Audiometria Tonal de Alta-Frequência (AT-AF) em crianças ouvintes normais

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1 Audiometria Tonal de Alta-Frequência (AT-AF) em crianças ouvintes normais Palavras Chave: Audiometria, limiar auditivo, criança. Introdução: Além do exame audiométrico convencional, que testa as freqüências entre 250 e 8000 Hz, um outro procedimento pode ser utilizado para avaliar a audição nas ultrafreqüências. Neste procedimento, conhecido por audiometria tonal de altas freqüências (AT-AF), o indivíduo tem sua sensibilidade auditiva mensurada na faixa de freqüência entre 9000 e Hz, dependendo do audiômetro utilizado. Há pesquisas que apontam a AT-AF como um instrumento para o diagnóstico precoce de alterações auditivas provenientes de alguns agentes etiológicos, tais como o envelhecimento, exposição a ototóxicos, a ruído ocupacional, seqüela de otite média, monitorização da audição em pessoas com insuficiência renal, avaliação dos distúrbios de processamento auditivo e investigação do comprometimento auditivo em familiares de deficientes auditivos de origem genética (CARVALLO et al., 2003; MOMENSOHN-SANTOS et al., 2005). A sensibilidade auditiva em altas freqüências é importante para a compreensão da fala, sendo assim, muitas poderão ser as conseqüências de uma privação sensorial na fase de aquisição de fala, pois o desenvolvimento da linguagem oral depende do canal sensorial auditivo. Os estudos a respeito de padrões de normalidade para a AT-AF em crianças são escassos. Há a necessidade de parâmetros de referência para futuras comparações com o limiar de audibilidade para as altas freqüências em crianças de risco a atrasos no desenvolvimento de fala e linguagem, como por exemplo, crianças expostas a medicamentos ototóxicos, com histórico de otite média de repetição e queixas de aprendizagem. Objetivo: estabelecer padrão de referência para os limiares de audibilidade nas altas freqüências em crianças audiologicamente normais. Casuística e Método: após aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa participaram da pesquisa 31 crianças de ambos os gêneros, 12 do gênero masculino e 19 do feminino, com idade entre 8 e 12 anos (X=10,16 anos). Como critério de inclusão, as crianças deveriam apresentar: audiometria tonal limiar convencional e logoaudiometria normais, curva timpanométrica tipo A em ambas orelhas e presença de reflexos acústicos contralaterais em 500, 1000, 2000 e 4000Hz. Os limiares auditivos foram obtidos com o

2 equipamento Unity (Siemens), com os fones de ouvido HDA 200 da marca Sennheiser. De acordo com o modelo do equipamento utilizado, as altas freqüências pesquisadas foram 9kHz, 10kHZ, Hz, Hz, 14 e 16kHZ. As medidas da imitância acústica foram realizadas no equipamento AZ7 (Interacoustics), com fones de ouvido TDH 39P. Para comparação dos limiares de audibilidade em altas-frequências intra e inter indivíduos com relação à variável gênero e orelha foram aplicados os testes estatísticos: teste t, Mann-Whitney e Wilcoxon. A variabilidade dos limiares tonais nas diferentes freqüências foi analisada pelo teste Kruskal-Wallis. Resultados: As médias dos limiares de audibilidade (db) para AT-AF foram 8,9 (9kHz); 7,1 (10kHZ); 8,1 (11.200Hz), 5,6 no gênero feminino (12.500Hz) e no gênero masculino de 8,7 para orelha direita e 3,7 para esquerda; -2,6 para o feminino e 2,5 para o masculino (14.000Hz) e -4,0 (16.000Hz). As tabelas 1 e 2 apresentam a média, a mediana, o mínimo e o máximo dos limiares de audibilidade nas altas freqüências para as orelhas direita e esquerda, respectivamente. Houve diferença no grupo masculino para os limiares tonais em 12.5kHz (p=0.0456) com relação à variável orelha analisada. Houve diferença com relação à variável gênero para a freqüência de 14kHz (p=0.0195). Houve diminuição dos valores dos limiares de audibilidade ao longo das freqüências com diferença na análise da variabilidade dos limiares tonais para as freqüências de 14 e 16kHz (p<0,05). Tabela 1. Análise descritiva dos limiares de audibilidade nas altas freqüências para a orelha direita nos gêneros masculino e feminino. Cód. Variável Gênero N Média Mediana Mínimo Máximo X Hz OD masc 12 10,0 7, fem 19 9,5 10, X Hz OD masc 12 10,0 7, fem 19 6,6 5, X Hz OD masc 12 12,5 7, fem 19 7,6 5, X Hz OD masc 12 8,8 7, fem 19 5,5 5, X Hz OD masc 12 2,9-5, fem 19-3,2-5, X Hz OD masc 12 0,0-7, fem 19-6,6-10,0-10 5

3 Tabela 2. Análise descritiva dos limiares de audibilidade nas altas freqüências para a orelha esquerda nos gêneros masculino e feminino. Cód. Variável Gênero N Média Mediana Mínimo Máximo X Hz OE masc 12 8,3 7, fem 19 7, X Hz OE masc 12 8,3 7, fem X Hz OE masc 12 7,1 7, fem 19 6, X Hz OE masc 12 3,8 7, fem 19 5, X Hz OE masc 12-0, fem 19-2, X Hz OE masc , fem 19-6, Os gráficos 1 e 2 ilustram a análise descritiva (média, mediana, mínimo e máximo) dos limiares de audibilidade na população estudada. Gráfico 1. Análise descritiva (média, mediana, mínimo e máximo) dos limiares de audibilidade na população estudada para a orelha direita.

4 Gráfico 2. Análise descritiva (média, mediana, mínimo e máximo) dos limiares de audibilidade na população estudada para a orelha esquerda. Discussão: O exame audiométrico convencional avalia de forma incompleta a capacidade de resposta da base da cóclea, local este, freqüentemente acometido por alterações hereditárias e adquiridas. A maior vulnerabilidade desse seguimento da orelha interna decorre de sua maturação mais precoce, das diferenças celulares regionais, de mecanismos cocleares específicos para cada freqüência estimulada, que deflagra mecanismos de ativação da membrana basilar, da proximidade da janela oval e redonda, da composição bioquímica e dos níveis de vascularização ao longo do ducto coclear, fator esse que permite uma exposição mais intensa às flutuações de pressão e toxinas. É de grande importância conhecer o padrão de resposta coclear nas altas freqüências uma vez que há comprovação de que determinadas doenças causam dano coclear nesta região. Este conhecimento pode incentivar a adoção de medidas de controle e prevenção dessas complicações e permite investigar métodos para impedir a expansão da lesão coclear em algum ponto de seu desenvolvimento fisiopatológico (REIS et al. 2002). Diferente das freqüências de 250 a 8000Hz, ainda não há uma padronização para os limiares de audibilidade nas altas freqüências, e não encontramos na literatura especializada padrões

5 de referência para a faixa etária por nós estudada. Mesmo assim, nossos resultados foram semelhantes a estudos com faixa etária distinta, para diferenças existentes entre os limares tonais para a AT-AF quando comparado gênero e orelha. O fator gênero apresentou diferença significante para a freqüência de 14KHz, sendo o gênero masculino com limiares piores que o feminino, resultado semelhante aos estudos de CARVALLO et al. (2003) e de PEDALINI et al. (2000). A melhora da sensibilidade auditiva observada a partir de 14kHz também foi observada por STELMACHOWICZ et al. (1989), SHAYEB et al. (2003) e BARBOSA DE SÁ et al,(2007). Na análise da freqüência de 12.5kHz, encontramos diferença significante entre as orelhas direita e esquerda no gênero masculino o que pode dificultar o estabelecimento de um mesmo valor de referência para esta freqüência. A diferença significante encontrada na análise da variabilidade dos limiares tonais quando comparados às freqüências de 14 e 16kHz (p<0,05), refletem a expressiva melhora dos limiares em altas freqüências, corroborando o fato da importância desta faixa de freqüências para a compreensão da fala. Conclusão: Os dados obtidos podem servir como referência para uma população com características homogêneas quanto ao perfil audiológico, faixa etária estudada e faixa de freqüências analisadas. Referências: 1. Carvallo RMM, Koga MC, Carvalho M, Ishida IM. Limiares auditivos para altas freqüências em adultos sem queixa auditiva. Acta Otolaryngol, 2003; 21(1): Momensonh-Santos TM, Russo ICP, Assayag FM, Lopes LQ. Determinação dos Limiares Tonais por via aérea e por via óssea. In: Momensonh-Santos TM, Russo ICP. Prática da Audiologia Clínica. São Paulo: Cortez; p Reis HG, Garcia ADC, Martin-Polo T, Moussale SK. Utilidades clínicas da audiometria de altas freqüências. Revista Médica PUCRS, 2002; 12(2): Pedalini MEB, Sanches TG, D Antonio A, D Antonio W, Balbani A, Hachiya A. Média dos Limiares Tonais na Audiometria de Alta Freqüência em indivíduos normais de 4 a 60 anos. Pró- Fono, 2000; 12(2): Stelmachowicz PG, Beauchaine KA, Kalberer A, Jesteadt W. Normative thresholds in the 8- to 20-KHz range as a function of age. J Acoust Soc Am, 1989; 86(4): Sahyeb DR, Costa Filho AO, Alvarenga KF. Audiometria de alta freqüência: estudo com indivíduos audiologicamente normais. Rev Bras Otorrinolaringol, 2003; 69(1): Barbosa de Sá LC, Lima MAMT, Shiro T, Frota SMMC, Santos GA, Garcia TR. Avaliação dos limiares de audibilidade das altas frequências em indivíduos entre 18 e 29 anos sem queixas otológicas. Rev Bras Otorrinolaringol., 2007; 73(2):

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