Trabalho apresentado no III Congresso Ibero-americano de Psicogerontologia, sendo de total responsabilidade de seu(s) autor(es).

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1 A TERCEIRA IDADE NA UNIVERSIDADE ABERTA: NAVEGANDO, BUSCANDO, APRENDENDO EM UM MAR SEM FIM Elizabeth Thomaz Pereira FATEC Prof. Waldomiro May Cruzeiro, São Paulo, Brasil Objetivos: identificar as percepções que alunos e professores adultos maduros e idosos têm sobre o aprender, nessa fase da vida, em duas universidades abertas no Estado de São Paulo e descrever e interpretar a natureza do fenômeno do aprender na terceira idade na universidade aberta. A finalidade era de coletar subsídios para serem utilizados na formação de professores para contextos instrucionais, que visam à formação de práticas voltadas à educação dessa faixa etária, proporcionando-lhes não só desenvolvimento integral, mas também oportunidades igualitárias e inclusão social. Fundamentação Teórica: o envelhecimento; a Gerontologia; a educação; as universidades abertas da terceira idade e a formação de professores (para a terceira idade). Metodologia: abordagem Hermenêutico-Fenomenológica. Resultados: Durante o processo de descrição e interpretação, contudo, a metodologia revelou que, diferentemente do enfoque inicial, a experiência de vida pesquisada, é a busca na terceira idade na universidade aberta. Temas que estruturam o fenômeno: bem-estar, ocupação, relações e aprendizagem. Palavras chaves: UnATI, Formação de Professores, Abordagem Hermenêutica- Fenomenológica. Este trabalho fundamentou-se na consideração de que o envelhecimento populacional no Brasil, a partir do final século XX tornou-se um assunto gerador de grandes mudanças no cotidiano das cidades e das famílias. Em Villani (2007:28), encontramos informação que evidencia um aumento das pessoas com mais de 60 anos, como sendo o segmento que mais cresce no Brasil. Atualmente, o percentual da população idosa é de 8%; em 2020, será de 13%. Os problemas da população que envelhece têm sido alvo de vários setores nas sociedades modernas. Porém, há pouca informação relativa à questão do envelhecimento populacional no que se refere às pesquisas nas universidades. Tais

2 pesquisas existem de forma isolada e estão restritas a algumas instituições. A PUC-SP tem uma perspectiva voltada para a Gerontologia Social, onde encontramos trabalhos como os de Kachar (2001), nos quais são discutidas as interações significativas da terceira idade e o computador. No âmbito da gerontologia básica, temos uma avaliação crítica da universidade aberta para a terceira idade encontrada nos trabalhos de Jordão Netto (2001). As questões próprias de uma pedagogia específica para os idosos têm, em Lima (2001), trabalhos na área da Gerontologia Educacional. Os projetos pedagógicos envolvendo o segmento etário dos idosos desenvolvem cada vez mais, novas vertentes. A relevância da minha investigação deve-se, principalmente, ao crescente interesse mundial pela longevidade e pela inserção social do idoso. É importante que se discuta a realidade desse indivíduo, para a promoção dos seus interesses e das necessidades específicas de um universo tão heterogêneo. Concordo com a afirmação de Stano (2001:156) para quem a velhice é uma etapa singular da vida humana, marcada por mudanças biológicas, sociais e econômicas. A própria Organização Mundial de Saúde tem parâmetros diferenciados para definir o início do processo de envelhecimento. A partir de 1982, essa instituição estabeleceu que nos países mais ricos, o processo tem início aos 65 anos e, nos países em desenvolvimento, ele se inicia aos 60 anos. Além das considerações da Organização, utilizo, neste estudo, o conceito de adultos maduros, de Bühler (1935: ), para designar os indivíduos entre os 45 e os 65 anos. O envelhecimento, mesmo sem corresponder a uma faixa etária padronizada, pode ter especificidades marcadas pela posição de classe social, pela cultura e pelas condições socioeconômicas e sanitárias individuais e/ou coletivas da região, produzindo um aumento da expectativa de vida das pessoas nas sociedades modernas. Segundo Goldman (2001:7), com o aumento da longevidade surgiram novos estereótipos: o

3 idoso com aparência-comportamento jovem, o idoso produtivo, o idoso que freqüenta grupos de cultura e lazer. Não se usa mais o termo velho, que foi substituído por idoso. Para Peixoto (1998:81), idoso simboliza, sobretudo as pessoas mais velhas, os velhos respeitados, enquanto terceira idade designa principalmente os jovens velhos, os aposentados dinâmicos. O termo terceira idade também é usado para descrever uma nova etapa da vida. Segundo Neri e Freire (2000:13), a expressão terceira idade foi cunhada na França, na década de 1960, para designar a idade em que a pessoa se aposentava. Considerando que a aposentadoria ocorria por volta dos 45 anos, naquele contexto, surgiu a necessidade de se garantir atividades para um grande número de pessoas com boa saúde e com perspectiva de viver mais tempo que as gerações anteriores. No Brasil, segundo afirmam Neri e Freire (2000:13), os termos maturidade, idade madura e meia-idade se sobrepõem à expressão terceira idade, servindo para designar a faixa etária intermediária entre a vida adulta e a velhice. A variedade de designações para tratar dessa fase da vida só mascara o preconceito e a negação de uma realidade que atinge a todos. A sociedade cria termos para tratar do processo de mudanças físicas, psicológicas e sociais que se acentuam e se tornam mais ou menos perceptíveis a partir dos 45 anos.

4 Cachioni (2003:46) também afirma que importamos a expressão terceira idade da Europa, que é considerada uma alternativa à denominação velhice. O termo velhice, para muitos, carrega forte conotação negativa. Assim, segundo Cachioni (2003:46), a expressão terceira idade veio substituir a palavra velhice por termo mais agradável aos ouvidos dos idosos e também dos não idosos. Concordo com Goldman (2001:7) quando diz que, ao se substituir o termo velho por idoso, se esconde o antigo velho sob uma nova roupagem. Do indivíduo que envelhece é cobrada a integração em atividades físicas, culturais e de lazer, mesmo que não façam parte do seu interesse. Por outro lado, é atribuída a ele a responsabilidade pelas suas mazelas e pelas doenças que a velhice pode acarretar. Além disso, aquele que envelhece vê sua autodeterminação minada por modelos veiculados na mídia que teimam em adequá-lo ao sabor da moda. De acordo com Frutuoso (1996:33), o termo terceira idade refere-se a uma emergente realidade da velhice, ligada a um novo tempo de lazer. Como trato nesta pesquisa de um enfoque conceitual, Neri e Freire (2000:14) consideram melhor utilizar os termos velho ou idoso para designar pessoas idosas; velhice, para falar da última fase do ciclo vital; e envelhecimento, para designar esse evento do ciclo vital. Entretanto, a literatura gerontológica faz também a distinção entre idosos e adultos maduros a nomenclatura idosos designa os indivíduos acima de 60 anos e adultos maduros designa os que ultrapassam os 45 anos. É importante ressaltar que existem especificações significativas entre as faixas etárias que não

5 podem ser desconsideradas. Apesar de os termos idosos e adultos maduros não serem intercambiáveis e as universidades abertas da terceira idade, em sua maioria, aceitam alunos a partir dos 45 anos. No Brasil, são raras as referências à formação de docente que estão envolvidos em programas para a Terceira Idade. Cachioni (2003:32) acrescenta que não há uma área definida para a formação de professores para a terceira idade, estando ela a cargo de poucos cursos de atualização oferecidos nas próprias UnATIs, dos núcleos de estudos gerontológicos na universidade e dos cursos de especialização em gerontologia. A autora admite ainda que, a partir de levantamento realizado, um dos motivos detectados para a evasão dos alunos nas universidades abertas tem sido a falta de preparo de alguns docentes em atuar com a terceira idade. Essa mão de obra especializada e a produção de estudos específicos sobre as necessidades da terceira idade em nosso meio é ainda restrita. A infraestrutura necessária para responder às demandas sociais desse grupo, em termos de programas específicos e mesmo recursos humanos adequados qualitativamente, ainda é relativamente precária. Esta pesquisa teve por objetivo descrever e interpretar o fenômeno do aprender para os alunos adultos maduros e idosos em duas Universidades Abertas da Terceira Idade, com a finalidade de coletar subsídios que possam ser utilizados na formação de professores para esse contexto instrucional. Com este trabalho, pude obter subsídios que possam ser úteis aos professores que intervêm ou venham a intervir na educação de adultos maduros e idosos em espaços específicos: instituições, comunidades, universidades abertas, visando à formação de práticas voltadas à educação nessa faixa

6 etária, proporcionando-lhes não só desenvolvimento integral, mas também oportunidades igualitárias e inclusão social. Para operacionalizar tal objetivo, lancei mão de uma orientação metodológica de cunho Hermenêutico-Fenomenológica (van Manen, 1990; Freire, 2007) e destaco duas questões centrais: que interpretações alunos e professores, adultos maduros e idosos, de duas universidades abertas da terceira idade têm sobre o aprender nessa fase da vida e qual a natureza do aprender na terceira idade na universidade aberta? Os quatro fundamentos teóricos utilizados no trabalho foram: o envelhecimento, a educação, as universidades abertas da terceira idade e a formação de professores. A orientação metodológica, de cunho Hermenêutico-Fenomenológica, utilizada foi de importância fundamental e os instrumentos e procedimentos de coleta deram subsídios para a textualização que eu precisava para realizar as interpretações e desenvolver a pesquisa. Os procedimentos de interpretação me deram o suporte necessário para interpretar as falas dos participantes. A metodologia foi escolhida em função do seu caráter predominantemente subjetivo, mas que permitiu espaço para a objetividade procurada em um trabalho científico. A interpretação das entrevistas feitas com os dezesseis participantes da pesquisa visou aprofundar e perceber como os participantes interpretaram o fenômeno do aprender na terceira idade na universidade aberta. Depois descrevi e interpretei o fenômeno do aprender na terceira idade na universidade aberta, buscando a sua essência, portanto, um processo de tematização. Quando se faz uma pesquisa usando a orientação metodológica Hermenêutico- Fenomenológica, parte-se de um fenômeno da experiência humana, visto pelo ângulo daqueles que vivenciam essa experiência. Portanto, o fenômeno que eu decidi estudar era o aprender na terceira idade na universidade aberta para aquele grupo de alunos e professores, adultos maduros e idosos que eu pesquisei. Só que lendo as respostas que os pesquisados me deram, eu descobri que esses alunos adultos maduros e idosos, não vão para as universidades abertas somente para aprender. Eles vão em busca de coisas que vão além do aprender. Essa busca na terceira idade na universidade aberta envolve, além do aprendizado, bem-estar, relações e ocupação.

7 Logo, cabe destacar que houve uma importante descoberta durante a análise e interpretação dos textos para chegar à essência do fenômeno pesquisado. Essa descoberta sinalizou que apesar de, inicialmente, o fenômeno pesquisado ter como foco o aprender na terceira idade na universidade aberta, ao interpretar os textos da pesquisa, pude identificar que o que parecia ser apenas um tema, era o próprio fenômeno: a busca na terceira idade na universidade aberta. Essa busca era direcionada a várias coisas: ao bem-estar, à ocupação, às relações, ao aprendizado. Porém, eu só pude chegar a essa conclusão quando eu já estava acabando de identificar os temas, por meio das ressignificações do que alunos e professores disseram durante as entrevistas, voltando sempre aos textos para ver se eu não havia me distanciado das suas falas. Antes disso, essa mudança do fenômeno não poderia ter ocorrido. Esse ir e vir, chamado de ciclo de validação, é que pode mostrar a cientificidade da pesquisa por mim proposta usando a orientação metodológica selecionada. Como temas, passei a enfocar as relações, o bem-estar, a ocupação e o aprendizado. Bibliografia BÜHLER, C. (1935) The curve of life as studied in biographies. The Journal of Applied Psychology, n. 4, v. 19, p CACHIONI, M. (2003) Quem educa os idosos? Um estudo sobre professores de universidades da terceira idade. Editora Alínea. CAMARANO, A. A. (2002) Envelhecimento da população brasileira: uma contribuição demográfica. Texto para discussão nº Ministério do Planejamento, orçamento e gestão. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Disponível em: - Acessado: em 22/11/08. FREIRE, M. M. (2007) A abordagem Hermenêutico-Fenomenológica: conceito e procedimentos. Apresentação feita no Primeiro Encontro do Grupo de estudos sobre a abordagem Hermenêutico-Fenomenológica. Programa de Estudos Pós-Graduados em Lingüística Aplicada e Estudos da Linguagem, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. FREIRE, S. A. (2000) Envelhecimento bem-sucedido e bem-estar psicológico. In: A. L. Neri & S. A. Freire, E por falar em boa velhice. Papirus.

8 FRUTUOSO, D. L. F. (1996) A terceira idade na universidade: estudo do campo de representação. Tese de Doutorado. Faculdade de Educação. UFRJ. GOLDMAN, S. N. (2001) Universidade para a terceira idade: uma lição de cidadania. Textos sobre Envelhecimento. UNATI / UERJ, v. 3, n.5. p JORDÃO NETTO, A. (2001) Universidade Aberta para a Maturidade: avaliação crítica de uma avançada proposta educacional e social. In: V. Kachar, Longevidade um novo desafio para Educação. Cortez Editora. KACHAR, V. (org.) (2001) Longevidade: um novo desafio para a educação. Cortez Editora. LIMA, M. P. (2001) Reformas paradigmáticas na velhice do século XXI. In: V. Kachar (org.), Longevidade um novo desafio para Educação. Cortez Editora. NERI, A. L. & FREIRE, S. A. (2000) Apresentação: Qual é a idade da velhice? In: A. L. Neri & S. A. Freire (orgs.), E por falar em boa velhice. Papirus. PEIXOTO, C. (1998) Entre o estigma e a compaixão e os termos classificatórios: velho, velhote, idoso, terceira idade. In: M. M. L. Barros (org.), Velhice ou Terceira Idade? Estudos antropológicos sobre identidade, memória e política. Fundação Getulio Vargas Editora. STANO, R. C. M. T. (2001) Espaço escolar: um tempo de ser-na-velhice. In: V. Kachar (org.), Longevidade um novo desafio para Educação. Cortez Editora. van MANEN, M. (1990) Researching lived experience: Human science for an action sensitive pedagogy. The Althouse Press. VILLANI, F. L. (2007) A longevidade no aprendizado de línguas: acrescentando vida aos anos e não anos à vida. Tese de Doutorado. PEPG em LAEL. PUC/SP. Doutora em Lingüística Aplicada e Estudos da Linguagem e Mestra em Gerontologia, PUC/SP, coordenadora do projeto de extensão universitária FATEC_da Melhor Idade da FATEC-Cruzeiro, professora de língua inglesa.

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