Moçambique. A Prestação Efectiva de Serviços Públicos no Sector da Educação

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1 Moçambique A Prestação Efectiva de Serviços Públicos no Sector da Educação Um relatório publicado pelo AfriMAP e pela Open Society Initiative for Southern Africa Abril 2012

2 Copyright Fundações da Open Society 2012 Esta publicação está disponível em formato.pdf no sítio na internet das Fundações da Open Society ou no sítio na internet da AfriMAP sob um licença Creative Commons que permite a cópia e distribuição da publicação, somente na sua totalidade, na medida em que ela seja atribuída às Fundações da Open Society e usada para fins educacionais não-comerciais ou para fins de política pública. As fotografias não podem ser usadas separadamente da publicação. ISBN Para maiores informações, contactar: AfriMAP, PO Box 678, Wits 2050, Joanesburgo, África do Sul Open Society Initiative for Southern Africa (OSISA) Design e lay-out de COMPRESS.dsl

3 Índice Índice de tabelas e figuras Índice de quadros Lista de acrónimos Prefácio Agradecimentos vi viii ix xiii xv Parte I A Prestação Efectiva de Serviços Públicos no Sector da Educação Documento para discussão 1 Introdução 3 1 A evolução das políticas de educação 4 2 Recolha, publicação e gestão da informação 7 3 Planificação estratégica, monitoria e avaliação 8 4 Alocação orçamental e apoio ao desenvolvimento 9 5 Gestão das finanças públicas e o orçamento 11 6 Gestão de recursos humanos 13 7 Controlo externo 17 8 Descentralização e fiscalização local 19 9 Considerações finais Síntese das principais recomendações 23

4 Parte II A Prestação Efectiva de Serviços Públicos no Sector da Educação Relatório Principal 27 1 O contexto da educação em Moçambique 29 A. Herança colonial 29 B. Educação nas zonas libertadas 33 C. Educação após a independência 33 D. O Sistema Nacional de Educação (SNE) 42 E. Arranjo institucional 45 2 Quadro legal internacional e nacional 47 A. Principais instrumentos normativos internacionais 47 B. Constituição da República 51 C. Legislação ordinária 52 D. Ensino privado 53 E. Recomendações 55 3 Recolha, publicação e gestão da informação 56 A. Sistema Nacional de Estatística e o sector da educação 57 B. Desagregação, publicação e divulgação das estatísticas e informação sobre o sector 60 C. Utilização da estatística da educação 61 D. Recomendações 61 4 Planificação, monitoria e avaliação 62 A. Processo de planificação, monitoria e avaliação ao nível central 62 B. Planificação, monitoria e avaliação ao nível provincial e distrital 71 C. Recomendações 72 5 Orçamento e gestão da despesa educativa 74 A. Processo de orçamentação 75 B. Alocação de recursos 78 C. Gestão das despesas no sector da educação 80 D. Recomendações 80 6 Apoio externo ao desenvolvimento do sector da educação 82 A. Contextualização 83 B. Ajuda-externa no sector da educação 85 C. Recomendações 87 7 Gestão dos recursos humanos 88 A. Estatísticas sobre os funcionários do sector da educação 89 B. Estrutura da gestão dos recursos humanos no aparelho de Estado 90 C. Gestão de recursos humanos no sector da educação 91 D. Recomendações 97

5 8 Mecanismos de controlo externo 99 A. Os mecanismos de controlo externo em Moçambique 99 B. Sociedade civil e acesso à informação 104 C. Corrupção no sector da educação 105 D. Recomendações Governação local e o sector da Educação 110 A. Desconcentração (descentralização administrativa) 110 B. Descentralização política (devolução) 112 C. Implicações da desconcentração e descentralização política no sector da educação 114 D. Recomendações Anexo estatístico 117 A. Ensino escolar geral 117 B. Ensino técnico-profissional 140 C. Ensino superior 143 D. Alfabetização e educação de adultos 147 E. Ensino à distância 149 F. Acesso à educação às crianças com necessidades especiais 151 G. Educação Bilíngue 152 Glossário de indicadores 154 Moçambique: A Prestação Efectiva de Serviços Públicos no Sector da Educação v

6 Índice de tabelas e figuras Tabela 1 Crescimento da educação no período colonial, Tabela 2 Níveis de educação da população, Tabela 3 Taxa de analfabetismo, por grupo etário e género / / Tabela 4 Estudantes no ensino primário privado em Moçambique, Tabela 5 Estudantes no ensino secundário privado em Moçambique, Tabela 6 Indicadores do Quadro de Avaliação de Desempenho 69 Tabela 7 Ciclo da planificação e monitoria do sector da educação e cultura 77 Tabela 8 Alocação de recursos ao sector da educação, (%) 79 Tabela 9 Execução das despesas sectoriais do Governo como percentagem das despesas totais, áreas prioritárias do PARPA II, (%) 79 Tabela 10 Fundos do FASE, (MT, 10 3 ) 87 Tabela 11 Distribuição territorial dos funcionários e agentes do Estado, sector da Educação, 2007/ Tabela 12 Número de professores no ensino primário e secundário público, Tabela 13 Professores por tipo de formação e sem formação pedagógica (%), Tabela 14 Formação de professores, número de alunos, Tabela 15 Auditorias planeadas e realizadas pelo Tribunal Administrativo 101 Tabela 16 Número de escolas por níveis, Tabela 17 Número de escolas por área, EP1-EP2, Tabela 18 Evolução nas matrículas, sector público, Tabela 19 Ensino Geral Alunos matriculados por nível, classe e género, 2002, 2008, Tabela 20 Taxa bruta de admissão e taxas bruta e líquida de escolarização, EP1, (%) 123 Tabela 21 Taxas bruta e líquida de escolarização, EP2, ESG1, ESG2 (público e privado), (%) 125 vi Moçambique: A Prestação Efectiva de Serviços Públicos no Sector da Educação

7 Tabela 22 Taxas líquida e bruta de frequência escolar, ensino primário e secundário, Tabela 23 Taxa líquida de frequência, escola primária e secundária, 2008 (MICS) 126 Tabela 24 Taxas de reprovação e desistência por província e região (%), Tabela 25 Graduados, EP1-ESG2, Tabela 26 Motivação das crianças (6-17 anos) que já frequentaram a escola e não mais a frequentam (%) 128 Tabela 27 Impactos dos factores do lado da procura, oferta e contexto nas taxas de admissão e conclusão no ensino primário, Niassa, Zambézia, Gaza e Maputo, Tabela 28 Despesa média anual em propinas escolares por criança, por quintil, 2004 (USD) 130 Tabela 29 Despesa média anual dos agregados familiares por criança em uniformes, livros e outras materiais escolares, por quintil, EP1, 2004 (USD) 130 Tabela 30 Distância, em minutos, até a escola primária e secundária mais próxima, urbana e rural, 2004 (% dos agregados familiares) 132 Tabela 31 Proporção de repetentes (%), Tabela 32 Rácios alunos/professor e alunos/turma, EP1 ESG2, Tabela 33 Rácios alunos/professor e alunos/turma no sector público, Tabela 34 Número de professores a leccionar em dois turnos, EP1, Tabela 35 Proporção da raparigas na escola por província, Tabela 36 Número de alunos no ensino técnico-profissional (turno diurno), Tabela 37 Estudantes por área científica, Universidades públicas e privadas, Tabela 38 Educação de adultos - Número de alfabetizandos existentes no início, fim e aprovados, Figura 1 Taxa de analfabetismo, por grupo etário e género, Figura 2 O ciclo de planificaçao no sector da educação 78 Figura 3 Ajuda-externa a Moçambique, (milhões USD) 83 Moçambique: A Prestação Efectiva de Serviços Públicos no Sector da Educação vii

8 Índice de quadros Quadro 1 Organização das escolas primárias (ensino básico) 44 Quadro 2 Principais objectivos estratégicos do governo sector da educação, Quadro 3 Zonas de Influência Pedagógica (ZIPs) 72 Quadro 4 Salas de aula: Descrições de observadores do INDE 120 Quadro 5 Progressão por ciclos de aprendizagem 133 viii Moçambique: A Prestação Efectiva de Serviços Públicos no Sector da Educação

9 Lista de acrónimos ADE APRM ASE BdPES BM CCRGP CFMP CFPP CGE CGF CIP COPA CSE DAF DICES DICES DINAC DINAE DINEG DINET DIPE DIPLAC DNO DPEC DRH EAC EAD EGFAE EP EP2 EPC ESG1 ESG2 FASE FRELIMO GCC Apoio Directo às Escolas African Peer Review Mechanism Acção Social Escolar Balanço do Plano Económico e Social Banco de Moçambique Conselho Coordenador do Recenseamento Geral da População Cenário Fiscal de Médio Prazo Centro de Formação de Professores Primários Conta Geral do Estado Comité de Gestão Financeira Centro de Integridade Pública Comité Paritário de Acompanhamento Conselho Superior de Estatística Direcção de Administração e Finanças Direcção de Coordenação do Ensino Superior Direcção Nacional para a Coordenação do Ensino Superior Direcção Nacional da Cultura Direcção Nacional de Alfabetização e Educação de Adultos Direcção Nacional de Educação Geral Direcção Nacional de Educação Técnico-Profissional e Vocacional Direcção de Programas Especiais Direcção de Planificação e Cooperação Direcção Nacional do Orçamento Direcção Provincial da Educação e Cultura Direcção de Recursos Humanos Estratégia de Combate à Corrupção Educação à Distância Estatuto Geral dos Funcionários e Agentes do Estado Ensino Primário de 1º.Grau Ensino Primário de 2º. Grau Escola Primária Completa Ensino Secundário Geral de 1º. Grau Ensino Secundário Geral de 2º. Grau Fundo de Apoio ao Sector da Educação Frente de Libertação de Moçambique Grupo do Conselho Coordenador Moçambique: A Prestação Efectiva de Serviços Públicos no Sector da Educação ix

10 GCCC GT IAF IDS IEDA IFP IFTRAB IGF IL IMAP INAC INDE INE INED IOF MAE MARP MEC MF MICS MINED MISAU MMAS MPD NEPAD ODM OE OLE ONP PAP PARPA PDD PEE PEEC PES PESOD PGR PIDESC PIREP PNUD PQG QAD Gabinete Central de Combate à Corrupção Grupo de Trabalho Inquérito aos Agregados Familiares Inquérito Demográfico de Saúde Instituto de Educação à Distância e Aberta Instituto de Formação de Professores Inquérito da Força de Trabalho Inspecção Geral de Finanças Instituto de Línguas Instituto de Magistério Primário Instituto Nacional de Audiovisual e de Cinema Instituto Nacional de Desenvolvimento da Educação Instituto Nacional de Estatística Instituto Nacional de Ensino à Distância. Inquérito aos Orçamentos Familiares Ministério da Administração Estatal Mecanismo Africano de Revisão de Pares Ministério da Educação e Cultura Ministério das Finanças Multiple Indicator Cluster Survey Ministério da Educação Ministério da Saúde Ministério da Mulher e da Acção Social Ministério da Planificação e Desenvolvimento. New Partnership for African Development Objectivos do Desenvolvimento do Milénio Orçamento do Estado Órgãos Locais de Estado Organização Nacional do Professores Parceiros de Apoio Programático Plano de Acção para a Redução da Pobreza Absoluta Plano de Desenvolvimento Distrital Plano Estratégico para o Sector da Educação Plano Estratégico para a Educação e Cultura Plano Económico e Social Plano Económico e Social e Orçamento Do Distrito Procuradoria Geral da República Pacto Internacional de Direitos Económicos, Sociais e Culturais Programa Integrado da Reforma da Educação Profissional Programa as Nações Unidas para o Desenvolvimento Programa Quinquenal do Governo Quadro de Avaliação de Desempenho x Moçambique: A Prestação Efectiva de Serviços Públicos no Sector da Educação

11 QIBB RAR RENAMO REO SACMEQ SARDC SIDA SIGEDAP SISTAFE SNE SNGRH UEM UNDP ZIP Questionários dos Indicadores de Bem-Estar Reunião Anual de Revisão Resistência Nacional Moçambicana Relatório de Execução Orçamental Southern and Eastern Africa Consortium for Monitoring of Education Quality Southern Africa Research and Documentation Centre Swedish International Development Cooperation Agency Sistema de Gestão do Desempenho na Administração Pública Sistema de Administração Financeira do Estado Sistema Nacional de Educação Sistema Nacional de Gestão dos Recursos Humanos do Estado Universidade Eduardo Mondlane United Nations Development Programme Zona de Influência Pedagógica Moçambique: A Prestação Efectiva de Serviços Públicos no Sector da Educação xi

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13 Prefácio Este estudo completa a série de três estudos sobre a governação em Moçambique, coordenada pelo projecto AfriMAP (Africa Governance Monitoring and Advocacy Project). Os outros dois estudos centraram-se no sector da justiça e estado de direito (publicado em 2006) e na democracia e participação política (publicado em 2009). Assim como nos trabalhos anteriores, este relatório é o resultado do esforço conjunto do AfriMAP, da Open Society Initiative for Southern Africa (OSISA) e de seus parceiros locais. O objectivo do projecto é monitorar em que medida os países africanos e seus parceiros de desenvolvimento garantem o cumprimento das normas e padrões africanos e internacionais na área dos direitos humanos, estado de direito e prestação de contas. O presente estudo enquadra-se neste esforço de monitoria na medida em que busca identificar problemas de governação na prestação de serviços públicos no sector da educação. O principal objectivo do trabalho não é avaliar o desempenho das escolas em Moçambique em termos de resultados, mas sim os processos e estruturas, os mecanismos de governação estabelecidos para se atingir o objectivo de uma educação de qualidade para todos. O AfriMAP foi estabelecido num contexto em que os estados africanos comprometeram-se com a boa governação, na sequência da substituição da Organização da Unidade Africana pela União Africana em A Constituição da União Africana possui disposições sobre a promoção dos direitos humanos, princípios e instituições democráticas, participação dos cidadãos e boa governação. Outros documentos com compromissos mais específicos foram adoptados posteriormente, incluindo a Nova Parceria para o Desenvolvimento de África (NEPAD); o Mecanismo Africano de Revisão de Pares (MARP); a Convenção contra Corrupção da União Africana; o Protocolo à Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos sobre os direitos das mulheres em África; e a Carta Africana sobre Democracia, Eleições e Governação. O objectivo dos relatórios da AfriMAP é facilitar e promover o respeito por estes compromissos, sublinhando assuntos importantes e facilitando a formação de uma plataforma que organizações da sociedade civil possam usar nas suas actividades de monitoria. Os relatórios do AfriMAP não são produzidos para formar um catálogo de opiniões, e evitam, o máximo possível, o uso dos modelos quantitativos actualmente em voga na área de estudos de governação. Alternativamente, os relatórios buscam oferecer a discussão mais completa possível, incluindo tanto pontos fortes e fracos, da boa governação, respeito pelos Moçambique: A Prestação Efectiva de Serviços Públicos no Sector da Educação xiii

14 direitos humanos e participação política, e destacar áreas que precisam de melhorias. Por meio de consultas a especialistas, o AfriMAP desenvolveu um formato para a produção de relatórios em três áreas temáticas: o sector da justiça e o estado de direito; democracia e participação política; e a prestação efectiva de serviços públicos. Os questionários desenvolvidos, incluindo o questionário sobre a prestação efectiva de serviços públicos que orientou a redação do presente relatório, estão disponíveis no website do AfriMAP, O presente relatório vai para além de simplesmente mencionar o cumprimento dos padrões mínimos relacionados aos direitos económicos e sociais na área da educação. Ele destaca as reformas realizadas no sector, discute as suas dificuldades e sugere recomendações para aprimorar a prestação dos serviços públicos de educação. Esperamos que o relatório possa contribuir para os esforços para o aprimoramento do sector da educação em Moçambique. x i v Moçambique: A Prestação Efectiva de Serviços Públicos no Sector da Educação

15 Agradecimentos O trabalho de pesquisa e redacção deste relatório não teria sido possível sem a valiosa contribuição de várias pessoas e organizações. O relatório foi produzido sob a liderança do Instituto de Pesquisa José Negrão Cruzeiro do Sul, uma organização da sociedade civil moçambicana, a cuja equipa agradecemos a dedicação e empenho demonstrados ao longo do projecto. A pesquisa e redacção foram conduzidas por uma equipa de pesquisadores, nomeadamente: Luís Felipe Pereira, Joaquim Matavele, Alberto Cupane, André Cristiano José e Jonas Pohlmann Bronwen Manby, consultora-sénior do AfriMAP, para além do minucioso trabalho de revisão do documento, colaborou também na elaboração do relatório. Ozias Tungwarara, director-executivo do AfriMAP, prestou assistência e conselhos durante todo o processo. Tomé Eduardo foi responsável pela redacção do documento de discussão, e também fez a leitura crítica do relatório. Paul Fauvet traduziu o relatório do português ao inglês. Agradecemos, finalmente, às várias pessoas nos diversos órgãos do Governo, especialmente no sector da educação, ao nível central, provincial e local, nas organizações da sociedade civil, nas instituições de pesquisa e junto aos parceiros de cooperação que abdicaram do seu tempo para serem entrevistados ou para participarem em seminários e discussões organizadas em Maputo, Beira e Nampula. Uma agradecimento sincero é apresentado a todas as pessoas envolvidas neste processo. Moçambique: A Prestação Efectiva de Serviços Públicos no Sector da Educação xv

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17 Parte I Prestação Efectiva de Serviços Públicos no Sector da Educação Documento para discussão

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19 Introdução Aquando da independência, Moçambique herdou de Portugal um sistema educativo precário, caracterizado por altos níveis de analfabetismo, uma rede escolar reduzida, falta de funcionários e professores qualificados e desigualdades regionais e de género marcantes. O sistema legado a Moçambique não fora desenvolvido para atender à maioria. Assim, a expansão do acesso aos serviços educativos tornou-se numa das principais prioridades do país após a independência. O comprometimento nacional para com a educação nunca saiu da agenda de desenvolvimento de Moçambique, nem mesmo durante o conflito armado e os períodos de dificuldade económica. Este comprometimento do país relativamente à educação fez com que Moçambique atingisse resultados importantes. As taxas de escolarização aumentaram substancialmente, e as taxas de analfabetismo reduziram de cerca de 90% no início dos anos 1970 para 48% em A taxa líquida de escolarização no ensino primário está agora em 81,3% (2008), e a proporção de raparigas no ensino primário aumentou de 33% após a independência para 47,2% em Contudo, não obstante todos estes sucesssos, Moçambique ainda luta para atingir a meta de, em 2015, oferecer o ensino primário para todas as crianças em idade escolar. Os gastos do sector da educação estão a subir mas os recursos alocados à educação não estão a aumentar na mesma proporção; a dedicação dos professores é baixa; muitas crianças, especialmente as raparigas, não completam o ensino primário; as escolas continuam a ter falta de material; os professores e gestores dos serviços de educação demonstram grandes fraquezas e os rácios entre o número de alunos e professores são bastante altos. Em suma, a qualidade dos serviços de educação está a cair e as reformas introduzidas no sector não têm tido um impacto significativo. Este documento discute algumas das razões para os actuais problemas do sector da educação, com ênfase na sua governação. Discute o cumprimento das normas nacionais e internacionais, os sistemas de informação, a produção e implementação de políticas públicas, o financiamento do sector da educação, políticas e práticas de recursos humanos, assim como o controlo externo. O documento começa com uma breve discussão sobre a história da governação do sector. A discussão nota que os actuais desafios são o resultado de práticas e instituições herdadas, da falta de recursos humanos e financeiros, assim como das escolhas políticas feitas para lidar com estes desafios. O funcionamento das instituições é outra área de preocupação, não obstante o bom quadro regulatório. O documento avança que é possível reverter alguns dos aspectos disfuncionais do sector da educação por meio da implementação de mudanças institucionais, políticas e de gestão. Documento para discussão 3

20 O presente documento oferece uma síntese de algumas opções políticas. Em cada tópico discutido, o documento possui uma rápida introdução da situação, dos principais actores envolvidos e dos assuntos relevantes. Com o relatório, espera-se enriquecer ainda mais o debate no país. Em linhas gerais, o relatório destaca que as prioridades no sentido de melhorar a governação do sector, e, consequentemente, os seus resultados no longo-prazo, são: a) um maior esforço para mobilizar recursos e alocá-los de acordo com as necessidades críticas do sector, especialmente para enfrentar as desigualdades regionais; b) acções de combate à corrupção, inclusive com o reforço dos órgãos de controlo do Ministério da Educação; c) acções para aprimorar a gestão dos recursos humanos, incluindo a formação de professores; d) os processos para o desenvolvimento de políticas públicas e planos estratégicos para o sector, assim como para a produção do seu orçamento, devem incluir e envolver as organizações da sociedade civil, as quais podem oferecer importantes sugestões e informações; e) os procedimentos para a nomeação dos directores das escola devem ser mais transparentes e competitivos, e os conselhos de escola devem ter um papel em ratificar as nomeações; f) o Ministério deve garantir que todas as escolas primários tenham conselhos de escola e monitorar adequadamente o processo com a criação, em todos os níveis da administração, de capacidade institucional para apoiar e seguir a implementação desta inovação; g) informações mais detalhadas e completas sobre o sector da educação devem ser disponibilizadas ao público. 1. A evolução das políticas de educação As actuais políticas educativas, seus sucessos e desafios, têm uma longa história. As suas raízes estão na experiência educativa da colónia e nas escolhas políticas da Frelimo desde a luta de libertação, nos anos 1960 e 1970, passando pelo período revolucionário e socialista pósindependência, nos meados dos 1970s e anos 1980, até a actual fase de liberalismo económico e pluralismo político. O governo colonial não tinha interesse real na educação dos povos africanos. Não obstante os ventos de mudança que varreram a África nos anos 1960 e forçaram as autoridades coloniais a tornarem seus sistemas educativos mais acessíveis, em 1970, cinco anos antes da independência, as taxas de analfabetismo em Moçambique eram de cerca de 90%. Após a independência, o governo socialista da Frelimo promoveu de forma activa a expansão do acesso à educação e nacionalizou todos os serviços educativos. O governo passou a ser o único provedor de serviços no sector da educação. A primeira constituição do Moçambique independente fez da educação não somente um direito, mas também um imperativo para o desenvolvimento nacional. Moçambique ratificou tratados internacionais e regionais (África e África Austral) e os domesticou no seu quadro regulatório nacional. Surpreendentemente, contudo, tendo em vista a sua orientação socialista, até muito recentemente o governo não tinha tomado qualquer medida para a ratificação do Pacto Internacional de Direitos Económicos, Sociais e Culturais, o principal documento relativo ao direito à educação no direito internacional. Em Fevereiro de 2011, entretanto, o Conselho de Ministros aprovou uma resolução solicitando ao 4 PARTE I Moçambique: A Prestação Efectiva de Serviços Públicos no Sector da Educação

21 Parlamento a ratificação do Pacto. Se o Parlamento aprovar a resolução e ratificar o Pacto, será um importante passo para a protecção dos direitos humanos no país. Os primeiros anos após a independência foram marcados por um grande entusiasmo, voluntarismo e altos níveis de apoio popular às iniciativas do governo. O número de crianças a frequentar as escolas aumentou de em 1975 para 2,3 milhões em 1980; a proporção de raparigas dentre estas crianças também subiu de 33% em 1975 para cerca de 43% em Em 1983, a Lei do Sistema Nacional de Educação (SNE) foi aprovada com o objectivo de consolidar os ganhos obtidos até então. Contudo, as ambições do governo foram prejudicadas pelo início do conflito armado nos anos 1980 e, mais tarde, pelas dificuldades trazidas pelas políticas de reajuste estrutural introduzidas na segunda metade da década. De 1981 a 1987, a guerra destruiu ou forçou o encerramento de cerca de 50% das escolas primárias do país, 13% das suas escolas secundárias e cerca de 23% de suas instituições de formação. Em 1987, a introdução de um programa de reajustamento estrutural, defendido pelo Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial, fez com que o governo tivesse de implementar cortes drásticos nos gastos públicos nos sectores sociais. Contudo, as políticas governamentais continuaram a considerar a educação como uma prioridade e o país tornou-se signatário dos acordos internacionais sobre a educação para todos (Education for All, EfA), tornando-se efectivamente parte do emergente consenso internacional em torno de políticas sectoriais de desenvolvimento. Em 1990, uma nova constituição foi adoptada, consagrando um sistema político multipartidário, e, com o fim do conflito armado em 1992, as políticas governamentais mudaram para acomodar o novo contexto nacional. Na constituição de 1990 (e na sua versão revista de 2004), a educação é ainda vista como um direito e um dever de todos os cidadãos, embora ela não seja mais obrigatória e livre. É responsabilidade do Estado promover o acesso à educação e a igualdade de oportunidades educativas (art. 92). A constituição torna o regime de direitos fundamentais obrigatório a todas as entidades, tanto privadas quanto públicas, e garante o acesso a vários mecanismos legais e institucionais necessários para garantir que violações dos direitos tenham um remédio legal, incluindo o acesso aos tribunais e a assistência jurídica. A revisão constitucional de 2004 introduziu uma importante regra, segundo a qual os preceitos constitucionais relativos aos direitos fundamentais são interpretados de harmonia com a Declaração Universal dos Direitos do Homem e a Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos (art. 43) ambos os quais garantem o direito à educação. A nova Lei de Educação Nacional de 1992, que substituiu a legislação de 1983, também afirma que a educação é um direito e um dever de todos os cidadãos, e, ao mesmo tempo que reafirma o papel central do governo, abre o sector para actores não-estatais. A lei é complementada pela Lei sobre o Ensino Superior (2009), que expressamente destaca a necessidade de o ensino superior tornar-se compatível com os direitos humanos. O ensino privado também deve ser governado pela lei e regulado pelo governo. Nos anos 1990, vários documentos preparatórios conduziram à adopção do primeiro Plano Estratégico da Educação (PEE-I), que foi publicado em 1997 e implementado entre 1999 e O período de implementação do PEE-I testemunhou a construção de novas instalações nas escolas primárias e secundárias e a reabilitação daquelas instalações que tinham sido destruídas pelo conflito armado. Também durante este período, houve um aumento no número de professores, Documento para discussão 5

22 uma melhor distribuição da rede escolar, um aumento no número de raparigas frequentando a escola e uma redução nos níveis de analfabetismo (para 48% em 2008). Em 2006, o segundo Plano Estratégico da Educação e Cultura (PEEC-II) para o período /11 foi publicado. Os objectivos do PEEC-II estavam ligados ao Plano de Acção para a Redução da Pobreza Absoluta (PARPA-II), ao Programa Quinquenal do Governo (PQG) e aos orçamentos governamentais, assim como aos compromissos internacionais de Moçambique para com a educação para todos e para com os objectivos de desenvolvimento do milénio (ODM). O PEEC-II deixa claro que a principal prioridade do governo é a educação básica, e que o governo está comprometido em garantir a educação primária universal para todos em 2015, a meta dos ODM. O PEEC-II é complementado por outras estratégias sectoriais acerca do ensino secundário, formação de professores, educação vocacional, género no sector público e ensino superior. Estas iniciativas no âmbito institucional, regulatório e estratégico têm, sem dúvida, contribuído para o aumento signicativo nas taxas brutas de escolarização e nas melhorias em termos de paridade de género, especialmente nos níveis primários. Houve também progressos na redução das diferenças de género na escolarização na educação primária. Contudo, apesar destes sucessos, há ainda grandes desigualdades no país, diferenças de género continuam na maioria dos indicadores e os programas de reabilitação de infra-estruturas escolares têm observado grandes atrasos. Portanto, há ainda muito a fazer para que se atinjam taxas universais de conclusão do ensino primário, igualdade de género e igualdade no acesso à educação para todos. Questões que precisam de ser enfrentadas pelo governo incluem: a falta de salas de aula (um número significativo de crianças de 6 anos ainda não tem acesso à escola); altas taxas de abandono e reprovação; altos rácios de alunos por professor; desigualdades regionais em termos da prestação de serviços de educação, taxas de conclusão e frequência. A qualidade da educação é uma das principais preocupações em relação ao sistema, uma vez que as várias reformas introduzidas até o momento não parecem ter obtido um efeito positivo significativo. O governo continua a lutar para encontrar soluções para estes problemas. Entretanto, existem dúvidas sobre as razões pelas quais as políticas e reformas adoptadas continuam a conduzir a resultados insatisfatórios. Por que o acesso aos níveis superiores do ensino primário, secundário e superior continua a ser restritivo? Por que as disparidades de género e regionais, as altas taxas de desistência continuam a existir no sistema? As informações sobre a melhoria no acesso à educação não demonstram como os pobres e outros grupos vulneráveis estão posicionados no sistema. Serão as actuais políticas capazes de lidar com as causas dos problemas da educação em Moçambique? Em relação à qualidade da educação, os altos rácios de estudantes em relação aos professores são certamente parte do problema, e discussões sobre a qualidade e o tipo de formação de professores continuam a ter lugar. Há ainda poucas horas de contacto entre professores e alunos, e os problemas da carência de aulas e de métodos de ensino inadequados continuam. Por que tantos estudantes, especialmente raparigas, não conseguem completar o ensino primário de sete anos? O presente documento pretende discutir alguns dos aspectos da governação do sistema educativo moçambicano que precisam de ser reforçados para que o governo enfrente com sucesso estes desafios. 6 PARTE I Moçambique: A Prestação Efectiva de Serviços Públicos no Sector da Educação

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