O FUTURO DA UNIÃO EUROPEIA

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1 Instituto de Estudos Políticos UNIVERSIDADE CATÓLICA PORTUGUESA O FUTURO DA UNIÃO EUROPEIA Qual o tempo e movimento de uma elipse? Olhares de Embaixadores Portugueses Estudos sobre Aby M. Warburg em Capitais Europeias coordenação António Costa Lobo Manuela Franco Lívia Franco organização Álvaro Anabela Mendonça Mendes e Moura Manuel Isabel Matos Lobo Antunes Dias José João M. Justo de Vallera Peter Hanenberg Luís de Almeida Sampaio Bernardo Futscher Pereira José Felipe Moraes Cabral Universidade Católica Editora

2 Índice O Futuro da União Europeia: Olhares de Capitais Europeias 7 António Costa Lobo Prefácio 9 Manuela Franco Prefácio 11 Lívia Franco Programa do Ciclo de Palestras 15 O Futuro da União Europeia visto a partir de Madrid 17 Álvaro Mendonça e Moura O Futuro da União Europeia visto a partir de Roma 32 Manuel Lobo Antunes O Futuro da União Europeia visto a partir de Londres 49 João de Vallera O Futuro da União Europeia visto a partir de Berlim 71 Luís de Almeida Sampaio O Futuro da União Europeia visto a partir de Dublin 84 Bernardo Futscher Pereira O Futuro da União Europeia visto a partir de Paris 103 José Filipe Moraes Cabral Breves notas biográficas dos autores 121

3 O Futuro da União Europeia: Olhares de Capitais Europeias António Costa Lobo 1 Entre fevereiro de 2013 e março de 2014 teve lugar um ciclo de palestras sobre o futuro da União Europeia promovido pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica e o Instituto Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Estas palestras, cujos textos estão reunidos na presente publicação, foram proferidas pelos Embaixadores de Portugal em Madrid, Roma, Londres, Berlim, Dublin e Paris, devendo ainda registar-se a colaboração prestada a esta iniciativa pelo nosso Representante Permanente junto da União Europeia, Embaixador Domingos Fezas Vital. É certamente desnecessário salientar a importância prática do tema ou o interesse teórico das questões que o mesmo suscita. Acrescentarei apenas que a sua atualidade é reforçada pelos desafios de vária ordem, designadamente nas áreas da economia e da segurança internacional, com que a Europa tem sido confrontada nos últimos tempos. O tratamento do tema ficou sem dúvida enriquecido em virtude de ter sido analisado a partir de diferentes capitais europeias, o que permitiu cobrir de forma mais completa, e com a utilização de dados a que é difícil ter acesso, aspetos que especificamente dizem respeito a determinados países. É claro que a mais-valia que daqui resultou só foi possível graças à competência profissional, e concretamente às qualidades de observação e análise, dos vários oradores. Por outro lado, o facto de os olhares a que se refere o título deste ciclo partirem das capitais não significou que as análises se tivessem limitado às posições e atitudes dos vários governos. Estes, 1. Diretor do Ciclo de Palestras.

4 8 António Costa Lobo naturalmente, têm um papel fundamental nas opções a tomar. Mas não pode esquecer-se e não foi esquecida a influência de ações, opiniões e tomadas de posição por parte de entidades fora da esfera governamental. No Mundo globalizado e interdependente em que vivemos, o futuro de qualquer país ou região tem necessariamente consequências para lá das suas fronteiras. Relativamente ao caso concreto da União Europeia gostaria de destacar três áreas em que a sua ação tem sido particularmente relevante a nível mundial: a manutenção da paz e segurança internacionais, o desenvolvimento, e a proteção dos direitos humanos. Na área da manutenção da paz e segurança são inegáveis os resultados positivos da sua ação diplomática, embora nem sempre servida pelos meios que lhe permitiriam uma maior eficácia. Outra área em que a União Europeia se tem distinguido é a da sua contribuição para o desenvolvimento, inclusive quanto a zonas geograficamente distantes. E tem, seguramente, de incluir-se nesta pequena lista a proteção internacional dos direitos humanos, que deve continuar a constituir uma atividade emblemática da União Europeia. Este ciclo de palestras situou-se num plano académico, visando contribuir para um mais amplo conhecimento e, sobretudo, para uma melhor compreensão dos aspetos mais importantes do tema em análise. Análise de um futuro que para nós não constitui apenas um tema de estudo e de reflexão mas é, ao mesmo tempo, um projeto em cuja construção, enquanto europeus, todos nós de algum modo participamos.

5 Prefácio Manuela Franco Os recentes anos de crise económica e financeira vêm demonstrando como o bem-estar e o futuro dos portugueses está dependente do que se passa no mundo além fronteiras. Com as mudanças radicais no ambiente económico, político e estratégico global, a projectarem impactos potencialmente devastadores na segurança e prosperidade das próximas décadas, a Diplomacia tem revelado grande eficácia no que toca a provocar e obter mudanças no comportamento de outros actores internacionais em áreas relevantes para o apoio dos objectivos da política externa. Este é pois um momento que exige fomentar a análise da política externa, reflectir sobre temas críticos, como sejam as alianças, as políticas de defesa e segurança nacional, a visão sobre a UE, assim como definir e arranjar instrumentos necessários para fazer face aos desafios das mudanças em curso no sistema internacional. E aqui, importa privilegiar a relação com a Academia, fomentando a aproximação e compreensão mútuas, tão mais necessárias em democracia quanto, vista a familiaridade com que as pessoas lidam com a política interna, a política externa aparece, frequentemente, ou como supérflua ou como remota, no mínimo algo diferente, exigindo ferramentas próprias para ser compreendida e gerida com competência. É neste espírito que o Instituto Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros tem procurado contribuir para o debate público sobre a acção externa de Portugal e as múltiplas formas de garantir a prossecução dos interesses nacionais. O ciclo de conferências sobre O Futuro da UE: Olhares de Capitais Europeias que o Instituto de Estudos Políticos agora dá à estampa é justamente

6 10 Manuela Franco um modo de prosseguir essa reflexão. Aqui, um conjunto de Embaixadores de Portugal partilha, com um público alargado, as suas reflexões sobre este período de incerteza crítica nas políticas europeias, cumprindo uma das principais tarefas de um enviado diplomático, a tarefa subtil e incerta de aviso oportuno de tendências adversas.

7 Prefácio Lívia Franco Os investigadores e estudiosos da política internacional não usam com muita frequência os relatórios e as análises dos diplomatas em funções. Em geral estes não são públicos, os que o são escasseiam, mas, principalmente, preferem dar prioridade a ensaios académicos e peças jornalísticas. A contra corrente, a leitura dos textos da presente coletânea mostrará como as narrativas diplomáticas são valiosas, senão mesmo indispensáveis, à reflexão séria e completa das questões externas. O embaixador é um observador por excelência. Ao longo da sua carreira, por inerência de funções, narra a realidade que o rodeia, coligindo em relatórios, memorandos e análises os factos observados. Essa é a sua atividade quotidiana, a sua rotina. O que quer dizer que, para além de observar, o Embaixador passa a sua carreira com a pena na mão. E não obstante escrever muito, ele publica pouco. Não sendo à partida protagonista do theatrum mundi, o Embaixador está contudo na primeira fila, testemunhando os momentos fundacionais, as crises, as transformações. Assiste in loco aos eventos que vão fazendo a História, interpretando e descodificando a evolução dos acontecimentos (sendo que por vezes ajuda a fazer História, passando nesses casos a ser também protagonista). O Embaixador é o outro, o estrangeiro, com o olhar mais objetivo: ele está no seu posto suficientemente próximo para compreender o país em que vive, mas distante quanto baste para ter um olhar de fora. Daí consegue distinguir as diferentes opiniões, as várias tendências e as forças opostas em jogo. Os postos vão-se sucedendo e o Embaixador continua a seguir os países por onde passou, a acompanhar aquelas situações, se calhar agora de outro ângulo, de outra perspetiva, através do efeito moderador do tempo. Este é o olhar do Embaixador.

8 12 Lívia Franco O Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa e o Instituto Diplomático desafiaram, sob a direção veterana do Embaixador António Costa Lobo, sete dos mais reputados Embaixadores de Portugal, ao longo de um ano e em sucessivas palestras, a aplicarem esse seu olhar sobre aquela que é, pelo menos para o velho continente, a interrogação central deste início do século XXI: qual o futuro da União Europeia? Como olham as diferentes capitais europeias para esta questão? A Europa debatida neste ciclo de palestras está bem distante daquela Europa que se começou a construir em Já não se compõe apenas de seis países membros mas de vinte e oito. Atravessou entretanto o Canal da Mancha, os Pirenéus, as Portas de Brandeburgo e o Adriático. As Trente Glorieuses são uma miragem do passado e o seu mercado desacelerou fortemente. O eixo Paris-Bona/Berlim desequilibrou-se, capitais como Londres, Varsóvia e Madrid querem falar mais alto. Quinhentos milhões de cidadãos insistem em participar ativamente no seu processo político. E, no entanto, paradoxalmente, trata-se da mesma Europa. Uma Europa que quer fortalecer todos e cada um dos seus Estados-Membros. Uma Europa que quer garantir mais liberdade mas também maior igualdade, segurança e justiça aos seus cidadãos. Uma Europa assente em equilíbrios constantemente negociados entre dinâmicas europeias e dinâmicas internas, países grandes e países mais pequenos, Estados fortes e Estados fracos. Uma Europa que é presa constante de nacionalismos xenófobos e populismos não democráticos e altamente demagógicos, sejam eles o Aurora Dourada, o Ukip, o Front National, o AfD ou o Movimento 5 Estrelas de Grillo. A União Europeia é o conjunto de todas estas especificidades e de todas estas diferenças e semelhanças relatadas e explicadas pelos nossos Embaixadores nas páginas que se seguem. Como refere o Embaixador Manuel Lobo Antunes na sua intervenção, não há só uma Europa mas uma pluralidade delas, não apenas uma única ideia de Europa, mas várias. O talento dos Embaixadores-palestrantes deste ciclo revela-se com especial acuidade neste ponto: de que a Europa dos 28 é essencialmente diversidade e pluralidade, e, simultaneamente, um projeto comum em construção que tem sido no seu mais de meio século de existência profundamente transformador da realidade europeia. O reconhecimento desse facto é transversal a todas as análises contidas nesta coletânea. Não obstante, ele é especialmente evidente nos olhares que partem de Madrid, de onde escreve

9 O Futuro da União Europeia 13 o Embaixador Álvaro Mendonça e Moura, A regeneração é inseparável da Europeização citando Ortega Y Gasset; de Berlim, de onde insiste o Embaixador Luís de Almeida Sampaio ser muito importante introduzir na nossa tentativa de compreender a Alemanha e os alemães de hoje a noção de que é acima de tudo a convicção profunda de que se faz parte, de que se é parte, de um interesse maior e com sentido, que explica porventura mais do que outras razões ou características muito do sucesso alemão do pós-guerra e do pós-reunificação ; ou de Dublin, de onde nos recorda o Embaixador Bernardo Futscher Pereira a imagem do Tigre Celta dos anos 90, de uma Irlanda que em poucos anos se tornou num dos países com maior rendimento per capita na Europa contrasta com as imagens antigas de fome e de pobreza. Desde o início da integração europeia que o olhar de Londres é diferente. Essa relação ambígua e desconfortável, marcada por sucessivos desencontros e retrações entre o Reino Unido e a União Europeia é dissecada com mestria na análise do Embaixador João de Vallera. Sobretudo, o anunciado compromisso de realização de um referendo relativo à manutenção do país na União, sinal do crescente desencanto dos cidadãos britânicos com o modelo de integração europeia. Outrossim, o olhar de Paris sempre foi muito próprio, revelando-se na convicção de muitos franceses de que a Europa estará bem se a França o estiver e se a França estiver mal também o estará a Europa, tão bem referida e sublinhada na análise do Embaixador José Filipe Moraes Cabral. A montante das idiossincrasias dos olhares nacionais, encontramos todavia um consenso que enquadra todos os olhares: que a UE vive uma crise existencial num momento crucial, enfrentando complexos desafios de natureza interna e externa. Ou seja, vive uma crise a várias dimensões. Destas, as análises dos nossos Embaixadores destacam constantemente duas, a saber, a crise do euro e a crise institucional. Às ineficiências mais ou menos evidentes da mecânica das instituições da União e ao problema das três Europas do ponto de vista monetário (países do euro, países que ainda não aderiram à moeda única e países opting out), juntam-se ainda uma crescente falta de competitividade global e uma descrença galopante dos cidadãos. Como compreender estes problemas? Como responder-lhes? Até onde é possível ir? As reflexões que se seguem foram escritas ao sabor dos acontecimentos e são ilustradas por eles. E, contudo, vão mais longe que o presente

10 14 Lívia Franco imediato, revelando os dilemas de fundo de uma Europa que se vem construindo passo a passo na esteira do método Monnet. Uma Europa que sabe que só pode ter prosperidade em paz e liberdade. Que a Democracia não se resume a aspetos formais e slogans ocos. E, finalmente, que a narrativa do declínio é reversível e depende em grande parte da verdadeira liderança política. Em especial, o que os magníficos textos que se seguem mostram é que a Europa está longe de ser irrelevante, que ela não é apenas História e que tem de ser futuro.

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