo produtivo (MORAES, 2000, p. 213) A incorporação dos cerrados piauienses, como nas outras regiões brasileiras, necessitava efetuar-se por meio de agricultores tidos como

48 qualificados para lidar com as tecnologias mais avançadas, no caso os gaúchos, que iniciavam na região, na década de Esses, como se encontra em Moraes (2000), falavam em se diferenciar dos investidores que ali se instalaram nos anos 1970 para a execução de projetos ligados ao reflorestamento e plantações de frutas, financiados pelo Finor e Finest mas que não tiveram continuidade e acabaram por ser abandonados. Em contraposição à era dos gaúchos, aquela outra ficou conhecida como a era dos projeteiros 19. Assim, na década de 1990, o Piauí já estava inserido no processo de incorporação dos cerrados brasileiros, sendo considerado como a última fronteira agrícola e um celeiro capaz de produzir alimentos. Passa-se, então, da ideia de vazio para a de um espaço preenchido pela agricultura moderna, tecnológica e mecanizada (MORAES, 2000). Em 1992, a Fundação CEPRO realiza um diagnóstico da região dos cerrados piauienses, a fim de fornecer, sobre ela, um maior conhecimento técnico-científico, de clima, solo, vegetação e recursos hídricos, tendo-se como fator de incentivo para investidores o preço da terra e a disponobilidade de mão de obra de baixo custo. Nos anos 1990, a região foi incluída nas metas do Programa Brasil em Ação, do Governo Federal, como um dos Pólos de Desenvolvimento Integrado do Nordeste, fazendo parte do Polo Balsas, formando o Polo Uruçuí-Balsas. Em 1999, desmembrou-se, originando o Polo de desenvolvimento Integrado Uruçuí-Gurguéia, que contou com metas estipuladas pelo Banco do Nordeste do Brasil - BNB, abrangendo os âmbitos econômicos, sociocultural, ambiental, de informação e conhecimento (MORAES, 2000). 48 O novo Nordeste concretiza-se, na versão de um novo Piauí agrário, através [dos cerrados] de alguns atores sociais privilegiados que monopolizam o papel de dizentes de um projeto de modernização agrícola do estado apresentado como os únicos com ela condizentes (MORAES, 2000, pág. 233) Como afirma Moraes (2000, 2003, 2005), o padrão de desenvolvimento para a região dos cerrados piauienses não contemplou as populações camponesas da região, as quais, devido ao avanço dos grandes 19 Para detalhamento, ver Moraes (2000)

49 projetos agropecuários que se instalaram nas chapadas 20, ficaram encurraladas nos baixões A respeito da condição camponesa nesse processo, assim como da relação do campesinato local com chapadas e baixões, ver Moraes (2000).

50 50 3. MEIO AMBIENTE DE TRABALHO RURAL EM EMPRESAS AGROPECUÁRIAS DO CERRADO PIAUIENSE 3.1 Meio ambiente e meio ambiente de trabalho A Constituição Federal de 1988 trata do meio ambiente como sendo um bem essencial à sadia qualidade de vida, garantindo a preservação do seu equilíbrio como direito fundamental. O art. 225 dispõe que todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações (BRASIL, 2003, p. 123). Assim, o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado previsto no art. 225 da Constituição Federal é um direito fundamental de todo cidadão, por ser inerente ao direito à vida e à qualidade de vida. A proteção ambiental que visa a tutelar a qualidade do meio ambiente em função da qualidade de vida é uma forma de direito fundamental da pessoa humana, direito este que foi reconhecido pela Declaração do Meio Ambiente, adotada pela Conferência das Nações Unidas, em Estocolmo, em junho de 1972, cujos vinte e seis princípios constituem prolongamento da Declaração Universal dos Direitos do Homem (SILVA, 1995, p. 36). Segundo a Lei de Política Nacional de Meio Ambiente (Lei 6.931/81), art. 3º, I, meio ambiente é o conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas. Esse conceito é amplo e abarca dois objetos de tutela ambiental: o imediato a qualidade do meio ambiente em todos os seus aspectos, e o mediato a saúde, a segurança e o bem-estar do cidadão, expresso nos conceitos vida em todas as suas formas e qualidade de vida. (MELO, 2008).

51 51 Não se pode olvidar que o direito ambiental tem como objeto tutelar a vida saudável, de modo que essa classificação visa, apenas, identificar o aspecto do meio ambiente em que valores maiores foram ou estão sendo violados. Além disso, a natureza jurídica do bem ambiental é difusa, uma vez que toda a sociedade é dele titular: todo ser humano tem direito a um meio ambiente ecologicamente equilibrado. Trata-se de um direito humano fundamental, não subordinável a regras do direito de propriedade ou de patrões. Da mesma forma, não se subordina a regras do Direito do Estado contra os da cidadania os quais devem se subordinar e se transformar em razão de necessidades prementes das humanidades, refletidos, juridicamente, na categoria dos direitos humanos fundamentais. Como concepção de aplicação da ordem jurídica, o direito ambiental 21 penetra, transversalmente, em todos os demais ramos do Direito. É multidimensional, apresentando dimensões humana (portanto, cultural), ecológica, econômica que se devem harmonizar sob o conceito de desenvolvimento sustentado. (ANTUNES, 2005). A mesma Carta Magna fez menção ao bem ambiental, definido como sendo todos aqueles que compõem o meio ambiente como um todo e possuem natureza difusa e coletiva, ou seja, os que se encontram inseridos nos aspectos cultural, artificial, laboral ou sob o óbice do ambiente natural ou físico (MEDEIROS, 2006, p. 23). Dessa forma, segundo Melo (2008), os aspectos do bem ambiental são: Meio ambiente artificial, que compreende o espaço urbano habitável constituído pelo conjunto de edificações feitas pelo homem, referindose aos espaços fechados e equipamentos públicos, o qual é contemplado pela Constituição Federal (arts. 5º, XXIII, 21, XX, 182, 225). 21 Manifestações de seres humanos por melhores condições de vida (e trabalho) assumem posição axial como fonte material deste ramo peculiar do Direito, na emergência de uma nova compreensão do ser humano, com ideais de prudência e cuidado, em uma nova ética na existência humana que deve também considerar o equilíbrio do planeta, dando origem ao ainda incipiente ramo do Direito Ambiental, o qual se espraia e influencia as demais áreas do Direito, inclusive no que tange ao meio ambiente de trabalho na perspectiva de considerar todos os seres humanos como realidade moral, o que aponta para o respeito à dignidade. (POGORELSKY, 2008).

52 52 Meio ambiente cultural, que compreende o patrimônio histórico, artístico, arqueológico, paisagístico e turístico. Embora também artificial, se difere do primeiro pelo sentido de valoração especial, sendo tutelado pela Constituição Federal (art. 216), que estabelece como patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação e à memória dos diferentes grupos formados da sociedade brasileira, neles inclusos as formas de expressão, os modos de criar, fazer e viver, as criações científicas, artísticas e tecnológicas, as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais. Meio ambiente natural ou físico que compreende o solo, água, ar, fauna e flora e representa o equilíbrio dinâmico entre os seres vivos na terra e no habitat em que vivem. A Constituição Federal brasileira estabelece que incumbe ao poder público preservar e restaurar os processos ecológicos essenciais e promover o manejo das espécies e ecossistemas, bem como preservar a fauna e a flora, vedadas na forma da lei, as práticas que coloquem em risco a sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam animais à crueldade (CF, art. 225, 1º, I, VIII). Meio ambiente de trabalho, que compreende o local onde as pessoas desempenham suas atividades laborais, remuneradas ou não, cujo equilíbrio se baseia na salubridade do meio e na ausência de agentes que comprometam a incolumidade físico-psíquica dos trabalhadores, independentemente das condições que ostentem (homens ou mulheres, maiores ou menores de idade, celetistas, servidores públicos, autônomos, etc) (FIORILLO, 2003). O meio ambiente do trabalho refere a saúde e segurança do trabalhador, sua dignidade e a justiça social. Isto leva a pensar na interdependência necessária entre ética e direito: dois âmbitos de conhecimento sobre o agir humano que divergem na metodologia mas voltam-se para o mesmo objeto. Por um lado, a ética ê a ação humana referida à intencionalidade da consciência moral 22, por outro, o 22 Neste sentido, cada indivíduo singular é responsável pelo presente e pelo futuro da humanidade. Isto tem conseqüências para uma ética do respeito, e para as relações que devem ser, aí, explicitadas, entre consciência e práticas morais, autonomia e solidariedade, liberdade e responsabilidade (SÈVE, 1997). A propósito ver, ainda, Fonseca (2007), sobre a ética do cuidado em Hans Ionas, e Boff (2002) sobre o mesmo tema expresso na Carta da

53 53 direito toma em consideração os resultados externos da ação avaliados por um ordenamento legal. Nesta direção, o Direito do Trabalho 23 tem como foco homens e mulheres, com vistas a disciplinar as relações travadas no campo do trabalho humano, fixando limites e condições à sua exploração. Por seu turno, o Direito Ambiental visa a natureza, o ecossistema, a proteção do meio ambiente e o estabelecimento de limites à sua manipulação pelo próprio trabalho e a preocupação com o respeito à vida. É direito sui generis, que extrapola antigas concepções de autonomia disciplinar. Emerge em tempos recentes, sobretudo, pela ação de movimentos sociais, no âmbito da questão ambiental. (POGORELSKY, 2008) Na interface entre Direito do Trabalho e Direito Ambiental 24, insere-se o direito ao meio ambiente de trabalho, este, tomado como um bem ambiental de uso comum de homens e mulheres trabalhadore/as, e essencial à sua sadia qualidade de vida. O meio ambiente de trabalho está inserido no meio ambiente geral (art. 200, VIII, da constituição Federal), de modo que é impossível alcançar qualidade de vida sem ter qualidade de trabalho, nem se pode atingir meio ambiente equilibrado e sustentável ignorando o meio ambiente de trabalho (OLIVEIRA, 1998, p. 79). de trabalho como Nessa direção, Amauri Mascaro Nascimento define meio ambiente Terra. 23 O trabalho, algo que diferencia homens e mulheres de outros seres vivos é o meio próprio à produção do artefato termo de origem alemã, de artefakt/produkt, que se encontra na origem da palavra arbeit, ou seja, trabalho. Refere os processos de controle e a manipulação dos bens naturais no atendimento a interesses humanos dos mais primários aos mais supérfluos. Na história das sociedades de classe, o trabalho subjugou homens e mulheres, seja como escravo/as, servo/as, ou trabalhadore/as assalariado/as, sempre baseado no predomínio da natureza humana sobre o meio natural não-humano, gerando por um lado benefícios e, por outro, prejuízos diversos. Nas sociedades modernas, a regulação da exploração de homens e mulheres no ambiente laboral se dá pelo Direito do Trabalho. Nesta esfera, buscam-se disciplinar as relações de trabalho subordinado, mais propriamente, no âmbito da relação empregatícia. Ultrapassa-se, assim, a visão do/a trabalhador/a como objeto jurídico (escravo/a), instituindo/a como sujeito da relação jurídica de trabalho, que põe à disposição de outrem (empregador/a) a sua força-de-trabalho em troca de salário. Próprio dos movimentos operários da Revolução Industrial do Século XIX, o surgimento histórico do Direito do Trabalho traduz o ganho de consciência operária face à exploração no mundo do trabalho, por meio de intensas lutas e importantes movimentos sociais revolucionários (POGORELSKY, 2008). 24 A propósito, ver Pogorelsky (2008).

54 54 um complexo máquina-trabalho: as edificações do estabelecimento, equipamentos de proteção individual, iluminação, conforto térmico, instalações elétricas, condições de salubridade ou insalubridade, de periculosidade ou não, meios de prevenção à fadiga, outras medidas de proteção ao trabalhador, jornadas de trabalho e horas extras, intervalos, descansos, férias, movimentação, armazenagem e manuseio de materiais que formam o conjunto de condições de trabalho, etc (NASCIMENTO, 2001, p. 280) Porém, o conceito de meio ambiente de trabalho vai além da idéia de um espaço físico ou geográfico determinado e leva em conta as relações entre o espaço e a atividade laboral, posto que várias delas não são desempenhadas em um único local, como, o trabalho de um caminhoneiro. Neste caso, o meio ambiente de trabalho não se limitará ao espaço interno do caminhão, mas alcançará todo o trajeto que percorrer até o seu destino (FIGUEIREDO, 2007). Assim, a diversidade de atividades implica uma variedade de ambientes laborais. Para compreender o meio ambiente de trabalho, não se faz relação entre meio ambiente natural e artificial, mas entre o elemento espacial (local laboral) e o ato de trabalhar. Na verdade, alguns trabalhos são realizados em ambientes naturais, como o de agricultores, mineradores e mergulhadores. Ora, se concebermos o meio ambiente de trabalho restrito ao espaço físico de uma fábrica, os demais citados seriam extintos do conceito. O meio ambiente de trabalho não se restringe ao espaço interno da fábrica ou da empresa, mas se estende ao próprio local de moradia ou ao ambiente urbano. Mais do que isso, o meio ambiente de trabalho representa todos os elementos, inter-relações e condições que influenciam o trabalhador em sua saúde física e mental, comportamento e valores reunidos no lócus do trabalho. Com efeito, caracteriza-se pois, como a soma das influências que afetam diretamente o ser humano, desempenhando aspecto chave na prestação e performance do trabalho. Pode-se, simbolicamente, afirmar que o meio ambiente de trabalho constitui o pano de fundo das complexas relações biológicas, psicológicas e sociais a que o trabalhador está submetido (ROCHA, 2002, p. 127). O ato de trabalhar é característica essencial do meio ambiente de trabalho. Assim, as normas de direito ambiental do trabalho deverão se ocupar do conjunto de fatores que afetam a saúde física e psíquica do trabalhador e

55 55 não somente do espaço físico onde se desenvolvem as suas atividades laborais. Nessa perspectiva, o meio ambiente de trabalho não pode ser compreendido como algo estático, mas como um lócus dinâmico, constituído por todos os componentes que interagem nas relações ambientais e de trabalho e que tomam uma forma no dia a dia laboral, como as tecnologias empregadas, a maquinaria, as matérias primas, a clientela, o/as trabalhadore/as, os inspetores, a disciplinarização do corpo de/ trabalhador/as, a chefia. (ROCHA, 2002). Vale lembrar que, embora as instalações, equipamentos, bens e maquinários sejam de propriedade privada, o meio ambiente de trabalho constitui bem inapropriável, de natureza difusa, pois deve ser entendido como conditio sine qua non em que se desenrola grande parte da vida humana. Concernente com o exposto, compreendemos que o meio ambiente de trabalho rural, objeto do presente estudo, se dá tanto no ambiente artificial (máquinas, equipamentos, instalações), quanto no ambiente natural (contato direto com a terra), tendo o/a trabalhador/a rural como seu elemento caracterizador, ele/a que o transforma com a sua energia,através do trabalho, além das relações entre os sujeitos que, ali, interagem. Atualmente, o meio ambiente de trabalho rural tem sido cenário de constantes mudanças ocasionadas principalmente pela introdução de tecnologias no processo produtivo, como no caso do cerrado piauiense Meio ambiente de trabalho rural, tecnologia e os desafios do equilíbrio ambiental laboral A história da industrialização demonstra o papel crucial do desenvolvimento tecnológico no processo de mudanças drásticas que ocorreram nas sociedades humanas (LUSTOSA, 2003). Existe, atualmente, uma crença quase absoluta na tecnologia moderna, considerada capaz de solucionar todo e qualquer problema que se ponha diante do ser humano. Deposita-se assim, a máxima confiança neste padrão tecnológico, devendo-se isso, em grande medida, à função ideológica da manutenção dos paradigmas vigentes, relacionada a desenvolvimento e progresso (LAYRARGUES, 1998). É certo que o desenvolvimento econômico e

56 56 tecnológico baseado no uso intensivo de matérias-primas e energia aumentou a velocidade do uso dos bens naturais, transformados em recursos, sem dizer que os rejeitos dos processos produtivos foram se acumulando no meio ambiente, causando uma enorme degradação ambiental (LUSTOSA, 2003). Ademais, as inovações tecnológicas provocam mudanças sociais, refletida pelo consumo intensivo e imitativo, que torna as culturas, em medida considerável, mais ou menos padronizadas. Tecnologia e mudanças sociais: as inovações tecnológicas são em ultima instância mudanças culturais, que refletem, não apenas na produção imitativa, mas também no consumo imitativo: para se evitarem os custos adicionais com a adoção de novos ajustes tecnológicos às realidades do país importador, as filiais das multinacionais procedem exatamente da mesma forma que a matriz inclusive e sobretudo quanto à propaganda e marketing. Investe-se na difusão de valores e hábitos de consumo dos países (ditos) desenvolvidos, completando, assim, o quadro da padronização cultural mundial sob o domínio hegemônico (em especial) da cultura norte-americana (LAYRARGUES, 1998, p. 172). O desenvolvimento tecnológico é um dos vetores fundamentais do crescimento econômico, em grande parte guiado pelo interesse privado por obter benefício econômico a curto prazo (LUSTOSA, 2003). Particularmente no setor agrícola, a difusão das técnicas existentes tem sido a principal fonte de crescimento da sua produtividade nos países ditos subdesenvolvidos 25. Ocorre que a introdução de tecnologias também causou a degradação do meio ambiente de trabalho rural. À medida em que a economia passa a ser cada vez mais industrializada, as interdependências entre as atividades rurais e a industria dão novos contornos às funções da agricultura no desenvolvimento econômico. Os vínculos de interdependência ampliam-se na proporção em que a agricultura se torna absorvedora do progresso técnico e a indústria se adapta às necessidades da agricultura, fornecendo-lhe insumos e adquirindo-se produtos (SOUZA, 2005). 25 Como lembra Moraes (2000), os próprios termos desenvolvidos e subdesenvolvidos, empregados nesse contexto, refletem a ideologia do padrão de progresso/desenvolvimento das sociedades industriais.

57 57 No setor rural brasileiro, o meio ambiente de trabalho agrícola passou gradativamente por profundas mudanças, a partir de 1950, devido à implementação de novas tecnologias na produção. Isso se refere à invenção e disseminação de novas sementes, máquinas, agroquímicos e práticas que permitiram, nas décadas de 1960 e 1970, um grande aumento na produção agrícola em países considerados menos desenvolvidos. Como base dessas transformações a intensiva utilização de sementes melhoradas (particularmente sementes híbridas), insumos industriais (fertilizantes e agrotóxicos), mecanização e diminuição do custo de manejo, bem como uso intensivo de tecnologia no plantio, na irrigação, na colheita e no gerenciamento da produção (SANTOS, 2006). A referida Revolução Verde, assim, propiciou um incremento brutal na produção agrícola em países não industrializados, com destaque para Brasil e Índia. O Brasil, a partir da década de 1970, passou a desenvolver as próprias tecnologias através de instituições privadas e governamentais, como a Embrapa e universidades. Assim, nos anos de 1990, essa tecnologia foi disseminada, provocando no país um imenso desenvolvimento agrícola, com ampliação de sua fronteira agrícola, inclusive com avanços na incorporação do cerrado e no aumento da produtividade. Chega o Brasil, então, a ser recordista em produtividade de soja, milho e algodão, entre outros, consolidando-se no país à era do agrobusiness (SANTOS, 2006). Nesse processo, a agricultura se tornou uma atividade profundamente relacionada ao capital e à indústria, com tecnologias avançadas no sistema de produção visando ao aumento da produtividade, sempre na busca do maior lucro. (...) o processo de modernização da agropecuária (...) se consubstancia na mudança da base técnica da produção nacional que se dá no pós-segunda Guerra, mediante a importação de tratores e fertilizantes, com o fim de incrementar a atividade da agropecuária. A mudança da base técnica da produção da agropecuária pressupõe introduzir novas culturas e/ou novos cultivares, e também transformar a agropecuária extensiva em agropecuária intensiva de base mecanizada (MONTEIRO, 2002, p. 90). Na trajetória de um crescente processo de modernização agrícola, o meio ambiente de trabalho rural passou, nas ultimas décadas, por profundas

58 58 mudanças no padrão tecnológico de produção agropecuária, as quais atingiram diretamente trabalhadores/as rurais e a sociedade. Importa salientar, no entanto, que as transformações ocasionadas não foram somente negativas, já que algumas tecnologias trazem melhoria ao ambiente de trabalho, nas que compreendem a segurança e proteção à saúde do/a trabalhador/a. Porém, outras, quando usada de forma inadequada e sem os devidos cuidados, causam danos imensos à saúde não só de trabalhadores/as, mas também ao meio ambiente, em sentido amplo, como no caso a utilização inadequada, na agricultura, de produtos químicos. É impossível vislumbrar a realidade do trabalho sem a visualização da atividade econômica, uma vez que o trabalho humano está presente em todas as etapas do processo produtivo. Por outro lado, não há atividade econômica sem influência no meio ambiente (PADILHA, 2002), sendo, nos dias atuais, a preservação do meio ambiente geral, incluindo-se o meio ambiente de trabalho, um imperativo de sobrevivência na Terra. Dessa forma, questionase: como trabalhar, produzir e preservar o meio ambiente ao mesmo tempo? Como manter um meio ambiente de trabalho equilibrado? No âmbito rural, por exemplo, para produzir uma lavoura é necessário derrubar a vegetação nativa, interferir no meio ambiente natural com produtos químicos e máquinas, modificar geneticamente sementes para que a planta se adapte ao meio, etc. Mas, se não se produzirem alimentos para uma população em crescimento demográfico, como alimentá-la? As respostas a essas questões talvez sejam um dos maiores desafios do nosso século. Uma das alternativas para minimizar os efeitos causados ao meio ambiente pela atividade econômica é a busca do equilíbrio entre a interferência no meio ambiente e sua efetiva preservação. Transportando esta idéia para o meio ambiente de trabalho que, segundo PADILHA (2001) pode ser compreendido pela inter-relação da força do trabalho humano (energia) e sua atividade no plano econômico, através da produção (matéria), afetando o seu meio (ecossistema), o que se deve mesmo buscar, nessa inter-relação, é o equilíbrio. Dessa forma, um meio ambiente de trabalho equilibrado deve assegurar condições mínimas para uma razoável qualidade de vida de

59 59 trabalhadores/as e da sociedade porventura afetada pela sua, não se limitando à relação obrigacional (patrão-empregado) nem ao espaço físico do estabelecimento, porque se estende ao meio e população por ele atingidos. Oliveira (1998) afirma que assim como homens e mulheres não buscam apenas saúde no sentido estrito, mas também anseiam por qualidade de vida e, trabalhadores/as não desejam somente ter higiene para desempenhar suas funções, mas também qualidade de vida no trabalho. Não é fácil avaliar o que seja qualidade de vida, pois, segundo Vecchia (2005), esse conceito se relaciona à autoestima e ao bem-estar pessoal e abrange uma série de aspectos, como a capacidade funcional, o nível socioeconômico, o estado emocional, a interação social, a atividade intelectual, o autocuidado, o suporte familiar, o próprio estado de saúde, a situação dos valores culturais e éticos, a religiosidade, o estilo de vida, a satisfação com o emprego ou com atividades diárias, o ambiente em que se vive, etc. Trata-se, assim, de uma construção subjetiva dependente de fatores socioculturais, da faixa etária e das aspirações individuais. Assim, qualidade de vida é um termo empregado para descrever a qualidade das condições de vida, levando em consideração fatores como a saúde, a educação, o bem-estar físico, psicológico, emocional e mental, a expectativa de vida, bem como outros elementos, como família, amigos, emprego, etc. A OMS definiu qualidade de vida como a percepção do indivíduo de sua posição na vida no contexto da cultura e sistemas de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações. Aliás, na tentativa de buscar um instrumento que lhe medisse, a OMS criou um projeto multicêntrico que teve como resultado a elaboração do WHOQOL-100, um questionário composto por 100 itens (WHOQOL GROUP, 1998). Concebe-se, destarte, a qualidade de vida como individual, porém alguns indicadores podem, em geral expressá-la em relação a um grupo. Nesse sentido, avaliando-se as condições de saúde (física e mental), higiene e segurança no trabalho, afere-se um aspecto geral da qualidade de vida no meio ambiente de trabalho. Isso leva a supor que um meio ambiente de trabalho rural equilibrado deve estar fundado na perspectiva de um desenvolvimento

60 sustentável da agricultura, contemplando a conservação dos recursos naturais, a utilização de tecnologias apropriadas e a viabilidade econômica e social Sobre a proteção legal do meio ambiente de trabalho A proteção legal do meio ambiente de trabalho é o conjunto de normas que regulamentam a ação do ser humano em relação a esse ambiente, a fim de protegê-lo e às pessoas que nele convivem. Normas jurídicas são as de um sistema que, em caso de violação, prevê, no final, uma sanção, isto é, uma força organizada, especialmente uma pena ou uma execução (KELSEN, 2003). No campo jurídico, existem três critérios de valoração das normas jurídicas: o da justiça, o da validade e o da eficácia das normas. Segundo Bobbio (2005), quanto à justiça, uma norma justa é aquela que atinge aos valores últimos ou finais que inspiram um determinado ordenamento jurídico, ou seja, o bem comum. A validade expressa a existência da norma como regra jurídica. Para saber se uma norma é válida, é necessário investigar três aspectos: 1) se a autoridade de quem emanou tinha o poder legítimo para fazê-lo; 2) se não foi ab-rogada; 3) se não é incompatível com outras normas do sistema. Já a eficácia de uma norma jurídica se dá quando as pessoas a quem esta se dirige, seguem-lhe os preceitos. O Brasil é um dos países mais avançados do mundo em termos de legislação ambiental, o que também ocorre com relação ao meio ambiente do trabalho (MELO, 2008). A Constituição Federal de 1988, assim como todas as declarações internacionais, consagram o direito mais fundamental de homens e mulheres: o direito à vida. Porém, segundo a Constituição Federal, no artigo 225, essa vida tem que ter qualidade e, para isto, é necessário assegurar trabalho decente e em condições seguras e salubres, além de garantir a todos/as o direito ao meio ambiente equilibrado. O artigo 170 da Carta Magna diz que a ordem econômica deve se fundar na valorização do trabalho e na livre iniciativa, assegurando a existência digna, conforme os ditames da justiça social, observado como princípio a

61 61 defesa do meio ambiente (MELO, 2008), além de garantir o direito à saúde, segundo o artigo 196. A Constituição garante ainda reparação dos prejuízos sofridos pelo trabalhador, como o seguro contra acidente do trabalho, a reparação pelo trabalho penoso, insalubre e perigoso (art. 7, inc. XXVIII) e o direito à resposta proporcional ao agravo, sem dizer da indenização material, moral ou à imagem (art. 5, V, X). Dessa forma, o meio ambiente de trabalho, devido à sua importância, recebe proteção constitucional adequada, a qual precisa, no entanto, sair do papel para a prática, para efetivar a garantia desses direitos a trabalhadores/as. No âmbito estadual, a Constituição do Piauí traz, no capítulo VII, normas regulamentadoras sobre o meio ambiente e incumbências para a sua efetiva preservação, garantindo a proteção ao meio ambiente de trabalho, e saúde. O seu art. 203, parágrafo único, dispõe que: Art A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantidos mediante políticas sociais e econômicas que visem à extinção dos riscos 26 de doenças e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e aos serviços destinados a sua promoção, proteção e recuperação, com prioridade para as atividades preventivas e de vigilância epidemiológica. Parágrafo único O direito à saúde pressupõe: I condições dignas de trabalho e renda, saneamento, moradia, alimentação, educação, transporte e laser; II respeito ao meio ambiente sadio e ao controle da poluição ambiental; Na esfera das normas institucionais infraconstitucionais, destacamse a Lei de Política Nacional do Meio Ambiente (Lei n /81), a Consolidação das Leis Trabalhistas - CLT, Portarias e Normas Regulamentadoras, Convenções da OIT e normas penais. A Lei de Política Nacional do Meio Ambiente (Lei n /81) tem grande importância para o meio ambiente do trabalho, pois define a poluição 26 Risco é uma construção social para a qual concorrem tanto disciplinas científicas, quanto grupos e classes. Tal construção é sempre mediada por valores socioculturais. Constitui-se em atributo ambíguo, indeterminado, que aponta para liminaridades e virtualidades. Refere estado de incerteza de uma situação, e encontra-se presente entre dois pólos nos processos de vida de indivíduos ou grupos. Tal fenômeno encerra pode e saber no cerne de relações de natureza política, ideológica e mágico-religiosas que conformam práticas e representações distintas. Acidentes, doenças e mortes constituem momentos de ruptura e redefinição do risco (RANGEL, 2009). Para abordagens mais amplas da sociedade de risco ver Beck (1997), Giddens (1997), e Guivant (2001).

62 62 como a degradação da qualidade ambiental resultante da atividade que, direta ou indiretamente, prejudiquem a saúde, a segurança e o bem estar da população (art. 3, III), responsabilizando o poluidor. Saliente-se que, quando a Lei se refere a meio ambiente, devem ser entendidos também o meio ambiente de trabalho, e o meio ambiente natural, físico e cultural. A CLT trata, no capítulo V, da segurança e medicina do trabalho trazendo normas que, se efetivamente cumpridas, avançarão na prevenção do meio ambiente de trabalho. O capítulo determina obrigações das empresas para cumprir e fazer cumprir tais normas, fornecendo equipamentos de proteção e orientando trabalhadores/as, sob pena se sanção proporcional à gravidade do ato. A CLT também incumbe às DRTs a competência de fiscalizarem e punirem, com multas, a empregadores que transgredirem as normas ambientais laborais, podendo até interditá-las, dependendo da gravidade da transgressão. A CLT ainda delega ao Ministério do Trabalho (MTE) a competência de editar normas regulamentadoras sobre segurança, medicina e higiene no trabalho, como a Portaria 3.214/77 e várias Normas Regulamentadoras (NRs) de uso diário nos ambientes de trabalho. Aliás a Portaria 3.214/77 foi elaborada pelo MTE que, por meio de várias NRs (quadro 2), regulamentou o meio ambiente laboral no que diz respeito à segurança, higiene e medicina do trabalho. Essas normas regulamentadoras foram elaboradas de forma tripartite, com participação do governo, trabalhadores e empregadores, representando um avanço na melhoria das condições ambientais de trabalho e a democratização das relações laborais (MELO, 2008). As NRs e NRR são de responsabilidade da fiscalização do MTE, através das Superintendências e Delegacias do Trabalho. As NRs em vigência são as seguintes:

63 63 NR 1 Disposições gerais NR 2 Inspeção prévia NR 3 Embargos ou interdição NR 4 Serviços Especializados em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho NR 5 Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA) NR 6 Equipamentos de Proteção Individual (EPI) NR7 Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional (PCMSO) NR 8 Edificações NR 9 Programa de Prevenção de Riscos Ambientais (PPRA) NR 10 Instalações e serviços em eletricidade NR 11 Transporte, movimentação, armazenagem e manuseio de materiais NR 12 Máquinas e equipamentos NR 13 Caldeiras e vasos de pressão NR 14 Fornos NR 15 Atividades e operações insalubres NR 16 Atividades e operações perigosas NR 17 Ergonomia NR 18 Condições e Meio Ambiente de Trabalho na Industria de Construção NR 19 Explosivos NR 20 Líquidos, combustíveis e inflamáveis NR 21 Trabalho a céu aberto NR 22 Trabalhos subterrâneos NR 23 Proteção contra incêndios NR 24 Condições sanitárias e de conforto nos locais de trabalho NR 25 Resíduos industriais NR 26 Sinalização de segurança NR 27 Registro de profissional de Técnico de Segurança do Trabalho no Ministério do Trabalho NR 28 Fiscalização e penalidades NR 29 Segurança e saúde no trabalho portuário NR 30 Segurança e saúde no trabalho aquaviário NR 31 Segurança e saúde no trabalho na agricultura, pecuária, silvicultura, exploração florestal e aqüicultura NR 32 Segurança e saúde no trabalho em estabelecimentos de saúde NR 33 Segurança e saúde no trabalho em espaços confinados NRR 1 Disposições gerais NRR 2 Serviços Especializados em Prevenção de Acidentes no Trabalho Rural (SEPATR) NRR 3 Comissão Interna de Prevenção de Acidentes de Trabalho Rural (CIPATR) NRR 4 Equipamentos de Proteção Individual EPI NRR 5 Produtos químicos Quadro 2: Normas Regulamentadoras do ambiente laboral Fonte: MTE (2009) No campo internacional também existem várias convenções da Organização Internacional do Trabalho (OIT), ratificadas pelo Brasil, que tratam de normas de prevenção do meio ambiente de trabalho, no sentido de garantir saúde e segurança a trabalhadores/as (quadro 3).

64 64 Convenção 12 sobre indenização por acidente de trabalho, ratificada em 1957 Convenção 16 sobre o exame médico das crianças trabalho marítimo ratificada em 1936 Convenção 19 sobre a igualdade de tratamento nos acidentes de trabalho, ratificada em 1957 Convenção 42 sobre doenças profissionais, ratificada em 1936 Convenção 45 sobre trabalho subterrâneo de mulheres, ratificada em 1938 Convenção 81 sobre a inspeção do trabalho, ratificada em 1989 Convenção 113 sobre o exame médico dos pescadores, ratificada em 1965 Convenção 115 proteção contra radiações ionizantes, ratificada em 1967 Convenção 136 proteção contra os riscos de intoxicação pelo benzeno, ratificada em 1994 Convenção 139 prevenção e controle de riscos profissionais causados pela substâncias ou agentes cancerígenos, ratificada em 1991 Convenção 148 proteção dos trabalhadores contra os riscos profissionais devido à contaminação do ar, ao ruído e às vibrações no local de trabalho, ratificada em 1983 Convenção 152 segurança e higiene nos trabalhos portuários, ratificada em 1991 Convenção 155 segurança e higiene do trabalhador e do meio ambiente de trabalho em geral, em todas as áreas da atividade econômica, ratificada em 1993 Convenção 159 reabilitação profissional e emprego de pessoas deficientes, ratificada em 1991 Convenção 161 diretrizes para orientar os serviços de saúde e segurança no trabalho, ratificada em 1991 Convenção 162 utilização do asbesto como segurança, ratificada em 1991 Convenção 164 sobre a proteção da saúde e assistência médica aos trabalhadores marítimos, ratificada em 1998 Convenção 167 sobre saúde e segurança na construção, ratificada em 2007 Convenção 170 sobre produtos químicos, ratificada em 1998 Convenção 176 sobre segurança e saúde nas minas, ratificada em 2007 Quadro 3: Convenções Internacionais de prevenção do ambiente laboral Fonte: Melo (2008) A normatização referente à saúde e segurança no trabalho prevê maneiras de conviver e lidar com risco, saúde e segurança no ambiente laboral. Assim, prescreve-se um conjunto de estratégias padronizadas, ou não, no âmbito de normas e políticas de segurança às quais subjaz um conjunto de saberes, representações, ideologias e práticas de saúde e segurança. As estratégias padronizadas têm significado para gerentes e trabalhadore/as e dizem respeito a: programa de segurança; formas de participação de trabalhadore/as; normas e procedimentos de segurança; CIPA; códigos de segurança no espaço e no tempo e nas atividades laborativas. Assim, a política de segurança prevê formas de controle e disciplina de trabalhadore/as, regulando os conflitos em segurança.. Por um lado, o discurso empresarial é racionalizador e gerenciador dos riscos. Por outro, trabalhadore/as se submetem ou não aos riscos, conforme interesses e capital sociocultural. As normas e procedimentos de segurança funcionam, muitas vezes, na prática,

65 65 através de uma linguagem silenciosa que se revela em símbolos, cores, etiquetas. São instrumentos que regulam três tipos de conflitos: técnicos de segurança/trabalhadores; técnicos de segurança/gerências; trabalhadores/gerências. (RANGEL, 2009) Na esfera penal também há algumas disposições legais relacionadas ao meio ambiente de trabalho, como o art. 132 do Código Penal que define como crime o ato de expor trabalhadores/as a perigo direto e iminente, além dos crimes de perigo comum, previstos nos artigos 250 a 259. Aplicam-se também no campo laboral as penalidades por acidentes ocorridos com trabalhadores/as, previstos nos artigos 121 a 129 do mesmo Código. A Lei dos Crimes Ambientais tipifica esses crimes, com suas respectivas penas, aplicáveis também ao meio ambiente de trabalho, sem dizer que o 2º do art. 19 da Lei 8.213/91 considera contravenção penal a falta de cumprimento das Normas Regulamentadoras. Cabe ainda destacar o importante papel das negociações coletivas laborais na busca de implementação de ambientes de trabalho sadios e seguros e, como consequência, o ajuizamento de dissídios coletivos perante a Justiça do Trabalho para criar normas atinentes ou interpretar as já existentes, como fonte de regulamentação infraconstitucional da prevenção dos riscos ambientas no trabalho (MELO, 2008) NR 31 No dia 4 de março de 2005, o MTE aprovou a Norma Reguladora n 31, que trata da segurança e da saúde na agricultura, pecuária, silvicultura, exploração florestal e aquicultura, com o objetivo de estabelecer preceitos a serem observados no meio ambiente de trabalho rural. A NR 31 foi elaborada de forma tripartite, com participação do poder público, trabalhadores e empregadores, sendo fruto de muitas lutas para a melhoria das condições de saúde, segurança, higiene e meio ambiente de trabalho no campo. 27 Em 2006, foram realizadas em todo o Brasil, Segundo Ihering (2003), o objetivo do direito é a paz, e a luta é o meio para consegui-la. Pode-se assim afirmar, sem receio, que o amor que um povo dedica a seu direito, o qual defende com energia, se determina pela intensidade do esforço e da luta que esse bem lhe

66 66 autuações por desrespeito às exigências estabelecidas na NR 31, contra em 2007, de acordo com dados da MTE. Dentre essas autuações, as principais irregularidades encontradas se relacionam ao não fornecimento dos EPI s e à não exigência do seu uso pelo empregador, à não disponibilização de instalações sanitárias nas frentes de trabalho, à não realização de exame médico admissional antes do obreiro assumir a atividade, à falta de água potável e fresca nos locais de trabalho, à ausência de locais adequados para a realização das refeições e à inexistência de material próprio para os primeiros socorros. Preceitua a NR 31 que cabe aos empregadores a garantia das condições adequadas de trabalho, higiene e conforto, e a avaliação dos riscos e das causas que ocasionam acidentes e doenças. Segundo a mencionada NR, essas avaliações devem ser feitas com a participação de uma Comissão Interna de Prevenção de Acidentes no Trabalho Rural (CIPART), criada para esse fim. Estipula, ainda a NR que cabe ao empregador com mais de cinquenta empregados estruturar um Serviço Especializado em Segurança e Saúde no Trabalho Rural (SESTR), formado por engenheiros, médicos, enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem do trabalho. Por conseguinte, diante da variedade de exigências, um tanto inovadoras, trazidas pela NR-31, resta ao empregador rural ou equiparado cumprir aos regramentos para garantir a boa saúde dos seus empregados. Dentre as providências mais importantes a serem tomadas, destacam-se as seguintes: a) realizar avaliações dos riscos para a segurança e a saúde dos trabalhadores e, com base nos resultados obtidos, adotar as medidas de prevenção e proteção adequadas; b) analisar, com a participação da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes no Trabalho Rural CIPATR, as causas dos acidentes e das doenças decorrentes do trabalho, buscando prevenir e eliminar as possibilidades de novas ocorrências; custou. Os laços mais fortes entre um povo e seu respectivo direito não se formam pelo hábito, mas pelo sacrifício.

67 67 c) assegurar que sejam fornecidas aos trabalhadores instruções compreensíveis em matéria de segurança e saúde, bem como toda orientação e supervisão necessárias ao trabalho seguro; d) adotar medidas de avaliação e gestão dos riscos, com a seguinte ordem de prioridade: 1º) eliminação dos riscos; 2º) controle de riscos na fonte; 3º) redução do risco ao mínimo, inclusive através de capacitação; 4º) adoção de medidas de proteção pessoal, no caso de persistirem os riscos. A prioridade, pois, é a eliminação dos riscos à saúde do empregado, o que não significa o simples fornecimento de EPI s, que deve ser a última medida a ser tomada para a neutralização deles. Tal equipamento só deve ser usado após o empregador reduzir ao mínimo possível, ou eliminar, os riscos à saúde do obreiro. Necessário é verificar a importância de os produtores rurais do setor observarem a NR 31. Cabe aqui destacar que as penalidades administrativas pelo não cumprimento das normas estipuladas vão da possibilidade da cominação de pesadas multas, passando pelo embargo ou interdição do estabelecimento em situações mais graves, a aplicação de sanções penais. Vale salientar que a NR 31 surgiu para ser um divisor de águas na realidade do trabalho rural no Brasil, trazendo inúmeros benefícios para os trabalhadores rurais. 3.3 Saúde e segurança como dimensões da dignidade de trabalhadores/as. A Constituição Federal de 1988 se erigiu sobre o princípio que fundamenta todo o ordenamento jurídico brasileiro, a dignidade da pessoa humana. Esse princípio concebe a pessoa humana como dotada de direitos essenciais, sem a realização dos mesmos, não terá força suficiente para a conformação de sua personalidade e o seu pleno desenvolvimento como pessoa (SILVA, 2008, p. 70). Dessa forma, o simples fato de a pessoa existir confere a ela direitos que lhe garantam um mínimo existencial. Por ter a lei caráter abstrato, torna-se extremamente difícil definir o que é efetivamente o âmbito de proteção da dignidade da pessoa humana. Por

68 68 outro lado, essa abstração contém, de forma ampla, a ideia indistinta do humanismo como valor central das sociedades democráticas. Mas se entende, no Brasil, que o mínimo existencial garantidor da dignidade da pessoa humana incluem moradia, educação, formação profissional e saúde, proteção da moral e imagem, de sorte que os direitos fundamentais elencados na Constituição Federal se tornam a expressão da proteção dessa dignidade. O princípio da centralidade da ordem político-social no ser humano é a conquista cultural recentíssima, atada ao desenvolvimento da democracia na história dos últimos duzentos anos e efetivamente manifestada apenas a partir de meados do século XX. A noção de que o valor central das sociedades é a pessoa humana, em sua singeleza e independente de sua riqueza ou status social, é um dos avanços jurídicos mais notáveis na história juspolítica da humanidade. É disso que trata o princípio da dignidade da pessoa humana, alçado, hoje, ao núcleo dos sistemas constitucionais mais democráticos. Nesta posição, tornou-se, de fato, o epicentro de todo o ordenamento jurídico (DELGADO, 2001, pág. 119). A dignidade humana é, com isto, um princípio de caráter absoluto, constituindo a base ética norteadora de toda a vida econômica e social. Como afirma Oliveira (1998), a dignificação do trabalho inverte a ordem de apreciação, colocando o homem como valor primeiro. Nesse sentido, tomando a saúde como um aspecto de dignidade humana, o direito a ela é um direito humano inerente a todo/a cidadão/ã. No âmbito jurídico brasileiro, somente a Constituição Federal de 1988 positivou o direito à saúde como um direito humano fundamental. As Cartas anteriores não a elevavam à condição de direito fundamental do homem, contemplando a saúde apenas como norma de organização administrativa. Por muito tempo a saúde foi entendida como o estado de quem se encontra sem doença. Somente a partir da criação da Organização Mundial de Saúde - OMS pela Organização das Nações Unidas ONU, na década de 1940, houve um avanço no conceito de saúde, trazido na sua carta de fundação: a saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não somente a ausência de afecções e enfermidades (SILVA, 2008). Esse conceito de saúde passou por mudanças e, na década de 90, foi promulgada a Lei 8.090/90 (Lei Orgânica da Saúde LOS), que, no 3º do artigo 2º, determina que a saúde tem como determinantes e condicionantes, entre outros, a alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho, a renda, o transporte, o lazer e o acesso a bens e serviços

69 69 essenciais. A mesma lei dispõe no 3º do artigo 6º que a saúde do trabalhador é um conjunto de atividades que se destina, através de ações de vigilância epidemiológica e vigilância sanitária, à promoção e proteção da saúde dos trabalhadores, assim como visa à recuperação e reabilitação dos trabalhadores submetidos aos riscos e agravos advindos das condições de trabalho. Dessa forma, o direito à saúde significa o direito à integridade física e funcional (inclusive mental), a uma alimentação balanceada, ao vestuário, à moradia, ao saneamento básico, à proteção do meio ambiente, entre outros (SILVA, 2008). A saúde do trabalhador é uma espécie da saúde geral e sua proteção envolve adoção de medidas de segurança e higiene no trabalho, bem como proteção do meio ambiente de trabalho laboral. A propósito, o elemento saúde no trabalho depende de uma série de condicionantes, não sendo entendido somente com a ausência de doenças e outros agravos. O ponto de partida deve ser o ambiente onde estão estabelecidas as relações de trabalho, ocasionando situações que afetam e interferem com o trabalhador (ROCHA, 2002, p. 128) A saúde do trabalhador rural deve orientar-se pela necessidade de, além da atenção dispensada ao paciente que procura pelo serviço, promoção de mudanças no processo de trabalho responsável pelo adoecimento, para que o trabalhador continue trabalhando sem risco de uma recaída ou agravamento da situação ou, ainda, evitar que outros venham a adoecer. Segundo Dias (2006), a atenção à saúde do trabalhador requer uma atuação multiprofissional intersetorial, inter e transdisciplinar de maneira a contemplar, em toda a sua complexidade, a relação trabalho-saúde-doença. No setor rural, onde se pratica a agricultura moderna, mecanizada e voltada para a produção intensiva, têm-se duas situações: a implementação de novas tecnologias e novas formas de organização de trabalho que intensificam os riscos à saúde de trabalhadores/as rurais e a adoção de tecnologias dirigidas à segurança do/a trabalhador/a rural, protegendo-o dos riscos a que está exposto/a no seu exercício laboral. Os fatores de riscos e possíveis agravos ou danos para a saúde de trabalhadores/as relacionados ao trabalho rural podem ser definidas, segundo Dias (2006), da forma como apresentada a seguir (quadro 4):

70 70 Tipo de risco Fator de risco Situação de trabalho Agravo ou dano para a saúde Físico Calor Trabalho ao ar livre, sob radiação solar, junto a máquinas, motores e caldeiras; dificuldades para reposição hídrica por Estresse térmico, câimbras, síncope pelo calor, fadiga pelo calor, insolação. acesso a água ou barreiras culturais Frio, vento e chuva Trabalho ao ar livre Afecções de vias aéreas superiores, resfriados Químicos Biológicos Raios (descargas elétricas) Trabalho em campo aberto por ocasião de tempestades Choque elétrico Vibração Operação de máquinas agrícolas, tratores, serra elétrica, produzindo vibração de corpo inteiro ou vibração localizada, particularmente em mãos e braços Ruído Radiação solar Agentes químicos diversos, fertilizantes e adubos, agrotóxicos. Bactérias, vírus, fungos e ácaros. Picadas de animais peçonhentos. Mecânicos Ferramentas manuais cortantes, pesadas, pontiagudas Máquinas e implementos agrícolas Organização do Relação de trabalho, Trabalho precarização, sazonalidade da produção que impõe sobrecarga de trabalho Trabalho com máquinas: tratores, colhedeiras, colocação de ferradura em animais. Trabalho em campo aberto por longos períodos, com exposição a radiação ultra-violeta. Aplicação de adubos e fertilizantes, preparo de misturas e aplicação de agrotóxicos, tratamento e armazenamento de grãos,. O armazenamento e manuseio de excremento de animais podem expor o trabalhador a ácido sulfídrico e amônia. Carcinicultura Preparo e manuseio de rações para animais; feno elaborado, ração em decomposição, fibras de cana de açúcar, preparo de cogumelos, tratamento de aves em confinamento. Manejo de animais. Trabalho de preparo de solos, limpeza de pastos, capina e colheita. Uso de facão, foice, machado, serra, enxada, martelo, ferramentas inadequadas, adaptadas e em mau estado de conservação. Trabalho distante do domicilio do trabalhador, alojamento precário, com más condições de saneamento e conforto. Alimentação inadequada, longas jornadas de trabalho, sob forte pressão de tempo. Relações de trabalho precárias e rigidamente hierarquizadas. Quadro 4: Tipos e fatores de risco e suas conseqüências no ambiente laboral Fonte: Dias (2006, pág ) Lombalgia, doença vascular periférica, doença osteomuscular (DORT) Perda de audição e outros efeitos extra-auditivos decorrentes da exposição ao ruído, como distúrbio do sono, nervosismo, alteração gastrointestinais. Câncer Dermatite de contato, rinites e conjuntivite, intoxicações por agrotóxicos, doenças respiratórias obstrutiva, bronquites, asma ocupacional, doença pulmonar restritiva, doença pulmonar interstical com fibrose, câncer, doença neurológica, alterações de humor e do comportamento, alterações endócrinas, alterações reprodutivas. Rinites, conjuntivite, doença respiratória obstrutiva, asma ocupacional, Pulmão do Agricultor ou hipersensibilidade ou alveolite alérgica, febre Q, brucelose, psitaciose, tularemia, tuberculose bovina ou aviária, leptospirose, histoplasmose, raiva, picadas de cobras e aranhas, queimaduras por lagartas. Lesões agudas: acidentes do trabalho com cortes, esmagamento, etc. Lesões crônicas: hiperceratose Acidentes de trabalho, lombalgia, DORT Sofrimento mental, distúrbio do sono e de humor, fadiga, DORT

71 71 Já as tecnologias que visam proteger trabalhadores/as dos riscos a que estão expostos/as compreendem equipamentos de proteção individual (EPIs), máquinas com cabine fechada e climatizadas - que impedem a entrada de produtos químicos utilizados na lavoura, e proporcionam maior conforto ao trabalhador, pulverizadores, também com cabines fechadas, climatizadas e com filtro de carvão ativado que impede a passagem do agrotóxico para dentro da cabine, etc. Mas, além do direito à saúde no trabalho, o/a trabalhador/a rural também tem direito à segurança no trabalho. O campo da segurança do trabalho constitui um conjunto de ciências e tecnologias que visam à proteção de trabalhadores/as no seu local de trabalho, no que se refere à questão da consciência e da higiene laboral, tendo como objetivo básico a prevenção de acidentes. Fala-se de uma área de engenharia e de medicina do trabalho cuja meta é identificar, avaliar e controlar situações de risco, proporcionando um ambiente de trabalho mais seguro e saúdavel para as pessoas. A segurança do trabalho estuda diversas disciplinas como introdução à segurança, higiene e medicina do trabalho, prevenção e controle de riscos em máquinas, equipamentos e instalações, psicologia na engenharia de segurança, comunicação e treinamento, administração aplicada à engenharia de segurança, o ambiente e as doenças do trabalho, higiene do trabalho, metodologia de pesquisa, legislação, normas técnicas, responsabilidade civil e criminal, perícias, proteção do meio ambiente, ergonomia e iluminação, proteção contra Incêndios e explosões e gerência de riscos. Ademais, o quadro de segurança do trabalho de uma empresa compõese de uma equipe multidisciplinar composta por técnico de Segurança do trabalho, engenheiro de segurança do trabalho, médico do trabalho e enfermeiro do trabalho, profissionais que formam o Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho - SESMT. Por seu turno, os/as empregados/as de uma empresa constituem a Comissão Interna de Prevenção de Acidentes - CIPA, que busca a prevenção de acidentes e doenças decorrentes do trabalho de modo a torná-lo permanentemente compatível com a preservação da vida e a promoção da saúde do/a trabalhador/a.

72 72 No Brasil, um dos instrumentos de gestão da segurança do trabalho é o SESMT, previsto na legislação trabalhista brasileira e regulamentado em uma portaria do MTE, por intermédio da Norma Regulamentadora nº 4 (NR-4), que estabelece as atribuições do serviço e determina a sua composição de acordo com o grau de risco da atividade da empresa e a quantidade de empregados. Os profissionais que podem integrar o SESMT são os seguintes: Auxiliar de enfermagem do trabalho Enfermeiro do trabalho Engenheiro de segurança do trabalho Médico do trabalho Técnico de segurança do trabalho Destacam-se entre as principais atividades da Segurança do Trabalho a prevenção de acidentes, a promoção da saúde e a prevenção de incêndios. Assim, a segurança no trabalho é um aspecto de suma importância para garantir a diminuição dos riscos inerentes à atividade laboral na agricultura, no âmbito da concepção institucional brasileira, de promoção de dignidade humana. 3.4 Do meio ambiente de trabalho rural em empresas agropecuárias do cerrado piauiense. Como visto no capítulo I desta dissertação, o processo de incorporação das chapadas do sudoeste piauiense pela moderna agricultura do complexo carnes/grãos promove mudanças significativas na região. Segundo relato do ex-presidente da DRT, registrado em Moraes (2000), o meio ambiente de trabalho em empresas agropecuárias do cerrado piauiense foi inóspito nos inícios desse processo, vindo a apresentar melhorias a partir da luta dos trabalhadores, com apoio do MTE: Olha, o movimento sindical, ele não se encaixa nem tão só nessa linha [defesa do trabalhador assalariado]. É porque o movimento sindical, ele vem para defender o trabalhador assalariado, o aposentado, o agricultor familiar, o vaqueiro, o pequeno garimpeiro. Sim, mas sem dúvida alguma, ele foi provocado mesmo, ele foi nascido da situação, até digamos assim, a situação de miséria, que a gente vivia no nosso meio [hoje] melhorou um pouco, pra nossa compreensão melhorou

73 73 um pouquinho, pra compreensão de quem vivia lá dentro mesmo, quem tinha aquela convivência que melhorou cem por cento. Porque ninguém tinha a carteira assinada, ninguém [trabalhadores] tinha [nos locais de trabalho] sequer um tanque para depositar água de beber. Tinha que ser numa lona, num buraco, assim: passava muito barro molhado, batia e deixava ele secar e depois botava água pra ficar ali, aquele barreiro, o famoso barreiro. Então a gente obrigou que os empresários comprassem pelo menos caixa d água, registrassem as pessoas empregadas lá, e que depositassem o Fundo de garantia, o PIS outras coisas assim. É, o essencial mesmo, é o essencial que tinha que ter. A gente, em noventa e três [1993], a gente forçou tanto pela pressão dos empregados que tava pressionando o sindicato, a gente forçou tanto a barra..., Teve. Foi comprovado. O Ministério do Trabalho veio e comprovou juntamente com a Polícia federal. Nós, o Ministério do trabalho, a Policia federal, o Sindicato passamos cinqüenta e quatro dias visitando todas as fazendas do cerrado, de Uruçuí a Bom Jesus, todas as empresas que tem aqui a gente visitou e foi comprovado, e aí, os empregadores acharam que deviam chamar todos: a categoria deles, a nossa e sentar pra discutir, porque, até aí, ninguém nunca tinha visto falar que trabalhador falava com empregador! Aí eles acharam que tavam sendo notificados pelo Ministério do Trabalho e que deveria chamar a categoria pra sentar e conversar. Aí a gente sentou e até que fez uma convenção 28. A gente não fez um acordo [coletivo] NE. E, por parte deles, foi a primeira vez que fomos reconhecidos como trabalhadores com direitos. Em noventa e três. É muito recente (F. J. S., ex presidente do STR/Uruçuí. Acampamento Saponga. In MORAES, 2000, p ) Desde então, o MTE, vem atuando na região, através de fiscalizações e medidas judiciais, o que contribuiu para que não haja retroação na melhoria do meio ambiente de trabalho. A análise de conteúdo das entrevistas, as observações de campo e os registros fotográficos tornaram possível descrever o meio ambiente de trabalho rural em propriedades agrícolas do cerrado piauiense, à luz do que normatizam os dispositivos legais concernentes ao termo 29. A propósito, a NR 31, na seção 23.1, dispõe que o empregador rural deverá disponibilizar, obrigatoriamente, onde houver trabalhadores/as alojados/as, áreas de vivência com instalações sanitárias, locais para refeição, alojamentos (quando houver permanência de trabalhadores/as no estabelecimento nos períodos entre as 28 A convenção coletiva de trabalho do setor graneleiro do Piauí, em vigor, é a de (anexo 3). 29 Como visto neste capítulo, a eficácia da norma jurídica se verifica quando as pessoas aceitam e praticam os preceitos ditados na norma. Assim, nesta seção, se aborda a eficácia da NR 31 nas empresas agropecuárias do cerrado piauiense

74 74 jornadas de trabalho), lugar adequado para preparo de alimentos e lavanderias. Essas áreas de vivência devem ter condições adequadas de conservação, asseio e higiene, redes de alvenaria, madeira ou material equivalente, piso cimentado com madeira ou material equivalente, cobertura contra as intempéries, iluminação e ventilação adequadas (NR 31,23.2.) Com base nessas determinações foram analisadas, nas fazendas visitadas (Brasil Agrícola, Canel, Cimpar, Condomínio União 2000, Itália e Progresso), as condições de alojamentos, instalações sanitárias, refeitórios, cozinhas, lavanderias, áreas de convivência, lazer, transporte e demais estruturas das propriedades, bem como o oferecimento gratuito de EPIs e as medidas de proteção a trabalhadores/as e prevenção de acidentes de trabalho adotadas Alojamentos A NR 31 define o padrão de alojamentos a que os estabelecimentos rurais devem se adequar Os alojamentos devem: a) ter camas com colchão, separadas por no mínimo um metro, sendo permitido o uso de beliches, limitados a duas camas na mesma vertical, com espaço livre mínimo de cento e dez centímetros acima do colchão; b) ter armários individuais para guarda de objetos pessoais; c) ter portas e janelas capazes de oferecer boas condições de vedação e segurança; d) ter recipientes para coleta de lixo; e) ser separados por sexo. Todas as fazendas visitadas possuem alojamentos (fig. 6 e 7) em conformidade com a NR 31(algumas com qualidades muito acima das exigências legais), o mesmo se dizendo dos alojamentos femininos separados dos masculinos. Observou-se que os alojamentos são feitos de tijolos, cobertos com telhas e com piso de cerâmica, além de serem limpos e oferecerem conforto aos/as trabalhadores/as 30 Essa numeração se refere à separação de seções e temas da NR 31.

75 75 Figura 6: Fotografia do alojamento da Faz. Figura 7: Fotografia do alojamento da Brasil Agrícola, em 09/02/2009 Faz. Canel com presença de trabalha- Fonte: Reis (2009) dor, em 10/02/2009 Fonte: Reis (2009) As camas são beliches de ferro, madeira ou feitas de cimento (fig. 8 e 9), com colchão. Os empregados podem optar por dormir em cama ou rede, de acordo com a preferência de cada um, sendo elas separadas por espaçamento de um metro. Figura 8: Fotografia do alojamento da Figura 9: Fotografia do alojamento da Faz. Progresso, em 02/05/2009 Itália, em 05/02/2009 Fonte: Reis (2009) Fonte: Reis (2009) Das seis fazendas visitadas, constatou-se que quatro possuem empregados e empregadas exclusivamente para efetuarem a higienização de alojamentos. Nas outras duas, a limpeza é feita pelos próprios empregados que utilizam os alojamentos. Observou-se também que o uso do alojamento não é descontado no salário de empregados/as Instalações sanitárias A NR 31 estabelece o padrão de instalações sanitárias As instalações sanitárias devem ser constituídas de:

76 76 a) lavatório na proporção de uma unidade para cada grupo de vinte trabalhadores ou fração; b) vaso sanitário na proporção de uma unidade para cada grupo de vinte trabalhadores ou fração; c) mictório na proporção de uma unidade para cada grupo de dez trabalhadores ou fração; d) chuveiro na proporção de uma unidade para cada grupo de dez trabalhadores ou fração No mictório tipo calha, cada segmento de sessenta centímetros deve corresponder a um mictório tipo cuba As instalações sanitárias devem: a) ter portas de acesso que impeçam o devassamento e ser construídas de modo a manter o resguardo conveniente; b) ser separadas por sexo; c) estar situadas em locais de fácil e seguro acesso; d) dispor de água limpa e papel higiênico; e) estar ligadas a sistema de esgoto, fossa séptica ou sistema equivalente; f) possuir recipiente para coleta de lixo A água para banho deve ser disponibilizada em conformidade com os usos e costumes da região ou na forma estabelecida em convenção ou acordo coletivo. Observou-se, nas seis fazendas visitadas durante a pesquisa, que as instalações sanitárias são adequados, segundo as exigências da NR 31, e encontram-se em boas condições de higiene (figs.10 a 13). Os banheiros, assim como os alojamentos, são construídos de tijolos, cobertos com telhas, com alguns revestidos por azulejos e pisos de cerâmica. São equipados com vaso sanitário, chuveiros, mictórios, pias e espelhos, além de disponibilizarem papel higiênico. Todas as propriedades contam com empregados exclusivos para efetuarem a higienização dos banheiros Figura 10: Fotografia do banheiro da Faz. Figura 11: Fotografia do banheiro da Canel, em 10/02/2009 Faz. Itália, em 05/02/2009 Fonte: Reis (2009) Fonte: Reis (2009)

77 77 Figura 12: Fotografia do banheiro da Faz Figura 13: Fotografia do banheiro da Itália, em 05/02/2009 Faz. Progresso, em 02/05/2009 Fonte: Reis (2009) Fonte: Reis (2009) A NR 31 também estabelece que nas frentes de trabalho, devem ser disponibilizadas instalações sanitárias fixas ou móveis compostas de vasos sanitários e lavatórios, na proporção de um conjunto para cada grupo de quarenta trabalhadores ou fração, atendidos os requisitos do item , sendo permitida a utilização de fossa seca. ( ). Porém, no trabalho de campo de pesquisa observou-se que, das três fazendas visitadas que têm mais de quarenta funcionários (Fazenda Canel, Itália e Progresso), somente uma, a Canel, atende a esse requisito Refeitório A NR 31 estabelece o padrão para os locais de refeição Os locais para refeição devem atender aos seguintes requisitos: a) boas condições de higiene e conforto; b) capacidade para atender a todos os trabalhadores; c) água limpa para higienização; d) mesas com tampos lisos e laváveis; e) assentos em número suficiente; f) água potável, em condições higiênicas; g) depósitos de lixo, com tampas Em todo estabelecimento rural deve haver local ou recipiente para a guarda e conservação de refeições, em condições higiênicas, independentemente do número de trabalhadores. Constatou-se, em todas as fazendas visitadas, que os refeitórios são limpos e organizados (figs. 14 a 17).

78 78 Figura 14: Fotografia do refeitório da Figura 15: Fotografia do refeitório da Faz. Faz Progresso, em 02/05/2009 Itália, em 05/02/2009 Fonte: Reis (2009) Fonte: Reis (2009) Figura 16: Fotografia do refeitório da Faz. Figura 17: Fotografia do refeitório da Cimpar com presença de trabalhadores, Faz. Canel, em 10/02/2009 em 09/02/2009 Fonte: Reis (2009) Fonte: Reis (2009) As fazendas utilizam o sistema self-service e oferecem aos trabalhadores, no almoço e no jantar, salada, arroz, feijão, macarrão, carne de gado, frango ou porco, farofa e suco, além de, no café da manhã, pão, cuz-cuz, bolo, leite e café, sendo a qualidade da comida elogiada pelos próprios trabalhadores, por ocasião das entrevistas. Observou-se ainda, em algumas fazendas, como Progresso e Canel, que os proprietários e administradores costumam fazem suas refeições no refeitório, junto com trabalhadores/as, obedecendo à ordem da fila. Assim como o alojamento, a alimentação não é descontada no salário dos trabalhadores, conforme acordado em Convenção Coletiva de Trabalho. Observou-se também que três das fazendas pesquisadas (Canel, Progresso e Itália), possuem orientação de nutricionista para formular o cardápio.

79 79 A NR 31 estabelece que nas frentes de trabalho devem ser disponibilizados abrigos, fixos ou móveis, que protejam os trabalhadores contra as intempéries, durante as refeições. Porém, somente uma das fazendas visitadas, a Canel, dispõe desse tipo de abrigo; nas demais, trabalhadores/as relataram que almoçam dentro ou sob as próprias máquinas ou em alguma sombra. refeições: A NR 31 igualmente dispõe sobre os locais para o preparo das Os locais para preparo de refeições devem ser dotados de lavatórios, sistema de coleta de lixo e instalações sanitárias exclusivas para o pessoal que manipula alimentos Os locais para preparo de refeições não podem ter ligação direta com os alojamentos. As fazendas pesquisadas possuem cozinhas equipadas com pias, água canalizada, filtros, fogões, geladeiras e freezers para armazenar os alimentos perecíveis, além de despensas para guardar os não perecíveis (figs. 18 a 21). Figura 18: Fotografia da cozinha da Faz. Figura 19: Fotografia da cozinha da Faz. Canel com presença de cozinheiras, em Progresso com presença de cozinheiro, 10/02/2009 em 02/05/2009 Fonte: Reis (2009) Fonte: Reis (2009)

80 80 Figura 20: Fotografia da cozinha da Faz. Figura 21: Fotografia da cozinha da Faz. Cimpar com presença de cozinheira, Itália, em 05/02/2009 em 09/02/2009 Fonte: Reis (2009) Fonte: Reis (2009) O ambiente das cozinhas é higienizado pelos/as cozinheiros/as e por funcionários que trabalham exclusivamente na limpeza das instalações das propriedades Lazer A NR 31 não dispõe sobre o lazer para trabalhadores/as, porém o parágrafo 3º do artigo 2º da Lei Orgânica da Saúde (LOS Lei n de 1990) prescreve que a saúde tem como determinantes e condicionantes, entre outros, a alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho, a renda, a educação, o transporte, o lazer e o acesso a bens e serviços essenciais. Assim, um dos aspectos relacionados à saúde de trabalhadores/as aponta para opções de lazer. No que tange a lazer de funcinários/as, constatou-se que todas as fazendas oferecem algumas opções, como campo de futebol, sala de televisão, sala de jogos (dominó, cartas e sinuca) (figs. 22 a 25). Os horários para assistir televisão e para jogos são sempre depois do jantar (geralmente às dezoito horas). Os jogos de futebol nas fazendas em que o campo não tem iluminação, ocorrem nos finais de semana e nos dias de folga dos trabalhadores, mas naquelas com campo iluminado se dão depois do jantar.

81 81 Figura 22: Fotografia do campo de futebol Figura 23: Fotografia da sala de televida Faz. Cimpar, em 09/02/2009 são da faz. Cimpar com presença de Fonte: Reis (2009) trabalhador, em 09/02/2009 Fonte: Reis (2009) Figura 24: Fotografia da sala de televisão Figura 25: Fotografia da mesa de sinuca. da Faz. Progresso, em 02/05/2009 da Faz. Brasil Agrícola, em 09/02/2009 Fonte: Reis (2009) Fonte: Reis (2009) Manutenção das máquinas e equipamentos A NR 31 não dispõe sobre a manutenção de máquinas e equipamentos. Tal manutenção, nas fazendas visitadas, é feita através de serviços de mecânico próprio ou da cidade, além da assistência técnica oferecida pelas empresas revendedoras de máquinas. Antes das épocas de plantio e colheita, as máquinas são submetidas à revisão (figs. 26 e 27), mas em razão da distância da região das fábricas, existe a dificuldade de se acharem peças para reparos e consertos. Como elas demoram muitos dias para chegar ao local e, na pressa de se consertar uma máquina, ocorrem reparos improvisados, o que potencializa o risco de acidentes de trabalho.

82 82 Figura 26: Fotografia do galpão de Figura 27: Fotografia das máquinas em máquinas da Faz Itália, em 05/02/2009 manutenção da Faz Canel com presença de Fonte: Reis (2009) trabalhadores, em 10/02/2009 Fonte: Reis (2009) Depósito de agrotóxicos A NR 31 estabelece critérios para a armazenagem de agrotóxicos: É vedada a armazenagem de agrotóxicos, adjuvantes e produtos afins a céu aberto As edificações destinadas ao armazenamento de agrotóxicos, adjuvantes e produtos afins devem: a) ter paredes e cobertura resistentes; b) ter acesso restrito aos trabalhadores devidamente capacitados a manusear os referidos produtos; c) possuir ventilação, comunicando-se exclusivamente com o exterior e dotada de proteção que não permita o acesso de animais; d) ter afixadas placas ou cartazes com símbolos de perigo; e) estar situadas a mais de trinta metros das habitações e locais onde são conservados ou consumidos alimentos, medicamentos ou outros materiais, e de fontes de água; f) possibilitar limpeza e descontaminação O armazenamento deve obedecer, as normas da legislação vigente, as especificações do fabricante constantes dos rótulos e bulas, e as seguintes recomendações básicas: a) as embalagens devem ser colocadas sobre estrados, evitando contato com o piso, com as pilhas estáveis e afastadas das paredes e do teto; b) os produtos inflamáveis serão mantidos em local ventilado, protegido contra centelhas e outras fontes de combustão. Constatou-se que todas as fazendas visitadas possuem o depósito de agrotóxicos de acordo com a NR 31, com estrados, fechados com cadeado e a sinalização de perigo (fig. 28, 29 e 30), destacando-se o de uma delas, a Canel, que além de estar em conformidade com a NR 31 dispõe de banheiros com chuveiros, vasos sanitários e pia exclusivamente para a higienização dos

83 83 funcionários que trabalham com esses produtos (fig. 31), sendo a água utilizada nessa higienização armazenada em fossa de concreto separada da comum. Em todas as fazendas visitadas, informou-se que, após o uso dos agroquímicos, efetuam a perfuração das embalagens, fazem a tríplice lavagem e as enviam para o posto de coleta de embalagens de agroquímicos localizados em Bom Jesus PI e Balsas-MA. Figura 28: Fotografia do depósito de agro- Figura 29: Interior do depósito de agrotóxicos da Faz Canel, em 10/02/2009 tóxicos da Faz. Canel, em 10/02/2009 Fonte: Reis (2009) Fonte: Reis (2009) Figura 30: fotografia do depósito de agrotó- Figura 31: Fotografia do local para higiexicos da. Faz. Itália, em 05/02/2009 nização de funcionários da Faz. Canel, Fonte: Reis (2009) em 10/02/2009 Fonte: Reis (2009) Equipamentos de proteção individual EPIs O artigo 166 da CLT dispõe que a empresa é obrigada a fornecer, gratuitamente, o equipamento de proteção individual (EPI) adequado ao risco e em perfeito estado de conservação e funcionamento, sempre que as medidas

84 de ordem geral não ofereçam completa proteção contra as ameaças de acidentes e danos à saúde dos/as empregados/as (PADILHA, 2001). A NR- 6 assim define equipamento de proteção individual (EPI): Para os fins de aplicação desta Norma Regulamentadora - NR, considera-se Equipamento de Proteção Individual - EPI, todo dispositivo ou produto, de uso individual utilizado pelo trabalhador, destinado à proteção de riscos suscetíveis de ameaçar a segurança e a saúde no trabalho. A utilização dos EPIs somente é prevista para quando não for possível a neutralização ou eliminação do agente agressor por outra forma. Além disso, o fornecimento dos EPIs não exime o empregador da responsabilidade de eliminar os riscos e danos ao meio ambiente de trabalho, nem o excusa do pagamento de adicional de insalubridade. Particularmente no setor rural, de acordo com a NR 31,os EPI s que devem ser obrigatoriamente fornecidos, segundo a função de cada trabalhador, são os abaixo relacionados (quadro 5):

85 85 Tipo de proteção EPI Função do EPI Tipo de trabalho 1. Proteção da cabeça, olhos e face 2. óculos contra irritação e outras lesões 3. Proteção auditiva: 4. Proteção das vias respiratórias 5. Proteção dos membros superiores 6. Proteção dos membros inferiores 7. Proteção do corpo inteiro 8. Proteção contra quedas com diferença de nível 1.1.capacete 1.2. chapéu ou outra proteção 1.3. protetores impermeáveis e resistentes 1.4. protetores faciais 1.5. óculos 2.1. óculos de proteção contra radiações não ionizantes 2.2. óculos contra a ação da poeira e do pólen; 2.3. óculos contra a ação de líquidos agressivos. 1.1 contra impactos provenientes de queda ou projeção de objetos; 1.2. contra o sol, chuva e salpicos 1.3. para trabalhos com produtos químicos; 1.4. contra lesões ocasionadas por partículas, respingos, vapores de produtos químicos e radiações luminosas intensas; 1.5. contra lesões provenientes do impacto de partículas, ou de objetos pontiagudos ou cortantes e de respingos. 2.1proteger contra radiações não ionizantes 2.2. proteger da poeira e do pólen; 2.3. proteger da ação de líquidos agressivos. Serviços gerais e trabalhos com produtos químicos Serviços gerais, operadores de máquinas e trabalhos com produtos químicos 3.1. protetores auriculares 3.1 para as atividades com níveis de ruído prejudiciais à saúde. Operadores de máquinas 4.1. respiradores com filtros mecânicos 4.1 para trabalhos com exposição a poeira orgânica Trabalho com produtos 4.2. respiradores com filtros químicos, 4.2 para trabalhos com produtos químicos; agroquímicos 4.3. respiradores com filtros combinados, químicos 4.3 para atividades em que haja emanação de gases e poeiras tóxicas; trabalhadores que e mecânicos, 4.4 para locais de trabalho onde haja redução do teor de oxigênio. fazem pulverização de 4. aparelhos de isolamento, autônomos ou de lavoura adução de ar 5.1. luvas e mangas de proteção 5.1 contra lesões ou doenças provocadas por: materiais ou objetos escoriantes ou vegetais, Serviços gerais abrasivos, cortantes ou perfurantes; produtos químicos tóxicos, irritantes, alergênicos, corrosivos, cáusticos ou solventes; materiais ou objetos aquecidos; operações com equipamentos elétricos; tratos com animais, suas vísceras e de detritos e na possibilidade de transmissão de doenças 6.1. botas impermeáveis e antiderrapantes 6.2. botas com biqueira reforçada 6.3. botas com solado reforçado botas com cano longo ou botina com perneira; 6.5. perneiras 6.6. calçados impermeáveis e resistentes 6.7. calçados fechados 7.1. aventais; 7.2. jaquetas e capas; 7.3. macacões; 7.4. coletes ou faixas de sinalização; 7.5. roupas especiais para atividades específicas (apicultura e outras). decorrentes de produtos infecciosos ou parasitários; picadas de animais peçonhentos; 6.1 para trabalhos em terrenos úmidos, lamacentos, encharcados ou com dejetos de animais; 6.2 para trabalhos em que haja perigo de queda de materiais, objetos pesados e pisões de animais; 6.3 onde haja risco de perfuração 6.4 onde exista a presença de animais peçonhentos 6.5 em atividades onde haja perigo de lesões provocadas por materiais ou objetos cortantes, escoriantes ou perfurantes; 6.6 em trabalhos com produtos químicos; 6.7 para as demais atividades. Nos trabalhos que haja perigo de lesões provocadas por agentes de origem térmica, biológica, mecânica, meteorológica e química: Trabalhadores que trabalham no secador, lava-jatos, com animais, com produtos químicos e no campo. Trabalhos com produtos químicos, onde haja variação de temperatura e onde haja circulação de veículos. 8.1 cintos de segurança 8.1 para trabalhos acima de dois metros, quando houver risco de queda Trabalho em secadores, ou lugares altos QUADRO 5: EPIs e sua finalidade FONTE: Reis (2009). Elaborado para esta pesquisa

86 86 Na pesquisa de campo, constatou-se que as empresas fornecem, gratuitamente, para funcionários/as: duas fardas (calça e camisa), camiseta de manga longa, bota, máscara, luva, protetor auricular (para operadores de máquinas) e o EPI para manusear agroquímicos, que consiste na roupa impermeável, avental, óculos, viseira, máscara com filtro e luvas. Para os funcionários que trabalham com altura é fornecido cinto de segurança. A higienização do EPI para manusear agrotóxicos é realizada por trabalhadores em três fazendas pesquisadas: Itália, Brasil Agrícola e Cimpar. As outras três, Canel, Progresso e Condomínio União 2000, possuem funcionários que realizam essa higienização. As fazendas visitadas dispõem de lavanderia para lavar os EPIs. Por ocasião das entrevistas, trabalhadores afirmaram que não levam o EPI para lavar em casa. Em alguns casos, somente levam a farda (calça e camisa) para lavagem doméstica nos finais de semana. Segundo o gerente administrativo de uma fazenda, a resistência dos empregados ao uso do EPI é uma das dificuldades enfrentadas pela gerência no que refere a meio ambiente de trabalho rural, além da carência de qualificação profissional dos/as trabalhadores/as, a falta de educação escolar e a resistência às mudanças administrativas, mesmo que venham a trazer melhorias para os/as prórpios/as: sempre que acontece a questão do acidente do trabalho a empresa é penalizada por tudo. Mas não se nota que o empregado resiste. Mas olha, quase cem por cento deles resistem ao uso do epeí [EPI]. É no uso do cinto de segurança em altura, é no uso de luva de borracha pra mexer com eletricidade, é no uso de botina especializada, por exemplo, com biqueira de aço pra quem mexe com peso, enfim, é avental pra quem mexe com lixadeira, óculos de proteção pra quem mexe com solda, protetor auricular pra quem trabalha com máquina. Eu lhe digo o seguinte: quem trabalha com máquina, o operador, cem por cento deles resistem ao uso do protetor auricular ou do abafador. cem por cento! (Comunicação oral) 31. As fazendas utilizam a prática de advertência verbal e escrita para obrigar trabalhadores/as a usarem o EPI. Mesmo assim, é comum que se 31 Edivaldo Júnior, gerente administrativo da Fazenda Progresso. Entrevista realizada na sede da Fazenda, em 01/05/2009, por Thais Reis.

87 87 recusem a usá-lo, uma resistência relatada pelos próprios trabalhadores 32, que admitem o não uso em razão do incômodo que lhes causa 33. Nota-se que esse não uso do EPI, no caso estudado, aponta para as dimensões culturais dos/as trabalhadores. Como se sabe antropologicamente, cultura é todo um complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes, assim como todas as capacidades e hábitos adquiridos pelo/a homem/mulher como membro de uma sociedade (MORAIS, 1992). Nesse sentido, a ação dos sujeitos, no mundo do trabalho, supõe dimensões culturais que não podem ser obscurecidas. Na pesquisa de campo, como se verá no próximo capítulo, constatou-se que esses/as trabalhadores/as rurais, em sua maioria, são da região e de origem social camponesa. Isso significa dizer que os/as, hoje empregados/as das fazendas pesquisadas, nasceram e foram socializados no universo do campesinato (MORAES, 2000), com a família cultivando a terra para seu aprovisionamento sem a utilização de tecnologias modernas, como agroquímicos, fertilizantes, máquinas, tratores, etc. Trata-se de pessoas que trabalhavam, juntamente com a família, descalços ou, no máximo, de chinelos, sem cumprir horários rigorosos, utilizando banheiros sem instalações hidráulicas, em um modo de vida (MORAES, p. 248, 2000) diferente do padrão laboral das fazendas modernas. Tais pessoas, na idade apropriada para o ingresso no mercado de trabalho, são contratadas para trabalhar em uma fazenda moderna e nesse momento, muitas se vêem n a obrigatoriedade de uso de vários equipamentos e adoção de novos comportamentos: uso de botas e farda, cumprimento de horários rigorosos, contato com tecnologia (que se não utilizada de forma adequada, prejudicará sua saúde), uso de banheiros com instalações 32 Voltaremos ao tema no capítulo III desta dissertação. 33 Com base em Rangel (2009), lembramos que a visão racionalista empresarial desconsidera as complexas mediações culturais que incluem a ordem da experiência e do inconsciente no que tange à compreensão dos fatores de risco como predisponentes a doenças e agravos. Esta visão torna-se fator limitante no âmbito da participação social de trabalhadores e trabalhadoras na relação com os riscos do meio ambiente laboral, o que incide nas próprias práticas de educação/comunicação voltadas para a prevenção dos riscos. De fato, práticas, crenças, normas, valores dos indivíduos ou grupos estão estreitamente relacionados com níveis ou graus de consciência. A sua desconsideração leva a condutas que fundamentam tentativas infrutíferas de inculcar hábitos e induzir mudanças de comportamento.

88 88 hidráulicas não familiares, uso de EPI s, etc. Assim, para esse/a trabalhador/a se adequar ao trabalho na agricultura tecnificada, há uma enorme exigência de integração e de mudanças importantes de comportamento. Trata-se do desafio de se submeter a uma nova disciplinarização do corpo, algo estranho à sua cultura, daí que, para eles, o uso de EPIs não tem sentido e muitos a isso se recusam. Cultura, como referido por Geertz (1969) compreende uma teia de signos e significados públicos. Aponta para uma estrutura simbólica elaborada e negociada permanentemente por atores sociais no âmbito e através da interação social, do encontro intersubjetivo. Como lembra Rangel (2009), neste âmbito, desenvolvem-se complexos padrões de condutas, normas, regras, direitos, obrigações e prescrições, estas, como sistema estruturado de mecanismos de controle, de modo que hábitos e comportamentos obedecem a ordens de regulação dos significados sociais sobre as condições da ação humana e não dependem unicamente da racionalidade dos indivíduos. Concernente com a concepção de cultura, referida, entende-se que a relação das pessoas com seu ambiente natural e social, produtos e objetos de consumo é mediada por valores. Estes, por sua vez, definem as formas de usos do ambiente, dos produtos e objetos, e a própria percepção dos riscos, sua prevenção ou aceitação. O risco, portanto, assim como sua percepção, não significam o mesmo para todas as pessoas ou grupos para quem fatores ligados à experiência modulam a percepção e os modos de lidar com os riscos (RANGEL, 2009). É necessário, antes de tudo, uma compreensão do habitus (BOURDIEU, 2009) 34 desses trabalhadores rurais, para tornar possível a discussão das maneiras de lidar com diferenças de hábitos de higiene, não uso do EPI, etc. Nessa direção, não adianta cobrar taxa de um/a trabalhador/a por sujar um determinado local, uma vez que ele precisa atribuir sentido aos novos hábitos de higiene impostos e incorporá-los. Nem é eficaz impor 34 Pierre Bourdieu concebe habitus como sistemas de disposições as quais são duráveis e transponíveis. São estruturas estruturadas e predispostas a funcionar como princípios geradores e organizadores de práticas e representações. Podem ser objetivamente adaptadas a objetivos sem necessariamente mirar, conscientemente, seja os fins, seja o controle das operações necessárias para obtê-los (BOURDIEU, 2009).

89 89 advertência para trabalhadores/as que não usam EPI, pois enquanto ele não ressignificar esse uso, não o incorporará. Assim, compreender o modo de vida de trabalhadore/as locais como um processo sociocultural, desnaturalizando-o, e respeitá-lo é o passo inicial para o debate de métodos e formas de sua inclusão no meio ambiente de trabalho da agricultura tecnificada. Assim, em razão da referida resistência cultural, torna necessário compreender seus significados, para com eles dialogar nas palestras, cursos, seminários e oficinas que expliquem os danos causados pela utilização inadequada da tecnologia disponível na agricultura, para que possam ressignificar o uso de EPIs Transporte A NR 31 disciplina o transporte de trabalhadores/as O veículo de transporte coletivo de passageiros deve observar os seguintes requisitos: a) possuir autorização emitida pela autoridade de trânsito competente; b) transportar todos os passageiros sentados; c) ser conduzido por motorista habilitado e devidamente identificado; d) possuir compartimento resistente e fixo para a guarda das ferramentas e materiais, separado dos passageiros O transporte de trabalhadores em veículos adaptados somente ocorrerá em situações excepcionais, mediante autorização prévia da autoridade competente em matéria de trânsito, devendo o veículo apresentar as seguintes condições mínimas de segurança: a) escada para acesso, com corrimão, posicionada em local de fácil visualização pelo motorista; b) carroceria com cobertura, barras de apoio para as mãos, proteção lateral rígida, com dois metros e dez centímetros de altura livre, de material de boa qualidade e resistência estrutural que evite o esmagamento e a projeção de pessoas em caso de acidente com o veículo; c) cabina e carroceria com sistemas de ventilação, garantida a comunicação entre o motorista e os passageiros; d) assentos revestidos de espuma, com encosto e cinto de segurança; e) compartimento para materiais e ferramentas, mantido fechado e separado dos passageiros. Na pesquisa de campo, constatou-se que apenas uma das fazendas visitadas, a Canel, possui ônibus para transportar empregados/as. Quatro

90 90 delas, Condomínio União 2000, Brasil Agrícola, Cimpar e Itália, transportam os funcionários para a cidade em camionetes e a Progresso não oferece nenhum tipo de transporte. Neste caso, os/as trabalhadores/as vão para a cidade em veículos próprios ou de carona com colegas. Em duas dessas fazendas, Itália e Progresso, circulam ônibus diariamente, da Empresa Transpiauí, às quinze horas, porém a passagem para Uruçuí custa sete reais e os trabalhadores preferem ir de moto ou de carona Anotação na Carteira de Trabalho Por ocasião das entrevistas com produtores e trabalhadores, observou-se que todas as fazendas atendem o requisito legal de efetuar a anotação na carteira de trabalho dos/as funcionários/as, inclusive dos temporários, contratados somente para os períodos de plantio e colheita. Notase, porém, que essa atitude é recente, devido às várias autuações efetuadas pelo MTE nesta região. Um trabalhador rural, por ocasião de uma entrevista, relatou a seguinte situação: Fiscalização Trabalhador rural Lá eu cansei de, quando eles chegava lá, quando nós não tinha carteira assinada eles mandava nós esconder no mato. Thais A hora que o Ministério do Trabalho chegava? Trabalhador rural É, na hora que o Ministério chegava eles falava: pode caçar um buraco pra vocês entrarem. Aí nós pá! Pro mato! Escondia dentro de caixa de coisa, de todo jeito, dentro de saco velho de adubo. Thais E o ministério do trabalho não achava vocês? Trabalhador rural Um dia, o ministério do trabalho com uma máquina de filmadora, sabe, viu uns cabra correndo e passando no arame. Aí, filmaram eles, lá, passando no arame, eles fizeram só filmar os caras. Tinha vez que eles não assinava, nós fazia um plantio, fazia uma colheita e eles não queria assinar a carteira de todo mundo. Agora não. Ta assinando a carteira de todo mundo, mas de primeiro eles não assinava. Aí, na hora que o ministério ia chegando eles mandava o cabra correr. (Comunicação oral) 35 Constatou-se que o MTE, através da SRT-PI, atua na região de Uruçuí, fiscalizando e, quando necessário, autuando as propriedades rurais, 35 Trabalhador rural, 30 anos, operador de máquinas. Entrevista realizada em sua casa, em Uruçuí, em 08/02/2009, por Thais Reis.

91 91 um dos principais motivos pelos quais as fazendas estão se adequando à legislação vigente, mais precisamente à NR 31. Além da fiscalização e autuação, o MTE também se faz presente na região ministrando cursos como o Seminário sobre Agrotóxicos e Normas Gerais de Meio Ambiente de Trabalho, ocorrido em novembro de Treinamentos Foi constatado que, das seis fazendas pesquisadas, cinco delas atendem ao requisito legal de qualificar funcionários/as que atuam na área de pulverização, com cursos ministrados pelo Serviço Nacional de Aprendizagem rural, SENAR, com duração de 24 horas. Além desse, é comum que elas disponibilizem alguns de seus funcionários para participar de cursos oferecidos pelas empresas que vendem produtos agropecuários, sendo escolhidos os que trabalham diretamente com máquinas e equipamentos para participarem dos oferecidos pelas suas revendas. Também foi observado que o técnico de segurança do trabalho que presta assessoria a essas fazendas promove palestras na área de segurança do trabalho. Porém, há áreas descobertas pelos treinamentos, caso de trabalhadores/as da área de serviços gerais, para os/as quais não se oferecem nenhum tipo de treinamento, o mesmo se dando com auxiliares de plantio, que lidam com sementes imunizadas, sem mencionar que os cursos são oferecidos, seletivamente, sempre para lideranças e chefes de equipes. Embora algumas ações do MTE no sentido de promover seminários sobre meio ambiente de trabalho, como o referido Seminário Sobre Agrotóxicos e Normas de Meio Ambiente de Trabalho, ocorrido em novembro de 2008, elas são ainda ações muito tímidas diante das necessidades da região, sobretudo quando se observa que funcionários das fazendas que investem mais em qualificação revelam uma consciência maior sobre os perigos do trabalho desprotegido e da importância de se usar EPI. 36 Como referido na introdução, participei desse encontro, durante a pesquisa de campo. Ver programa (Anexo 1)

92 Jornada de trabalho Jornada de trabalho é o espaço de tempo durante o qual o empregado deverá prestar serviço ou permanecer à disposição do empregador, com habitualidade, excetuadas as horas extras (CF, art. 7º, XIII 37 ). Sua duração deverá ser de até 8 horas diárias, e 44 semanais; no caso de empregados que trabalhem em turnos ininterruptos de revezamento, a jornada deverá ser de 6 horas. Horas extras são aquelas que ultrapassam a jornada normal fixada por lei, convenção coletiva, sentença normativa ou contrato individual de trabalho, sendo cabível, como regra geral, para todo empregado. Todavia, há exceções, estabelecidas na CLT, art , que declara que a duração normal do trabalho poderá ser acrescida de horas suplementares, em número não excedente de duas, mediante acordo escrito entre empregador e empregado, ou mediante convenção coletiva de trabalho. Um problema grave constatado no campo de pesquisa foi o excesso de jornada de trabalho, principalmente na época do plantio. Segundo relato dos trabalhadores, como se verá no próximo capítulo, nessa época eles chegam a trabalhar até 18 horas por dia, sem direito nem ao horário de almoço. Para o gerente administrativo de uma das fazendas visitadas, o grande problema que eles têm com o MTE diz respeito à jornada de trabalho. O Ministério exige que adotem a jornada permitida por lei, o que, segundo ele, é impossível, porque o trabalho no campo depende de vários fatores como sol, chuva, umidade, períodos curtos para plantio e colheita. Quando chega a época do plantio tem que plantar em X dias e não tem como protelar, o mesmo se dando com a colheita. Porém, isso não pode ser usado como justificativa para submeter trabalhadores a jornadas de trabalho excessivas, prejudicandolhes a saúde e aumentando em demasia o risco de ocorrer um acidente de trabalho, inclusive fatal. 37 Art. 7º - São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social: XIII - duração do trabalho normal não superior a oito horas diárias e quarenta e quatro semanais, facultada a compensação de horários e a redução da jornada, mediante acordo ou convenção coletiva de trabalho (Constituição Federal, 2009) 38 Art. 59 A duração normal do trabalho poderá ser acrescida de horas suplementares, em número não excedente de 2 (duas), mediante acordo escrito entre empregador e empregado, ou mediante contrato coletivo de trabalho (CLT, 2009).

93 Comissão Interna de Prevenção de Acidente de Trabalho (CIPA) Como referido por Rangel (2009), não se podem ignorar as dimensões socioculturais da cultura do risco à saúde e segurança no trabalho, a saber: 1/a econômica, que privilegia a monetização do risco; 2/ a política que refere normas, procedimentos e o conjunto da tecnologia de segurança utilizados como instrumentos de controle/resistência por gerência e trabalhadore/as; 3/ a ideológica, na qual o risco é minimizado por mecanismos de neutralização e pela ênfase à tecnologia de segurança; 4/ a ética, a qual aponta para a responsabilidade com o risco como parte do código éticocultural do grupo 39. Pode-se aduzir que tais dimensões se encontram presentes na idéia de Comissão Interna de Prevenção de Acidentes de Trabalho CIPA. Segundo o art. 162 da CLT: as empresas, de acordo com normas a serem expedidas pelo Ministério do Trabalho, estarão obrigadas a manter serviços especializados em segurança e medicina do trabalho. O risco é regulado pelo Estado, no que tange, por exemplo, a adicional de insalubridade e periculosidade. Mas a normatização das relações em torno dos riscos fundamenta lutas econômicas e políticas de trabalhadore/as e lutas sociais para proteção da saúde em meio a uma distribuição social do risco em cujo âmbito relações de poder tornam tal distribuição assimétrica (RANGEL, 2009), Daí, as empresas, além dos serviços de segurança e medicina do trabalho, também serem obrigadas a constituir a Comissão Interna de Prevenção de Acidente de Trabalho Rural, conforme art. 163 da CLT: Será obrigada a constituição de Comissão Interna de Prevenção de Acidente CIPA, de conformidade com instruções expedidas pelo Ministério do Trabalho, nos estabelecimentos ou locais de obra nelas especificadas. A CIPA será composta por representante dos empregadores, titulares e suplentes, por eles designados, e representantes de empregados, 39 Se a aceitação social do risco obedece a critérios de ordem moral e ética, a percepção pública de qualquer política de riscos depende da padronização pública de idéias de justiça cujo conceito sofre variação cultural e social (RANGEL, 2009).

94 94 titulares e suplentes, eleitos por escrutínio secreto, do qual participem, exclusivamente, os interessados, independentemente de filiação sindical. O mandato dos membros da CIPA é de um ano, permitida uma reeleição. O empregador designará, anualmente, entre seus representantes, o presidente da CIPA e os empregados elegerão, entre eles, o vice-presidente, não podendo os titulares da representação sofrer dispensa arbitrária (MELO, 2008). Compete à CIPA elaborar o mapa de riscos, identificando os agentes prejudiciais à saúde no ambiente de trabalho, relacionando os riscos físicos, químicos, biológicos e os de acidente de trabalho, contando para isso com a colaboração do Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho (SESMT). A principal meta desse serviço é promover a saúde e proteger a integridade do/a trabalhador/a no local de trabalho, sendo efetuado por profissionais especializados que devem agir, após comunicadas as irregularidades ou agentes prejudiciais em determinada empresa, sob pena de sanções penais e civis, caso ocorra acidente (BARROS, 2009). Foi constatado que nas fazendas com mais de vinte empregados, quatro delas (Canel, Cimpar, Itália e Progresso) têm constituída a CIPA. Os membros da CIPA são, na maioria das vezes, pessoas que trabalham no escritório da empresa, por terem um maior grau de instrução. Suas reuniões geralmente são conduzidas pelo técnico de Segurança do Trabalho que presta assessoria para essas fazendas, que seleciona os temas para serem discutidos e, redige a ata, pois, mesmo os funcionários mais esclarecidos, desconhecem as regras e formalidades da CIPA. Constatou-se, porém, que os/as trabalhadores/as rurais das fazendas 40 não sabem o que é a CIPA e desconhecem sua finalidade. Dessa forma, embora a CIPA esteja estabelecida nessas empresas por força de uma exigência legal, ela ainda não está atingindo o seu objetivo principal, que é, justamente, promover ações de prevenção de acidente de trabalho Visão dos empregadores sobre a mão de obra local Os/as trabalhadores/as de origem camponesa que atuam nas empresas agropecuárias aqui abordadas, não foram socializados no ritmo 40 Este tema será retomado no capítulo III.

95 empresarial de cumprimento de horários, com cobrança de produtividade. O seu ritmo laboral costumeiro é diferente do imposto pelas empresas 41, situação que, do ponto de vista do empregador de origem sulista 42, acaba sendo naturalizada como diferença de origem entre nordestino e sulista Eu vejo mais é o estilo de trabalho do nordestino é diferente do estilo de trabalho do sulista. O sulista acorda cinco horas da manhã, levanta, trabalha, ele tem uma rotina de trabalho diferente. As pessoas daqui elas são mais do sistema de emprego paternalista. Em todos os setores que a gente vê aqui, setor da agricultura, órgãos estaduais, federais, e isso infelizmente reflete no campo. Você tem um trabalhador lá que toda hora você tem que estar cutucando pra pessoa ir trabalhar, apesar de você, eu sempre falo pra eles que emprego quem dá é você mesmo, não sou eu. Mas a gente percebe que não há uma maldade nesse comodismo, é uma coisa que eles nasceram assim. O trabalhador daqui anda a vinte por hora, e o trabalhador do sul anda a sessenta, setenta por hora, normal. Isso é normal, aí você quer fazer ele de vinte chegar a cinquenta, é difícil, e é a realidade, sem ofender o trabalhador daqui (comunicação oral) 44 De fato, a visão que empregadores e administradores têm da mão de obra local é que ela é extremamente desqualificada. Como relata o gerente de uma propriedade, você não daria o seu carro de vinte mil reais [R$ ,00] para um cara desses, sem instrução, sem carta de motorista dirigir. Mas nós somos obrigados a entregar nas mãos deles máquinas de oitocentos mil reais [R$ ,00] porque nós não temos opção. (comunicação oral) 45. Fala-se de um intenso rodízio de trabalhadores nas fazendas. Isso é um fator que, segundo os empregadores, os desestimula a qualificá-los. A gente tenta priorizar o pessoal daqui até por um certo prejuízo da gente. Porque a mão de obra daqui é muito desqualificada. A gente é que tem que qualificar. Então, às vezes, a gente tem um custo caro para qualificar. E quando você qualifica o pessoal, a primeira coisa que eles fazem é trocar de fazenda, ir para outra! Então é um ônus muito caro 41 A propósito do ritmo do trabalho camponês, ver Woortman (1983). 42 Para melhor compreensão da oposição Norte/Sul no imaginário social brasileiro, ver Albuquerque (1994) 43 Sobre a oposição gaúchos/populações locais nos cerrados, ver Moraes (2000) 44 Altair Domingos Fianco, produtor e um dos proprietários do Condomínio União Entrevista realizada no escritório do Condomínio União 200, em Uruçuí, em 06/02/2009, por Thais Reis. 45 Adelar Silva, gerente de campo da fazenda Brasil Agrícola. Entrevista realizada na sede da fazenda em 10/02/2009, por Thais Reis.

96 96 que a gente paga aqui na região. Porque a mão de obra, aqui, ela não tem qualificação (comunicação oral) 46. Na concepção dos empregadores, além da falta de educação escolar, os trabalhadores não possuem hábitos de higiene, o que prejudica os alojamentos, banheiros e refeitório. De fato, observou-se nas fazendas visitadas que nos banheiros e alojamentos havia placas com avisos para dar descarga no vaso sanitário, manter o ambiente limpo e organizado, não sujar as paredes, não entrar no ambiente com botas. Em uma das fazendas, o gerente de recursos humanos informou que estão proibindo os trabalhadores de entrar no refeitório com camiseta regata, para tentar cultivar neles hábitos de boas maneiras, educação e higiene. Outra fazenda visitada repreende os trabalhadores que sujam camas e ambientes e imporem multa pecuniária, geralmente no valor de cinco reais para o trabalhador que dela sai e deixa a farda, sem lavar. Dessa forma, notam-se várias tentativas dos produtores de cultivar o hábito de higiene nos trabalhadores, as quais algumas vezes extrapolam o bom senso, como a cobrança de taxa para os que infringem regras. Como referido no item 4.6 deste capítulo, o processo de disciplinarização das empresas sobre os/as trabalhadores/as rurais não dialoga com as suas trajetórias socioculturais Aspectos estruturais do município de Uruçuí e região que afetam o meio ambiente de trabalho rural Uruçui encontra-se situado na Mesorregião do Sudoeste Piauiense e na Microrregião do Alto do Parnaíba. Possui uma área física de 8.578,5 km2, o equivalente a 3,57% da área total do Estado, com temperatura média anual de 27 C e pluviosidade média de 1.059,7mm (Aguiar). O número e distribuição de sua população estão demonstrados abaixo (quadro 6), com base em dados do IBGE: 46 Altair Domingos Fianco, produtor e um dos proprietários do Condomínio União Entrevista realizada no escritório do Condomínio União 200, em Uruçuí, em 06/02/2009, por Thais Reis.

97 97 População residente, sexo e situação do domicílio População residente de 10 anos ou mais de idade Município Total Homens Mulheres Urbana Rural Total Alfabetizada Taxa de alfabe tização (%) Uruçuí Quadro 6: Censo demográfico de Uruçuí. Fonte: IBGE (2000) Conforme já explanado na Introdução e no Capíputo I desta dissertação, os cerrados do sudoeste do piauí foram incorporados por moderna agricultura do complexo carnes/grãos, com Uruçuí tendo papel histórico nesta trajetória, como sede dos primeiros testes de experimentos de pesquisa científica sobre soja adaptada, iniciada em Na região, as atividades principais nas empresas agropecuárias são o cultivo de grãos, tais como soja, milho, arroz e algodão. Essa produção, em 2009, está demonstrada a seguir (quadro 7): Culturas Área (ha) Produçã (t) Rendimento médio (kg/ha) Soja Arroz sequeiro Algodão herbáceo Milho Feijão Sorgo Quadro 7: Produção agrícola do cerrado do Piauí Fonte: IBGE e SEPAG(2009) a seguinte: No tocante ao município de Uruçuí (quadro 8) a produção de soja é Soja Arroz Área Produção (t) R. Médio Área Produção (t) R. Médio plantada (ha) (kg/ha) plantada (ha) (kg/ha) Quadro 8: Produção de soja do município de Uruçuí Fonte: IBGE e SEPAG(2009) Em dezembro de 2008, segundo dados sobre o PIB do Estado do Piauí divulgados pela Fundação CEPRO e IBGE, Uruçuí liderou o ranking de renda per capita estadual sendo a plantação de soja apontada como a principal causa dessa mudança do município, de décimo lugar, em 2002, para primeiro,

98 98 no referido ranking. Os seus moradores possuem renda anual de R$ ,38 (180 graus, 2008) Porém, apesar dessa riqueza, alguns aspetos estruturais da região também influenciam negativamente na qualidade do meio ambiente de trabalho rural. No caso, trata-se da fragilidade do tecido institucional do município e região 47. Um dado importante nesse quesito: não há posto do INSS em Uruçuí. O que atende à região é a agência de Floriano 48 que responde por 37 municípios. Existe, assim, uma dificuldade enorme de atender os trabalhadores/as, principalmente por causa da distância, de sorte que quem sai de Uruçuí às três horas da manhã, paga sessenta reais, em média, para ser transportado em uma van 49, chegando em Floriano às oito horas da manhã, para requerer o seu benefício. Esse trabalhador volta para Uruçuí e espera chegar a carta do INSS com o resultado da perícia, mas, os Correios não chegam até as fazendas, então o documento vai para o Sindicato dos Trabalhadores Rurais, que fará o contato com o requerente 50. O atendimento no INSS é agendado, via telefone, por uma central. Porém há o problema, não raro, de o sistema estar inoperante, o que resulta que o/a trabalhador/a não consegue ser atendido/a e tem que voltar no outro dia. Muitas vezes, ele (ou ela) tomou dinheiro emprestado contando que iria conseguir o benefício, mas não conseguiu, sequer, ser atendido. Em Uruçuí também não existe representação da Justiça do Trabalho. A que abrange o município de Uruçuí se localiza em Floriano. Dessa forma, se um/a trabalhador/a quiser reclamar algum direito que lhe foi negado, terá que gastar com passagens (de ida e volta) a Floriano para dar entrada na sua reclamação, além de voltar, depois, a Floriano, para as audiências. Tudo isso envolve um gasto muito grande para um/a trabalhador/a rural. Dessa forma, aqueles/as que, porventura, teriam algum direito trabalhista negado, ficam impossibilitados/as de reclamá-lo judicialmente, por não terem condições 47 Ver Vilela e Moraes, Município piauiense, localizado à 200 Km de Uruçuí. 49 Nome dado a veículo com capacidade para transporte de quinze pessoas. 50 Ocorre que, aconteceu de muitos médicos peritos do INSS, quando negavam um benefício, serem violentados ou assassinados e, em razão disso os médicos conseguiram junto ao Ministério Público a edição de uma norma que diz que eles não são obrigados a conceder o resultado da perícia para o trabalhador na hora do atendimento.

99 99 financeiras de ingressar com uma ação em uma instância judicial localizada a quase duzentos quilômetros de distância. Não existe médico do trabalho em Uruçuí. Os médicos que atendem nos hospitais e nas três clínicas particulares da região não estão preparados para lidar com problemas do campo (intoxicação por agrotóxicos, eventuais acidentes com máquinas, animais peçonhentos, alergias...) Outro problema da região são as estradas. Existem três opções de acesso a Uruçuí partindo-se de Teresina: a que passa por Bertolínea, com aproximadamente 90 km de terra; a que vai por Antônio Almeida, conta com cerca de 45 km de terra e a que circula pelo Maranhão, toda asfaltada. De Uruçuí para as fazendas, somente duas das visitadas são contempladas com asfalto até a porta. Nas demais, o acesso é feito de estradas de terras, prejudicadas pelas chuvas e pelo trânsito constante de caminhões e carretas (figs. 32 a 37). Figura 32: Estrada estadual de Uruçuí Figura 33: Estrada estadual de Uruçuí para para a Faz. Brasil Agrícola e Cimpar I, a Faz. Brasil Agrícola e Cimpar II, em em 09/02/ /02/2009 Fonte: Reis, 2009 Fonte: Reis, 2009 Figura 34: Estrada estadual de Uruçuí Figura 35: Estrada estadualde Uruçuí a para Faz. Progresso I, em 02/05/2009 Faz. Progresso II, em 02/05/2009 Fonte: Reis, 2009 Fonte: Reis, 2009

100 100 Figura 36: Estrada estadual em frente Figura 37: Estrada que passa pela a Faz. Progresso, em 02/05/2009 comunidade do Sangue, em Uruçuí, Fonte: Reis, 2009 em 09/02/2009 Fonte: Reis, 2009

101 O MEIO AMBIENTE DE TRABALHO NA VISÃO DE TRABALHADORES/AS RURAIS Para uma melhor compreensão do meio ambiente de trabalho rural, mister se faz a apreensão da visão de trabalhadores/as sobre ele, porquanto são figuras essenciais para a caracterização de um meio ambiente como sendo de trabalho. A caracterização do/a empregado/a rural tem sido motivo de controvérsia na doutrina justrabalhista brasileira. Segundo antigo critério da Consolidação das Leis Trabalhistas CLT o que definia o trabalhador rural era o método de trabalho e sua finalidade, de modo que sendo rurícola os métodos e fins, rurícola o trabalhador. Porém, o critério que hoje prevalece na doutrina busca ajustar-se ao modelo geral de enquadramento obreiro clássico do direito do trabalho, qual seja, o segmento da atividade do empregador. (DELGADO, 2009). Sendo rural o segmento da atividade do empregador, rurícola será considerado o trabalhador. Assim, trabalhador rural é a pessoa física que presta serviços a tomador rural, realizando tais serviços em imóvel rural ou prédio rústico (DELGADO, 2009, p. 366) Além do referido critério, há o de o trabalho se desenrolar em imóvel rural ou prédio rústico. A definição de imóvel rural refere a zona geográfica situada no campo, exterior às áreas de urbanização 51, enquanto a de prédio rústico é um conceito utilizado pela ordem jurídica para permitir o enquadramento, como rurícola, daqueles trabalhadores que efetivamente exercem atividade agropastoril para empregadores economicamente atados a 51 Lembramos que as definições de rural e urbano podem ser encontradas como formuladas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IBGE da seguinte forma: a) as regiões no município não classificadas como zona urbana ou zona de Expansão Urbana, não urbanizáveis ou destinadas à limitação do crescimento urbano, utilizadas em atividades agropecuárias, agroindustriais, extrativismo, silvicultura, e conservação ambiental., b) a área de um município caracterizada pela edificação contínua e a existência de equipamentos sociais destinados às funções urbanas básicas, como habitação, trabalho, recreação e circulação. No entanto, abrese, hoje, um debate acerca do rural e do urbano no mundo e no Brasil. Sobre o tema, relacionado à situação brasileira, ver Veiga et al (2001)

102 tais atividades campestres, porém situados em localidades que, por exceção, ficam incrustadas no espaço urbano Quem são esses/as trabalhadores/as rurais Para a identificação de trabalhadores/as rurais assalariados/as de Uruçuí foi realizado, junto ao Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais STTR local, um procedimento de contagem e análise das fichas de trabalhadores/as sindicalizados/as, visando-se chegar a um número aproximado. Porém, nas referidas fichas, não existe diferenciação entre trabalhadores/as rurais assalariados/as e agricultores/as familiares, não tendo sido possível obter as informações pretendidas. Mas, com as informações coletadas, montou-se um perfil inicial da população de trabalhadores/as rurais sindicalizados/as de Uruçuí, a qual pode ser considerada como representativa do universo social dos abordados nesta pesquisa (quadro 9). Categorização Quantidade % Agricultor/a familiar ,43% Rendeiro/a 25 0,75% Parceiro/a 30 0,90% Pequeno/a proprietário/a 0 0% Assalariado/a 0 0% Morador/a 1 0,03% Casa própria 0 0% Dias cativos 125 3,76% Não identificados ,12% Quadro 9: Classificação dos/as trabalhadores/as sindicalizados 52 Categorização Quantidade % Alfabetizados/as ,89% Analfabetos/as ,27% Não identificados/as 61 1,83% Quadro 10: Instrução dos/as trabalhadores/as rurais sindicalizados 52 Este quadro não apresenta totalização, uma vez que as categorias se interpenetram. Ex: rendeiros e parceiros podem ser, também, agricultores familiares.

103 103 O quadro 10 mostra o grau de escolaridade de trabalhadores/as rurais. Mesmo 71,89% deles sendo alfabetizados, constatou-se, por pesquisa, que esses/as trabalhadores possuem, em sua maioria, apenas o ensino fundamental concluído. Durante a pesquisa de campo, foram realizadas entrevistas com vinte trabalhadores/as rurais assalariados/as (dezoito homens e duas mulheres) de quatro fazendas de Uruçuí, que exerciam funções de serviços gerais, operadores de máquinas (tratoristas), aplicadores de agroquímicos, líderes de equipes (gerentes) e cozinheiras. Diante das informações coletadas nas entrevistas puderam-se agregar novos elementos a um perfil, como demonstrado nos gráficos a seguir: ensino fundamental - 75% 1º grau - 10% 2º grau - 10% analfabeto - 5% Gráfico 1: Escolaridade dos/as trabalhadores Como se vê no gráfico 1 os/as trabalhadores/as, em sua maioria, completaram somente o ensino fundamental. No entanto, lidam com tecnologias avançadas da agricultura que exigem conhecimentos técnicos para saber os seus reais riscos. A falta de instrução para trabalhar em propriedades que utilizam tecnologias modernas, bem como a ausência de qualificação, são problemas graves da região pesquisada. Os/as trabalhadores/as, socializados no modo de vida camponês 53, na agricultura familiar, pelo sistema de roça-de-toco 53 Sobre o modo de vida camponês, ver MORAES, 2000.

104 104 (MORAES, 2000), desconhecem o sistema produtivo em larga escala, que emprega tecnologias modernas. Mesmo assim, sem serem submetidos à cursos de qualificação profissional, dirigem tratores e operam máquinas das mais modernas existentes na atualidade, inclusive com Sistema de Posicionamento Global GPS e demais tecnologias, além de trabalharem com agroquímicos. A ausência ou incompletude de educação escolar, qualificação profissional e desconhecimento do sistema produtivo moderno trazem prejuízos aos/as trabalhadores/as, pois a tecnologia disponível na agricultura, se não usada de maneira adequada, afeta-lhes a saúde e a segurança, pela exposição a riscos decorrentes do meio ambiente de trabalho, e a acidentes de trabalho. rural - 80% urbana - 20% Gráfico 2: Origem social dos/as trabalhadores/as Como demonstra o gráfico 2, os/as trabalhadores/as rurais são, em sua maioria, de origem social rural, da agricultura familiar, onde têm um modo de vida distinto dos produtores rurais das empresas agropecuárias de agricultura moderna, como apontado no Capítulo II. Assim, para se inserirem no ambiente da agricultura tecnificada, passam por um processo de adaptação e disciplinarização.

105 105 cozinheiros/as - 9% serviços gerais - 26% operadores de máquinas - 39% motoristas - 4% chefes de campo - 9% Gerentes - 13% Gráfico 3: Função dos/as trabalhadores/as O gráfico 3 apresenta a distribuição das funções dos/as trabalhadores/as nas fazendas, as quais são definidas a seguir (quadro 11) com seus respectivos salários. Função Descrição das atividades desenvolvidas salário Cozinheiras cuidam do preparo das refeições nas fazendas, além da 508,00 higienização dos ambientes de cozinha e refeitório. Serviços gerais responsabilizam-se pelos serviços mais básicos da fazenda, como carpir, roçar, auxiliar o plantio e a colheita. Geralmente têm grau de escolaridade mais baixo (alguns inclusive analfabetos) e não têm nenhum tipo de especialidade ou nunca 508,00 Operadores de máquinas Motoristas Chefes campo Gerentes de fizeram curso profissionalizante ou treinamentos. tratam de operar os tratores, máquinas e implementos. São eles que fazem o plantio, a colheita, a pulverização terrestre e os serviços de preparação da terra, como gradear, adubar, etc. Esses trabalhadores já têm um grau de escolaridade maior (ensino fundamental, alguns com o primeiro grau completo) e já fizeram treinamentos ou cursos para trabalhar com máquinas e equipamentos. É uma mão de obra mais especializada. dirigem os veículos das fazendas e são responsáveis pelo transporte de pessoas, refeições, documentos, etc. lideram as equipes que trabalham no campo, diretamente com a lavoura, plantando, colhendo, pulverizando, gradeando, adubando, etc. Têm um grau de escolaridade elevado (técnicos agrícolas ou agrônomos, a maioria deles de origem sulista). trabalham no escritório, na gestão da empresa. Gerenciam o setor financeiro, recursos humanos - RH, compras, etc. Dos gerentes entrevistados, todos tinham curso superior nas áreas de administração de empresas, contabilidade e agronomia, sendo a maioria de origem sulista. Quadro 11: funções dos/as trabalhadores/as e suas respectivas remunerações 728,00 728,00 Não informado Não informado

106 a 29 anos - 40% 30 a 39 anos - 50% mais de 40 anos - 10% Gráfico 4: Idade dos/as trabalhadores/as No gráfico 4 vê-se que a maioria dos/as trabalhadores/as entrevistados têm até 39 anos, o que demonstra que a mão de obra rural é jovem, por ser um tipo de trabalho, para cujo bom desempenho, necessita de força e vigor. 4.2 Meio ambiente de trabalho na visão dos/as trabalhadores/as Para se apreender a qualidade do meio ambiente de trabalho, é importante compreender a visão dos trabalhadores/as sobre esse ambiente. Com diz Rocha, o entendimento do meio ambiente de trabalho estabelece-se com a percepção do espaço do trabalho e, mais ainda, do próprio trabalhador, na medida em que não existe tal ambiente sem o ser humano. Logo, a maquinaria, os utensílios, os meios de produção, tomados em si mesmo, não transformam um simples lócus em ambiência do trabalho. Por consequência, a necessidade do trabalho humano, em qualquer de suas formas, é condição sine qua non para converter um espaço físico em meio ambiente de trabalho (ROCHA, 2002, pág. 130). (grifo nosso).

107 107 As entrevistas com os/as trabalhadores/as rurais tiveram como foco, além de verificar as condições de saúde e segurança no trabalho, apreender-lhes a percepção sobre o meio ambiente de trabalho. Assim, através das análises de conteúdo dessas entrevistas e de conversas no cotidiano, somadas a observações registradas no diário de campo, foi possível uma aproximação da visão desses/as trabalhadores/as sobre o seu próprio meio ambiente de trabalho em empresas agropecuárias de Uruçuí Sobre jornada e ritmo de trabalho Jornada de trabalho é o lapso temporal que compreende o início do trabalho até o seu término, acrescido dos horários em que o/a trabalhador/a está à disposição do/a empregador/a e o tempo gasto para ir ao local de trabalho e dele retornar. A Constituição Federal dispõe que a jornada de trabalho não será superior a oito horas diárias e quarenta e quatro horas semanais, facultada a compensação e a redução da jornada mediante acordo ou convenção coletiva de trabalho (art. 7º, XIII). Na agricultura, é comum haver dois períodos com jornadas de trabalho diferentes: o da safra e o da entressafra. Na entressafra, trabalhadores/as cumprem jornada de trabalho de oito horas diárias e quarenta e quatro horas semanais. Porém, na safra, que compreende o plantio e a colheita, a jornada se estende por até dezoito horas diárias, conforme relatado pelos próprios trabalhadores. Isso se dá porque os períodos para plantio e colheita são curtos. Nas empresas agropecuárias pesquisadas, esses períodos são de trinta a quarenta e cinco dias, em cujo âmbito é necessário fazer todo o plantio e colheita. Além disso, a agricultura conta com imprevistos, como a chuva, que interrompe o trabalho, quebrando-lhe o ritmo, pois a terra fica molhada, impossibilitando a execução de serviços com tratores e máquinas. Constatou-se no campo de pesquisa o excesso de jornada de trabalho, principalmente na época do plantio, conforme explanado no capítulo II. Questionados sobre a jornada de trabalho, os/as trabalhadores/as disseram o seguinte:

108 108 Thais E a jornada de trabalho, como era, lá? Trabalhador rural Assim, porque no caso agora né, a gente não tá plantando nem colhendo, a gente pegava as seis e meia até as onze e meia e depois pegava uma e meia [13h30] e largava as cinco e meia [17h30] Thais E quando tá em época de plantio? Trabalhador rural Aí época de plantio a gente sai cinco, cinco e meia [da manhã], daí, meio dia para só meia hora, almoçou, ali, já prega o pau até nove, dez [21h, 22h] horas! Thais E a noite, vocês não trabalham? Trabalhador rural Assim, quando tá apertado que tem trocancia de turno né? Aí, tem dois turnos, um a noite e outro de dia. Thais Aí, vocês alternam? Trabalhador rural É, das seis às seis, pega as seis da manhã até seis da tarde, outro pega das seis da tarde as seis da manhã. Thais Nessa época de plantio e colheita vocês têm folga todo final de semana? Trabalhador rural Tem não. Thais Aí, vocês ficam direto lá? Trabalhador rural Aí, e o seguinte: folga nesse período é só de quinze [em quinze] dias ou mais a não ser que chova muito, né, e não dê pra colher ou plantar. Aí, eles liberam pra vir dormir em casa e no outro dia retorna. (comunicação oral) 54 Algumas fazendas mantêm alguns serviços por vinte e quatro horas, com organização de turnos de trabalho. Uma parte dos trabalhadores cumprem turno das seis horas da manhã até às dezoito e a outra parte das dezoito até às seis. Os trabalhadores nessas fazendas, relataram que fazem o turno do período da noite em uma semana e, na seguinte, trocam e fazem o do dia. Thais Aí, vocês pegavam que horas o serviço? Trabalhador rural O serviço mesmo era umas seis e meia [6h 30]. Quando era época de plantio a gente saía, tinha uma vez que a gente saiu três [03h] horas da manhã. Nós dormimo tudo no chão, não chegamos a tomar banho não, porque não dava tempo. Cinco horas [05h] de novo tinha que levantar. Aí, não dava tempo. Era perigoso porque se nós não desse ao menos uma cochilada, quando está em cima daquela máquina, ali, vai que a gente vai e cai, é pior ainda, né? Thais Aconteceu de alguém cair? Trabalhador rural Não, aconteceu não. Thais Mas vocês tinham sono? Trabalhador rural Aqui, acolá, eu dava uma cochilada. Thais Você cochilava em cima da máquina? 54 Trabalhador rural, 25 anos, operador de máquinas. Entrevista realizada no STTR, em Uruçuí, no dia 07/02/2009.

109 109 Trabalhador rural É, porque a gente trabalhava até tarde da noite, aí, cochilava, não tinha como não cochilar, não tinha jeito! Thais Aí, você cochilava de que jeito? Trabalhador rural Ficava lá em pé, a gente estava ali em pé. Aí, ficava olhando se estava normalizada as máquinas, lá. Thais E quem estava dirigindo a máquina cochilava que horas? Trabalhador rural Quem tava dirigindo não tinha tempo de cochilar não, por causa que ali é atenção direto, não tem. É direto pra não sair de cima do risco. Thais Mas eles conseguiam ficar sem cochilar? Trabalhador rural Conseguia, só que tinha vez: Eu trabalhava mais um amigo meu uma vez que ele parou a máquina, aí, chamaram a atenção dele. Só de sono. É porque não tem jeito da gente não cochilar, não. (comunicação oral) 55 Nota-se que as jornadas de trabalho na agricultura, nesses períodos de pico, se estendem até dezoito horas diárias, muito acima do limite estabelecido por lei de oito horas diárias. Trabalhadores relatam que sentem sono e cochilam enquanto trabalham porque não aguentam o ritmo imposto, o que aumenta em demasia o risco de acidentes de trabalho, inclusive fatais. Thais Esses períodos de colheita e plantio, quantas horas vocês trabalhavam num dia? Trabalhador rural Nós pegava das quatro da manhã, acordava as quatro da manhã até nove, dez da noite, as vezes onze. Depende da terra molhada. Thais No outro dia, a mesma coisa? Trabalhador rural Mesma coisa Thais Isso dava quanto tempo? Trabalhador rural Quarenta dias, de trinta e cinco a quarenta dias, fazendo vinte e dois mil hectares. A máquina faz oitenta hectares por dia, rodando bem. As plantadeiras muito grandes faz cento e poucos. Thais E quando não estava nesse período de colheita e plantio vocês trabalhavam que horário? Trabalhador rural Nós pegava seis e meia, seis horas [da manhã] até cinco e meia da tarde. Thais E vocês faziam quanto tempo de almoço? Trabalhador rural Nós descansava uma hora, às vezes menos de uma hora, não todos os casos. Quando é plantio, não tem não. Só almoça e pega [retoma] (comunicação oral) 56. Esse período de pico, em que os trabalhadores cumprem jornadas de trabalho excessivas, se estende de trinta a quarenta e cinco dias. Ademais, 55 Trabalhador rural, 21 anos, serviços gerais. Entrevista realizada pela autora, na residência do trabalhador, em Uruçuí, no dia 08/02/ Trabalhador rural, 27 anos, operador de máquinas. Entrevista realizada pela autora, no STTR, em Uruçuí, em 06/02/2009

110 nessa época eles não fazem horário de almoço, apenas param por cinco minutos para a refeição e logo em seguida continuam a trabalhar. No mesmo período, também as cozinheiras se dizem submetidas a um excesso de jornada: 110 Thais E como era a jornada de trabalho de vocês? Trabalhadora rural Quando era plantio e colheita levantava quatro horas[ da manhã] e não parava não, ficava acordada o dia todo, porque terminava o almoço já ia fazer pra adiantar o pão, o bolo do café da manhã... Thais Você fazia pão, bolo, tudo, sozinha? Trabalhadora rural Sozinha, a outra pouco me ajudava, ela só ficava na limpeza. E aí era terminando o almoço já lavando a louça pra começar a janta. Cinco e meia a janta já tava na mesa. Thais E você ia dormir que horas? Trabalhadora rural Oito, nove da noite. Até oito e meia eu ainda tava na cozinha lavando prato. 57 As cozinheiras, nesta época de pico do trabalho na agricultura, acordam, em média, às quatro da manhã para preparar o café e só terminam o trabalho por volta de vinte e uma horas, quando encerram as tarefas relacionadas ao jantar. As tarefas atribuídas a elas são o preparo dos alimentos do café (pão, bolo, cuz cuz, café), almoço (salada, arroz, feijão, carne, suco) e jantar (o mesmo cardápio do almoço), além da higienização da louça, ambientes da cozinha e refeitório. Nesse período, sobretudo, o próprio tempo para as refeições fica comprometido, sendo feitas no próprio campo e não no refeitório. Sobre o local onde trabalhadores que estão no campo fazem suas refeições, os relatos foram os seguintes: Thais E quando vocês vão pro campo, vocês levam a comida ou vocês voltam para almoçar no refeitório? Trabalhador rural Não, a gente come lá no campo mesmo Thais Tem alguma sombra, algum lugar para vocês [ficarem para] comerem, onde é que vocês comem? Trabalhador rural Debaixo das máquinas (comunicação oral) Trabalhadora rural, 35 anos, cozinheira. Entrevista realizada pela autora, no STTR de Uruçuí, em 27/04/ Trabalhador rural, 25 anos, operador de máquinas. Entrevista realizada no STTR, em Uruçuí, em 07/02/2009.

111 111 Thais E quando vocês estavam no campo, vocês voltavam para almoçar? Trabalhador rural Não, almoçava no campo. Thais E como é que era? Trabalhador rural Marmitex 59, quentinha. Meio dia. Thais Mas, aí, vocês almoçavam debaixo do sol? Trabalhador rural É, se é plantio, em cima do trator, caçava uma sombra, se era outro, encostava. Almoçava quentinha. Tipo assim, quem vai gradear no dia almoça no campo. Não tem como pegar todos [trabalhadores] e levar [para o refeitório]. Eles passaram uns dias, o Ministério do Trabalho estava aqui, aí eles levavam, [os trabalhadores] passaram uma semana almoçando na sede. Mas quem ta no campo almoça no campo. Tem o carro pra levar a comida (comunicação oral) 60. Os trabalhadores que estão no campo almoçam, lá, mesmo. Seja dentro das máquinas, sob as máquinas, ou ao sol, pois nenhuma fazenda lhes disponibiliza tendas ou algum tipo de proteção. Eles relataram que nas épocas de plantio e colheita só param por cinco minutos para a refeição, pois, se os gerentes virem a máquina parada por muito tempo, chamam a atenção dos operadores pelo rádio. Os trabalhadores que fazem a pulverização da lavoura, e os que trabalham como auxiliares de plantio, em contato com as sementes imunizadas por agroquímicos, almoçam no campo, não lavando sequer as mãos para as refeições porque a água que levam é para beber e não para higienização. Thais E você comia onde? Trabalhador rural Eu comia, lá, no tempo, mesmo. Tinha vez que nós era os últimos a comer porque nós estava naquela ponta lá. Aí, era longe. Thais Aí, você ia comer que horas? Trabalhador rural Ia comer umas doze horas [meio dia], doze e meia. Thais Você já estava com fome, já? Trabalhador rural Com uma fome danada! Thais Vocês comiam debaixo do sol? Trabalhador rural Debaixo do solzão, aí! Debaixo da plantadeira não dá pra ficar e, às vezes, pegava chuva no meio da roça. Aí, ficava molhado e os trator são cabinado [possuem cabines fechadas], eles não quer que suje lá dentro. Aí, não tinha como mesmo. Thais E tinha como lavar as mãos? Trabalhador rural Não, não (comunicação oral) Esse termo é usado para se referir à refeição, levada pelo motorista da empresa em recipientes descartáveis, aos trabalhadores no campo. 60 Trabalhador rural, 27 anos, operador de máquinas. Entrevista realizada pela autora, no STTR, em Uruçuí, em 06/02/ Trabalhador rural, 21 anos, serviços gerais. Entrevista realizada pela autora, na residência

112 112 O trabalho na agricultura, por ter esses períodos de pico, necessita de horas extras, uma vez que os períodos de plantio e colheita são curtos e sempre acontecem imprevistos, como a chuva que deixa a terra muito molhada e impede a entrada das máquinas para o trabalho. Porém, não houve um esclarecimento sobre o sistema de remuneração das horas extras. O fato é que das fazendas pesquisadas, três delas (Canel, Progresso e Itália) adotam o banco de horas 62 e efetuam o pagamento em algumas situações. As outras efetuam a remuneração direta dessas horas. Como os empregados não entendem o sistema do banco de horas, sentem-se prejudicados, pois normalmente, quando chove e não tem como trabalhar no campo, as fazendas os dispensam naqueles dias e compensam as horas-extras. Todos os trabalhadores entrevistados afirmaram que preferem receber as horas extras em vez de compensar. Por desconhecerem as regras do banco de horas, sentem-se lesados quando a empresa faz a compensação, uma vez que, para eles, as horas-extras não são pagas nem compensadas corretamente. Trabalhador rural Não, eles compensavam mas as compensações deles não vale a pena, por exemplo, das quatro da manhã às nove, dez [21h, 22h], você faz uma base de dezesseis, dezessete horas por dia, certo? No final do plantio eles davam 112evar112nte horas-extras pra nós. Thais Mas essas 112evar112nte horas, eles pagavam? Trabalhador rural Pagavam ou tiravam em folga. Thais E, aí, era vocês que escolhiam ou eles? Trabalhador rural A gente que escolhia, mas era melhor pagar porque, folga: Sabe por que? Depois que terminava tudo, por exemplo, hoje é sábado né, você trabalha até meio dia, que é o normal né, o certo por lei. Aí, o gerente descontava sábado à tarde nosso Thais Mas o sábado à tarde vocês não trabalhavam. Trabalhador rural Pois é, eu tenho os papel aí, foi por isso que começaram a pegar birra com eles e se você não assinasse pegava advertência. Em matéria de alojamento, epeí do trabalhador, em Uruçuí, em 08/02/ O banco de horas é uma sistemática adotada pelo empregador para compensar todas as prorrogações de horas de trabalho do empregado com as respectivas reduções. O controle deve ser feito individualmente por intermédio de uma ficha onde se consignará periodicamente o quantum extrapolado ou mitigado em relação ao limite semanal de 44 horas. Ao final do ano o empregador terá que, necessariamente, por cobro à compensação (DALLEGRAVE NETO, 2000, p. 93)

113 113 [EPI], essas coisas eu não tenho o que reclamar deles, só tenho que reclamar das horas. 63 Nessa perspectiva, a maneira como se faz a remuneração das horas-extras não é explicada para os/as trabalhadores/as, mas imposta, pois se não concordassem com o sistema ou o questionassem, corriam o risco de levar advertência. Thais E a remuneração das horas-extras? Trabalhador rural Olha, eles estavam pagando, sabe? Agora, esse mês, eles não pagaram, fizeram o seguinte: eles inventaram o banco de horas, inclusive, eu desci [veio para a acidade] essa noite e só vou voltar com quinze dias. Eles não pagaram em dinheiro, mas mandaram a gente ficar em casa, né. Thais E, aí, vocês preferem o que? Trabalhador rural Com certeza o dinheiro porque a gente já ganha pouco e, aí, quando... tipo eu passar quinze dias, aqui, aí, fica brabo! Thais Mas eles não pagaram nenhuma hora-extra? Trabalhador rural Não. Não pagaram nada, compensaram [dando folga] tudo. E não foi só pra mim não, foi pra muitos. Parte de operador e motorista tudinho foi entrado no banco de horas. (comunicação oral) 64 Nesta fala, percebe-se que os/as trabalhadores/as não se sentem esclarecidos sobre o banco de horas. O entrevistado disse que a fazenda inventou o banco de horas, na base da compensação, ou seja, do pagamento das horas-extras com dias de folga. Thais Lá vocês faziam muita hora-extra? Trabalhador rural Fazia, mas lá era tipo banco de horas, eles davam folga, pelo menos no período que eu trabalhei 113e nunca recebi hora-extra, só compensava. Thais Vocês preferem receber ou compensar as horas extras? Trabalhador rural Pelo menos eu, no meu caso, é dinheiro, né. A gente já sai pra trabalhar é porque precisa de dinheiro. (comunicação oral) Trabalhador rural, 33 anos, operador de máquinas. Entrevista realizada pela autora, na residência do trabalhador, em Uruçuí, em 08/02/ Trabalhador rural, 41 anos, motorista. Entrevista realizada pela autora, na residência do trabalhador, em Uruçuí, em 31/05/ Trabalhador rural, 25 anos, operador de máquinas. Entrevista realizada no STTR, em Uruçuí, em 07/02/2009

114 114 Esse sistema parece não agradar aos trabalhadores os quais dizem preferir receber as horas-extras trabalhadas em dinheiro. Como isto não acontece, eles se dizem insatisfeitos com a situação. Thais E as horas-extras, eles pagam vocês? Trabalhador rural Hora-extra lá é um negócio de um banco de horas, lá. Thais Como é esse banco de horas? Trabalhador rural Banco de horas é o seguinte: eles descontam pra dar em dias pra gente ficar em casa. Thais E vocês gostam? Trabalhador rural Não, nós faz é zangar! Aqui tem um menino que ta com mais de semana aqui só de banco de horas. Agora teve a colheita que arrochou mesmo, tão tudinho, aí, de banco de horas, tudinho com raiva. Thais E ninguém quer ficar em casa? Trabalhador rural Não, o que a gente ganha lá [no trabalho], um pouco mais é nas horas-extras, né, a gente se esforça pra fazer as horas-extras, aí, quando chega no fim do mês é banco de horas! Se fosse pra gente trabalhar pra ficar em casa, a gente ficava em casa, né? Thais Eles não pagaram nada dessa vez? Trabalhador rural Esse mês não pagaram nada. Thais Só compensaram? Trabalhador rural Só (comunicação oral) 66 Assim, a expectativa de que nessa época do ano, quando precisam fazer as horas-extras, tenham a chance de ganhar um pouco mais, fica frustrada com o padrão de compensação adotada pelo sistema do banco de horas O trabalho com agroquímicos: uso e (des)proteção A lei 9.974/2000, que dispõe sobre pesquisa, experimentação, produção, embalagem e rotulagem, transporte, armazenamento, comercialização, propaganda comercial, utilização, importação, exportação, destino final dos resíduos e embalagens, registro, classificação, controle, inspeção e fiscalização de agrotóxicos, conceitua agrotóxico como sendo produtos e componentes de processos físicos, químicos ou biológicos destinados ao uso nos setores de produção, armazenamento e beneficiamento 66 Trabalhador rural, 28 anos, serviços gerais. Entrevista realizada pela autora, na residência do trabalhador, em Uruçuí, em 31/05/2009.

115 115 de produtos agrícolas, pastagens, proteção de florestas nativas ou implantadas e de outros ecossistemas, como também em ambientes urbanos, hídricos e industriais cuja finalidade é alterar a composição da flora e da fauna, a fim de preservá-la da ação danosa de seres vivos considerados nocivos. Também são chamados de praguicidas, pesticidas, defensivos agrícolas, agroquímicos ou biocidas (MORAES, et 115e, 2007) Esses produtos são utilizados na agricultura como forma de controle ou eliminação dos problemas decorrentes dos ataques de pragas e doenças nas plantas cultivadas e nos animais de criação. Porém, se não aplicados de forma adequada, causam danos ao meio ambiente e a quem os maneja. Observou-se que as fazendas fazem a pulverização da lavoura terrestre com equipamento do tipo autopropelido, com cabine fechada, ar condicionado e filtro de carvão ativado (que impede a passagem do agroquímico para dentro da cabine). Também é feita a pulverização aérea. Entre os produtos mais usados nas lavouras, destaca-se o glifosato, um herbicida que, segundo a sua bula, tem periculosidade II, ou seja, numa escala 67 de I a IV, ele se encontra no nível II. Conforme informado pelos próprios trabalhadores que lidam com a dosagem de agroquímicos e pulverização, eles fazem anualmente os exames de sangue para verificar a taxa de colinesterase 68 e que, em sua maioria, são submetidos ao curso de 24 horas do SENAR, obrigatório para quem manipula 67 Os agrotóxicos produzidos, importados, exportados, comercializados e utilizados no Brasil devem ser registrados nos órgãos federais competente, Ministério da Agricultura, Ministério da Saúde ANVISA e Ministério do Meio Ambiente IBAMA (Lei 7.802, 11/07/89; Dec , 11/01/90; Dec. 991, 24/11/93; Dec , 04/01/02), com aplicação da metodologia de avaliação do Potencial de Periculosidade Ambiental (PPA) (Portaria IBAMA nº 84, 15/10/96). Nesse sistema, são consideradas múltiplas linhas de evidência, sendo a positividade nos testes de mutagênese, teratogênese, reprodução em mamíferos e carcinogênese decisiva para a reprovação do registro, sem entrar com evidências na classificação de perigo. Enquanto os parâmetros de persistência e bioacumulação recebem peso de evidência 2, os de transporte e a ecotoxicidade são peso 1. O resultado da ponderação conforme o sistema de classificação atribui ao produto técnico e formulado um índice quantitativo: Classe I - Produto Altamente Perigoso; Classe II - Produto Muito Perigoso; Classe III - Produto Perigoso (medianamente); Classe IV - Produto Pouco Perigoso. 68 Trata-se de uma enzima cujo papel fundamental é a regulação dos impulsos nervosos através da degradação da acetilcolina na junção neuromuscular e na sinapse nervosa. Existem duas categorias de colinesterases: a acetilcolinesterase (colinesterase verdadeira), encontrada nos eritrócitos, no pulmão e no tecido nervoso; e a colinesterase sérica, sintetizada no fígado, também chamada de pseudocolinesterase. Um valioso indicador da relação entre exposição a agrotóxicos e problemas de saúde é o nível, no sangue, da enzima colinesterase.(, 2009)

116 agroquímicos. Por ocasião das entrevistas com esses trabalhadores, não houve nenhum relato de intoxicação por dosagem ou pulverização de lavoura. 116 O grande problema presente nas falas, relativas ao uso de agroquímicos, diz respeito a imunização das sementes. Todos os casos de intoxicação relatados nas entrevistas ocorreram por essa ocasião ou do plantio, com trabalhadores auxiliares de plantio, em decorrência do contato com sementes imunizadas. Thais Você tem noticia de alguém que foi intoxicado? Trabalhador rural Os meninos esse ano, mesmo, reclamaram do veneno porque esse ano botaram demais. Pra abastecer usa máscara, mas não tem jeito do caboclo não sentir. Aí, eles se deram mal. Mas, aí, eles tiraram, até um [trabalhador], lá, do arroz, eles tiraram para não plantar mais porque tava forte demais porque todos que foram para lá se deram mal. Foi três, parece. É porque para abastecer a plantadeira sobe aquele cheiro porque tem que segurar o cano, a coisa para abastecer, aí, sobe. Thais E quando alguém passa mal por causa do veneno, o que acontece? Trabalhador rural Não, aí eles levam lá no escritório que tem todo tipo de remédio, manda. Se tiver ruim, leva no médico. (comunicação oral) 69. Thais E trabalhador intoxicado com agrotórixo? Trabalhador rural Eu, mesmo, no primeiro ano que eu trabalhei, eu intoxiquei duas vezes. Thais E como foi, o que você sentiu? Trabalhador rural Eu senti tontice. Foi em dois mil e seis [2006]. De dois mil e seis pra dois mil e sete. Eu tava rabixando, a rabixeira fica atrás da colhedeira, da plantadeira plantando, e era veneno de arroz, era plantio de arroz. Thais Por que plantava e passava veneno ao mesmo tempo? Trabalhador rural Não, já era imunizada, já, tudo, colocava, lá, aí, eu comecei no outro dia, era uma segunda feira, eu plantei, ai, o que foi que eu fiz? Eu peguei e o cara da máquina do trator passou o rádio que eu tava tonto, aí veio [alguém da empresa] me pegar, eu cheguei na fazenda, tomei injeção, aí fiquei lá. Thais Você não sabe o que era essa injeção? Trabalhador rural Não, não senti nada, aí, no outro dia eu voltei a trabalhar. (comunicação oral) 70 Como se vê, alguns trabalhadores que lidam com sementes imunizadas tiveram problemas de intoxicação. Nesses casos o socorro 69 Trabalhador rural, 22 anos, trabalha com serviços gerais. Entrevista realizada pela autora, no STTR de Uruçuí, no dia 07/02/ Trabalhador rural, 27 anos, operador de máquinas. Entrevista realizada pela autora, no STTR de Uruçuí, no dia 06/02/2009

117 oferecido aos trabalhadores foi a aplicação de injeção de atropina 71, sem porém esclarecê-los sobre o medicamento. 117 Thais Você estava usando o equipamento quando aconteceu isso? Trabalhador rural Eu estava de máscara. Thais E era aquela máscara simples ou a de filtro? Trabalhador rural Tinha as duas, mas eu tava usando a simples. (comunicação oral) 72 Dentre os EPIs obrigatórios para quem trabalha com agroquímicos, na pulverização, dosagem ou manipulação de sementes imunizadas, destacase a máscara com filtro de carvão ativado, que impede a inalação do produto. No caso de intoxicação relatado, o trabalhador usava apenas a máscara simples 73, indicada para proteger tão somente de poeira, de modo que a intoxicação se deu por não se estar utilizando o EPI correto para o manuseio de sementes imunizadas. Thais E daí? Trabalhador rural E, aí, eu peguei, tomei essa injeção. Thais Quem é que deu essa injeção, algum enfermeiro? Trabalhador rural não, foi o filho do dono, que fica no escritório. Sim, aí, peguei, continuei trabalhando, mas não fui mais pra esse serviço. Aí, quando foi um mês depois, fui rabixar milho, aí, inchou minha cara, isso aqui inchou que eu não enxerguei quase nada! Aí, passou rádio pro gerente, o gerente veio, aí, fui pro escritório. (comunicação oral) 74 Pela fala deste trabalhador, no caso de intoxicação relatado, a medicação que lhe foi ministrada não o foi por um profissional de saúde habilitado para tal atendimento, não lhe sendo propiciada, portanto a chance de atendimento médico. Thais A semente estava tratada com agroquímico? 71 A atropina é um alcalóide, encontrado na planta Atropa belladonna e outras de sua família, que interfere na ação da acetilcolina no organismo. Ele é um antagonista muscarínico que age nas terminações nervosas parassimpáticas inibido-as. 72 Trabalhador rural, 27 anos, operador de máquinas. Entrevista realizada pela autora, no STTR de Uruçuí, no dia 06/02/ Existem dois tipos de máscaras usadas nesse tipo de trabalho na agricultura: a máscara simples que protege as vias respiratórias da poeira e alguns elementos naturais e a máscara com filtro de carvão ativado, que é própria para o manuseio de agroquímicos. 74 Trabalhador rural, 27 anos, operador de máquinas. Entrevista realizada pela autora, no STTR de Uruçuí, no dia 06/02/2009.

118 118 Trabalhador rural Sim, aí, eu peguei, fui lá pro escritório. Thais Dessa vez, de novo, você só estava com a máscara simples? Trabalhador rural Estava com a máscara simples. E peguei, tava tudo inchado, aí, lavou com soro, aí, fiquei lá, aí teve que vir pra cidade porque parece que era três horas ou cinco horas da tarde e eu vi que tava inchando isso aqui, aí, vim no médico, aqui, peguei 118evar118nte reais, lá, no vale, aí, consultei, aí, passou remédio pra desinchar, ai, no outro dia desinchou. Passei dois dias aqui [na cidade]. Thais- Esse dinheiro eles descontaram depois? Trabalhador rural Descontaram. A fazenda não entrou com despesa, não. Aí, passei dois dias, depois voltei a trabalhar, aí, queriam atestado. Mas eu não trouxe, não gosto de botar atestado. Aí, eles não descontaram. (comunicação oral) 75 A fala aponta para uma omissão de socorro pelo empregador que, além de não propiciar atendimento médico ao trabalhador, desconta dele o valor do vale, ou seja, do dinheiro que recebeu adiantado para ir à cidade se consultar com um médico. Thais- E o médico falou se aquilo que você teve, aquele inchaço, foi alguma alergia ou intoxicação? Trabalhador rural Sim, ele falou que era o veneno, o médico. Minha pressão alterou, que eu já tinha problema de pressão, ai alterou e, aí, eles descontou no pagamento. Eles tinham que ver que eu estava doente, mas não deram [assistência médica]. Eu tive que entrar com despesa. Transporte também não deram, fui de carona no carro [do vendedor] da semente, paguei passagem pra voltar. Thais E aí o médico passou esse remédio, você tomou e desinchou? Trabalhador rural Desinchou. (comunicação oral) 76 De acordo com este trabalhador, ele já tinha problema de saúde, no caso, hipertensão arterial. Assim, ele não poderia lidar com agroquímicos. Isto tanto aponta para a possibilidade de o empregador ter conhecimento deste fato e não tê-lo considerado, como para a possibilidade de desconhecimento dessa condição desse trabalhador. De todo modo, no caso desta segunda possibilidade, é de se questionar se os trabalhadores são submetidos a exames admissionais e periódicos, bem como a forma como esses exames são 75 Trabalhador rural, 27 anos, operador de máquinas. Entrevista realizada pela autora, no STTR de Uruçuí, no dia 06/02/ Trabalhador rural, 27 anos, operador de máquinas. Entrevista realizada pela autora, no STTR de Uruçuí, no dia 06/02/2009.

119 119 feitas. Além disso, nota-se que a empresa não o transportou até o local de atendimento médico, em mais uma omissão de socorro do empregador. Os auxiliares de plantio, como relatado nas entrevistas, somente usam a máscara simples, trabalham com a farda (calça, camisa e bota), não calçam luvas e, quando entram em contato com a semente ou aspiram o cheiro, pode acontecer a intoxicação, com sintomas de inchaço da face, tontura, vômito e diarréia. Dessa forma, tornam-se expostos a riscos de saúde devido ao trabalho desprotegido. Há relatos sobre trabalhadores que chegaram a desmaiar no momento em que faziam a imunização de sementes. Thais E, lá, você teve algum problema de intoxicação? Trabalhador rural Não Thais Alguém já teve, lá? Trabalhador rural Lá, tem muito, acontece muito. Thais E o que acontece? Trabalhador rural Rapaz, pra rua eles [empresa] não mandam ninguém, não sabe, assim pra mandar pra médico, sabe? Eles dão uma injeção, lá, que corta o efeito. Thais Que injeção que é essa? Trabalhador rural Não sei que injeção que é essa. Principalmente na imunização da semente de milho, é muito forte o veneno, lá. Geralmente, tem gente caindo lá, desmaiando. Thais Aí, a pessoa cai, desmaia, e eles dão a injeção? Trabalhador rural Não. A pessoa se sente tonto, dá vômito, desmaia e eles dão a injeção, deita o cara, lá, um pouco. No outro dia, o cara tá lá novinho. Thais E o cara continua trabalhando? Trabalhador rural Continua trabalhando. Thais E quem se sente mal, assim, está usando o epeí [EPI]? Trabalhador rural Eu não sei se eles usavam adequadamente o epeí também, né. (comunicação oral) 77 As informações constantes nas falas apontam, para a precariedade do socorro prestado aos trabalhadores que apresentam problemas de saúde decorrentes da própria atividade laboral. De fato, isto pode ser caracterizado como omissão de socorro médico, no caso, o profissional competente para prestar atendimento, prescrever medicação e orientar a condução do tratamento. Nesse contexto, parece ser comum que trabalhadores que se machuquem no trabalho ou adoeçam pratiquem a automedicação, por não serem devidamente atendidos por um profissional de saúde. 77 Trabalhador rural, 33 anos, operador de máquinas. Entrevista realizada pela autora, na residência do trabalhador, em Uruçuí, em 08/02/2009

120 120 Trabalhadora rural Acontecia. Meu marido mesmo andou queimando a cara, lá. Foi arrumar uns pneu lá na oficina e o fogo pegou nele, assim, na cara dele. Aí, o outro também aconteceu a mesma coisa. O gerente falou que não, que ele queria um salário maior. Thais E, aí, o que fizeram com o teu marido, trouxeram ele aqui? Trabalhadora rural Não, o gerente veio pra Uruçuí no outro dia e nem perguntou: tu quer ir na cidade? A gente é que perguntava um ao outro como é que faz. Um dizia lava com shampoo, lava com isso ou aquilo. E a gente fazia. Eles não traziam o doente, aqui [cidade], pra fazer uma consulta. Thais E, lá, vocês nunca tiveram cursos de primeiros socorros pra saber o que fazer quando acontece algum acidente? Trabalhadora rural Não, a gente saía perguntando pra cada um: o que bebe quando esta sentindo isso? (comunicação oral) 78. Deduz-se que, a prática da automedicação está presente, também, muitas vezes, como consequência da distância das fazendas da cidade, que se soma à referida omissão dos empregadores ou seus representantes em providenciar atendimento médico para o trabalhador com algum problema de saúde. Dentre os medicamentos mais comumente usados foram observados o biofenac 79 e atropina. O biofenac é indicado para doenças reumáticas, inflamatórias e degenerativas e a atropina funciona como antídoto nas intoxicações por fosforados. Esses medicamentos são ministrados sem a orientação de um profissional da saúde Os trabalhadores auxiliares de plantio não recebem treinamento para manipular agroquímicos porque, de fato, eles não trabalham nessa função. Porém, ao entrar em contato com as sementes imunizadas, sem usar a devida proteção, acabam contaminados pelo produto utilizado. Thais Como é que foi, você chegou na fazenda, quem é que te ensinou a trabalhar? Trabalhador rural Eu já tinha trabalhado numa fazenda no Maranhão, aí, eu cheguei lá e o rapaz só disse o que era para fazer. Aí, eu só ficava em cima da máquina olhando se estava tudo certo. Thais Você não teve nenhum treinamento? Trabalhador rural não (comunicação oral) Trabalhadora rural, 35 anos, cozinheira. Entrevista realizada pela autora, no STTR de Uruçuí, em 29/04/ Biofenac é o nome fantasia do medicamento com o princípio ativo diclofenaco dietilamônio. 80 Trabalhador rural, 21 anos, serviços gerais. Entrevista realizada pela autora, na residência do trabalhador, em Uruçuí, em 08/02/2009.

121 121 Thais Vocês receberam algum tipo de treinamento, lá, para trabalhar? Trabalhador rural Não. Thais Para trabalhar com máquinas, para usar equipamentos? José Não, Thais E quando você fez o tratamento das sementes eles não falavam como tinha que usar o produto? Trabalhador rural não, aí, eles davam só a explicação. Thais Quem dava essa explicação? Trabalhador rural No tempo que eu estava, lá, veio um cara não sei de onde para imunizar. Todo ano vem alguém diferente, eles explicavam só você tem que fazer isso, isso e isso. Thais Mas treinamento, curso, não tinha. Trabalhador rural Não (comunicação oral) 81. Segundo as falas dos trabalhadores que imunizam as sementes, bem como as dos auxiliares de plantio que tem contato com as sementes imunizadas, não receberam eles treinamento, não utilizam o EPI apropriado e, quando acontece intoxicação, não têm o socorro dos empregadores. De fato, encontram-se expostos a riscos iminentes de saúde. Sobre o uso do EPI é do que trataremos a seguir Sobre o uso de Equipamento de Proteção Individual EPI. Os EPIs (equipamentos de proteção individuais) destinam-se a resguardar a integridade física do/a trabalhador/a durante a sua atividade. A função dos EPIs é neutralizar ou atenuar um possível agente agressivo contra o corpo de quem o usa, evitando lesões ou minimizando a sua gravidade, em casos de acidentes ou exposições a riscos, além de poderem proteger contra efeitos de substâncias tóxicas, alérgenas ou agressivas, que podem causar doenças ocupacionais. Os EPIs podem ser classificados em quatro grupos: proteção para a cabeça, proteções para os membros superiores e inferiores, proteção para o tronco e proteção das vias respiratórias e cintos de segurança (quadro 5). Observou-se que as fazendas fornecem gratuitamente para os funcionários duas fardas (calça e camisa), um par de botas, uma máscara, um par de luvas, 81 Trabalhador rural, 22 anos, trabalha com serviços gerais. Entrevista realizada pela autora, no STTR de Uruçuí, em 07/02/2009.

122 um par de protetor auricular (para operadores de máquinas) e o EPI para manusear agroquímicos, que consiste na roupa impermeável, mascara com filtro, luvas, avental, viseira e óculos. 122 Thais E o pessoal usa? Trabalhador rural Usa, é obrigatório, né, tem pessoas que se desleixam mas aí eles tiram. E usando epeí, mesmo assim tem pessoas que se sentem mal porque não é todo mundo que consegue suportar agrotóxicos, essas coisas. =75 De fato, existe resistência dos trabalhadores em utilizar tais equipamentos. Mas percebe - se que, em fazendas que proporcionam cursos e treinamentos para os funcionários, manifestam eles, consciência da importância de se usar o EPI. Trabalhador rural Tem que usar né? Até para facilitar para a gente né? A saúde da gente, né, quem se preocupa com a saúde. (comunicação oral) 82 Trabalhador rural A gente tinha curso, assim, de proteção. De vez em quando vinham dar curso pra gente, porque a gente não entendia, né? O que a gente entendia a gente usava porque é muito bom para gente. Thais E esses cursos eram para que? Trabalhador rural Era pra falar sobre veneno, né? Esse negócio de doença, câncer, essas coisas causada pelo veneno. Thais Aí, vocês entendiam direitinho? Trabalhador rural Entendia, a maioria do pessoal entendia e tinha que usar. (comunicação oral) 83. Manifestam, ainda, consciência do perigo do trabalho com agroquímicos sem a devida proteção e demonstram, até, um certo medo de manipular esses produtos. Trabalhador rural Não. Eu não gosto de trabalhar com veneno, não. Thais Por que você não gosta? Trabalhador rural Porque veneno, ele, é perigoso e eu acho que não dá certo. Tem vez que eu trabalhei com veneno de matar formiga, lagarta. Aquele, lá, eu trabalhei porque só mata bicho que não tem osso. Agora os outros eu não trabalho, não. Thais O que mata bicho que tem osso, não? Trabalhador rural ) O que mata bicho que tem osso, não. (comunicação oral) Trabalhador rural, 25 anos, operador de máquinas. Entrevista realizada no STTR, em Uruçuí, em 07/02/ Trabalhador rural, 40 anos, operador de máquinas. Entrevista realizada pela autora, no STTR, em Uruçuí, em 06/02/2009

123 123 Mas nas fazendas em que não se oferecem treinamentos, os funcionários relutam em usar o EPI, desconhecendo a sua importância. Trabalhador rural Eu não sei para que tem que trabalhar com aquele capacete, só mesmo se cair alguma coisa do céu na cabeça. Porque não tem por que trabalhar de capacete? No entanto, não é apenas a falta de informação o motivo para não se usarem EPIs. De fato, mesmo com alguma consciência dos riscos do trabalho desprotegido, trabalhadores afirmam que somente utilizam o EPI quando o patrão ou gerente está fiscalizando ou o Ministério do Trabalho fiscaliza as fazendas. As justificativas mais freqüentes para o não uso do EPI são desconforto térmico (no caso do EPI usado para manusear agrotóxico) e incômodo (no caso de protetor auricular). Trabalhador rural O que era pior usar era, sabe aquele bichinho velho que aperta o ouvido da gente? Ave, chega dói,assim, do lado! (comunicação oral) 85. Thais - Vocês sentiam desconforto por causa do calor? Trabalhador rural Ah, isso, aí, acontece muito, no curso que a gente teve um rapaz falou: olha é quente, é tudo mas é bom pra vocês. E é desconfortável mesmo, não tem jeito.(comunicação oral) 86 Com efeito, na prática, há algumas dificuldades concretas no uso de certos equipamentos. Por exemplo, foi informado tanto por empresários quanto por trabalhadores que os óculos utilizados para manusear agroquímico apresentam problemas de funcionamento no clima do Piauí, de sorte que assim que o trabalhador coloca a máscara de filtro e o óculos, devido à transpiração ocasionada pelo calor, estes se embaçam em segundos. 84 Trabalhador rural, 28 anos, serviços gerais. Entrevista realizada pela autora, na residência do trabalhador, em Uruçuí, em 31/05/ Trabalhador rural, 21 anos, serviços gerais. Entrevista realizada pela autora na residência do trabalhador, em Uruçuí, em 08/02/ Trabalhador rural, 33 anos, operador de máquinas. Entrevista realizada pela autora, na residência do trabalhador, em Uruçuí, em 08/02/2009.

124 124 Nas falas é comum afirmarem que usam o EPI, assim como que viam vários colegas sem fazê-lo.: Thais Vocês recebiam o epeí [EPI]? Trabalhador rural Recebia tudinho: a farda, a bota, protetor de ouvido, máscara. Thais Mas você via gente sem usar? Trabalhador rural Isso via sim. Tinha uns rapaz, lá, que faziam a dosagem do veneno, eles enfiavam a cara no caldeirão de veneno sem máscara. Ele mora bem ali. Depois você vai lá conversar com ele. (comunicação oral) 87 Thais Você via o pessoal sem epeí? Trabalhador rural Via, muito. Eu via sem máscara, mas com aquela roupa de plástico. (comunicação oral) 88 Além dos aspectos referidos, há que se considerar, ainda, o problema da quantidade dos EPIs disponibilizados aos trabalhadores. Estes afirmam ser comum o fato de, quando as botas estão molhadas, eles trabalham de chinelos até que elas sequem. Isto porque todas as empresas fornecem apenas um par de botas aos trabalhadores e, quando chove, estas ficam molhadas. Outro elemento importante nesta resistência ao uso de EPIs é o fato de ter a obrigação de lavá-los após o uso, o que também faz com que alguns trabalhadores deixem de usar o EPI. As fazendas pesquisadas possuem assessoria na área de segurança do trabalho, sendo que o técnico de segurança promove palestras sobre a importância do uso do EPI 89. As empresas adotam o sistema de advertências 90 para trabalhadores que deixam de usar os equipamentos e os gestores afirmam que se os utilizam mais pela coerção que pela consciência, o que é corroborado pelos próprios trabalhadores, confirmando o que diz Rangel 87 Trabalhador rural, 32 anos, operador de máquinas. Entrevista realizada pela autora, na residência do trabalhador, em Uruçuí, em 08/02/ Trabalhador rural, 21 anos, serviços gerais. Entrevista realizada pela autora, na residência do trabalhador, em Uruçuí, em 08/02/ Aqui convém lembrar que as formas de percepção do risco compatibilizam dois saberes: o técnico-científico: indispensável para o funcionamento da empresa, mais ou menos refinado a depender da função. Por outro lado, há o saber empírico ou de senso comum, adquirido na convivência cotidiana de trabalho. No que tange a formas de proteção contra os riscos, trabalhadore/as compatibilizam o desconforto proporcionado pelo uso dos EPIs com os saberes adquiridos no cotidiano de EPI, selecionados pelo bom senso. Neste sentido, não se pode desconsiderar o processo de transmissão cultural através do qual não é incomum que, no mundo do trabalho, operadores chefes, em geral, mais velhos e experientes, reconheçam práticas decorrentes do saber pragmático elaborado no cotidiano de trabalho como eficazes na proteção e passam cautelosamente aos mais novos (RANGEL, 2009). 90 A advertência é contemplada na convenção coletiva de trabalho que prevê, na cláusula 7, inclusive, demissão por justa causa para trabalhadore/as reincidentes.

125 125 (2009) sobre as pessoas tenderem a subestimar regularmente os riscos em situações que lhes sejam familiares nas quais os riscos podem aparecer como de baixa probabilidade: Trabalhador rural. Ultimamente eu usava direto porque eu não gostava de reclamação, então eu usava direto mesmo. (comunicação oral) 91. Thais E vocês usavam? Trabalhador rural usava, senão eles vinham com advertência pra cima de nós (comunicação oral) Acidentes de trabalho e CIPA na visão de trabalhadores/as rurais. Uma das principais 125evar125ntes125as da modernização da agricultura brasileira foi a substituição progressiva do trabalho manual pelo mecanizado. A introdução de instrumentos e insumos modernos nas tarefas agrícolas tanto ampliou a produtividade do trabalho, quanto o fez significativamente no que tange aos tipos de acidentes laborais a que estão sujeitos os trabalhadores rurais, antes restritos basicamente a quedas, ferimentos com ferramentas (enxada, facão) e envenenamentos por animais peçonhentos. A manipulação de agrotóxicos e a utilização intensa de máquinas agrícolas aumentou consideravelmente os riscos de acidentes de trabalho para os trabalhadores rurais em suas atividades diárias (RAMBO, 2002) Acidente do trabalho é o que ocorre pelo exercício de uma atividade a serviço da empresa, contra o segurado empregado, trabalhador avulso, médico residente, causando lesão corporal ou perturbação funcional que cause à morte ou a perda ou redução, temporária ou permanente, da capacidade para o trabalho. Será caracterizado tecnicamente pela perícia médica do INSS, mediante a identificação do nexo entre o trabalho e o agravo, que se considera estabelecido quando se verificar um vínculo técnico epidemiológico entre a atividade da empresa e a entidade mórbida motivadora da incapacidade, elencada na Classificação Internacional de Doenças (CID). 91 Trabalhador rural, 22 anos, serviços gerais. Entrevista realizada pela autora no STTR, em Uruçuí, em 07/02/ Trabalhador rural, 32 anos, operador de máquinas. Entrevista realizada pela autora, na residência do trabalhador, em Uruçuí, em 08/09/2009.

126 126 Considera-se agravo, para fins de caracterização técnica pela perícia médica do INSS, lesão, doença, transtorno de saúde, distúrbio, disfunção ou síndrome de evolução aguda, subaguda ou crônica, de natureza clínica ou subclínica, inclusive morte, independentemente do tempo de latência. Reconhecidos pela perícia médica a incapacidade para o trabalho e o nexo entre o trabalho e o agravo, serão reconhecidas as devidas as prestações acidentárias a que o beneficiário tenha direito (RAMBO, 2002) Observou-se que os acidentes mais frequentes nas empresas agropecuárias investigadas são cortes, perda de parte dos dedos em máquinas, picada de animais peçonhentos, colisão de veículos, e intoxicação por agroquímicos. Por ocasião das entrevistas com empregadores e trabalhadores rurais, verificou-se que os acidentes laborais ocorridos, estão, em grande parte, relacionados com o não uso do EPI, principalmente de botas, luvas, máscaras, sem dizer do próprio para manuseio de agroquímicos. A assistência prestada aos trabalhadores vítimas de acidentes, tidos como graves, resume-se a levar o acidentado para o hospital da cidade e providenciar os documentos necessários para a comunicação ao INSS. Ademais, as fazendas que possuem mais de 20 empregados têm constituída a CIPATR (Comissão Interna de Prevenção de Acidente de Trabalho Rural), conforme relatado no Capítulo II desta dissertação. No entanto, trabalhadores questionados sobre a finalidade da CIPA, manifestaram não ter conhecimento a respeito. Há quem afirme ter votado, mas que nunca soube dos resultados e que nunca participou de nenhum tipo de curso ou treinamento promovido pela comissão. Thais Você tem conhecimento da presença da cipa lá? Trabalhador rural Rapaz, nós até assinamo um negócio lá sobre isso, aí. Foi um dia que um menino, lá tinha quebrado um dedo que não era da função que ele tava. Aí fizeram uma reunião e foi falado que todo mundo tem que trabalhar só na sua função. Thais Mas você sabe o que é que é essa cipa? Trabalhador rural Não (comunicação oral) 93 E há quem fale de procedimentos ambíguos de eleição de representante da CIPA, na qual quem foi eleito pelos trabalhadores não 93 Trabalhador rural, 22 anos, serviços gerais. Entrevista realizada pela autora no STTR, em Uruçuí, em 07/02/2009.

127 assumiu porque a empresa decidiu por alguém do escritório. O relator deste procedimento evidencia descrença na eficácia da CIPA na empresa: 127 Thais Você tem conhecimento da atuação da cipa? Trabalhador rural Tem, teve até uma eleição, lá, elegeram um presidente, lá. Thais Mas nessa eleição vocês votaram, participaram? Trabalhador rural Participei. Nós votamos num guarda que tem, lá. Thais E ele ganhou? Trabalhador rural Ganhou. Mas, aí, eles [pessoal da gestão] disseram que ele não podia ficar porque tinha que ser alguém, lá, do escritório. Aí não deixaram ele, não. Eu sei que ficou alguém, lá, do escritório como presidente. Thais Mas esse guarda ficou como membro da cipa, mesmo sem ser presidente? Trabalhador rural Não, ele ficou fora. Thais E pra que serve a cipa? Trabalhador rural Eu acho que é só pra enganar mesmo. Só pra dizer que tem. (comunicação oral) 94 Há quem relate experiências anteriores em outras empresas com o mesmo padrão de ausência de controle social 95 dos trabalhadores sobre a CIPA: Trabalhador rural Sim, eu trabalhava na empreiteira da Bunge 96, mas dentro lá da empresa na construção, e eu via como é que era a cipa [CIPA]. Se você votasse e fosse eleito tinha por dever deles, por direito, por exigência a [trocar] uma calça rasgada, uma bota rasgada, qualquer epeí [EPI] que tivesse estragado você chegava neles lá da cipa [CIPA], aí ele pegava: olha, se tá estragado, nós vamos trocar. Se alguém voltasse ele falava: olha, não tenho, não dá pra atender, esse aqui dá pra trabalhar. Chegava e falava, mas lá na fazenda não tinha muita experiência, até de funcionário mesmo, que era mais a gente da roça, não tinha participação de cipa a fazenda. A coisa mais difícil que tem é ter uma cipa numa fazenda que funcione porque empresa, todas, tem: o presidente da cipa tem que falar, o que tiver de errado tem que falar. Thais Então vocês não davam sugestões pra cipa do que estava errado na fazenda? 94 Trabalhador rural, 40 anos, operador de máquinas. Entrevista realizada pela autora, no STTR, em Uruçuí, em 06/02/ Controle social é um processo específico pelo qual ocorre a conformação do comportamento humano em sociedade para gerar determinada ordem social por meios indiretos, por meio das próprias pessoas implicadas no processo e também por meio de instituições sociais difusoras de padrões culturais, normativos e cognitivos (CRUBELLATE, 2004). 96 Empresa multinacional holandesa, com filial instalada em Uruçuí em 2003, onde realiza o esmagamento da soja e a extração de seus derivados, como o óleo. Esta empresa é a principal compradora a soja produzida na região de Uruçuí.

128 128 Trabalhador rural Não Thais Por quê? Trabalhador rural Sim, não tinha explicação pra saber quem era [o representante] e quando ganhou, também não sei quem ficou. Eu sei que quem ficou em primeiro lugar foi um da portaria, não sei se... Acho que é ele, lá. (comunicação oral) 97. Como se vê, as falas expressam deficiência na eficácia da Comissão, a começar, sobretudo, pelo quase-desconhecimento dos trabalhadores a seu respeito. Apenas um trabalhador mostrou algum conhecimento sobre a finalidade da CIPA: Thais Você tem conhecimento da presença da cipa [CIPA] lá? Trabalhador rural tem. Thais E o que é que e essa cipa [CIPA]? Trabalhador rural é mais de segurança, né? Para problemas de segurança, né? Thais E vocês dão sugestões para a cipa [CIPA] do que precisa melhorar? Trabalhador rural Damo. Lá tem tipo um depósito para colocar sugestões, aí, a gente coloca lá. Thais e as sugestões são atendidas? Trabalhador rural eu já reclamei que o alojamento 98 é muito quente, mas até agora esta só na promessa. (comunicação oral) 99. Ao que parece, a CIPA está estabelecida nas empresas por força de uma exigência legal, não funcionando, de fato, no sentido de atingir seu objetivo principal, que é promover ações de prevenção de acidente de trabalho Dos mecanismos de controle do tempo e do corpo de trabalhadores/as rurais A Revolução Industrial 100, ocorrida no séc. XIX, impôs a necessidade de adaptação do trabalhador a um novo ritmo de trabalho e a uma 97 Trabalhador rural, 27 anos, operador de máquinas. Entrevista realizada pela autora, no STTR, em Uruçuí, em 06/02/ Observou-se que alojamento referido nesta entrevista está dentro dos padrões exigidos pela NR 31, porém supõe-se que, pelo fato de os trabalhadores não estarem acostumados a dormir em beliches, sentem alguns tipos de desconforto. 99 Trabalhador rural, 25 anos, operador de máquinas. Entrevista realizada no STTR, em Uruçuí, em 07/02/ A Revolução Industrial consistiu em um conjunto de mudanças tecnológicas com profundo impacto no processo produtivo em nível econômico e social. Iniciada na Inglaterra em meados do século XVIII, expandiu-se pelo mundo a partir do século XIX.

129 129 nova forma de organização do tempo. No Brasil, essa nova ordem passou a ser implantada, nas principais capitais, no final do século XIX. (MELO; BONI, 2008). No âmbito e na perspectiva dessa nova ordem que se impunha não apenas como reorganização do trabalho, mas como um processo civilizatório, tornou-se necessário civilizar os trabalhadores, afastando-os do vício, do ócio, da vadiagem, dos ambientes sujos e promíscuos e incutir-lhes novos hábitos de higiene, novas formas de organização de lazer, nova orientação religiosa, etc. Os mecanismos para tornar isso possível foram a vigilância e a sanção (MELO; BONI 2008). Estabelecer as presenças e as ausências, saber onde e como encontrar os indivíduos, instaurar as comunicações úteis, interromper as outras, poder a cada instante vigiar o comportamento de cada um, apreciá-lo, sancioná-lo, medir as qualidades ou os méritos. Procedimento, portanto, para conhecer, dominar e utilizar. A disciplina organiza um espaço analítico (FOULCALT, 1999, p 123). Para Michael Foucalt, a disciplina foi essencial na implantação do capitalismo industrial, sendo o principal fator da criação de corpos dóceis e obedientes (FOUCALT, 1999, p. 121), pois controla as atividades corporais e produz indivíduos normalizados, fazendo-o pela distribuição deles no espaço, controle das atividades, extração e acumulação do tempo e composição das forças para obter um aparelho eficiente. Para isso, utiliza a vigilância, a norma e o exame. A vigilância favorece o processo produtivo e pedagógico: instituemse normas de ensino, sanitárias, que regulam os processos industriais. O exame combina a vigilância e a normalização e por ele se extraem padrões, calcula-se e mede-se, surgindo todo um saber sobre o indivíduo. Essas relações mostram que assim se tece um poder sobre o indivíduo (BONI,1998) No caso da presente pesquisa, os/as trabalhadores/as rurais, como já dito, são de origem camponesa. Ao se inserirem no trabalho com agricultura moderna e mecanizada, passam por uma disciplinarização de seus corpos que inclui desde novos aprendizados para lidar com a reordenação do tempo de

130 trabalho, com máquinas e equipamentos agrícolas, a novas formas de habitar (alojamentos), alimentar (refeitórios, cardápio) e higienizar-se (instalações sanitárias, regras de higiene e limpeza do corpo e do ambiente). Dentre os mecanismos utilizados pelos empregadores para tal disciplina, destacam-se alguns treinamentos, a suspensão ao exercício das atividades, a aplicação de advertências para os que não usam EPI, a cobrança de taxas para os que não observam as normas de higiene previstas nos ambientes da fazenda e ao controle da liberdade de ir e vir, com a proibição de ir para a cidade em outro dia que não o de folga. 130 Trabalhador rural É, ficava alojado e só vinha final de semana. Aí, escolhia de quinze em quinze dias para a gente ficar lá. Só vinha de quinze em quinze dias Thais Vocês não tinham liberdade de vir a hora que quisessem? Trabalhador Não, não. Só se chegasse a adoecer uma pessoa. Ai eles traziam. (comunicação oral) 101. Na prática, esse processo de disciplinarização não se impões sem conflitos. De fato, a pesquisa flagra um momento de construção de um novo trabalhador, da passagem do ambiente de trabalho de uma agricultura camponesa, como agricultor, para o de força-de-trabalho na agricultura. Nesta transição não é incomum que esses trabalhadores tenham dificuldades de se adaptarem às novas regras do mundo do trabalho. Por exemplo, a prática de proibir trabalhadores de irem à cidade durante a semana, só autorizada no dia da liberação, que ocorre semanalmente ou a cada quinze dias, se dá, segundo os próprios trabalhadores, porque aconteceu de funcionários fazerem isso e voltarem ao trabalho, no dia seguinte, com sono. Em uma ocasião houve um acidente com uma máquina, devido ao cochilo do trabalhador. Então, algumas fazendas passaram a proibir a ida deles à cidade durante a semana, impondo sanção (advertência formal) para os que o fizerem. Thais E vocês tinham liberdade de sair no meio da semana, vir para cidade e voltar? Trabalhador rural Antes tinha, se quisesse descer [ir à cidade]. Mas passou uns dias, lá, e agora é proibido descer. Se você descesse já incomodava e foi o problema porque eu saí 101 Trabalhador rural, 36 anos, operador de máquinas. Entrevista realizada pela autora, no STTR de Uruçuí, em 27/04/2009.

131 131 de lá. Eu cheguei a falar com o dono, com o gerente. O gerente não concordava porque o gerente não gostava de sair, ele tinha família em Floriano 102, não gostava de sair. Eu mesmo não descia, não gostava de descer. Mas um dia se, precisasse vir em casa, você sabe, quem tem família sente saudades da família, né. Você passar quinze dias, pra mim é muito. Mas eu tolerava quinze dias só que eu tinha que ficar alguém que morava perto dizendo que eu não podia descer, porque eles não privavam descer na portaria, abria, mas o nome ficava lá. Thais Aí, o nome de vocês ficava na portaria? Trabalhador rural Ficava. Só que o meu não pegou porque eu não desci, mas os outros que desceram foi pegado, foi parece que vinte e duas pessoas, um dia, ameaçaram de assinar advertência porque saíram, porque a norma da fazenda é daquele jeito, que não podia sair. Thais Mesmo que vocês voltassem no outro dia para trabalhar? Trabalhador rural Isso. Só que por causa de um todos pagam. Teve uma vez que descia, aí, vinha com sono pra trabalhar e deu um acidente na máquina. Aí, eles quiseram cortar geral pra ninguém descer. Thais Ah, porque desceu aí quando voltou estava com sono... Trabalhador rural É, com sono, três horas da manhã. Por causa de dois operador os outros complicaram. Então, isso é geral pra não descer. Thais Aí, só podia descer no dia da folga? Trabalhador rural No dia da folga, eles combinavam pra sábado meio dia. Todo sábado meio dia, descia. Quando começou o plantio, aí, podia ser no sábado, na segunda, aí, só quando chovia! Se chovesse amanha de novo nós não ia. (comunicação oral) 103. Trata-se de fato de uma nova ordenação no que tange ao controle do tempo. No padrão de trabalho na agricultura camponesa, claro está que ali, também, a intensidade do trabalho se diferenciava orientada pela relação inverno/verão. Mas uma diferença importante pode ser localizada no controle do uso do próprio tempo. Daí porque os trabalhadores se revoltam com o controle estabelecido pelas empresas sobre o direito de ir e vir e estranham o grau de intensificação do trabalho nas épocas de pico como o plantio. É que pois deixam esposas e filhos na cidade, para trabalhar e, quando têm oportunidade, querem ir à cidade para ficar com eles. Assim, sentem-se aprisionados nas fazendas, o que causa desânimo e desestímulo para continuarem no serviço. Esse é, muito provavelmente, o fator determinante na 102 Município piauiense distante 200 Km de Uruçuí. 103 Trabalhador rural, 27 anos, operador de máquinas. Entrevista realizada pela autora, no STTR, em Uruçuí, em 06/02/2009

132 132 referida rotatividade de trabalhadores alegado por empregadores, como se vê no Capítulo II desta dissertação e que será retomado adiante, na perspectiva dos próprios trabalhadores. Dentre os mecanismos de disciplinarização do corpo dos trabalhadores, alguns deles extrapolam os limites legais. Por ocasião das entrevistas com trabalhadores e empresários ou gestores, não foi relatado nenhum tipo de violência física, nem entre os trabalhadores, nem entre patrões e empregados. Somente se contaram casos de brigas que não passaram de meras discussões. Porém, em uma das fazendas visitadas, constatou-se a prática de assédio moral, que, segundo Hirigoyen (2000) é toda e qualquer conduta abusiva, manifestando-se sobretudo por comportamentos, palavras, atos, gestos, escritos que possam trazer dano à personalidade, à dignidade ou à integridade física ou psíquica de uma pessoa, pôr em risco o seu emprego ou degradando o meio ambiente de trabalho. Segundo relato dos trabalhadores, existe nessa fazenda um muro denominado muro das cagadas. Quando alguém comete um erro no serviço o proprietário escreve, no muro, o nome do trabalhador, o que fez de errado e um comentário humilhante. Os trabalhadores disseram que o próprio nome do proprietário também já esteve no muro por uma compra de adubo errada que havia feito, atitude tomada, talvez, para legitimar, assim, o próprio expediente do muro das cagadas. Se a intenção do proprietário é fazer com que os trabalhadores não façam coisas erradas, em uma tentativa de diminuir o prejuízo que tem com esses erros, esta prática caracteriza assédio moral por expor trabalhadores à humilhação. E o fato de o nome do próprio empregador constar no muro, não o desculpabiliza. Outra prática relatada é a do uso do rádio para veicular críticas a trabalhadores. Todos os tratores possuem o rádio e, quando um trabalhador faz algo errado, o proprietário o humilha, verbalmente, pelo rádio. Assim, todos os trabalhadores em máquinas, escutam os termos da humilhação. Quando você está com o nome no muro das cagadas ou quando o patrão chama a sua atenção no rádio, pra encarar os colegas no alojamento é muito difícil. (comunicação oral) Trabalhador rural, 21 anos, serviços gerais. Entrevista realizada pela autora, na residência do trabalhador, em Uruçuí, em 08/02/2009.

133 133 Como lembra Hirigoyen (2000), as consequências da exposição de trabalhadores a práticas de assédio moral podem ser desastrosas, como depressão, isolamento, transtornos psicológicos, desequilíbrio da saúde psiquica e física. Para a empresa é também calamitoso, pois o funcionário assediado moralmente tem uma queda no seu rendimento produtivo, além de contarem elas com rotatividade muito grande de empregados. Isso aponta para a necessidade de se preservar a saúde mental dos trabalhadores, um dos valores inerentes à própria dignidade da pessoa humana, princípio sobre o qual se fundamentam os ordenamentos democráticos modernos. No que tange à alimentação, os trabalhadores, por ocasião das entrevistas, mostraram-se satisfeitos com sua qualidade, porém reclamaram da repetição, no cardápio, de carne suína. Note-se que existe uma cultura regional de rejeição à carne de porco e, em razão da referida disciplinarização, se vêem obrigados a adquirir este hábito.. Trabalhador rural A comida lá é o seguinte, lá eles não ligam muito pra isso não. Eu mesmo 133e com mais de três meses passando apertado. Quando vai comida sem ser carne de porco eu como, mas quando não vai eu não como não. Eu to tomando um remédio aí porque eu 133e com umas manchas no corpo, e aí eu não posso comer carne de porco, comida carregada. Thais E você come o que daí? Trabalhador rural Fica sem comer, porque eles não tem outra comida, aí fica sem comer mesmo. (comunicação oral) 105 Na contramão dessas formas de disciplinarização de trabalhadores/as, criam eles mecanismos de resistência, dentre os quais até mesmo o uso de bebidas alcoólicas, de forma escondida, nas fazendas. Com efeito, nas entrevistas com gestores e trabalhadores/as rurais, foi referida a prática de os trabalhadores levarem bebida alcoólica para as fazendas. Todas as fazendas proíbem a entrada e uso de bebida alcoólica nas suas dependências internas, porém, muitos desrespeitam a regra. Por ocasião das entrevistas com trabalhadores rurais, todos negaram levar bebida para a fazenda, mas afirmaram saber de colegas que o fazem. Thais Bebida, vocês conseguiam levar bebida para lá? 105 Trabalhador rural, 28 anos, serviços gerais. Entrevista realizada pela autora, na residência do trabalhador, em Uruçuí, em 31/05/2009

134 134 Trabalhador rural Rapaz, eu mesmo não. Mas eles [outros] levavam para levar para o campo à noite, e eles levavam escondido de nós, que tinham medo de nós dizer. (comunicação oral) 106. Thais Você tem conhecimento de o pessoal levar bebida na fazenda? Trabalhador rural Alguns levavam. Thais E aí, era proibido? Trabalhador rural Eles proibiram. Mesmo assim tinha uns lá que levavam debaixo dos panos, lá. (comunicação oral) 107. Thais E bebida, podia levar bebida lá? Trabalhador rural Era proibido, eles levavam, mas era proibido. Thais O pessoal levava escondido? Trabalhador rural O pessoal levava escondido, muito escondido mesmo porque se pegassem, mandava embora. Thais- Eles revistavam vocês? Trabalhador rural É, tinham vezes que eles botavam gente pra olhar (comunicação oral) 108. Dessa forma, mesmo com toda a proibição que as fazendas impõem, a bebida está presente, ainda que de forma muito escondida. Seria ela um escape para trabalhadores submetidos a jornadas de trabalhos excessivas, sem liberdade de sair da fazenda e experimentando inúmeras adversidades, como o assédio moral relatado? Observou-se, nesse processo de transição de camponês a trabalhadores rurais assalariados em empresas agropecuárias, durante entrevistas com trabalhadores, que eles se apresentam muito desestimulados e desmotivados. É comum que trabalhem um tempo em uma fazenda e peçam as contas, dizendo que já a abusaram. Thais Por que os trabalhadores abusam das fazendas? Trabalhador rural Sempre tem isso, né? Inclusive até eu, também, tava com outros planos, eu até tinha falado de sair também. Acontece mesmo aquela rotina velha direto, às vezes sempre abusa dos encarregados. E os empregados reclamam da comida chegar tarde. Aí, eu fico com a cabeça agoniada, dá vontade de vir embora. Tem vez quando eu vou chegar na última pessoa lá do trecho que tá trabalhando, tem vez que é uma hora, e é a hora que eu vou almoçar também. Se fosse 106 Trabalhador rural, 21 anos, serviços gerais. Entrevista realizada pela autora, na residência do trabalhador, em Uruçuí, em 08/02/ Trabalhador rural, 40 anos, operador de máquinas. Entrevista realizada pela autora, no STTR, em Uruçuí, em 06/02/ Trabalhador rural, 22 anos, serviços gerais. Entrevista realizada pela autora no STTR, em Uruçuí, em 07/02/2009.

135 135 pra pegar reto não, você entregaria mais rápido. O negócio é que tem gente pra tudo quanto é lado! (comunicação oral) 109. Percebe-se nas falas o estranhamento de muitos trabalhadores do ritmo, da escala, das dimensões desse novo mundo do trabalho que se lhes apresenta. É muito grande o rodízio de trabalhadores nas fazendas, o que leva, por seu turno, empresários a se desinteressam em proporcionar cursos de treinamento e qualificação, os quais tem custo elevado e trabalhadores que os fazem depois pedem a conta e se mudam. Ao perguntar para trabalhadores despedidos do emprego o que iriam fazer agora, disseram que ficariam recebendo o seguro e, quando acabasse o dinheiro, iriam procurar um trabalho. Não há preocupação deles de ficarem desempregados, pois falta mão-deobra 110 na região e não existe a política de uma fazenda não contratar um funcionário demitido, por justa causa, de outra propriedade. Thais Por que os trabalhadores abusam das fazendas, o que é esse abuso? Trabalhadora rural Às vezes a gente quer, né. É muito serviço pra gente, a gente quer um salário mais ou menos e eles não dão, só dão serviço. É fim de semana, é serviço! Aí, a pessoa vai e abusa, cansa. Lá a gente adoecia. Eu fui com meu marido lá, para Sebastião Leal [município vizinho] atrás de um médico pra mim, porque se a gente adoecia eles diziam que a gente não tava doente não, era pra ir embora pra casa. Isso aconteceu muito, lá. A gente adoecia e se você não comprasse o remédio com o seu dinheiro e 135evar você até morria, lá, porque a fazenda não dava nada disso, nada! Não dava um remédio pra gente. A gente nunca teve chance de sair pra fazer uma consulta. (comunicação oral) 111 As causas apontadas para o abuso 112 são, pois, o excesso de trabalho, as jornadas extensas, o ritmo acelerado, o ficar na fazenda por uma quinzena, sem poder ir para a cidade, alojar-se longe de suas famílias. Todos, estes, mecanismos de disciplinarização do corpo dos/as trabalhadores/as, utilizados pelas empresas e que termina por se voltarem contra elas próprias. 109 Trabalhador rural, 41 anos, motorista. Entrevista realizada pela autora, na residência do trabalhador, em Uruçuí, em 31/05/ Em razão da região de Uruçuí ser de fronteira e estar em expansão pela incorporação da agricultura moderna e, consequentemente, instalação de novos projetos, industrias, etc., a oferta de emprego no ramo da agricultura moderna é grande e, por isso, os trabalhadores afirmam que lá não falta emprego nessa área. 111 Trabalhadora rural, 35 anos, cozinheira. Entrevista realizada no STTR de Uruçuí, em 29/04/ Termo usado pelos trabalhadores para expressar que estão cansados, enjoados do emprego.

136 136 Deduz-se, assim, que mesmo as fazendas possuindo uma boa estrutura física, a visão que os trabalhadores têm sobre o meio ambiente de trabalho rural é que é perigoso, devido ao desconhecimento dos riscos do trabalho desprotegido e a omissão de socorro pelos empregadores. Ademais a atividade é exaustiva, com longas jornadas, o ritmo acelerado e folgas somente quinzenais, sendo ainda injusto, pois as horas-extras efetuadas, na visão deles, não são devidamente remuneradas, sem dizer da restrição da liberdade de locomoção, proibidos que ficam de saírem da fazenda. Todos estes fatores são motivos que desestimulam os trabalhadores/as a continuarem no emprego.

137 CONCLUSÃO O presente trabalho tratou do meio ambiente de trabalho rural em empresas agropecuárias dos cerrados piauiense, focalizando as questões ambientais, a saúde, segurança, dignidade de trabalhadores/as rurais, na perspectiva da visão destes/as trabalhadores/as sobre o meio ambiente laboral. Dessa forma, abordou-se a incorporação dos cerrados pela agricultura moderna, resgatando um histórico desta ocupação no Brasil, Nordeste e especificamente no sudoeste do Piauí. Tratou-se teoricamente do meio ambiente de trabalho, relatando a atual situação deste meio ambiente em propriedades dos cerrados piauiense. Por fim, buscou-se apreender a visão de trabalhadores/as rurais sobre esse ambiente. As conclusões da presente pesquisa são que as empresas agropecuárias dos cerrados piauiense vêm, ao longo dos anos, se adequando às normas ambientais laboras, destacando-se a NR 31, embora ainda apresente problemas importantes. A visão dos trabalhadores sobre o meio ambiente laboral é a de um ambiente perigoso, desprotegido, exaustivo. Ademais, existe uma diferença cultural entre trabalhadores/as e empresários agrícolas. Estes, na maioria sulistas, têm um modo de vida diferente daqueles, em sua maioria camponeses, oriundos da agricultura familiar. Assim, para estes/as trabalhadores/as se inserirem no trabalho da agricultura moderna, passam por uma disciplinarização dos seus corpos para se adequarem aos novos padrões impostos. Este fato gera mecanismos de defesa nos/as trabalhadores/as, que resistem a esta disciplinarização. Portanto, um grande problema visualizado nesta pesquisa, é o choque cultural enfrentado por empregadores e trabalhadores/as. Para Além do que foi tratado nos limites desta pesquisa, salientamos que ela aponta para desdobramentos como a necessidade de ampliar discussões sobre os perigos a que trabalhadores/as estão expostos na agricultura moderna, em especial a exposição a agrotóxicos, análises mais

138 138 aprofundadas sobre hábitos culturais de trabalhadores/as e empregadores; tema capacitação com cursos e treinamentos adequados para esse/as trabalhadore/as rurais; questões de infra-estrutura, como a própria carência da região de serviços na área de saúde (médicos, enfermeiros, hospitais), bem como outros aspectos da infra-estrutura da região, etc. Além do que, temáticas tangencidas nesta dissertação as quais carecem de aprofundamentos, como novos objetos de pesquisa: riscos e ética da natureza no mundo do trabalho; processos de transmissão cultural que aí se desenrolam; neutralização e naturalização dos riscos no meio ambiente de trabalho, inclusive a neutralização do medo pela rejeição/negação, assim como das estratégias de convivência com o medo, de sua assunção e do respeito aos riscos; se há indícios de uma ideologia ocupacional defensiva entre trabalhadores agrícolas dos cerrados piauienses. Enfim, embora esta dissertação chamado a atenção para o tema dos sentidos/significados que circulam sobre riscos, saúde e segurança no meio ambiente de trabalho, assim como para valores sobre riscos à saúde e suas formas de prevenção, ainda merece aprofundamentos a temática de como a cultura organiza a experiência social em saúde e segurança, como isto incide no meio ambiente laboral e, ainda, como as novas relações sociais no mundo do trabalho agrícola, no Piauí vêm modificando: a/ a comunicação sobre a saúde do trabalhador no sentido de apreender se há diálogos no mercado simbólico de disputa de sentidos; b/a saúde do meio ambiente de trabalho e do meio ambiente pensado mais amplamente.

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146 ANEXO I 146

147 147

148 ANEXO II 148

149 149

150 150

151 151

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