ANDREA GURGEL DE FREITAS NÃO VER E SER VISTO: UMA EXPERIÊNCIA ENTRE PONTOS DE CULTURA MEDIADA PELA FOTOGRAFIA

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1 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE FACULDADE DE MEDICINA DEPARTAMENTO DE TERAPIA OCUPACIONAL MINISTÉRIO DA CULTURA SECRETARIA DA CIDADANIA E DA DIVERSIDADE CULTURAL CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM ACESSIBILIDADE CULTURAL ANDREA GURGEL DE FREITAS NÃO VER E SER VISTO: UMA EXPERIÊNCIA ENTRE PONTOS DE CULTURA MEDIADA PELA FOTOGRAFIA RIO DE JANEIRO ABRIL 2014

2 2 ANDREA GURGEL DE FREITAS NÃO VER E SER VISTO: UMA EXPERIÊNCIA ENTRE PONTOS DE CULTURA MEDIADA PELA FOTOGRAFIA Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Centro de Ciências da Saúde, Faculdade de Medicina, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Especialista em Acessibilidade Cultural. Orientadora: Profa. Dra. Patricia Silva Dorneles [UFRJ]. Co-orientador: Prof. Dr. Jefferson Alves Fernandes [UFRN]. RIO DE JANEIRO ABRIL 2014

3 3 COMISSÃO JULGADORA Profa. Dra. Patricia Silva Dorneles Orientadora Profa. Ms. Vera Vieira de Souza Convidada

4 4 À memória de Miguel Godeiro e Terezinha Gurgel, meus pais. A Gabriel Gurgel - meu filho - e a Teotônio Roque - meu companheiro - meu amor, carinho e gratidão pela paciência e cumplicidade. Ao Instituto de Educação e Reabilitação de Cegos, seu Ponto de Cultura Evidência Cultural e aos participantes da Oficina de Fotografia para Pessoas Cegas. A todos e todas que lutam pela igualdade de direitos.

5 5 AGRADECIMENTOS À minha família, em especial, a tia Amélia Gurgel e Manoel Mafra pelo apoio de longa data. Às minhas irmãs, Andrezza Gurgel e Amanda Gurgel, pelos sorrisos e lembranças compartilhadas, mesmo à distância. Ao Ministério da Cultura, à Secretaria da Cidadania e da Diversidade Cultural, à Universidade Federal do Rio de Janeiro, à Fundação Universitária José Bonifácio e ao povo brasileiro, por tornar possível minha participação no primeiro curso de especialização em Acessibilidade Cultural do país. À Profa. Patricia Dorneles, por sua ousadia e coragem em coordenar o referido curso; por sua persistência em viabilizar e garantir a participação das discentes, representantes de Pontos de Cultura, das regiões Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste; e por disponibilizar-se em ser minha orientadora. A Glácio Menezes, Geordeci Souza, Rosângela Valim e Dominique Pastore pela disponibilidade em ajudar, cada um à sua maneira, na aquisição de passagens no período em que eu ainda não era bolsista. Aos professores, professoras, bolsistas e colegas de curso de todos os cantos do Brasil especialmente à capixaba Lilian Menenguci e a amapaense Monick França, pelo aprendizado, convivência e gargalhadas na cidade maravilhosa; Lúcia Santos, pelo carinho; Dilma Negreiros e Renata Macedo, queridas representantes de Pontos de Cultura das regiões Sudeste e Centro-Oeste. Ao Prof. Jefferson Fernandes, meu professor na graduação e co-orientador neste trabalho, pelo convite à experiência/vivência da fotografia relacionada à Deficiência Visual. A Célio Turino, meu amigo, idealizador dos Pontos de Cultura/Programa Cultura Viva, pelo exemplo encantador de pensar o bem comum. À Comissão Nacional dos Pontos de Cultura pela luta constante para a continuidade do Programa Cultura Viva. A Cláudia Damasceno e Gerardo Damasceno, do Pontão de Cultura Polo de Produção Audiovisual do Ceará, da Academia de Ciências e Artes ACARTES, de Fortaleza/CE; a Elizama Cardoso e Raimundo Melo, do Pontão de Cultura e

6 6 Comunicação, do Centro de Documentação e Comunicação Popular CECOP, de Natal/RN, pela indicação do meu nome à vaga destinada à região Nordeste. A Marcos Silva e Katiene Symone, do Ponto de Cultura Evidência Cultural, do Instituto de Educação e Reabilitação de Cegos IERC, em Natal/RN, pela confiança e pelo espaço aberto a investigações. A Bruno Lima, pela preciosa contribuição de realizar a consultoria das imagens contidas nesse trabalho. A Henrique José, do Ponto de Cultura Fotografia e Identidade, da ZooN, pela oportunidade de aprendizado no auxílio às oficinas do Projeto. Ao Ponto de Cultura Lumiar, da Olhares entidade que participo e atuo como educadora, fotógrafa e coordenadora de projetos, pela construçãodo caminhar...

7 E como não se pode nunca ver com os próprios olhos, somos todos um pouco cegos. Nós nos olhamos sempre com o olhar do outro, mesmo que seja aquele do espelho. (BAVCAR, 2003, p.12) 7

8 8 RESUMO FREITAS, Andrea Gurgel de. Não Ver e Ser Visto: uma experiência entre Pontos de Cultura mediada pela Fotografia. Rio de Janeiro: UFRJ: Trabalho de Conclusão de Curso (Especialização em Acessibilidade Cultural). O presente trabalho Não ver e ser visto: uma experiência entre Pontos de Cultura mediada pela Fotografia trata do relato de uma Oficina Básica de Fotografia para pessoas cegas, realizada na cidade de Natal, capital do Rio Grande do Norte. Tal Oficina, com carga horária de 45h, foi resultado da ação do Ponto de Cultura Evidência Cultural, do Instituto de Educação e Reabilitação de Cegos e o Ponto de Cultura Lumiar, da Olhares, e contou com a participação de nove pessoas cegas [congênita ou adquirida]. O trabalho se orienta metodologicamente como uma pesquisa exploratória sobre a experiência e apresenta uma revisão da literatura sobre a acessibilidade da fruição da fotografia e a deficiência visual. Palavras-chave: Fotografia. Cegueira. Prática Inclusiva. Acessibilidade Cultural.

9 9 ABSTRACT FREITAS, Andrea Gurgel de. Não Ver e Ser Visto: uma experiência entre Pontos de Cultura mediada pela Fotografia. Rio de Janeiro: UFRJ: Trabalho de Conclusão de Curso (Especialização em Acessibilidade Cultural). This job "Not to See and be Seen: an experiment between Culture Points mediated Photography" is the story of a Basic Photography Workshop for blind people, held in the city of Natal, capital of Rio Grande do Norte. This workshop, with a schedule of 45h, was the result of the action of the Culture "Cultural Evidence, the Institute for Education and Rehabilitation of the Blind and the Culture Point "Lumiar", the looks and with the participation of nine blind [congenital or acquired]. The work is guided methodologically as an exploratory research about the experience and presents a literature review on the accessibility of the enjoyment of photography and visual impairment. Keywords: Photography. Blindness. Inclusive practice. Cultural accessibility.

10 10 SUMÁRIO INTRODUÇÃO A TROCA DE SABERES ENTRE OS PONTOS DE CULTURA LUMIAR E EVIDÊNCIA CULTURAL Não Ver e Ser Visto: a Oficina de Fotografia para Pessoas Cegas DIÁLOGOS ENTRE AS REFLEXÕES TEÓRICAS E A PRÁTICA A ACESSIBILIDADE DA EXPOSIÇÃO FOTOGRAFANDO COM OS SENTIDOS O roteiro de audioguia com audiodescrição para a Exposição CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS ANEXOS... 49

11 11 INTRODUÇÃO Já faz algum tempo que a fotografia está presente em minha trajetória. E foi, através dela, que tive experiências fantásticas de, até mesmo, encontrar um amor. No final da década de 1990 e início do ano 2000, na capital potiguar, trabalhei numa loja de fotografia, que atendia o público profissional da cidade e não demorou muito tempo para que eu, à época uma jovem mulher de vinte e poucos anos, me encantasse com o instantâneo escrito com luz. De lá para cá, participei de alguns trabalhos educacionais e há cinco anos, atuo na Olhares - uma organização não-governamental constituída por um grupo de artistas que desenvolvem trabalhos nas artes visuais, sendo a fotografia a protagonista, e audiovisual - que tem como objetivo difundir as artes visuais, destacando seus aspectos pedagógicos, sociais, econômicos e ambientais. Em 2008 a Olhares passou a ser Ponto de Cultura 1 com o projeto Lumiar, conveniado com a Fundação José Augusto/Governo do RN e Secretaria da Cidadania e da Diversidade Cultural/Ministério da Cultura. A partir de 2009, através do convite do Ponto de Cultura Evidência Cultural, do Instituto de Educação e Reabilitação de Cegos IERC 2 iniciamos, eu e Teotônio Roque 3, nossa experiência de realizar Oficinas de Fotografia para o público com deficiência visual. Entre os anos 2009 e 2012, realizamos três Oficinas sendo que a primeira, despertou-me uma paixão maior. Essa paixão se deu pelo fato de ter sido a mais desafiadora, uma vez que nunca havia tido experiência com esse público. 1 Ponto de Cultura é uma das ações do Programa Cultura Viva, do Governo Federal, instituídopelomincem 06 de julho de 2004 (Portaria nº 156) (DORNELES, 2011, p. 208), que pressupõe autonomia e protagonismo sociocultural, potencializados pela articulação em rede e se expressa como reconhecimento e legitimação do fazer cultural das comunidades, gerando empoderamento social (TURINO, 2009, p. 85) 2 O Instituto de Educação e Reabilitação de Cegos do Rio Grande do Norte (IERC), situado à rua Fonseca e Silva, 1113, no bairro do Alecrim - Natal tem como principal finalidade, promover a habilitação, reabilitação e educação das pessoas cegas ou com deficiências visuais graves, proporcionando oportunidades para o seu pleno desenvolvimento, bem como a sua integração ou reintegração à sociedade, permitindo maior independência e autonomia. 3 Fotógrafo, arte-educador e presidente da Olhares.

12 12 Pelo motivo acima, escolhi a Oficina realizada em 2009, como campo de investigação teórica para o desenvolvimento deste Trabalho de Conclusão de Curso, caracterizando-a como pesquisa exploratória, pois, segundo Gil (2007), a pesquisa exploratória, tem como objetivo principal, o aprimoramento de ideias ou a descoberta de intuições. Seu planejamento é, portanto, bastante flexível, de modo que possibilite a consideração dos mais variados aspectos relativos ao fato estudado. Retomar os dados oriundos desse processo e analisá-los a partir das políticas públicas no campo da cultura, cumpre três grandes objetivos iniciais: destacar o trabalho integrado entre os Pontos Cultura Lumiar e Evidência Cultural na construção de práticas de acessibilidade cultural; contribuir com a formação de atores e profissionais no campo da cultura, acentuando a acessibilidade cultural como questão de direito; contribuir para a produção de conhecimento na área, a partir desta experiência. Ainda, além disso, reafirma o papel da sociedade civil como um ente importante para a legitimação de políticas públicas, neste caso de cultura, e para a implementação de práticas inclusivas como regra e não como exceção. Para realizar tal estudo, utilizei-me de anotações de diário de campo, acervo fotográfico e videográfico que registra a metodologia e o resultado final desta Oficina, e minha memória como narrativa de um processo e de uma experiência inovadora entre a ação integrada entre Pontos de Cultura, a técnica fotográfica, a experiência pedagógica e o público alvo de pessoas cegas. Desta forma, os métodos de pesquisa deste trabalho se caracterizam como qualitativos, incluindo um memorial e diálogos com referências bibliográficas. Nesse sentido, este trabalho está estruturado em três capítulos: o primeiro, intitulado, A troca de saberes entre os Pontos de Cultura Lumiar e Evidência Cultural no qual falarei da parceria entre os esses dois Pontos de Cultura, característica do Programa Cultura Viva, bem como, abordarei a metodologia utilizada na Oficina de Fotografia para Pessoas Cegas. O segundo, intitulado Diálogos entre as reflexões teóricas e a prática no qual apresento alguns depoimentos dos participantes da Oficina. É importante registrar, que tais depoimentos não foram para a realização deste Trabalho. Eles foram feitos durante a realização da Oficina que, como mediadora e pesquisadora da referida Oficina, utilizo-

13 13 os para exemplificar alguns resultados do processo criativo, assim como também, utilizo o diário de campo e análises documentais dos dois Projetos. E, finalmente, o terceiro capitulo, intitulado A acessibilidade da exposição Fotografando com os Sentidos, no qual apresento minha proposta de acessibilidade para a referida exposição, resultado da Oficina de Fotografia, como democratização e fruição estética de outras pessoas cegas que não participaram da atividade mas que, através da audiodescrição, terão acesso aos registros fotográficos. Para o público vidente, considero que a acessibilidade, tanto do processo quanto do produto final, servirá para compreender e perceber a contribuição para a produção imagética e cultural dessas pessoas cegas.

14 14 1 A TROCA DE SABERES ENTRE OS PONTOS DE CULTURA LUMIAR E EVIDÊNCIA CULTURAL A Olhares, proponente do Ponto de Cultura Lumiar, conveniada com o Governo do Estado do Rio Grande do Norte 4, através da Fundação José Augusto, tem como objetivo disseminar as artes visuais, sobretudo a fotografia, e nesse sentido vem, a anos, desenvolvendo as oficinas Retratada Cidadania 5, cujo produto final é a publicação de cartões postais. Apenas no estado do Rio Grande do Norte, já foram mais de vinte e quatro mil cartões postais de várias cidades por onde passamos. Como reconhecimento de nossa atuação na área, já fomos convidados a apresentar nossas produções, não só no campo da arte educação, como também com nosso trabalho autoral, num evento internacional, em Portugal, nos anos de 2007, com a exposição de cartões postais de várias cidades do RN; 2008, com a exposição fotográfica Por Ser de Lá 6 e a realização de uma oficina de fotografia para um público de jovens, cuja maioria era de etnia cigana; e 2012, com a exposição coletiva de fotografia Territórios EmCantados: Músicas e Danças do Mundo 7. Nossas ações apresentadas no projeto Ponto de Cultura Lumiar, são voltadas para a produção audiovisual. Elas têm como objetivo valorizar o fazer artístico, registrando e incentivando as mais diversas manifestações culturais do Rio Grande do Norte, a partir de produções de vídeos dos Pontos de Cultura do estado. Nosso entendimento é de que a arte, a cultura e a educação são ferramentas de transformação e conscientização. Acreditamos que uma das formas mais eficazes da 4 A descentralização dos convênios por parte do Ministério da Cultura para ampliação da rede em âmbito nacional, busca parceria com governos e prefeituras. 5 Através das atividades desenvolvidas ao longo dos anos por esse projeto, concorremos e fomos selecionados pelo Prêmio Ponto de Memória, do Instituto Brasileiro de Museus IBRAM, cujo objetivo é apoiar ações e iniciativas de reconhecimento e valorização da memória social. Com metodologia participativa e dialógica, os Pontos trabalham a memória de forma viva e dinâmica, como resultado de interações sociais e processos comunicacionais, os quais elegem aspectos do passado de acordo com as identidades e interesses dos componentes do grupo. Fonte: acessado em 08 de março de Com imagens produzidas por mim e Teotônio Roque. 7 Cinco fotógrafos: dois do Rio Grande do Norte [eu e Teotônio Roque]; dois de Minas Gerais; e um de Portugal.

15 15 cidadania é o acesso às manifestações artísticas e culturais, não sendo o sujeito apenas um expectador, mas, principalmente, protagonista no processo criativo dessas manifestações. É importante destacar, que fazemos questão de utilizar o selo Ponto de Cultura em nossas atividades, mesmo aquelas que não estão previstas no Plano de Trabalho do projeto, porque temos a compreensão de que tal posicionamento fortalece e mantém viva a nossa rede. Por isso e por muito mais além, seremos, sempre, Ponto de Cultura. Sobre o IERC, o Sr. Marcos Silva, presidente da instituição, em entrevista para a realização deste Trabalho, informou que o Instituto de Educação e Reabilitação de Cegos foi fundado em 16 de julho de No inicio, tinha a preocupação social das pessoas com deficiência, mas, passados vinte e seis anos, uma assistente social assumiu a presidência e começou a pensar e visualizar uma nova perspectiva, que seria investir na educação e reabilitação das pessoas cegas. A partir de 1978, o Instituto começou a trabalhar com a escola fundamental, do 1º ao 5º ano e também começou a investir na reabilitação. Ao invés de proteger e dar apoio social ao aluno, ela passou a orienta-lo para que ele (o aluno cego) pudesse buscar sua própria ajuda dentro da sociedade e com isso ia se tornando uma pessoa integrada e participativa na sociedade. (SILVA. Entrevista, 06/03/2014) O IERC tem uma área de metros quadrados, sendo 958 metros quadrados de área construída, com capacidade para atender 200 alunos 8. Em 2014, o Instituto está atendendo 168 pessoas com deficiência visual, com faixa etária diversificada, de bebês a idosos. No que diz respeito ao Ponto de Cultura Evidência Cultural 9, apontou que o objetivo do projeto foi inserir as pessoas cegas num contexto cultural e, para isso, foi pensado a realização de algumas oficinas, como a de fotografia, a de vídeo, a de canto coral, para que o cego pudesse estar em contato com elementos que todas as pessoas, ditas normais, utilizam. [...] Oportunizar a inserção da pessoa cega no mundo cultural, para que tivesse uma participação, não apenas como figurante, mas como ator protagonista no processo (SILVA. Entrevista, 06/03/2014). 8 Oferece: atendimento Psicológico, Assistente Social, aulas de Orientação e Mobilidade, Ensino do Sistema Braille, Educação Física, Esportes [Karatê, GoalBall], Música, Oficina de Artes etc. 9 Aprovado em 2008 e atualmente está inativo. Foi conveniado com Ministério da Cultura.

16 16 O Programa Cultura Viva Pontos de Cultura tem como proposta fortalecer a solidariedade popular, por meio de intercâmbios de experiências e trocas de tecnologia social, formando, assim, a Rede Cultura Viva. Esta deve ser entendida, segundo a proposta do Programa, como algo maleável, menos impositiva na sua forma de interagir com a realidade, e por isso, ágil e tolerante como um organismo vivo. Seu objetivo [...] é fazer uma integração dos Pontos em uma rede global que aconteça a partir das necessidades e ações locais e desenvolver uma ação proximal dos Pontos, onde a troca, a instigação e o questionamento, elementos essenciais para o desenvolvimento da cultura aconteçam num contato horizontal, sem relação de hierarquia ou superioridade entre culturas (TURINO, 2004, p.15 apud DORNELES, 2011, p. 217). Portanto, é função dos Pontos de Cultura, atuarem com metodologias emancipatórias que se identificam com os princípios do referido Programa. Nesse sentido, a parceria realizada entre os Pontos de Cultura Evidência Cultural, do Instituto de Educação e Reabilitação de Cegos e Lumiar, da Olhares, para a realização da Oficina de Fotografia para Pessoas Cegas, exemplifica a relação de Rede, de troca de saberes, expertises e economia solidária. 1.1 Não Ver e Ser Visto: A Oficina de Fotografia para Pessoas Cegas Com o propósito de propiciar o acesso de pessoas cegas à linguagem fotográfica como meio de expressividade, na perspectiva da inclusão visual, a Oficina buscou desenvolver uma metodologia que articulasse a cegueira e a fotografia, garantindo a ação autoral dos cegos que se expressam por meio das imagens. A Oficina, com carga horária de 45h, foi realizada no auditório do IERC e os participantes eram usuários e/ou estudantes da instituição. Os quatorze encontros realizados aconteceram no período de 13 de Abril a 26 de Maio de 2009, e contou com a participação de 09 pessoas, das quais eram sete homens e duas mulheres, com faixa etária entre 29 a 55 anos, todos cegos. No auditório, deixávamos uma parte com espaço maior para formar um semicírculo com as carteiras disponibilizadas. As carteiras eram de estrutura metálica, com assento e encosto de madeira e uma superfície plana e retangular, na horizontal.

17 17 As máquinas 10 eram enumeradas e cada participante utilizava o mesmo equipamento até o final da Oficina para facilitar a identificação da autoria das imagens produzidas. No primeiro encontro, conversamos sobre o quadro clinico, a idade, a experiência com imagens e a expectativa da Oficina. Em seguida, distribuímos uma máquina fotográfica para cada participante. A partir da exploração tátil e da curiosidade, foram surgindo perguntas. Formamos duplas, onde um fotografou o outro, sem a interferência dos mediadores. Em seguida, selecionamos três imagens de cada para serem discutidas. No segundo encontro,conversamos sobre as sensações que tiveram ao se lembrarem da participação na Oficina e então iniciamos o conceito de enquadramento. Para tanto, distribuímos molduras de cartolina, que mediam, aproximadamente, 20x30 cm. Como exercício, pedimos que enquadrassem uma das mãos e, com a outra, percebessem o que está dentro e o que está fora do quadro. Em seguida, utilizando a mesma orientação, pedimos que o enquadramento fosse feito no rosto. A partir desse exercício, conversamos sobre alguns planos da linguagem fotográfica e dividimos a turma em duplas. A pauta foi um fotografar o outro, fora do auditório, mas ainda nas dependências do IERC. As imagens deveriam ser centralizadas e descentralizadas. Pedimos para que prestassem atenção à comunicação da máquina com quem está fotografando, como por exemplo, o sinal sonoro do foco e ao barulhinho produzido durante o click. Ao término da pauta, todos voltaram para o auditório para análise das imagens. As máquinas eram conectadas a uma TV de 29, disponibilizada no auditório, para que pudéssemos enxergar as imagens com maiores detalhes, para descrevê-las e depois comentá-las. Enquanto as fotografias produzidas durante a pauta eram descritas, eles as construíam sobre a superfície plana da carteira com três elementos 11 de E.V.A 12 que representavam partes do corpo do colega: cabeça; tronco e membros superiores; e membros inferiores. 10 O Ponto de Cultura Evidência Cultural adquiriu dez máquinas digitais amadoras. 11 Formas geométricas, de um jogo infantil, que estavam no auditório. A ideia de utilizá-las surgiu na necessidade de ter algo que representasse as partes do corpo. 12 Abreviação de Etil Vinil Acetato, também conhecido como material emborrachado.

18 18 Figura1. Exercício de enquadramento utilizando moldura de cartolina. Natal, RN Foto: Teotônio Roque Descrição da figura 1. Fotografia horizontal e colorida, do exercício de enquadramento utilizando moldura de cartolina. Apoiada sobre a superfície plana e retangular de uma carteira escolar, encontrase a mão esquerda e fechada, de uma mulher. A moldura que é de cor cinza e azul, está colocada sobre essa mão, fazendo um enquadramento até o seu pulso. Com a mão direita ela toca a mão esquerda que está emoldurada. [Fim da descrição]

19 19 Figura 2. Exercício de enquadramento utilizando moldura de cartolina. Natal, RN Foto: Teotônio Roque Descrição da Figura 2. Fotografia colorida e horizontal, em close, de um participante da Oficina utilizando uma moldura de cartolina azul. Ele está de frente para o fotógrafo e com as duas mãos segura a moldura em posição horizontal, à altura do seu rosto, fazendo um enquadramento da testa até abaixo da boca. Na moldura, seu rosto está levemente descentralizado para a direita. [Fim da descrição] No terceiro encontro, antes de os participantes chegarem, montei a regra dos terços 13, na superfície plana e retangular de suas carteiras, com barbante e fita adesiva. Ao chegarem, perguntei se tinham alguma dúvida sobre o que já havíamos 13 Regra dos terços é a divisão do quadro da fotografia com duas linhas verticais e duas horizontais, deixando-o com nove quadros menores. O cruzamento entre essas linhas é chamado de pontos de ouro.

20 20 experimentado até então e se não tinham curiosidade em saber para que serviam todos os botões das câmeras. A partir dos questionamentos, ia explicando as funções.turma dividida em duplas. Delimitei a quantidade de cinco fotografias para cada participante e um tempo de quinze minutos. Essa delimitação funciona para a preocupação de buscar mais a qualidade da imagem produzida que a quantidade. Após a pauta ser realizada, optei em descrever uma foto por cada participante, mas antes, perguntava qual foto, feita por ele, gostaria de ser descrita. Essa solicitação servia para saber da coerência da construção da imagem mental elaborada antes do momento do click com a imagem produzida após o click. Figura 3. Exercício prático de fotografar colegas. Natal, RN Foto: Andrea Gurgel Descrição da Figura 3. Fotografia horizontal e colorida. À direita, uma participante da Oficina, de costas para a fotógrafa, aparece em Plano Médio, da cintura para cima, com o corpo levemente voltado para a direita. Ela é branca, tem cabelos longos, ondulados e

21 21 castanhos, e veste uma blusa branca. Seu braço esquerdo está esticado para frente à altura do ombro, em direção a dois rapazes. No seu rosto, na altura dos olhos, há uma câmera fotográfica em posição horizontal. Os rapazes estão à esquerda da imagem, um ao lado do outro, e aparecem em Plano Americano, do joelho para cima. Eles são pardos, têm cabelos curtos e escuros, vestem calça jeans e blusa. Cada um segura, com a mão direita, uma câmera fotográfica. Por trás deles, há uma janela e porta marrons que estão fechadas. [Fim da descrição] Figura 4. Regra dos terços adaptada com barbante na superfície plana de uma carteira e elementos de E.V.A. Natal, RN Foto: Andrea Gurgel Descrição da Figura 4. Fotografia horizontal e colorida. Sobre a superfície plana e retangular de uma carteira escolar, estão fixados quatro fios de barbante, dois em posição vertical e dois em posição horizontal, formado nove retângulos. À direita, por cima do barbante

22 22 vertical, estão distribuídos três elementos de E.V.A. De baixo para cima, eles são: um triângulo azul, um quadrado roxo e, por último, um coração vermelho que é tocado por mãos masculina e feminina. [Fim da descrição] Figura 5. Regra dos terços adaptada com barbante na superfície plana de uma carteira e elementos de E.V.A. Natal, RN Foto: Andrea Gurgel Descrição da Figura 5. Fotografia horizontal e colorida da superfície plana da carteira com a regra dos terços montada com fios de barbante. Os braços de um participante da Oficina estão apoiados sobre a carteira nas laterais esquerda e direita. No espaço entre os braços, estão uma máquina fotográfica, cuja alça está presa ao punho direito, e os três elementos de E.V.A., coração, quadrado e triângulo. [Fim da descrição].

23 23 No quarto encontro, a pauta foi fotografar o colega, em corpo inteiro, com a máquina em posição horizontal. Eles poderiam escolher qualquer lugar do IERC como cenário. A maioria escolheu a quadra de esportes. Ao retornarem, utilizávamos sempre a sequência de fotografar, conectar a câmera na TV e discutir a comparação da fotografia imaginada com a fotografia produzida. No quinto encontro, iniciamos nossa atividade pedindo para que cada participante imaginasse uma fotografia qualquer e a descrevesse oralmente para as pessoas presentes. Nesse encontro, tivemos dois momentos práticos: o primeiro era fazer três fotografias de uma pessoa que estivesse no IERC. Só não poderia ser algum colega participante da Oficina. Ao retornarem, cada participante falou do recurso que utilizou para chegar até à pessoa escolhida e que tipo de diálogo tiveram para construírem a imagem mental antes de registrarem a fotografia. No segundo momento, a turma foi dividida em duplas e a pauta foi fotografar o IERC. Para isso, o dividimos em três temas: Parque; Fachada; e Salas de Aula. Ao retornarem, fizemos, como de costume, a comparação da fotografia imaginada para a fotografia produzida. No sexto encontro, conversamos sobre a metodologia da Oficina e o que eles sugeriam que fosse modificado. Um dos participantes falou da dificuldade em fotografar descentralizado porque, ao descentralizar, deixa de ter referência àquilo que está sendo fotografado. Essa preocupação surgiu devido à nossa orientação de evitar centralizar o assunto fotografado, devendo, então, explorar as linhas esquerda e direita, da regra dos terços, bem como os seus pontos de ouro. Nesse dia, utilizamos a música Tocando em Frente, de Almir Sater e Renato Teixeira como exercício para imaginar fotografias. A tarefa era sintetizar a música, em apenas uma imagem, e cada um deveria descrever a imagem elaborada mentalmente. Uma dessas imagens foi bastante elogiada pelos participantes. Ela era horizontal e mostrava um entardecer com uma árvore à direita, em primeiro plano 14, meio em contraluz, pássaros voando e uma casa branca com alpendre 15 ao seu redor. Foi um momento relaxante e descontraído entre o grupo. No sétimo encontro, conversamos sobre a História da Fotografia e Linguagem Fotográfica. Para isso, elaboramos uma apostila, que foi impressa em Braille no próprio 14 O assunto fotografado que está mais próximo do expectador. 15 Espaço coberto, reentrante e aberto, na fachada de uma casa (FERREIRA, 2004, p. 112)

24 24 Instituto. A leitura da apostila era em voz alta, sendo um parágrafo por cada participante (minha apostila era impressa em tinta). As curiosidades e dúvidas eram discutidas no momento em que surgiam. Eles ficaram admirados com a evolução da tecnologia que fez com que as câmeras fotográficas e o tempo de exposição à luz para se fazer uma imagem fosse bastante reduzido. Levamos um rolo de filme de 36 poses e três modelos de cartões de memória, além de uma máquina mecânica e outra digital semiprofissional, que foram passando por todos os participantes, que ficaram impressionados com o tamanho e o peso desta última. Dessa vez, passamos uma atividade para casa, que foi a leitura da apostila principalmente o conteúdo referente à Linguagem Fotográfica 16. No oitavo encontro, fizemos uma revisão teórica do conteúdo da apostila e realizamos, no próprio espaço do auditório, alguns exercícios práticos sobre composição, sem a utilização da câmera fotográfica. No nono e décimo encontros, a turma foi dividida em duplas e as máquinas fotográficas foram entregues a seus respectivos usuários. Fomos para a quadra de esportes. O exercício era trabalhar os planos Close, Médio, Americano e Inteiro, utilizando a distância de quem está fotografando com o assunto a ser fotografado, ou seja, não era utilizado o zoom da câmera. O instrumento de referência para medir a distância entre um participante e outro era o próprio corpo. A dupla escolhia quem ia fotografar primeiro e o outro seria o modelo. Definido fotógrafo e fotografado, pedi para quem ia fotografar, tocar o rosto do colega e depois alongar o braço para ter uma distancia razoável. Feito isso, o exercício era fazer duas fotografias: uma em posição horizontal e outra em posição vertical. Nessa distância de um braço, aproximadamente 60cm 17, pode-se fazer um Close. Fase seguinte foi fotografar a uma distância de aproximadamente 1,10m (distância do braço mais a distância UM passo para trás). Nessa espaço, encontramos o Plano Médio tanto com a máquina em posição horizontal 16 Na ocasião trabalhamos composição e alguns planos e ângulos: close [do busto para cima], médio [da cintura para cima], americano [do joelho para cima], inteiro; frontal, perfil, plongée [ângulo de cima para baixo], contra-plongée [ângulo de baixo para cima]. 17 As fotografias nessa distância, com as máquinas utilizadas no curso, deixavam o rosto de quem foi fotografado meio distorcido, arredondado, pelo fato de a lente estar numa grande angular. Não utilizamos o zoom em nenhuma atividade.

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