UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA CENTRO DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS MESTRADO EM AGROECOSSISTEMAS

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1 UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA CENTRO DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS MESTRADO EM AGROECOSSISTEMAS PRODUÇÃO INTENSIVA DE LEITE À BASE DE PASTO: PROCESSAMENTO, TRANSFORMAÇÃO E COMERCIALIZAÇÃO COMO ALTERNATIVA PARA AGRICULTURA FAMILIAR DE PEQUENO PORTE Valmir Dartora Florianópolis, SC BRASIL 2002

2 2 PRODUÇÃO INTENSIVA DE LEITE À BASE DE PASTO: PROCESSAMENTO, TRANSFORMAÇÃO E COMERCIALIZAÇÃO COMO ALTERNATIVA PARA AGRICULTURA FAMILIAR DE PEQUENO PORTE Dissertação apresentada para a obtenção do Grau de Mestre em Agroecossistemas, do Centro de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Santa Catarina Autor: Valmir Dartora Orientador: Prof. Mário Luiz Vincenzi Co-orientador: Luiz Carlos Pinheiro Machado Filho Florianópolis (fevereiro/2002) Engenheiro Agrônomo

3 3 UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA CENTRO DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM AGROECOSSISTEMAS MESTRADO FLORIANÓPOLIS, SC - BRASIL DISSERTAÇÃO submetida por Valmir Dartora como um dos requisitos para a obtenção do Grau de 7. MESTRE EM AGROECOSSISTEMAS BANCA EXAMINADORA: Prof. Dr. Luiz Carlos Pinheiro Machado (UFSC) Presidente Prof. Dr. José A. Ribas Ribeiro (UFSC) Membro Prof. Dr. Luiz C. P. Machado Fº (UFSC) Membro Engº Agrº Dr. Francisco Roberto Caporal (EMATER/RS) Membro Aprovada em (21/02/2002) Prof. Mário Luiz Vincenzi Orientador Prof. Dr. Luiz Renato D Agostini Coordenador

4 4 AGRADECIMENTOS Muitas pessoas e entidades de uma forma ou de outra contribuíram para a realização deste trabalho. A elas expresso meu agradecimento, embora correndo o risco de esquecimento, quero registrar aquelas que foram fundamentais à consecução da dissertação: a EMATER/RS, pela oportunidade de realizar este curso e pelo apoio institucional e financeiro; o Prof. Mário Luiz Vincenzi pela orientação competente, apoio, amizade e confiança; os colegas, professores e servidores do curso de Pós-Graduação em Agroecossistemas, em especial aos Professores, Maria Ignez Silveira Paulilo, Wilson Schmidt, Luiz Carlos Pinheiro Machado, Luiz Carlos Pinheiro Machado Filho, Ademir Antônio Cazella, Paul Richard Miller e Maria José Hotzel, pelas sugestões e colaborações; os colegas da EMATER/RS dos Escritórios Regionais de Erechim e Passo Fundo, Escritórios Municipais de Erechim e Gaurama pela colaboração e companheirismo, em especial ao colega e amigo Gilmar Antônio Meneguetti, pelas sugestões; os departamentos técnicos das cooperativas COTREL e COPERAL, da empresa CEDRENSE e da Secretaria Municipal de Agricultura de Erechim, pelas informações; aos servidores da biblioteca da EPAGRI e do Instituto CEPA/SC, pelo atendimento e colaboração; aos técnicos do Instituto CEPA/SC, especialmente ao Francisco Carlos Heiden e ao Tabajara Marcondes, pelas informações; ao acadêmico de Agronomia da UFSC Marcos Alberto Lana pela colaboração; à todos os agricultores, os responsáveis pelos estabelecimentos comerciais e os consumidores que colaboraram com o trabalho, concedendo as entrevista, em especial à família de Olintho Ficcagana; aos meus familiares, em especial a minha esposa Rosa Maria e meus filhos Rafael e Letícia pela compreensão, apoio, carinho e amor dedicados em todos os momentos. iii

5 5 SUMÁRIO LISTA DE TABELAS...vii LISTA DE FIGURAS...xi LISTA DE ANEXOS...xii LISTA DE ABREVIATURAS E SÍMBOLOS...xiii RESUMO...xv ABSTRACT...xvi INTRODUÇÃO...01 CAPÍTULO I 1. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA Produção mundial e comércio internacional de leite Importações e o setor leiteiro nacional Produção leiteira nacional e sua importância Pecuária leiteira nas regiões brasileiras Pecuária leiteira nos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul Produção de leite e o debate sobre suas tendências Agricultura e o ambiente Possibilidades para as pequenas unidades de produção leiteira Produção de leite à base de pasto Área de pastagem e escolha da forrageira Animais para a produção de leite à base de pasto Manejo das pastagens Beneficiamento/transformação e comercialização de leite e derivados Área de estudo Evolução histórica da agricultura nas microrregiões de Erechim no RS e Chapecó em SC Microrregião de Erechim Microrregião de Chapecó...64 iv

6 6 CAPÍTULO II 2. METODOLOGIA Descrição da proposta de produção de leite do DZDR Delimitação do estudo Viagens de estudo e visitas técnicas Entrevista semi-estruturada Avaliação subjetiva de fatores de produção e sociais...74 CAPÍTULO III 3. PROPOSTA DE PRODUÇÃO INTENSIVA DE LEITE À BASE DE PASTO Histórico da família Estrutura de produção Alimentação Campo naturalizado Pastagens Perenes de verão Perenes de inverno Anuais de inverno Outros alimentos Manejo das pastagens e dos animais Criação das terneiras Raça e seleção Sanidade Tuberculose e brucelose Mamite Verminoses Ectoparasitas Processamento, transformação e comercialização de leite e queijo Administração...94 v

7 7 CAPÍTULO IV 4. RESULTADOS E DISCUSSÃO Classificação dos sistemas de produção de leite Métodos de pastoreio Indicadores produtivos dos sistemas de produção de leite Resultados econômicos dos sistemas de produção de leite Atividades desenvolvidas pelos produtores nas propriedade rurais estudadas Aspectos ambientais Percepção dos agricultores sobre a atividade leiteira e avaliação subjetiva Participação dos agricultores em cooperativas, sindicatos, associações e/ou grupos comunitários Produtos lácteos, produzidos e comercializados por agricultores em pequenas unidades de produção Análise comparativa das Microrregiões de estudo CONSIDERAÇÕES FINAIS E CONCLUSÕES REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANEXOS Vi

8 8 LISTA DE TABELAS Tabela 1 Produção total de leite de alguns países/blocos selecionados 1997 a 1999 (1.000 toneladas métricas)...04 Tabela 2 Leite e derivados Quantidades das importações brasileiras por bloco, 1992 a 2000, em toneladas...08 Tabela 3 Produção brasileira total, taxa de crescimento e consumo per capita de leite, no período de 1980 a Tabela 4 Produção brasileira total de leite, produção inspecionada e informal, e crescimento do leite informal no período de 1980 a Tabela 5 Evolução e participação das Regiões brasileiras na produção de leite, no período de 1985 a Tabela 6 Participação da produção de leite no Brasil pelos 10 maiores estados produtores, ano de 1985 e Tabela 7 Evolução e participação das mesorregiões do Estado de Santa Catarina na produção de leite, no período de 1985 a Tabela 8 Evolução e participação relativa das meso e microrregiões do Estado do Rio Grande do Sul na produção de leite, no período de 1985 a Tabela 9 Fusões e aquisições de empresas de laticínios no Brasil, nos últimos anos...21 Tabela 10 Número de produtores e quantidade média diária de leite recebida por produtor nas 12 maiores empresas de laticínios do País...22 Tabela 11 Cenários para que o RS tenha a produção de 1996 de 1,88 bilhões de litros de leite por ano...23 Tabela 12 Impacto da granelização da coleta do leite na Cooperativa Central Agropecuária do Sudoeste Ltda...26 Tabela 13 Idade da pastagem e a influência do sistema radicular sobre as características físicas do solo...34 Tabela 14 Massa de raízes de uma pastagem permanente em função da utilização...35 Tabela 15 Produção total de forragem do campo nativo (CN), do azevém espontâneo (AZ) e das leguminosas trevo branco e cornichão (TB e C), média de três repetições...37 vii

9 9 Tabela 16 Disponibilidade total de forragem kg de MS/ha em pastagem nativa submetida a introdução de azevém (AZ), aveia-preta (AP), trevo vermelho (TV), trevo branco (TB) e testemunha (T), média de quatro repetições...38 Tabela 17 Disponibilidade PB kg/ha em pastagem nativa submetida a introdução de azevém (AZ), aveia-preta (AP), trevo vermelho (TV), trevo branco (TB) e testemunha (T), média de quatro repetições...39 Tabela 18 Valores médios em percentagem da PB, da digestibilidade in vitro da matéria orgânica (DIVMO) e dos nutrientes digestíveis totais (NDT) de pastagens de campo nativo e campo nativo melhorado com leguminosas, nas estações do ano...40 Tabela 19 Quantidade de nitrogênio fixado por diferentes espécies de leguminosas...41 Tabela 20 Custos relativos de algumas pastagens usadas no sistema de produção de leite da EPAGRI / Lages...42 Tabela 21 Rendimento de milho e soja kg / ha, após área pastoreada(past.) e não pastoreada (NÃO PAST.) de aveia + ervilhaca (AV + ER), aveia (AV) e aveia + azevém (AV + AZ) Tabela 22 Modificações nas características físicas e químicas do solo sob pastoreio durante 15 anos...53 Tabela 23 Número de estabelecimentos, área e percentuais correspondentes a cada estrato de área da microrregião de Erechim...61 Tabela 24 Número de estabelecimentos, área e percentuais correspondentes a cada estrato de área do município de Gaurama...62 Tabela 25 Número de produtores, quantidade de leite recebida e percentuais correspondentes a cada estrato de recepção...63 Tabela 26 Número de estabelecimentos, área e percentuais correspondentes a cada estrato de área da microrregião de Chapecó...66 Tabela 27 Número de estabelecimentos, área e percentuais correspondentes a cada estrato de área do município de Serra Alta...67 Tabela 28 Classificação dos sistemas de produção de leite obtidos nos levantamentos de campo em abril e maio de Tabela 29 Quantidades diárias estimadas, em kg de MS dos alimentos volumosos e dos alimentos concentrados fornecidos por UA, em cada sistema de produção...97 viii

10 10 Tabela 30 Quantidades diárias dos alimentos volumosos e dos alimentos concentrados disponíveis e/ou fornecidos para cada UA estimadas em quilos de MS...99 Tabela 31 Áreas dos potreiros e das pastagens perenes e anuais de verão e de inverno utilizadas nos sistemas de produção de leite Tabela 32 Áreas de pastagens e métodos de pastoreio utilizados em cada sistema de produção Tabela 33 Indicadores produtivos dos sistemas de produção Tabela 34 Valores monetários mensais dos custos de produção do leite, queijo e pasteurização de cada sistema de produção Tabela 35 Valores monetários mensais da receita bruta, dos custos totais, custo total, por litro de leite e a renda líquida de cada sistema de produção Tabela 36 Valores monetários mensais da mão-de-obra e administração das fases realizadas pelos produtores, relacionadas aos sistemas de produção desenvolvidos nas propriedades Tabela 37 Valores monetários mensais da receita líquida, mão-de-obra e administração, e remuneração do capital fixo das fases que os produtores realizam, relacionadas aos sistemas de produção desenvolvidos nas propriedades Tabela 38 Valores monetários mensais da renda líquida mais a mão-de-obra, administração e remuneração do capital fixo, das fases que os agricultores realizam, a quantidade de leite produzida por mês e os resultados econômicos obtidos, por litro de leite, relacionado aos sistemas de produção desenvolvidos nas propriedades Tabela 39 Valores monetários mensais da receita bruta, dos custos de produção de leite e a renda líquida de cada sistema de produção Tabela 40 Valores monetários mensais da receita líquida da atividade leiteira, total mão-de-obra, administração e remuneração do capital fixo do sistema produtivo, a quantidade de leite produzida por mês e os resultados econômicos obtidos, por litro de leite, relacionados aos sistemas de produção desenvolvidos nas propriedades Tabela 41 Resultados econômicos, por litro de leite, obtidos da renda líquida e dos componentes mão-de-obra, administração e remuneração do capital fixo e o valor agregado, por litro de leite, resultante das fases que os agricultores realizam fora do processo produtivo, relacionados aos sistemas de produção desenvolvidos nas propriedades ix

11 11 Tabela 42 Dos custos totais quanto, em percentagem corresponde a alimentação, a mão-de-obra, os custos variáveis e os custos fixos, em cada sistema e produção Tabela 43 Fontes de renda dos produtores, valor da receita bruta anual de cada uma e percentagem correspondente à atividade leiteira Tabela 44 Uso atual das propriedades e cobertura vegetal existente Tabela 45 Avaliação subjetiva de fatores de produção e sociais das famílias pesquisadas x

12 12 LISTA DE FIGURAS Figura 1 Mapa da Região Sul do Brasil, com destaque para as microrregiões de Erechim no RS e Chapecó em SC...68 Figura 2 Família de Olintho Ficcagana (direita para esquerda: Eliane, Lourdes, Rodrigo, Ana e Olintho) e Valmir Dartora. Serra Alta/SC...79 Figura 3 Área de pastagem naturalizada (potreiro) manejada através do PRV, na propriedade da família de Olintho Ficcagana...81 Figura 4 Área de capim elefante com ervilhaca, na propriedade da família de Olintho Ficcagana...82 Figura 5 Área de pastagem consorciação de azevém x trevo branco x trevo vermelho, com animais em pastoreio, na propriedade da família de Olintho Ficcagana...84 Figura 6 Bebedouro móvel utilizado na propriedade da família de Liseu Meier localizada no município de Dionísio Cerqueira/SC...87 Figura 7 Vaca-ama amamentando a(o) terneira(o) na propriedade da família de Olintho Ficcagana...89 Figura 8 Sala de envase e pasteurização do leite na propriedade da família de Olintho Ficcagana...93 Figura 9 Queijaria da família de Alcides Mariga localizada no município de Erechim/RS Figura 10 Pequena queijaria da família Piovesan Saltinho/SC xi

13 13 LISTA DE ANEXOS Anexo 1 Roteiro entrevista agricultor Anexo 2 Roteiro entrevista consumidores Anexo 3 Roteiro entrevista pequenos mercados Anexo 4 Regulamento técnico de identidade e qualidade de leite cru refrigerado e regulamento técnico da coleta de leite cru refrigerado e seu transporte a granel Obs: Acompanha a dissertação memória de cálculo anexo nº 5 xii

14 14 LISTA DE ABREVIATURAS, SIGLAS, SÍMBOLOS E VALORES ABPLB ACARESC AGRECO APACO CCGL CCL CCS CEDRENSE CENTROLEITE CEPA/SC CEPAGRO CEPAGRO CIMMYT CNA CNPGL CO2 COCEL COPERAL COTREL COTRIJUI CTC DEIP DIVMO DZDR EMATER/RS EMBRAPA Associação Brasileira dos Produtores de Leite B Associação de Crédito e Assistência Rural de Santa Catarina Associação de Agricultores Ecológicos das Encostas da Serra Geral Associação dos Pequenos Agricultores do Oeste Catarinense Cooperativa Central Gaúcha de Leite Cooperativa Central de Laticínios do Estado de São Paulo Contagem de células somáticas Trentino Alimentos S/A Cooperativa Central de Laticínios de Goiás Instituto de Planejamento e Economia Agrícola de Santa Catarina Centro de Extensão e Pesquisa Agronômica da Universidade de Passo Fundo Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo Centro Internacional de Melhoramento de milho e Trigo Confederação Nacional da Agricultura Centro Nacional de Pesquisa de Gado de Leite Gás carbônico Cooperativa Central Alto Uruguai Ltda Cooperativa dos Produtores Rurais do Alto Uruguai Ltda Cooperativa Tritícola Erechim Ltda Cooperativa Regional Tritícola Serrana Ltda Capacidade de troca de cátions Dairy Export Incentive Program Digestibilidade in vitro da matéria orgânica Departamento de Zootecnia e Desenvolvimento Rural - UFSC Associação Riograndense de Empreendimentos de Assistência Técnica e Extensão Rural Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária xiii

15 15 EPAGRI EUA FAO ha IBGE IRRI kg kg/ha MS MS/ha NAFTA NDT ONG PB PIB PNQL PRONAF PRV SIM SUDCOOP UA UE UFRGS UFSC UPF Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina Estados Unidos da América Food and Agriculture Organization of the United Nations Hectare Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística International Rice Research Institute Quilograma Quilograma / hectare Massa seca Massa seca / hectare North American Free Trade Agreement Nutrientes digestíveis totais Organização Não Governamental Proteína bruta Produto Interno Bruto Programa Nacional de Qualidade do Leite Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar Pastoreio Racional Voisin Serviço de Inspeção Municipal Cooperativa Central Agropecuária do Sudoeste Ltda Unidade animal União Européia Universidade Federal do Rio Grande do Sul Universidade Federal de Santa Catarina Universidade de Passo Fundo Obs: R$ 1,00 = U$S 0,40 (data das pesquisas) xiv

16 16 RESUMO A análise dominante em relação à produção de leite é que para se ter qualidade e competitividade, há necessidade imperativa de produção especializada e aumento de escala. Essa estratégia de produção traz consigo a drástica redução no número de produtores e sérios problemas sociais, econômicos e ambientais. Nesse contexto, o presente trabalho buscou descrever e analisar sistemas de produção de leite à base de pasto, processamento, transformação e comercialização, resultante da ação de organizações de agricultores e de projetos de extensão realizados pelo Departamento de Zootecnia e Desenvolvimento Rural da Universidade Federal de Santa Catarina, no Estado de Santa Catarina e compará-los com três sistemas de produção de leite intensivo de uso de alimentos no cocho, semi-intensivo e pastoril desenvolvidos em 14 propriedades na microrregião de Erechim RS e as formas e as estratégias usadas pelos agricultores na comercialização do leite e dos produtos derivados. O trabalho busca verificar a possibilidade de adaptação dessas experiências para a microrregião de Erechim e como os agricultores se relacionam como o mercado. As variáveis estudadas foram: a) produtividade: produção de leite / vaca; b) econômicas: custo / litro de leite e receita do leite e/ou derivados; c) alimentação: espécies forrageiras, manejo pastagens, uso de silagem e alimentos concentrados; d) ambientais: sistemas de implantação de pastagem, uso de agrotóxicos e manejo dos dejetos; e) percepção dos agricultores sobre a atividade leiteira: expectativa da atividade, motivação para o associativismo e assistência técnica; e, f) comercialização: mercado e aceitação dos produtos das unidades de pequeno porte. Quanto aos resultados, a produção/vaca/dia ano, em média, nos sistemas pastoris foi de 10,8 litros, nos semi-intensivos de 7,6 litros e nos intensivos de 7,2 litros. O custo de produção R$/litro, em média, nos sistemas pastoris foi de 0,24, nos semi-intensivos de 0,33 e nos intensivos de 0,45. As fases desenvolvidas após o sistema produtivo foram decisivas nos resultados econômicos. A atividade leiteira é desenvolvida como uma estratégia de ingresso de uma renda mensal. A aceitação dos produtos coloniais é muito boa e existem espaços no mercado. As experiências desenvolvidas em Santa Catarina mostraram-se plenamente viáveis em termos sociais, econômicos e de sustentabilidade, servindo como referência para outros agricultores. A construção de um desenvolvimento que reduza o processo de exclusão exige unidade, organização e muita luta no sentido de conquistar e executar projetos que possam consolidar as pequenas unidades de produção e os pequenos e médios empreendimentos lácteos no País. xv

17 17 ABSTRACT Currently, the dominant thought is that quality in milk production can only be achieved through specialization and increases in production. This strategy has lead to a reduction in the number of producers and serious social, economical and environmental problems. Within this context, the present study described and analyzed the existing pasture based systems for milk production, processing, transformation and commercialization, resulting from the organization of farmers and extension programs carried out by the Department of Animal Science at the Federal University of Santa Catarina. It also compared the three systems - intensive use of feed at the through, semi/intensive and on pasture - used by 14 farms in the microregion of Erechim - RS, and the alternatives and strategies used by farmers in the commercialization of milk and milk products. This work verified whether such experience could be adapted to the micro-region as a whole and how farmers relate to the market. The variables studied were: a) productivity: milk production per cow, b) economics: cost/l of milk and income from milk and products, c) feeding: plant species, pasture management, use of silage and concentrates, d) environmental: pasture implantation systems, use of pesticides and waste management, e) perception of farmers of the milking activity, motivation for association and technical support, f) marketing: market and consumer opinion on products from small farms. The average yearly production/cow/day, for on pasture, semi-intensive and intensive was 10.8 liters, 7.6 liters and 7.2 liters, respectively. The cost of production for each of above systems was R$ 0.24/l, R$0.33/l and R$ 0.45/l respectively. The steps that followed the productive system were decisive for the economical results. Milk production is carried out as a strategy to achieve a monthly income. The acceptation of these products is good. The experiences developed on Santa Catarina State were viable in social, economical and sustainability terms, and are a reference for other farmers. To achieve development with a reduction of the exclusion process demands union, organization and hard work to conquer and carry out projects that consolidate the small production units and the small and medium sized milk enterprises in Brazil. xvi

18 18 INTRODUÇÃO O pensamento dominante em relação à produção de leite no Rio Grande do Sul, e válido para todo o Brasil, é que para se ter qualidade e competitividade, há necessidade imperativa de produção especializada e aumento de escala, o que traz consigo a drástica redução no número de produtores. Neste contexto, a maioria dos estudiosos do assunto afirma que a produção de leite nas pequenas unidades de produção diversificadas está com seus dias contados. Esta afirmação tem por base a racionalização das linhas de coleta, a busca da qualidade da matéria-prima, a redução dos custos de transação, a granelização e o frio, as economias de escala e a regularidade de oferta (JANK, et alli., 1999). A busca de desenvolvimento sustentável do Rio Grande do Sul, gera inquietude em relação aos inúmeros efeitos que esta política trará sobre a economia de muitas regiões, tendo em vista que a maioria dos municípios gaúchos possui economia apoiada em agropecuária onde predominam as pequenas unidades de produção, sendo a atividade leiteira um dos seus componentes-chave. No sentido de buscar alternativas para as pequenas unidades de produção de leite, muitas experiências têm procurado outros caminhos para a produção, processamento, transformação e comercialização do leite. Essas alternativas buscam otimizar a produção de leite com pastagens, através do uso de sistemas à base de pasto; da maximização do uso dos insumos disponíveis na propriedade; da criação de formas associativas de produção, processamento, transformação e comercialização, visando agregar valor aos produtos. Tudo isso, para consolidar a atividade leiteira de forma diversificada e promover um desenvolvimento que contemple não somente os aspectos econômicos, mas também os sociais, culturais, políticos e ambientais. Algumas destas interessantes experiências acontecem na região Oeste de Santa Catarina. Trata-se da proposta de produção de leite à base de pasto, processamento, transformação e comercialização, resultante da ação de organizações de agricultores e de projetos de extensão realizados pelo Departamento de Zootecnia e Desenvolvimento Rural (DZDR) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

19 19 Esse trabalho tem por objetivo contribuir para viabilizar econômica, ecológica e socialmente a produção leiteira da microrregião de Erechim - RS (classificação IBGE, 1998), através da descrição e análise de sistemas de produção, das formas e das estratégias usadas pelos agricultores na comercialização do leite e produtos derivados. Tendo os seguintes objetivos específicos: Verificar a possibilidade de adaptação, para a microrregião de Erechim, da proposta de produção de leite à base de pasto, processamento, transformação e comercialização, resultante da ação de organizações de agricultores e de projetos de extensão, realizados pelo DZDR da UFSC, no Estado de Santa Catarina, tendo como referência o projeto piloto implantado na propriedade da família de Olintho Ficcagna, localizada no município de Serra Alta SC, microrregião de Chapecó (classificação IBGE, 1998). Analisar o sistema de produção de leite à base de pasto, processamento, transformação e comercialização, realizado pela família de Olintho Ficcagana e compará-lo com três sistema de produção de leite intensivo de uso de alimentos no cocho, semi-intensivo e pastoril - localizados em propriedades na microrregião de Erechim. A hipótese de trabalho da qual se partiu é: A produção de leite à base de pasto, juntamente com o processamento, transformação e comercialização em pequenas estruturas são capazes de manter a atividade leiteira com rentabilidade nas pequenas unidades familiares de produção, nas atuais condições do mercado. A presente dissertação está estruturada com uma introdução, quatro capítulos de desenvolvimento e conclusão. No capítulo I, apresenta-se uma revisão bibliográfica que procura apontar os principais argumentos presentes no debate sobre as tendências da cadeia produtiva do leite no Brasil. Nesse sentido, fez-se um breve panorama da produção mundial, posição do Brasil nesta produção, alguns

20 20 aspectos sobre o comércio internacional e a interferência dos subsídios no mercado lácteo brasileiro. A importância da produção nacional, com ênfase para os estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, e como a política de especialização e concentração tem provocado a exclusão de muitos agricultores da atividade leiteira. Também descreve-se alguns aspectos sobre a relação homem-natureza na produção agrícola e a produção de leite à base de pasto, beneficiamento, transformação e comercialização, como possibilidades para as pequenas unidades de produção. Depois fez-se um resgate histórico da agricultura nas microrregiões de Erechim e Chapecó e descreve-se alguns aspectos sobre as características edafoclimáticas, o êxodo rural, a estrutura fundiária e a produção leiteira dessas microrregiões. No capítulo II, mostra-se a metodologia usada para desenvolver o trabalho. No capítulo III, descreve-se a proposta de produção de leite à base de pasto resultante da ação de organizações de agricultores e de projetos de extensão realizados pelo DZDR da UFSC, tendo-se por base o projeto piloto implantado na propriedade da família de Olintho Ficcagna. No capítulo IV, estão os resultados obtidos com a pesquisa e as discussões. Finalmente, fez-se, de forma sintetizada, considerações finais e conclusões do estudo.

21 21 CAPÍTULO I 1. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA 1.1 PRODUÇÃO MUNDIAL E COMÉRCIO INTERNACIONAL DE LEITE A produção mundial de leite, em 1999, foi de aproximadamente 570 milhões de toneladas, segundo dados da FAO (2000). Conforme observa-se na tabela 1, as maiores participações relativas na produção mundial são da União Européia, com 22%, e dos Estados Unidos, com 12% do total. A produção brasileira foi equivalente a 3,8% do total e alguns países tradicionais exportadores de leite, como Austrália, Nova Zelândia e Argentina, apresentaram uma participação relativa em torno de 2%. Um fato que chama a atenção é a estagnação da produção européia, que chegou a produzir, em média, 135 milhões de toneladas na década de 80 e atualmente está na faixa de 125 milhões de toneladas. Tabela 1 Produção total de leite de alguns países/blocos selecionados 1997 a 1999 (1.000 toneladas métricas) País/Bloco Anos % União Européia ,24 EUA ,93 Brasil ,82 Nova Zelândia ,90 Austrália ,83 Argentina ,86 México ,62 Uruguai ,25 Total Mundial Fonte: FAO(2000).

22 22 Na análise do comércio internacional de produtos lácteos, duas questões são fundamentais. A primeira refere-se ao protecionismo dado ao leite, na grande maioria dos países desenvolvidos, e a segunda trata da importância dos países europeus no comércio internacional. O leite é um dos produtos mais protegidos e subsidiados no mundo desenvolvido, através de todo tipo de restrição ao comércio, políticas de garantia de preços, intervenções governamentais no mercado interno e pesados subsídios à exportação. Na União Européia (UE), a política de segurança alimentar, adotada no pós-guerra, dá prioridade à preservação da renda dos produtores. Tal política gera contínuos excedentes de leite em pó e outros derivados, que são colocados no mercado mundial a preços de dumping 1 pelos tesouros desses países. Em menor proporção, situação similar ocorre no Nafta. Por exemplo, segundo JANK (1995), a UE, gasta cerca de US$ 5 bilhões/ano entre intervenções no mercado interno (estocagem, prêmios, uso na alimentação de bezerros, ajuda escolar...) e restituições às exportações, um subsídio concedido na forma de pagamentos que cobrem a diferença entre os altos preços internos garantidos pelo governo e o preço internacional na exportação. A UE exporta cerca de 350 mil toneladas de leite em pó com subsídios que vão de US$ 750/tonelada (desnatado) a US$ 1.300/tonelada (integral). Nos Estados Unidos (EUA) a lei agrícola de 1990 estabelece a garantia de um preço mínimo ao produtor equivalente a US$ 0,22 por litro, o Agricultural Adjustment Act define um rígido sistema de cotas de importação e o governo, através do Dairy Export Incentive Program (DEIP), concede subsídio à exportação, gastando cerca de US$ 135 milhões/ano. Em razão da política de auto-suficiência utilizada na maioria dos países, do total de 570 bilhões de litros de leite de vaca produzidos no mundo, de acordo com BERNARDES (2000), pouco mais de 5%, o equivalente a 28 ou 30 bilhões de litros, são comercializados internacionalmente. Desse total, as exportações da UE e dos EUA representam cerca de 50%, sendo respectivamente 38% e 5%. Outros países exportadores: Nova Zelândia participa com 31% e Austrália com 12%, (dados de 1998). Todavia, tal comércio representa 11% da produção de manteiga, 7% da produção de queijos, 26% da produção de leite em pó desnatado e 47% da produção de leite em pó integral. 1 Colocação de produtos no mercado internacional a preços inferiores ao custo de produção interno.

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