INSTITUTO DE ARQUITETOS DO BRASIL

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1 TRANSFORMAR ASSENTAMENTOS IRREGULARES EM BAIRROS Autor(es): Gabriel Carvalho Soares de Souza, Alexandre Klüppel, Bruno Michel, Irisa Parada e Rodrigo Scorcelli Ao considerar a Favela como um fenômeno que abrange as dimensões sócio-econômica e cultural, é preciso se aprofundar em algumas questões, no intuito de compreender tal problemática e assim qualitativamente adequar às ações propositivas para as quais este trabalho se destina. Para tal sinalizaremos cinco prerrogativas que entendemos por fundamentais: 1. O contexto sócio-histórico do fenômeno Favela enquanto espaço de segregação sócioeconômica e de ausência de políticas públicas efetivas Com o fim da escravidão no Brasil, o sistema econômico-social carioca sofreu mudanças radicais, e uma nova fração popular que surgia livre, carente de trabalho e necessitada em sobreviver, sem alternativa, se amontoou nas casas de cômodos e cortiços, que com o tempo tornaram-se focos de doenças, devido às más práticas sanitárias e transformaram-se em alvo das ações urbanas do poder público. Declarada guerra conta os cortiços do centro, o Rio de Janeiro vivenciou sua primeira cirurgia urbana: a abertura da Avenida Central além da conexão da zona sul da cidade à zona portuária, a intervenção do Prefeito Pereira Passos deixou centenas de pobres sem moradia que passaram então a ocupar os terrenos, até enão sem importância para a cidade, as encostas dos morros, berço dos assentamentos irregulares: Favelas. Este contingente urbano excluído foi multiplicado em meados do século passado com a inversão do predomínio rural em relação ao urbano. Os fluxos migratórios acarretaram um descontrole urbano, e tal superurbanização potencializou a pobreza. Uma vez que a economia industrial urbana não absorvia o crescente número de mão de obra desqualificada, gerando uma massa populacional marginalizada. O rótulo da marginalidade transcendeu o campo econômico e se expandiu para as esferas sociais, territoriais e culturais. Afinal a urbanização na cidade do Rio de Janeiro privilegiou os melhores terrenos para a parcela da população capitalizada, ignorando os demais terrenos passíveis de ocupação pelos marginalizados. O espaço urbano da cidade passa a materializar a segregação sócio-espacial. 2. A relação da Favela com o Meio Ambiente e com os bairros vizinhos quanto às disparidades infra-estruturais e habitacionais. Com o passar das décadas, esse apartheid territorial é internalizado na mentalidade da sociedade do asfalto não só pela insegurança gerada por duas classes economicamente opostas conviverem muito próximas, mas, sobretudo, pelo fato dos limites entre os tecidos estarem cada vez mais nítidos, chegando ao nível de considerarem a favela um câncer, que avança sobre o meio ambiente. Essa perspectiva negativa começa a ser enfrentada com a Constituição Federal de 1988, que garantiu o direito à moradia e a elaboração de Planos Diretores para as grandes cidades. O Plano Diretor do Rio forneceu o instrumento para dar início a regularização dos assentamentos irregulares: Áreas de Especial Interesse Social

2 (AEIS), bem como critérios para sua declaração e delimitação. Esta é a ferramenta para que o poder público possa realizar obras de melhorias urbanas nas favelas e passar a tratar essas áreas de forma diferenciada, com o objetivo de incluí-las no tecido urbano formal, reduzindo as desigualdades e integrando os novos bairros à cidade. 3. A importância do processo de valorização da identidade e cultura local para apropriação do projeto pelo morador, via a organização comunitária durante a implementação do projeto Salientamos que essas ações que privilegiam a autonomia e potencializam o exercício real da cidadania aos assentamentos só serão possíveis a partir da mobilização e participação comunitária desde o primeiro dia de implementação do projeto. O trabalho deve focar na potencialização dos moradores a partir da qualificação dos mesmos, para serem agentes multiplicadores atuantes no processo de fortalecimento dos vínculos sociais através das melhorias no espaço coletivo. Na construção destes novos bairros, devem ser respeitadas as suas identidades sócio-culturais locais, a rede de sociabilidade e vizinhança, a economia local e as estratégias de sobrevivência encontradas. Nesse sentido, temos na Imagem 02 uma representação da favela (Projeto Morrinho) reconhecido internacionalmente e, na Imagem 3, o que talvez seja a maior identidade cultural das favelas: a roda de samba. É preciso compreender o contexto histórico do crescimento da ocupação, valorizando seu marco a fim de consolidar a identidade coletiva dos moradores para fortalecer a vontade de permanecer em seu território. Nesse sentido, cabe ao projeto propor mecanismos que possibilitem a permanência do atual moradores depois da reestruturação urbanística. O investimento em educação e qualificação profissional é fundamental a geração de renda, amenizando o impacto orçamentário do morador pelas novas responsabilidades financeiras oriundas das taxas de infra-estrutura de seu bairro.

3 Para dar conta de tais questões, o trabalho social será de fundamental importância para garantir que a alteração do espaço físico não cause grandes impactos nas redes sociais, culturais e econômicas construídas pela população local e que esta permaneça em seu território, interrompendo o ciclo do problema habitacional carioca. 4. O trabalho social O Trabalho Social em projetos habitacionais para famílias em condições socioeconômicas vulneráveis é um conjunto de ações que tem como premissa promover a autonomia, o protagonismo social e o desenvolvimento da população beneficiária, de forma a favorecer a sustentabilidade do empreendimento, abordando as seguintes temáticas: mobilização e organização comunitária, educação sanitária e ambiental e geração de trabalho e renda. Orientado pela premissa de oferecer à população um canal aberto para discussão política e técnica possibilitando o exercício da cidadania plena, o que lhe permite estabelecer e orientar a intervenção do Poder Público para a melhoria da sua condição de vida. Para além da condição inicial de um trabalho social, este pretende garantir a participação comunitária; promover atividades que possibilitem a elevação da qualidade de vida das famílias beneficiárias para que expressem e se desenvolvam através de ferramentas sociais fomentar e valorizar as potencialidades dos grupo sociais atendidos e o fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários. A eleição de tais prerrogativas se deu a partir da composição de uma equipe com caráter interdisciplinar, que tem por condição ter diferentes profissionais que trabalham juntos, mantendo suas atuações específicas, com troca de informações dentro de áreas de interseção, o que permite a construção de novos saberes. E favorece o planejamento das atividades a serem realizadas para solucionar os problemas. Tais prerrogativas veem atreladas a propostas de eliminar as fronteiras entre a favela e o bairro na qual ela está inserida.

4 5. A integração da cidade e o fortalecimento do ser CARIOCA Não se pode negar o imenso simbolismo que é uma cidade partida através de barreiras materiais e imateriais que demarcam realidades tão próximas e tão distantes: a favela e o bairro. Ou mesmo os ditos morro e o asfalto. Os dois termos são representados no contraste entre dois mundos. Estes termos não representam apenas uma denominação para esses dois mundos, pois além de se referir a diferentes espaços geográficos, distinguem também a identidade das pessoas que moram naquele lugar. Demarcam as posições que os indivíduos ocupam na sociedade, permeadas por relações de poder e pela exclusão social. É fundamentalmente a partir da reconstrução urbana, fortalecer o processo de eliminação das fronteiras entre favela e bairro para que as favelas na nova condição de bairro façam parte da cidade, a partir da integração das áreas. E possibilitar o relacionamento social mais efetivo entre os bairros através dos seus moradores. Outro fator são as presenças das unidades de polícia pacificadoras (UPPs), que para além da condição de segurança também podem possibilitar a valorização da identidade local e de seus moradores. Facilitando o uso dos novos bairros por moradores de toda a cidade. Contribuindo para uma nova condição do ser favelado, retirando esse da condição estigmatizante, na qual não haja mais abismo simbólicos e físicos entre bairros vizinhos, tal proposta de implementação viabiliza e fomenta o fortalecimento da identidade do Ser Carioca.

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7 Clique aqui para fazer download das pranchas Ficha Técnica Autor(es): o Gabriel Carvalho Soares de Souza o Alexandre Klüppel o Bruno Michel o Irisa Parada o Rodrigo Scorcelli Colaboradores: o Mírian Machado Assistente Social o Silvério Augusto Pedagogo

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