Língua portuguesa: ultrapassar fronteiras, juntar culturas

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1 A ORGANIZAÇÃO ARGUMENTATIVA DO TEXTO DE PRÉ- UNIVERSITÁRIOS: MOVIMENTOS DISCURSIVOS DA MOBILIZAÇÃO DE SABERES Eliana Vasconcelos da Silva ESVAEL 1 RESUMO: Como parte de um processo de avaliação classificatória, a redação de vestibular é uma prática letrada socialmente situada em condições especificas de letramento. Os enunciados do gênero redação de vestibular são produzidos numa situação de enunciação altamente responsiva e, por isso, revelam uma relação dialógica peculiar, em que determinadas marcas lingüísticas mostram as representações desses estudantes diante do seu texto e do seu interlocutor, o examinador. Nosso objetivo é investigar, por meio de expressões qualificadoras, as estratégias argumentativas utilizadas pelos vestibulandos para construir o ponto de vista dominante na organização do texto e a mobilização de saberes envolvidos nessa construção. O corpus é composto de 100 redações elaboradas por candidatos ao curso de Letras da Universidade de São Paulo Brasil, por ocasião do vestibular do ano de 2006, cujo tema era o trabalho. A fundamentação teórica alia Bakhtin, para discutir a questão do gênero redação de vestibular, a Ducrot e a Anscombre e Ducrot, para discutir os conceitos relativos à argumentação. Os resultados, ainda parciais, revelam que, nos desdobramentos discursivos das estratégias argumentativas marcadas por expressões qualificadoras, pode-se apreender o encontro imprevisto (?) dos diferentes saberes mobilizados pelos vestibulandos. PALAVRAS-CHAVE: redação de vestibular; estratégias argumentativas; expressões qualificadoras; ponto de vista dominante; mobilização de saberes. Considerações Iniciais Este estudo 2 tem como interesse a análise de um gênero discursivo específico, a redação de vestibular 3, elaborada por candidatos ao curso de Letras, por ocasião do 1 Doutoranda pela Universidade de São Paulo; Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas; Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas. Programa de Pós-graduação em Filologia e Língua Portuguesa. Rua do Lago, 717 Cidade Universitária - São Paulo - SP Brasil - CEP Trata-se de um recorte da minha pesquisa de doutoramento. 3 Vestibular é o exame que possibilita o acesso às universidades brasileiras. 49

2 exame da FUVEST O vestibular é um evento singular da instituição escolar, uma vez que marca um episódio importante na vida do estudante: o acesso ao ensino superior. Em se tratando de vestibular da FUVEST, é ainda mais marcado porque regula o acesso a uma universidade pública, representante das instituições educacionais de boa qualidade. Trata-se da investigação da escrita em um contexto de avaliação. A redação, apesar de sua circulação restrita na sociedade, é uma prática social; portanto, analisamos a língua em seu uso concreto. A configuração do corpus A prova de redação 5 que deu origem ao corpus da pesquisa teve como tema o trabalho, tratado sob diferentes visões, por meio de uma coletânea composta por três fragmentos de textos, que reproduzimos a seguir: Texto 1: O trabalho não é uma essência atemporal do homem. Ele é uma invenção histórica e, como tal, pode ser transformado e mesmo desaparecer. Texto 2: Adaptado de A. Simões Há algumas décadas, pensava-se que o progresso técnico e o aumento da capacidade de produção permitiriam que o trabalho ficasse razoavelmente fora de moda e a humanidade tivesse mais tempo para si mesma. Na verdade, o que se passa hoje é que uma parte da humanidade está se matando de tanto trabalhar, enquanto a outra parte está morrendo por falta de emprego. Texto 3: M.A. Marques 4 FUVEST: Fundação Universitária para o Vestibular. Trata-se do exame que dá acesso à Universidade de São Paulo USP. 5 A prova de português completa está disponível no site da FUVEST: <http://www.fuvest.br/vest2006/provas/2fase/por/por06.stm>, acessado em fevereiro

3 O trabalho de arte é um processo. Resulta de uma vida. Em 1501, Michelangelo retorna de viagem a Florença e concentra seu trabalho artístico em um grande bloco de mármore abandonado. Quatro anos mais tarde fica pronta a escultura David. Adaptado de site da Internet O terceiro texto está acompanhado da imagem de uma escultura criada por Michelangelo, Davi. Além dos fragmentos, há também uma instrução para a elaboração da redação, cuja comanda é relacionar esses três fragmentos e elaborar uma dissertação, argumentando sobre as idéias neles contida e outras que o candidato julgue pertinentes. O objetivo desta apresentação é destacar algumas das estratégias argumentativas utilizadas pelos candidatos, para construir o ponto de vista dominante na organização do texto. Trata-se de analisar os modos qualificar o trabalho, verificando o que se pode apreender de seus desdobramentos discursivos. Pressupostos Teóricos Para compreender melhor o processo da produção escrita e especificamente da escrita de uma redação de vestibular, partimos da abordagem dos dados na perspectiva enunciativo-discursiva. Para isso, tomamos a construção de ponto(s) de vista na organização do texto como movimentos de posicionamentos, ou posturas enunciativas (MAINGUENEAU, 2004) que, a partir de lugares discursivos, o sujeito pode se constituir como autor. Esses lugares discursivos são passíveis de observações de elementos concernentes ao enunciador, bem como da permeabilidade dos discursos e saberes que os contornam. Na análise do processo de construção do ponto de vista dominante na organização do texto, que envolve a organização argumentativa interna ao texto e sua 51

4 relação com os tipos de saberes mobilizados em sua construção, consideramos a presença de elementos qualificadores como uma estratégia argumentativa e/ou como parte de estratégias argumentativas que caracterizam a organização do texto. Buscamos em Anscombre e Ducrot (1983) e Ducrot (1987 [1976]) a noção de orientação argumentativa e alguns aspectos da teoria polifônica da enunciação, a saber, a noção de locutor e de enunciador. Esclarecemos que este estudo insere-se no campo da análise do discurso e, como tal, não é o estudo da argumentação na língua nela mesma; pelo contrário, buscamos apreender o gênero redação de vestibular em sua dimensão social e em seu caráter eminentemente dialógico (BAKHTIN, 1986, 1992), ou seja, aquilo que diz respeito a sua determinação sócio histórica e ao acontecimento social do qual os enunciados das redações integram. Faz-se necessário, então, investigar a ligação dos argumentos com as diversas fontes de saber que os constituem e como essa ligação está inscrita nos textos. Os enunciados das redações apresentam uma estrutura dissertativoargumentativa, o que pressupõe construções complexas em que se tomam posições diante de um dado tema e, ao mesmo tempo, orientam para uma conclusão. Destacamos para este trabalho, as construções concernentes aos elementos qualificadores que, a nosso ver, são utilizadas como estratégias argumentativas com a função de orientar a dissertação-argumentação para um determinado ponto de vista. Nesse sentido, podemos dizer que temos nos enunciados das redações elementos qualificadores cuja função primeira é qualificar o referente o trabalho, delimitando-o ou explicitando suas características. Ao qualificar o referente, o sujeito assume posicionamentos e mobiliza determinados saberes para sustentar esses posicionamentos. Podemos dizer que os elementos qualificadores são lugares privilegiados para observarmos os saberes 52

5 mobilizados pelos estudantes, bem como para apreendermos os desdobramentos discursivos dessa mobilização. Para Ducrot e Anscombre (1983), todo enunciado tem uma orientação argumentativa em defesa de uma conclusão R. Tomamos os qualificadores como parte das seqüências argumentativas que constroem uma orientação em defesa de uma determinada conclusão. A orientação argumentativa postulada pelos autores é ancorada na teoria polifônica da enunciação, em que Ducrot (1987 [1976]), ao contestar a unicidade do sujeito falante, concebe o enunciado tomado por vários sujeitos: os locutores e os enunciadores. Locutor é o ser do discurso, que o autor difere de sujeito falante o ser empírico no nosso caso, o vestibulando. Além dos locutores, estão presentes nos enunciados os enunciadores. Para o autor, os enunciadores servem para fazer aparecer no enunciado um sujeito diferente não somente daquele que fala de fato (romancista/sujeito empírico/falante [o vestibulando]), mas também daquele de que se diz que fala (narrador/locutor) (DUCROT, 1987 [1976], p. 197). Eles ocupam, no enunciado, diferentes lugares, diferentes posições, ou seja, diferentes pontos de vista. E entram em cena, segundo o autor, para que o locutor possa dirigir-se ao interlocutor. Para nós, a argumentação se constitui no jogo entre esses enunciadores, entre os pontos de vista que, ao entrarem em cena, aproximam-se ou distanciam-se do locutor. Nesse movimento, o locutor assume posicionamentos que podem se apresentar sob três perspectivas em relação aos enunciadores: (a) a de solidarizar-se a eles; (b) a de refutálos; (c) ou mesmo a de não tomar posição diante deles. Vemos esses posicionamentos do locutor como lugares discursivos dos quais transparecem, nos enunciados das redações, discursos singulares em função do acontecimento social que determinou o gênero estudado: o exame vestibular. 53

6 Nesse sentido, o gênero redação de vestibular é visto como processo e não como produto, uma vez que envolve a relação do sujeito com a língua e com a história, porque é resultado da interação social, da relação entre o eu e o tu. Em função dessa relação, o sujeito constrói imagens de si e imagens do outro, o seu interlocutor. Imagens que estão inscritas nos enunciados das redações e revelam as representações sociais dos vestibulandos: representações de si e do outro, representações da escrita, bem como representações sociais do trabalho. A construção de pontos de vista na organização do texto se dá a partir dessas representações, que são mediadas pela situação de enunciação, ou seja, pela dimensão social do enunciado e por sua finalidade discursiva. É nesse sentido que concebemos a perspectiva teórica adotada: enunciativodiscursiva. Nessa perspectiva, concebemos o ponto de vista extrapolando o domínio do enunciado tal como concebido na semântica argumentativa (DUCROT, 1987 [1976]) para chegar ao domínio do enunciado concreto, ligado ao gênero (BAKHTIN, 1992). Isso porque o sentido do enunciado não está na língua, em si mesmo, mas nas determinações das posições ideológicas, resultantes do processo sócio-histórico da sua produção (PÊCHEUX, 1997). Portanto, se, por um lado, com os estudos enunciativos pretendemos identificar a hierarquização dos enunciadores em busca de um dominante, a fim de encontrar as estratégias adotadas pelos candidatos para posicionar-se diante do tema dado; por outro, a perspectiva discursiva permitirá observar como os diferentes saberes, provenientes de formações discursivas determinadas, intervêm nas ligações e nas fissuras argumentativas do texto. As posturas enunciativas, ou seja, os pontos de vista se constituem, assim, no interior das formações discursivas, mas também na 54

7 interdiscursividade, pois é em função dos já-ditos, em função do outro que os discursos se constituem. Vimos em Ducrot (1987 [1976]) que o locutor introduz enunciadores nos enunciados para poder dirigir-se ao outro. Entretanto, o enunciado não é somente dirigido ao outro, mas tomado pelas palavras do outro. Cada ponto de vista é determinado na correlação com outros pontos de vistas tomados em outros enunciados: O enunciado está repleto dos ecos e lembranças de outros enunciados (BAKHTIN, 1992, p. 316). Escrevemos o que já foi escrito, dizemos o que já foi dito. Os ditos, bem como os modos de dizer esse dito, são determinados pela enunciação, como afirma Maingueneau (1991, p ): cada enunciado, antes de ser um fragmento da língua a analisar, é o produto desse acontecimento único, sua enunciação, relacionado a uma situação de enunciação cujos parâmetros são as pessoas o tempo e o lugar da comunicação. Analisar a redação de vestibular, a partir dos elementos qualificadores é, para nós, analisar não um fragmento da língua, mas o enunciado como resultado de um acontecimento singular na história: o exame de redação do vestibular. Nesse acontecimento único, o lugar de onde se fala e os papéis sociais dos interlocutores estão bem definidos e estão impregnados com seus pré-construídos, com suas representações enunciativas e discursivas. É nesse espaço, enunciativo-discursivo, que o sujeito se constitui. Ele se constrói no seio de seu próprio discurso, na interação, deixando marcas, pistas da configuração de pontos de vista ora dominantes, ora concorrentes na organização do texto. Assim, como parte de um processo de avaliação classificatória, a redação de vestibular é uma prática letrada, socialmente situada em condições especificas de 55

8 letramento. Os enunciados desse gênero são produzidos numa situação de enunciação altamente responsiva e, por isso, revelam uma relação dialógica peculiar, em que determinadas marcas lingüísticas mostram as representações desses estudantes diante do seu texto, do seu interlocutor, o examinador, bem como do próprio trabalho, tema dado pelo enunciado da prova de redação. Nessas representações estão inscritos diferentes posicionamentos, diferentes pontos de vista que portam diferentes saberes com seus valores e crenças. Saberes que o vestibulando julga como de autoridade, porque o próprio evento o exame vestibular orienta o que dizer e o como dizer. Analisar os enunciados das redações enquanto gênero (enunciado concreto) é considerar as interações e as relações interdiscursivas, uma vez que eles respondem aos enunciados anteriores e antecipam os enunciados de seus interlocutores: O enunciado é um elo na cadeia de comunicação verbal e não pode ser separado dos elos anteriores que o determinam, por fora e por dentro, e provocam nele reações-respostas imediatas e uma ressonância dialógica (BAKHTIN, 1992, p. 320). Como reação-resposta aos enunciados dos fragmentos da coletânea, podemos dizer que os vestibulandos respondem ao enunciado da prova de duas maneiras: a) pelo modo de qualificar o trabalho e, b) pelos tipos de saberes por eles mobilizados. A partir dessas respostas, depreendemos os desdobramentos discursivos das estratégias argumentativas marcadas nos enunciados por expressões qualificadoras. Alguns resultados Explicitar os movimentos discursivos da mobilização de saberes presentes na organização argumentativa da redação de vestibular significa considerar a cena enunciativa que a gerou, uma vez que é a partir dela que os sujeitos se posicionam. 56

9 Apresentamos, assim, alguns resultados que revelam os posicionamentos enunciativos e os desdobramentos discursivos das estratégias argumentativas marcadas pelos modos de qualificar o trabalho nas redações de vestibular. Observamos nos enunciados das redações que as expressões qualificadoras deixam transparecer as formações discursivas que representam seus enunciadores e revelam seus posicionamentos diante do tema dado, o trabalho. Estão presentes nos enunciados das redações dois modos dicotômicos de qualificar o trabalho ou as relações entre o homem e o trabalho: (1) com proposições positivas e, (2) com proposições negativas. No primeiro modo, encontramos uma formação discursiva cujo discurso qualifica o trabalho como imprescindível, essencial para a sobrevivência e o que dignifica o homem, como podemos observar, nos fragmentos a seguir: [1] 6 [...] o trabalho é essencial para a sobrevivência das pessoas. (T09) [2] [...] o trabalho é um processo indispensável. (T95) [3] [...] [o trabalho é] elemento dignificante de ser humano. (T97). Nos exemplos [1] a [3], o locutor introduz um enunciador cujo ponto de vista engrandece o trabalho. Trata-se de um discurso revelador da ideologia capitalista que toma o trabalho como a razão de viver. 6 Os exemplos são apresentados com recortes, pois a FUVEST não autorizou a publicação integral dos textos das redações. 57

10 No segundo modo de qualificar o trabalho, o enunciador assume um ponto de vista que desqualifica o trabalho e a sua relação com o homem, revelando um discurso que toma o trabalho como obrigação, castigo, o responsável pelo males do mundo: [4] [...] o trabalho é uma obrigação. (T05). [5] Visto na maioria das vezes como uma obrigação, um fardo a ser carregado [...]. (T08) [6] [...] a forma como o sistema capitalista e a população elitista conduziu o trabalho é o motivo dos piores problemas da sociedade [...]. (T57). Esses dois modos dicotômicos de qualificar o trabalho ou a sua relação com o homem revelam as representações sociais do vestibulando, que vê o trabalho ora como bom, gratificante, ora como ruim, degradante. São representações tomadas do senso comum e que traz para a cena enunciativa um saber mobilizado em função da relação que o vestibulando estabelece com o trabalho. Como parte das estratégias argumentativas do vestibulando, o modo de qualificar o trabalho revela também sua preocupação com o interlocutor. Como dissemos anteriormente, os enunciados das redações foram produzidos numa situação de enunciação altamente dialógica por se tratar de uma avaliação. Nesse sentido, destacamos a presença de pistas que evidenciam as imagens que o sujeito constrói de si e de seu interlocutor, ao adotar como estratégia argumentativa, por exemplo, a qualificação do trabalho de arte tema do terceiro fragmento dado pela coletânea da prova de redação com proposições positivas: [7] 58

11 O trabalho do artista é um processo onde transforma-se algo aparentemente sem significado em algo belo. (T53) [8] A poesia, a música, a arte em geral, pode ser considerada uma forma sublime de trabalho que de uma maneira ou de outra atinge todos à sua volta. Os grandes gênios artísticos fazem com que, o que para muitos pode se tornar cansativo e entediante, algo que seja extremamente precioso aos olhos e ouvidos. (T67) [9] Portanto, o trabalho pode causar conseqüências boas e ruins. As negativas são devido a grande quantidade de tempo desnecessária que uma pessoa pode aderir e as positivas são devido às expressões artísticas. (T83) Além de qualificar o trabalho de arte num eixo eufórico, o vestibulando classifica-o como o trabalho ideal, como aquele que deveria servir de modelo para todos os tipos de trabalho: [10] O mundo não tem de esperar pelo dia que não haverá mais trabalho, nem que todos sejam artistas [...], deve-se almejar o prazer naquilo que se faz, a paixão pela atividade que exerce e o amor de produzir algo útil ao meio que se vive. (T13) [11] Que ele traga mais beleza à vida, como o trabalho dos grandes artistas. (T23) [12] [...] acredita-se que o trabalho pode sim evoluir, [...] e será como uma obra de arte nas mãos dos homens [...]. (T29) [13] A solução para tantas discrepancias deve ser buscada em um processo delicado e eficaz como na formulação de uma obra de arte. (T62) 59

12 Estão também inscritos nos enunciados das redações, saberes mobilizados pelos vestibulandos. Saberes que denotam igualmente a imagem que querem mostrar de si ao examinador, como podemos observar em [14]: [14] Um exemplo típico dessa situação é a ilha de Manhattan, nos Estados Unidos, onde podem-se ver altos executivos dos grandes escritórios internacionais trabalhando muitas horas por dia, convivendo com os desempregados que ficam pelas ruas na eterna esperança de obter um emprego, por mais simples e humilhante que esse possa ser. (T06) No exemplo [14], o locutor, para dirigir-se a seu interlocutor, introduz enunciadores que marcam no enunciado discrepâncias entre trabalhadores bem empregados e aqueles sem emprego. Ele tenta construir, desse modo, a imagem de um sujeito crítico, que sabe posicionar-se diante das mazelas sócio-econômicas da sociedade. As expressões qualificadoras traduzem um discurso que circula na esfera midiática e revelam um sujeito preocupado com sua imagem diante do examinador: trata-se da construção da imagem de um sujeito bem informado, que tem conhecimentos de fatos internacionais, que não apenas lê jornais, mas lê e se posiciona criticamente diante das informações dadas, como é comumente recomendado aos vestibulandos. Nos exemplos [15] e [16], o sujeito mobiliza saberes da esfera literária, ao fazer referência aos livros de Oscar Wilde e de Machado Assis. Em ambos os exemplos, marcados por expressões qualificadoras, principalmente as relativas, o sujeito enuncia detalhes das obras desses autores, como podemos notar, a seguir: [15] [o texto] intitulado A alma do homem sob o Socialismo, escrita pelo irlandês Oscar Wilde. Nesse, Wilde prevê uma utopia artística, na qual homens serão dispensados de seus empregos para que possam se dedicar a suas habilidades 60

13 criativas de forma livre de qualquer tirania e tédio. Isso só virá [...] com uma revolução, na qual os excluídos da sociedade atual se levantarão e irão exigir os seus direitos a uma vida mais digna e melhor. (T13) [16] Trabalhar é algo necessário, em tese. Conhecemos a personagem "Brás Cubas" de Machado de Assis, por exemplo, que viveu normalmente sem trabalhar, porém sabemos que esta até pode ser a realidade de famílias ricas, pois na maioria da população que é pobre isto é impossível de ocorrer. (T65) Ao detalhar essas obras, o sujeito enunciador está tentando construir a imagem de um bom candidato, conhecedor de obras literárias. Nesse sentido, mobiliza saberes que julga como de autoridade e, ao mesmo tempo, como saberes valorizados pela instituição escolar. Trata-se de um sujeito que tem a ilusão de, por meio da mobilização desses saberes, construir a imagem de um sujeito leitor, como é exigido pela universidade. Ainda com relação aos saberes julgados como de autoridade, encontramos nos três exemplos a seguir, a mobilização de saberes relacionados a fatos e personagens da história. Nos exemplos [17] e [18], os fatos e personagens citados estão diretamente relacionados com a temática do trabalho, mas aquela ligada à luta do proletariado, do trabalhador: [17] Essa questão [o trabalho] chegou mesmo a ser a força motriz que impulsionava os pais do pensamento econômico, com Karl Marx, Keynes e outros, mas também impulsiona ainda nossos pensadores atuais, nossos líderes sindicais, a igreja e muitos outros extratos da sociedade moderna. (T23) [18] [...] exatamente no ano de 1848, Karl Marx e Friederich Engels lançariam o livro "Manifesto do Partido Comunista" que viria a dar novamente denominações ruins ao trabalho. (T87) Temos nos exemplos [17] e [18] a construção de um ponto de vista que está 61

14 orientado para a valorização do trabalhador. A construção desse ponto de vista é concretizada por meio da mobilização de um saber histórico e bastante singular. O sujeito enunciador tomado por esses outros discursos tentar construir uma boa imagem de si, apropriando-se desses ditos para construir seu ponto de vista: aquele que defende o trabalhador sofredor, o proletariado. No exemplo [19], os saberes mobilizados circulam em outras duas esferas: a religiosa e a popular: [19] o trabalho adquiriu características positivas com o aumento da burguesia que [...] conduziu alguns séculos mais tarde a Reforma Protestante que na figura de João Calvino enobrecia o trabalho e afamaria a máxima "o trabalho dignifica o homem." [...]. (T87) Temos em [19] um enunciador cujo ponto de vista é a defesa daquilo que dignifica o homem, ou seja, o discurso da valorização do trabalho. Para isso, o locutor recorre ao saber popular, marcado no enunciado pelo provérbio, o trabalho dignifica o homem. Entretanto, o ponto de vista dado pelo provérbio, apesar de valorizar o trabalho e o trabalhador, não é o mesmo dado no exemplo anterior [18]. Neste, a relação entre o trabalho e o homem é marcado pela luta contra a exploração do trabalhador, ou seja, o centro da questão é o trabalhador. Enquanto que em [19], trata-se de um discurso que valoriza o trabalho porque ele enaltece o homem. O foco central é o trabalho e não o trabalhador. Esses pontos de vista são enunciados na relação do sujeito enunciador com as formações discursivas que o determinam. Formações discursivas que ora valorizam o trabalho, em detrimento do trabalhador, ora o seu inverso. A mobilização desses saberes, assim, evidencia um sujeito trabalhando com a linguagem e que tenta posicionar-se criticamente diante do tema dado, construindo a 62

15 imagem de um sujeito conhecedor de fatos históricos. Temos nesses exemplos, saberes que os vestibulandos mobilizam a fim mostrar ao examinador seu conhecimento e que possuem certo domínio sobre o tema que disserta. São saberes que circulam em esferas de atividades variadas e são reveladores de seus diferentes letramentos. Podemos, pois, dizer que as expressões qualificadoras com as quais o vestibulando qualifica o trabalho e sua relação com o homem, são lugares privilegiados para apreendermos os tipos de saberes que ele julga como de autoridade. Desse modo, as expressões qualificadoras funcionam como são estratégias argumentativas ou como parte das estratégias argumentativas para construir pontos de vista na organização do texto. Os saberes mobilizados pelos vestibulandos não são aleatórios. Eles lançam mão de saberes para reforçar o ponto de vista que estão construindo. E, sobretudo, mobilizam determinados saberes em função de seu interlocutor, ou melhor, das imagens que ele constrói desse interlocutor, a universidade, representada pelo examinador. Desse modo, os saberes mobilizados emolduram os argumentos e constituem a sua força, conduzindo a orientação argumentativa do enunciado da redação para uma conclusão que ele julga como condizente com o ponto de vista que constrói e organiza em seu texto. Podemos dizer que, enunciativamente, o vestibulando se marca no texto por meio desses modos de qualificar o trabalho ou relação do trabalho com o homem. Ao mesmo tempo, temos movimentos de discursos outros; os já ditos inerentes a todos os enunciados, que são introduzidos nos enunciados das redações por meio dos diferentes enunciadores que se marcam nos texto ora pela qualificação do trabalho com proposições positivas, ora com proposições negativas. Além disso, os tipos de saberes 63

16 mobilizados revelam o funcionamento discursivo da redação de vestibular porque marca um dito e um modo de dizer esse dito. Considerações finais Na totalidade do corpus analisado, encontramos diferentes movimentos discursivos dados pelas expressões qualificadoras e pelos tipos de saberes mobilizados pelos vestibulandos. Vimos que a qualificação do trabalho ou de sua relação com o homem se dá ora com proposições positivas, ora com proposições negativas. Dentre a valorização com proposições positivas, encontramos, também, o discurso da valorização do trabalho de arte, tomado como o tipo de trabalho ideal, que deveria ser modelos para os demais tipos de trabalho. Temos, assim, movimentos discursivos que ora valorizam o trabalho porque ele enaltece, dignifica o homem, ora o desvalorizam porque é a causa da exploração do homem. Trata-se, então, de um jogo enunciativo, com desdobramentos discursivos em que o sujeito toma por estratégias argumentativas os tipos de saberes mobilizados e os modos de qualificar o trabalho. Os diferentes enunciadores que entram na cena enunciativa marcam um sujeito tomado pelas formações discursivas que o determinam. Na construção de pontos de vista, transparecem seu conhecimento de mundo e seu modo de concebê-lo. Transparecem igualmente suas práticas letradas: seu modo de ler a própria coletânea dada pelo exame e seus letramentos advindos de sua formação, seja na instituição escolar ou fora dela. Ao mobilizar determinados saberes em detrimento de outros, o vestibulando leva em consideração a posição de seu interlocutor. Nesse sentido, temos um locutor que se investe de um papel social da posição de vestibulando e é investido de uma posição 64

17 de destinatário a universidade. O movimento discursivo é constituído, assim, em função das imagens que ele quer mostrar de si e das imagens que ele constrói de seu interlocutor. O que nos remete ao princípio dialógico da linguagem, postulado por Bakhtin (1986 [1929]): todo enunciado é dialógico e pressupõe o outro. Além disso, as posições assumidas pelo locutor são correlacionadas em função de outras posições (BAKHTIN, 1992 [1979]). Temos nos dois modos antagônicos da qualificação do trabalho um jogo de posicionamentos, ou seja, pontos de vista que são construídos a partir das imagens que os enunciadores constroem tanto de si como também do outro o examinador (que representa a universidade). Os saberes são mobilizados em função das práticas letradas dos candidatos e determinados pela situação de enunciação. Além disso, são moldados por suas crenças e representações. As redações feitas em situação de vestibular, de um lado respondem à proposição que diz respeito à proposta a ser desenvolvida pelo candidato dada pelo exame. Isto é, fatos de cerceamento da dêixis discursiva, considerada em relação ao enunciador que se coloca prioritariamente como um sujeito deôntico: o aluno deve escrever segundo o tema que é imposto como avaliação a ser executada. No outro pólo da circunscrição da dêixis discursiva da redação do vestibular está o interlocutor, configurado como banca examinadora e que representa a Universidade. Os papéis dos interlocutores e o gênero estão definidos e impostos pelo evento, o exame vestibular. Submisso ou não a essas coerções, encontramos um sujeito trabalhando um dito e um modo de dizer, manifestando posicionamentos, pontos de vista, a partir de outros pontos de vista, para construir um dominante. 65

18 Referências bibliográficas ANSCOMBRE, Jean-Claude et DUCROT, Oswald. L'Argumentation dans la langue. Bruxelles. Liège: P. Mardaga, BAKHTIN, Mikail. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1986 : Os gêneros do discurso. In: Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, p , 1992: DUCROT, Oswald. O dizer e o dito. Campinas: Pontes, MAIGUENEAU, Domenique. L analyse du discours: introduction aux lectures de l archive. Paris : Hachette, Le discours littéraire: paratopie et scène d énonciation. Paris : Armand Colin, PÊCHEUX, Michel. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Trad. Eni P. Orlandi [et al]. 3ª Ed. Campinas-SP: Editora da UNICAMP,

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