Os territórios e suas abordagens de desenvolvimento regional / local. Cleonice Alexandre Le Bourlegat

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1 Os territórios e suas abordagens de desenvolvimento regional / local Cleonice Alexandre Le Bourlegat

2 Complexidade sistêmica e globalização dos lugares A globalidade (conectividade em rede) do planeta e a velocidade no deslocamento de informações, bens e pessoas, não só resulta como tem se tornado o principal meio de difusão da Terceira Revolução científico-tecnológica; Como o atual sistema-mundo se constitui de vários e imbricados níveis e dimensões de organização, tais deslocamentos dão origem a infinitas possibilidades de combinações, sendo impossível prevê-las (regência do princípio sistêmico do acaso); A velocidade e simultaneidade de ações no tempo passaram a se impor na dinâmica desse macro-sistema de alta complexidade e na vida das pessoas; Os lugares se transformaram em abrigo dos nós de diversas redes, assim como de indivíduos e coisas de diferentes culturas do mundo. Eles, portanto, contém em si o global e a complexidade do atual sistema-mundo. São espaços relacionais.

3 Estratégias de desenvolvimento local O grande desafio sistêmico na solução de macro-problemas, seja relativos à natureza (poluição, distúrbio climático, redução da biodiversidade) ou à sociedade (exclusão social, pobreza endêmica, desemprego estrutural, urbanização caótica, segurança alimentar, entre outros) tem dependido, sobretudo, de iniciativas nos lugares. A escala mais adequada a esse desafio sistêmico tem sido aquela organizada para a reprodução da vida humana - os sistemas territoriais locais. O sistema-mundo depende da autonomia relativa desses subsistemas, na obtenção de uma coerência interna para esse processo contínuo e imprevisível de combinações. As estratégias de desenvolvimento sustentável implicam num protagonismo local organizado e negociado de atores com apoio de organizações, para uma ação interativa, mediante aprendizagem coletiva, compartilhando informação e conhecimento. O objetivo é promover inovações sucessivas que impliquem em adaptações constantes desses lugares integrados nas redes globais, frente à velocidade e simultaneidade dos eventos.

4 Sistema de inovação territorial na Era do Conhecimento Atualmente, gerar e disseminar conhecimento a respeito de inovações tecnológicas interessa mais do que seu produto materializado (acervo de máquinas e técnicas). Como as novas tecnologias necessitam se combinar àquelas já utilizadas e à experiência acumulada, num constante esforço de adaptação por combinação, uma atenção especial passou a ser creditada às respostas inovadoras e sinérgicas que emergem dos sistemas territoriais locais. A incorporação, geração e disseminação do conhecimento passou a ser entendida como processo coletivo que implique em organização e interação de empresas e organizações (incluindo especialmente aquelas de ensino e pesquisa). Trata-se, no entanto, de um conceito mais abrangente de inovação na medida em que se valoriza tanto o conhecimento formalizado (conhecimento científico-tecnológico), como o conhecimento enraizado no território, aquele construído nas práticas econômicas e socioculturais (de indivíduos e comunidades, organizações públicas e privadas, entre outros grupos).

5 Inovação na perspectiva do sistema territorial local Um sistema territorial de inovação envolve uma rede de empresas de distintos tamanhos, integradas entre si, com adesão de organizações de apoio. Nesse contexto, a inovação resulta de processos interativos de aprendizagem na combinação de diferentes tipos e fontes de informação e conhecimento. A interação é complexa, já que envolve uma multiplicidade de agentes (empresas, universidades, escolas técnicas, incubadoras, institutos e laboratórios de investigação, câmaras e associações empresariais, departamentos e agências governamentais), sendo condicionada especialmente pelos seguintes fatores (Ferrão, 2000): tipo de informação tecnológica disponível no meio ou no mercado; qualidade dos canais de comunicação entre os agentes - define oportunidades de aprendizagem a cada um deles; competências e capacidades de cada agente no modo de organizar o conhecimento acessado ou produzido, em função de seus objetivos específicos.

6 Informação tecnológica disponível Oportunidades de aprendizagem: comunicação entre diferentes agentes Organização dos processos de aprendizagem: competências e capacidade de usar informação disponível e de gerar nova informação Perspectiva Sistêmica da Inovação territorial João Ferrão, 2000 Conhecimento "localizado"

7 Tipos e fontes de conhecimento de base territorial No processo de organização do conhecimento entram em jogo, basicamente, 2 fontes : (1) Conhecimento tácito - corresponde ao conhecimento específico enraizado no território é acessado por contatos pessoais e se origina de práticas e saberes desenvolvidos pelos indivíduos e empresas nas suas rotinas diárias de trabalho. Esse tipo de conhecimento pode ter 2 fontes: (1) interna emerge dentro de uma organização; (2) externa já se encontra disseminado no ambiente territorial (indivíduos, instiuições). (2) Conhecimento codificado - corresponde aos saberes de base científica e tecnológica. Tem 2 fontes básicas: (1) interna origina-se de atividades de pesquisa & desenvolvimento desenvolvidas por organizações (universidades, laboratórios, instituições de pequisa, entre outros); (2) externa é acessado como informação (livros, textos, manuais, aulas etc) por meio de troca ou aquisição junto a instituições especializadas no ambiente territorial.

8 Conhecimento Tácito (específico) Conhecimento Interno (organização) Criação espontânea de conhecimento Atividades internas de P&D Socialização de conhecimentos Troca e aquisição de conhecimentos Conhecimento Externo (meio territorial) Tipos e fontes do conhecimento João Ferrão, 2000 Conhecimento Codificado (generalizável)

9 Laços sociais e de identidade nos sistemas territoriais locais Nos sistemas territoriais locais a sociabilidade e a perspectiva de um futuro em comum favorecem os laços de reciprocidade e confiança entre atores, ao mesmo tempo em que o sentimento de pertença e de identidade territorial ampliam seu engajamento. Assim, a mobilização, interação e organização que emergem de uma estratégia de atores são fortalecidas, em grande parte: pelos laços sociais de conivência construídos no cotidiano vivido, por processos identitários que ampliam a cumplicidade em relação ao sucesso dos objetivos almejados. São também chamados pelos economistas de laços não-mercantis

10 Inovação como processo social e territorial A inovação é, portanto, um processo social e territorial, fruto de interação entre geradores e usuários do conhecimento, num aprendizado mútuo. A proximidade e os laços de afetividade com as pessoas e lugar facilitam a interação, o diálogo e a negociação, num compartilhamento de visões, valores e crenças; Entretanto, cada sistema territorial local está sujeito a formas particulares de combinação. Nesse processo, além do protagonismo dos atores, entram em jogo a influência de variáveis de diferentes dimensões do território (ambiente natural e construído, social, econômico, cultural, político, institucional) e dos contextos nos quais se inserem tais territórios, com efeitos específicos na capacidade de aprender, produzir conhecimento e inovar, assim como de gerir o desenvolvimento de forma mais autônoma. No entanto, nessas interações locais, emerge um capital cognitivo (capacidade de discernir e tomar decisões estratégicas inovadoras) e um conhecimento coletivo enraizado, que pode se constituir em importante fonte de dinamismo local.

11 Territórios inteligentes As relações facilitadas entre atores e organizações de apoio no território de vida favorecem processos de aprendizagem coletiva e o compartilhamento de diferentes fontes do conhecimento. O saber enraizado, construído no processo de apropriação dos territórios, quando combinado às informações novas de origem externa, torna-se fundamental para se chegar a soluções adaptadas às especificidades de cada sistema territorial local. Os territórios inteligentes são constituído por coletividades capazes de combinar constantemente e de forma criativa o saber territorial (incorporado nos indivíduos, empresas e organizações) com a nova informação para construir conhecimentos adaptados à realidade vivida que ampliem sua competência e garantam sua manutenção. Nos territórios inteligentes o conhecimento se transmuta em novos conhecimentos, na perspectiva de futuros desejados coletivamente.

12 Propriedades de um Território Inovador Um território rio inovador se define por uma série de propriedades inter-relacionadas: Sistema territorial contextos; como espaço de vida e/ou de trabalho - seus diversos subsistemas e Conjunto de agentes públicos e privados, num protagonismo vinculado a projetos que vislumbrem cenários comuns de futuro; Lógica de interação relações de cooperação estabelecidas entre atores com certa capacidade de se chegar a acordos, mesmo diante de conflitos de interesse; Lógica de engajamento mobilização dos agentes, num sentimento de afetividade com a coletividade local e o território de vida e de compartilhamento de valores, crenças (identidade cultural); Lógica de aprendizagem capacidade e abertura dos atores à aprendizagem interativa sob determinadas regras para solucionar problemas e trazer respostas criativas constantes no melhor ajuste entre condições externas e internas, por objetivos compartilhados.

13 Particularidade dos produtos vinculados a sistemas territoriais locais Desde a crise dos anos 70, na reação aos danos causados pela globalização, ganharam visibilidade os sistemas territoriais locais do continente europeu. Ex. os distritos industriais na Itália, o pays na França. O sucesso foi atribuído a uma forma de desempenho produtivo e a produtos com características particulares dos territórios. O saber e o saber fazer haviam sido construídos historicamente e estavam enraizados no local.. Apesar das limitações de economias de escala, esse territórios trabalhavam com reduzidos custos de transação, bem como com economias externas particularmente significativas. O valor de mercado dos produtos dessas territorialidades econômicas estavam vinculados ao valor das identidades territoriais. Ex. vinho de Bordeaux, ou os queijos de Camembert ou de Brie na França, o cristal de Murano ou o mármore de Carrara na Itália, entre outros.

14 Sistemas / Arranjos produtivos Locais (APLs) meios inovadores Cada vez mais empresas correlatas se abrem a formas de cooperação/ interação para com adesão de organizações de apoio constituir sistemas/ arranjos produtivos locais; Este se constituem de um conjunto de agentes econômicos, políticos e sociais, em um mesmo território e desenvolvem atividades econômicas correlatas, mediante vínculos de produção, interação, cooperação e aprendizagem. Além de aprender interativamente e compartilhar conhecimentos, os agentes buscam várias outras soluções sistêmicas. Ex. promover operações logísticas, otimizar custos, reduzir perdas, reciclar produtos, inclusão produtiva, atração de investimentos, conquista de mercados, entre outros. Esses novos formatos organizacionais tendem a se desdobrar para escalas organizativas mais abrangentes (regional, nacional).

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