INCIDÊNCIA DE NEMATÓDEOS FILARIÓIDES EM ANIMAIS CATIVOS NA FUNDAÇÃO PARQUE ZOOLÓGICO DE SÃO PAULO

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1 INCIDÊNCIA DE NEMATÓDEOS FILARIÓIDES EM ANIMAIS CATIVOS NA FUNDAÇÃO PARQUE ZOOLÓGICO DE SÃO PAULO Carolina Romeiro Fernandes Chagas¹, Paula Andrea Borges Salgado¹, Thalyta Ananias Lima¹, Irys Hany Lima Gonzalez¹. ¹ Fundação Parque Zoológico de São Paulo. Introdução Muitos parques zoológicos estão instalados em regiões de mata nativa podendo receber populações migratórias e além da fauna local. Estas populações são importantes disseminadoras de doenças infecciosas, tornando os estudos epidemiológicos com animais cativos e de vida livre bastante relevantes para a manutenção da vida selvagem (CORRÊA, 2007). Embora a manutenção de animais em zoológicos contribuam para o conhecimento científico, educação ambiental e estratégias de conservação, estes se encontram em proximidade a espécies diferentes do que teriam em seu habitat natural, favorecendo o aparecimento de doenças, principalmente parasitárias, de grande impacto na sua manutenção (PRIMARCK; RODRIGUES, 2001; SILVA; CORRÊA, 2006). Doenças parasitárias são muito comuns e algumas se destacam pela alta patogenicidade do agente, pela alta sensibilidade de algumas espécies e pela facilidade de disseminação, devido a altas densidades populacionais geralmente encontradas em cativeiro (SILVA; CORRÊA, 2006). Os nematódeos filarióides, Superfamília Filarioidea, Ordem Spirurida e Subordem Spirurina, são parasitas extremamente especializados que podem se alojar em praticamente qualquer órgão ou tecido de vertebrados terrestres; os adultos são chamados de filárias que, salvo raras exceções, não são patogênicas e nem sempre há sinais clínicos; entretanto, as microfilárias (larvas das filárias) podem provocar inflamações das veias e artérias. Os adultos são difíceis de serem encontrados e o diagnóstico, na maioria das vezes, é feito devido à presença de microfilárias na corrente sanguínea, apesar da identificação do parasita ser recomendada somente através dos adultos (BARLETT, 2008). Estudos com aves e primatas não humanos corroboram com o fato de que animais infectados com filárias dificilmente manifestam sinais clínicos, sendo um achado incidental em exames laboratoriais e/ou necroscópico (HORTÚA & OROZCO, 2007; BARLETT, 2008). Em aves podem ocorrer infecções por mais de uma espécie de filária, desde que diferentes tecidos sejam afetados (BARLETT, 2008). A transmissão se dá através de um vetor invertebrado da Ordem Diptera ou Phthiraptera, tornando a região neotropical um local de grande incidência destes parasitas devido à presença dos vetores (HORTÚA & OROZCO, 2007; BARLETT, 2008); entretanto, estudos mostram que a incidência em países de regiões temperadas é bastante expressiva (ORIEHL & EBERHARD, 1998).

2 O conhecimento de como estes parasitas agem e quais animais eles podem infectar é bastante importante, uma vez que muitas dessas filárias tem caráter zoonótico, como é o caso da Dirofilaria spp., Onchocerca spp., Brugia spp., Dipetalonema spp., Meningonema spp., Mansonella sp., Loaina spp. (ORIHEL & EBERHARD, 1998) Objetivos Este trabalho tem por objetivo verificar quais animais pertencentes ao plantel da Fundação Parque Zoológico de São Paulo (FPZSP) foram diagnosticados com nematódeos filaróides e se houve predomínio de algum grupo parasitado. Metodologia Para este estudo foram utilizados resultados dos exames de rotina do laboratório da FPZSP, realizados no período de Setembro de 2006 a Maio de As amostras foram avaliadas por pesquisa direta em esfregaço sanguíneo corados pelo método de Rosenfeld no caso das aves, répteis e anfíbios e pelo Panótico para os mamíferos; e através do método de Knott modificado, utilizando o mesmo capilar para o microhematócrito para todos os grupos citados. Na pesquisa direta em esfregaço sanguíneo as lâminas foram examinadas no aumento de 400x e 1000x (imersão) para a pesquisa dos parasitas. No caso do método de Knott modificado, toda a extensão da lamínula foi observada à procura do parasita ainda vivo. Resultados Foram analisadas amostras de 990 indivíduos pertencentes às Classes Aves, Reptilia, Mammalia e Amphibia, num total de 1512 pesquisas de hemoparasitas realizadas; dessas amostras, 27 (0,018%) foram positivas para microfilárias, com 15 (0,015%) indivíduos infectados. Dentre os indivíduos positivos, somente um pertencia à Classe Mamalia, Ordem Primates, sendo um exemplar de Pithecia pithecia que havia chegada há poucos dias na FPZSP após viagem de Manaus/AM à São Paulo/SP, que provavelmente se infectou antes da viagem. Os demais indivíduos positivos pertenciam à Classe Aves, com representantes das Famílias Psittacidae e Ramphastidae, cujas espécies foram: Pionus maximiliani (2), Amazona amazonica (1), Pionus fuscus (1), Aratinga jandaya (1), Cyanopsitta spixii (1), Poicephalus senegalus (2), Selenidera maculirostris (2), Baillonius bailloni (1), Ramphastos dicolorus (2) e Ramphastos vitellinus (1).

3 A microfilária encontrada em Ramphastos vitellinus era morfologicamente distinta das microfilárias encontradas nas outras espécies de aves (figura 1). Somente um animal de vida livre, um exemplar de Ramphastos dicolorus, estava infectado. Figura 1. Microfilárias em Ramphastos vitellinus (esquerda) e Selenidera maculirostris (direita). 400x. Fotos: Carolina Chagas. Conclusões Nas amostras de aves positivas na FPZSP há microfilárias com diferenças morfológicas, sugerindo a presença de 2 gêneros distintos, cujas espécies não foram identificadas. Conforme Barlett (2008), nematódeos filarióides são de difícil identificação, uma vez que esta deve ser feita preferencialmente com o nematódeo adulto recolhido durante a necropsia, quando a carcaça do animal deve ser cuidadosamente examinada. Os animais do plantel são submetidos a exames preventivos periodicamente e em casos que requeiram atendimento médico veterinário; entretanto, o intervalo entre um exame e outro pode dificultar o diagnóstico das microfilárias, uma vez que algumas espécies deste nematódeo têm por característica a senescência reprodutiva, ou seja, a liberação de microfilárias ocorre durante um curto período, cessando em seguida, característica essa comum em espécies que vivem em locais onde a presença de um grande número de indivíduos pode causar uma reação inflamatória e matálas, como é o caso das articulações. Por outro lado, a identificação morfológica da espécie pode se tornar praticamente impossível nas espécies que tem por característica a efemeridade dos adultos, já que a fêmea morre logo após liberar as microfilárias, e estas sim vivem por longos períodos no hospedeiro (BARLETT, 2008). Além disso, muitas espécies possuem uma periodicidade diurna e noturna, contribuindo para a dificuldade do diagnóstico (HORTÚA & OROZCO, 2007).

4 Verificou-se a presença de um animal de vida livre, Ramphastos dicolorus, com resultado positivo para microfilárias, fato este, que pode representar um empecilho para a manutenção destes animais em cativeiro na FPZSP, uma vez que o monitoramento dos animais de vida livre não é realizado e esta é somente uma das espécies que habitam as matas onde o parque encontra-se inserido. A solução seria o controle dos possíveis vetores nos arredores dos recintos e a implantação de barreiras físicas para evitar que tenham acesso aos animais, cuja logística é bastante complexa para ser implementada em larga escala em um zoológico. Neste estudo somente 2 classes de Aves tiveram resultados positivos, sendo Ramphastidae uma delas. Segundo Pinto et al. (1996, 2003), Young et al. (1993), Bennett (1976) e Tantálean e Chavez (2004) o grupo de hemoparasitas mais comumente encontrado em Ramphastidae de vida livre é o grupo dos nematódeos filaróides. Barlett (1998), registra que a presença de nematódeos filaróides, bem como das microfilárias, é bastante comum em diferentes Famílias de Aves. Os estudos em primatas demonstram maior prevalência de microfilárias em Callitrichidae, além de um exemplar de Aotus sp. positivo (HORTÚA & OROZCO, 2007). Em primatas da FPZSP, somente um indivíduo de Pithecia pithecia apresentou resultado positivo, acreditando-se que a infecção provavelmente ocorreu antes do animal chegar ao zoológico. Este trabalho demonstra que a prevalência de microfilárias na FPZSP é bastante baixa (menos de 1% dos animais pesquisados); entretanto, mais estudos em animais cativos serão importantes, principalmente na procura e identificação de adultos, fornecendo dados taxonômicos e correlacionando-os com dados clínicos dos animais, aumentando assim o conhecimento biológico dos parasitas e sua importância em animais de zoológicos. Referências Bibliográficas BARLETT, C. M. Filarioid Nematodes. (2008) In: ATKINSON, C. T.; THOMAS, N. J.; HUNTER, D. B. (eds). Parasitic Diseases of Wild Birds. 1 ed, Ames: Blackwell Publishing. p BENNETT, G. F.; BORRERO, J. I. (1976) Blood Parasites of Some Birds from Colômbia. Journal of Wildlife Diseases. (12): CORRÊA, S. H. R. (2007). Estudo epidemiológico de doenças infecciosas em anatídeos da Fundação Parque Zoológico de São Paulo. Tese (Doutorado). Programa de Pós Graduação em Epidemiologia Experimental e Aplicada às Zoonoses. São Paulo. Universidade de São Paulo. HORTÚA, R. L. de la; OROZCO, M. I. M. (2007) Prevalência de Microfilaria spp. em primates de zoológicos colombianos. Revista de Medicina Veterinaria. (13): ORIHEL, T. C. & EBERHARD, M. L. (1998). Zoonotic Filariasis. Clinical Microbiology Reviews. 1(2):

5 PINTO, R. M.; VIVENTE, J. J.; NORONHA, D. (1996) Nematode Parasites of Brazilian Piciformes Birds: a General Survey with Description of Procyrnea anterovulvata n. sp. (Habronematoidea, Habronematidae). Memórias do Instituto Oswaldo Cruz. 91(4): PRIMARCK, B. R.; RODRIGUES, E. (2001). Biologia da Conservação. Londrina: Planta. 328p. SILVA, J. C. R.; CORRÊA, S. H. R. (2006). Manejo Sanitário e Biosseguridade. In: CUBAS, Z. S.; SILVA, J. C. R.; CATÃO-DIAS, J. L. Tratado de Animais Selvagens Medicina Veterinária. São Paulo: Roca. p TANTALEÁN, M.; CHAVEZ, J. (2004) Wild animals endoparasites (Nemathelminthes and Platyhelminthes) from the Manu Biosphere Reserve, Peru. Rev. peru. biol. 11(2): YOUNG, B. E.; GARVIN, M. C.; MCDONALD, D. B. (1993) Blood Parasites in Birds from Monteverde, Costa Rica. Journal of Wildlife Diseases. 29(4):

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