ANÁLISE DE EXAMES COMPLEMENTARES PARA ESTUDO DE CASO DE PNEUMONIA EM JIBOIA (Boa constrictor constrictor)

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1 Curso de Medicina Veterinária Relato de Caso ANÁLISE DE EXAMES COMPLEMENTARES PARA ESTUDO DE CASO DE PNEUMONIA EM JIBOIA (Boa constrictor constrictor) Analysis of complementary exams for case study of pneumonia in jiboia (Boa constrictor constrictor) Maione Fernandes Pedreira Sales¹, Rafael Prange Bonorino² 1. Maione Fernandes Pedreira Sales 2. Professor Especialista no Curso de Medicina Veterinária Resumo Introdução: As infecções respiratórias, inclusive pneumonia, são comuns em répteis e podem ser influenciadas por parasitismo respiratório e/ou sistêmico, temperaturas ambientais desfavoráveis, condições anti-higiênicas, doenças intercorrentes e má nutrição. A respiração com a boca aberta, secreção nasal e dispneia são sinais frequentes. Objetivo: Identificar e tratar as possíveis causas dos problemas respiratórios através dos exames complementares. Descrição do caso: Estudo de caso em jiboia (Boa constrictor constrictor) fêmea de cativeiro. Após um exame clínico foi feito um lavado traqueal para antibiograma e um Raios-X para identificar a causa do problema respiratório. Após resultados dos exames, foi detectado pneumonia, aplicando a terapêutica adequada, correções ambientais e ao término do tratamento foi feito novo exame clínico, hemograma e coproparasitológico para descartar algumas variáveis do caso. Reiniciando o tratamento terapêutico por período curto em dose alta. Resultado: Foi constatada pneumonia bacteriana e tratada, porém o muco nasal e oral permaneceu após o tratamento tendo suas causa idiopáticas pela escassez de literatura. Hipóteses como causas ambientais não podem ser afirmada. Palavras- Chave: Lavado Traqueal, Raio X, antibiograma, hemograma. Abstract Introduction: The respiratory infections, including pneumonia, are common in reptiles and can be influenced by respiratory and/or systemic parasitism, unfavorable environmental temperatures, unhygienic conditions, intercurrent disease and poor nutrition. The most frequent signs are: breathing with its mouth opened, nasal secretion and dyspnea. Objective: to identify and treat the possible respiratory problems with complementary exams. Description of the case : A case study in a female captivity python (Boa constrictor constrictor). After a clinical examination, a tracheal wash for antibiogram and an X-ray to identify the causal agent have been carried out. Once the results were available, it was identified bacterial pneumonia using the adequate treatment, environmental corrections and at the end of the treatment a new clinical examination, hemogram and parasitological examinations, were carried out in order to rule out some variables. Therapeutic treatment for a short time and in a high dose was restarted. Results: A bacterial pneumonia was diagnosed and treated, however, the nasal and oral mucus remained after the treatment, having anidiopathic cause due to the lack of literature. Hypothesis such as environmental causes can t be affirmed. Keywords: tracheal washings; x-ray; antibiogram; hemogram. Contato: Introdução A anatomia e a fisiologia do sistema respiratório dos répteis diferem significativamente dos mamíferos. Os répteis são capazes de atuar com níveis de oxigênio muito baixo, considerando muitas características exclusivas. A respiração dos répteis é comandada pelos níveis de oxigênio sanguíneo. Isso difere dos mamíferos, nos quais os níveis de CO 2 são determinantes primários da frequência respiratória e volume relativo 1. A mobilidade da glote das serpentes tornaa capaz de protusão pela cavidade oral, permitindo a respiração durante a ingestão da presa. A abertura da glote, que só ocorre durante a respiração, é delimitada pelo par de cartilagens aritenoides 1. O pulmão unicameral é uma estrutura sacular simples. A porção cranial do pulmão unicameral contém tipicamente o tecido envolvido

2 na troca gasosa, e a porção caudal relativamente não vascular é comparável ao saco aéreo das aves (figura 1). Possui uma aparência macroscópica de favo de mel. As aberturas do favo de mel determinam em estruturas responsáveis pela troca gasosa denominada favéolos que são estruturas fixas que não se expandem ou se contraem. Os favéolos são cercados por leitos capilares onde o sangue recolhe o oxigênio e libera o dióxido de carbono. 1,2 Fig.1:Estrutura pulmonar observada em serpentes(redesenhado a partir de O Marlley B: Clinical anatomy and physiology off exotic species). bastante resistentes a esse último método, porém a sedação dos animais é recomendada, evitandose, assim possíveis reações dolorosas. Para coleta do sangue preconiza-se a utilização do anticoagulante heparina, uma vez que há relatos sobre hemólise com o uso de anticoagulante ácido etilenodiaminotetracético (EDTA). 3,4 Técnicas rotineiras de identificação bacteriana e fúngica devem ser utilizadas para a escolha do medicamento a ser utilizado. Nas enfermidades respiratórias de etiologia bacteriana ou viral, o lavado traqueal pulmonar pode ser utilizado para o isolamento do agente. A obtenção envolve a introdução de uma sonda uretral proporcional ao tamanho da traquéia da serpente e injeta-se uma solução salina estéril e subsequente aspiração do líquido que entrou em contato com a mucosa das vias respiratórias para cultura ou exame citológico. 3,4 O exame clínico externo é essencial para a avaliação do estado do animal. Deve-se observar o estado nutricional, grau de hidratação, presença de ectoparasitas e lesões. Pela palpação podemos sentir a presença de fezes no intestino ou tumores internos. 4 O diagnóstico por imagem (radiologia e ultrassonografia) pode ser realizado em serpentes, sendo útil em casos de trauma, pneumonia, tumores, gestação e retenção de ovos. 4,5 Os bacilos gram-negativos além de serem da microbiota saprófita, são os principais agentes etiológicos de enfermidades em serpentes e representam importante papel como agentes secundários a infecções virais ou parasitárias. Fig.2: Superfície interna do pulmão de uma serpente evidenciando estrutura em favo de mel e a traquéia intrapulmonar ao longo do corte. 2 A avaliação hematológica permite a determinação do estado de saúde dos répteis assim como resposta a tratamentos e outros fatores, devendo ser analisada com cautela; pois há grandes variações dos parâmetros normais entre as espécies como idade, sexo, estado nutricional, manejo. 3 Exames hematológicos são ferramentas importantes para o diagnóstico das enfermidades. A coleta de sangue para análise hematológica e bioquímica, assim como para testes sorológicos, pode ser realizada por meio de punção das veias coccígea caudal e palatina, vertebral localizada paralelamente ao cordão espinhal, além da cardiocentese (porém essa deve ser evitada pelos traumas ocasionados). As serpentes são Em casos de pneumonia, pode-se realizar lavagem pulmonar com solução salina estéril, 1% da massa corporal do animal, para auxiliar na eliminação dos cáseos. Como tratamento inicial, até o recebimento dos resultados de isolamento e sensibilidade bacteriana, preconiza-se o uso da amicacina. Durante o tratamento o animal deve ser mantido em temperatura entre 25 a 28 C possibilitando uma boa absorção e metabolização do medicamento, além de uma melhor resposta imune. 5 Os nematódeos adultos pulmonares, Rhabdias e Acanthorhabdias, são paternogênicos e os seus ovos embrionados ou larvas alcançam a cavidade oral e são expelidos com as fezes. Uma grave pneumonia pode ser causada por esses parasitas quando o sistema imunológico da serpente está deprimido. 6,7 O grande problema do tratamento de infecções bacterianas em répteis é a alta frequência de resistência antibiótica múltipla, dificultando muitas vezes o seu combate. Testes

3 bacteriológicos e antibiogramas são bastante úteis e deveriam ser empregados com maior frequência. Mesmo havendo resistência considerável, as infecções bacterianas correspondem a 75% das mortes entres os répteis e estas ocorrem muitas vezes secundariamente a outros problemas primários, em razão da alta resistência antibiótica. 8 O objetivo desse trabalho é identificar qual agente causador do problema respiratório na referida jiboia bem como o agente causal e fazendo-se necessário uma análise dos exames laboratoriais e/ou complementares bem como um tratamento compatível ao quadro clínico. Descrição do Caso Foi realizado um estudo de caso de uma Boa constrictor constrictor, de 7 anos, fêmea e que apresentava um quadro de muco em excesso na cavidade oral e nasal e dispneia moderada, recidiva a 3 anos. Foi submetida a outros tratamentos anteriormente, com Flotril injetável, nebulização com soro fisiológico e extrato de eucalipto ou por vezes broncodilatador, mas tudo sem grande sucesso, apenas ocorrendo a estabilização do caso. Fig.3: RX do caso clínico evidenciando radiopacidade pulmonar sugestivo de pneumonia. Lavado traqueal: Foi colocada uma sonda uretral número 8 na traqueia com solução salina estéril e realizado aspiração do lavado para cultura e antibiograma, como mostra a figura 4. Vale ressaltar aqui que o swab oral não é aconselhável a flora normal da serpente é gram negativa. O caso foi avaliado utilizando os seguintes métodos: Anamnese: Alimentação sempre foi regular, sem históricos de regurgitação, se alimenta entre 14 a 21 dias com um porquinho da Índia jovem ou adulto, sem quadros apáticos ou anorexia. Fezes normais. Sofreu aborto no ano anterior. Exame clínico e físico: não evidenciou alterações de pele, presença de muco de moderado em cavidade oral e estertor a auscultação pulmonar e trato superior. Peso 4kg, 7 anos, medindo 1,95cm atendida no Hospital Veterinário Icesp/Promove em março)2014. Exames Complementares: Raio X: Utilizado com frequência para uma investigação diagnóstica para suspeita de comprometimentos cardiopulmonares. Foi feito latero-lateral e dorso ventral onde ficou constatada presença pequena de derrame cavitário (efusão pleural) em porção inicial do parênquima pulmonar (fig. 3). Sinalizando uma pneumonia de leve a moderada. Porém esse exame não identifica em qual o agente causador da pneumonia. Fig.4: Lavado Traqueal. O resultado da cultura com antibiograma do lavado traqueal, mostra crescimento abundante para Acinetobacter sp., sensível a gentamicina, Amicacina, ciprofloxacina, ampicilina, enrofloxacina. Anterior ao laudo, foi feito tratamento com antibiótico, Baytril enrofloxacina (anterior ao laudo do antibiograma) na dose de 5mg/kg a cada 48 horas, intramuscular (IM) e Gentatex gentamicina dose de 2,5 mg/kg, IM posterior ao laudo. Hemograma (pós-antibiótico terapia) a cada 72 horas por possuir ação nefrotóxica associada a fluidoterapia. O tratamento terapêutico foi feito com 7 doses por 21 dias. Após o tratamento terapêutico houve uma melhora significativa no muco oral e nasal e um retorno para reavaliação física. A auscultação estertor no trato respiratório superior continuou e a ausculta pulmonar direita e

4 esquerda não apresentou ruídos. Cavidade oral de coloração normal com presença de muco fluido e translucido. Foi realizado uma coleta de sangue na veia caudal dorsal de 3ml de sangue para hemograma e bioquímica e para gota úrica. Fig. 5: Coleta de sangue realizado na veia supra vertebral. Exame coproparasitológico: amostra negativa para ovos e/ou larvas de Helmintos nem cistos ou formas vegetativas de protozoários. Discussão Os fármacos utilizados se mostraram eficazes regredindo o quadro de secreção oral e cura da pneumonia bacteriana segundo resultados dos exames. No tratamento é necessário aumentar a temperatura do ambiente em que o animal se encontra, fazendo com isso com que o fármaco circule melhor na corrente sanguínea e amplie a resposta imunológica do mesmo. A temperatura deve ficar entre 28 C é importante o manuseio do animal nessa fase. A fluidoterapia se mostrou de difícil aplicação prática, pois a quantidade é muito alta para aplicar subcutânea e a cavidade celomática de difícil identificação e ariscada sem o uso de anestésicos, então foi feito com quantidade baixa de hepatoprotetor e água para aumentar a ingestão de líquidos via oral. A pneumonia citada em literatura vem acompanhada de anorexia e apatia. Porém nesse caso estudado não se demonstrou em nenhum momento esses sinais clínicos. Os sinais clínicos que foram compatíveis nesse caso foram a dispneia e muco oro-nasal. O hemograma e bioquímica sugerem que ainda há presença de infecção..porém os resultados encontrados na literatura são confusos, Segundo Thrall,2006 a melhor utilização dos exames hematológicos em serpentes é o método comparativo, devendo-se fazer o exame antes e outro após o tratamento. 9 Hemograma Eritograma Resultado do Exame Referência 4 Hemácias 4,4 u³ 4,87 +/- 0,61 Hemoglobina 8,1 g/dl 8,6 11,02g/dl Hematócrito 22% 23,6 +/-0,63 % Leucograma Resultado do Exame Referência 5 Leucócito mm³ mm³ Linfócito 6474/mm³ 6830+/- 4520mm³ Trombócito 10mil/m 11,25+/-3,89mil/m Bioquímica Resultado do Exame Referência 8 HDL 16 mg/dl mg/dl Triglicerídeos 188 mg/dl 0-8 Ureia ALT 8, AST 7, Acido Úrico 2,8 1,2-5,8 O exame coproparasitológico exclui uma infestação de vermes pulmonares. Esse estudo de caso e os seus resultados dos exames solicitados, sugere sim uma pneumonia secundária causada por bactérias. As hipóteses aqui questionadas são a respeito do muco na cavidade oral, que pode ser por uma Síndrome da má adaptação pelo clima do Centro-Oeste ser seco e ela vir de local úmido, sendo necessária uma maior correção ambiental no terrário ou outra causa idiopática a se estudar. Ressalta-se a relevância de procedimentos e exames complementares, pois se tratando de um animal silvestre, todas as informações referentes a exame de sangue dentre outros aumenta o banco de dados na literatura e ajuda a fechar diagnóstico uma vez que as jiboias não apresentam febre nem outros sinais clínicos que ajude a análise clínica. Conclusão Os exames complementares em caso de pneumonia em BCC são fundamentais por pertencerem a uma classe que não apresentam sinais clínicos evidentes. Agradecimento Ao meu esposo Alexandre Sales, família, amigos e professores que contribuíram na minha formação acadêmica.. Professora Aline Rabello e meu orientador Rafael Bonorino por toda ajuda, tempo e paciência dedicados a turma.

5 Referências Bibliográficas 1. Colville, Thomas P., Anatomia e fisiologia para a medicina veterinária. 2 edição ed. Elsevier, O Marlley B., Clinical anatomy and physiology of exotic species. New York,2005,WB Saunders. 3. Falce MC. Hematologia de repteis [dissertação]. Campinas. Universidade Castelo Branco; Kolesmikovas CK, Grego KF, Albuquerque LC. Tratado de Animais Silvestres Ordem Squamata- subordem Ophidia(Serpentes). São Paulo, Roca, 2006 p Clarence M Fraser, editor. Manual Merck de Veterinária, 7 edição. São Paulo, Johnson LR, Lavado Traqueal.In: Exames laboratoriais e procedimentos Diagnósticos. São Paulo,2013, Roca p Luppi MM. Tratamento de Rhabdias labiata com levamisol e ivermectina em jiboias(boa constrictor constrictor).v.13 n.1. Uberlândiap Oliveira, PM Agria, Animais silvestres e exóticos na clínica particular., São Paulo,Ed. Roca, Thrall MA; Hematologia e bioquimica na clinica veterinária: repteis. São Paulo: Roca,2006 p

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