UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO ESCOLA DE COMUNICAÇÕES E ARTES DEPARTAMENTO DE BIBLIOTECONOMIA E DOCUMENTAÇÃO. Renato Railo

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1 UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO ESCOLA DE COMUNICAÇÕES E ARTES DEPARTAMENTO DE BIBLIOTECONOMIA E DOCUMENTAÇÃO Renato Railo Atuação profissional do bibliotecário em projetos de e- Learning: contribuições segundo suas competências Edição revisada e ampliada Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) apresentado ao Departamento de Biblioteconomia e Documentação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, como parte dos requisitos para obtenção do título de Bacharel em Biblioteconomia e Documentação. Orientador: Prof. Dr. Marcos Luiz Mucheroni São Paulo 2011

2 Ficha Catalográfica R152 RAILO, Renato Atuação profissional do bibliotecário em projetos de e-learning: contribuições segundo suas competências / Ed. rev. e ampl./ Renato Railo; orientador Prof. Dr. Marcos Luiz Mucheroni -- São Paulo, p. TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. 1. Competência profissional. 2. E-Learning. 3. Educação a Distância. 4. Biblioteconomia. 5. Profissionais da Informação. 6. Comunicação. 7. Semiótica. I. Título. II. Mucheroni, Marcos Luiz. CDD Autoriza-se a divulgação e a reprodução total ou parcial desta monografia para fins acadêmicos e demais pesquisas, seja por qual for o meio, desde que citada a fonte. Para citar este trabalho: RAILO, Renato. Atuação profissional do bibliotecário em projetos de e-learning: contribuições segundo suas competências. São Paulo: ECA/ USP, Monografia (Trabalho de Conclusão de Curso). Orientação Prof. Dr. Marcos Luiz Mucheroni. Disponível em: <http://rabci.org/rabci/>. Acesso em: [inserir dd.mm.aa.]. ii

3 Folha de Aprovação Autor: Renato Railo Título: Atuação profissional do bibliotecário em projetos de e-learning: contribuições segundo suas competências Banca Examinadora: Presidente da banca: Prof. Dr. Marcos Luiz Mucheroni (CBD/ ECA/ USP) Membro convidado Profª. Drª. Lucilene Cury (CCA/ ECA/ USP) Membro convidado Prof. Dr. Luís Augusto Milanesi (CBD/ ECA/ USP) Aprovado em: / / iii

4 "They [the followers of science] may at first obtain different results, but, as each perfects his method and his processes, the results are found to move steadily together toward a destined centre. So with all scientific research. Different minds may set out with the most antagonistic views, but the progress of investigation carries them by a force outside of themselves to one and the same conclusion." 1 (PEIRCE, 1955, p. 38) Occorre distruggere il pregiudizio molto diffuso che la filosofia sia un alcunché di molto difficile per il fatto che essa è l attività intellettuale propria di una determinata categoria di scienziati specialisti (...). Occorre pertanto dimostrare preliminarmente che tutti gli uomini sono filosofi. 2 (GRAMSCI, 1975, p. 3) Bisogna superare la timidezza, e spesso il bibliotecario vi dà consigli sicuri facendovi guadagnare molto tempo 3 (ECO, 2008, p. 66) 1 Eles [os partidários da ciência] podem de início obter resultados diferentes, mas, conforme se aperfeiçoam os métodos e processos, os resultados encontrados convergirão todos em direção a um centro. O mesmo acontece com as pesquisas científicas. Diferentes indivíduos podem partir dos mais antagonistas pontos de vista, mas o progresso da investigação conduzir-los-á a uma mesma conclusão. (TA) 2 É preciso desfazer o preconceito muito difuso de que a filosofia seja algo muito difícil pelo fato de ser uma atividade intelectual restrita a uma determinada categoria de cientistas especializados (...). É preciso, portanto, demonstrar, de antemão, que todos os homens são filósofos. (TA) 3 É preciso superar a timidez e procurar o bibliotecário que, frequentemente, dá-nos conselhos seguros, fazendo-nos ganhar tempo. (TA) iv

5 Agradecimentos Ao meu orientador, Prof. Dr. Marcos Luiz Mucheroni, pelo apoio, paciência, ensinamentos e contribuições, sem os quais este trabalho não teria sido possível. À banca composta pelo prof. Dr. Luís Augusto Milanesi e pela profª Drª. Lucilene Cury, pela honra de tê-los como colaboradores ativos deste trabalho e pela atenção destinada ao mesmo. A todos os docentes do Departamento de Biblioteconomia e Documentação, da Escola de Comunicações e Artes, da Universidade de São Paulo, por todo o conhecimento compartilhado ao longo do curso, sem os quais minha formação jamais teria se realizado. À bibliotecária Alice Mari Miyazaki Souza, da Biblioteca Centro de Informação e Referência em Saúde Pública, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, pela gentileza de me fornecer informações pertinentes ao trabalho. Às bibliotecas Florestan Fernandes, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Maria Luiza Monteiro da Cunha, da Escola de Comunicações e Artes, e Serviço de Biblioteca e Documentação, da Faculdade de Administração, Economia e Contabilidade, da Universidade de São Paulo, pelos serviços prestados durante as pesquisas. Aos colegas de curso que estiveram presentes comigo nesta jornada, pelo apoio e auxílio, direta ou indiretamente fornecidos. v

6 RAILO, Renato. Atuação profissional do bibliotecário em projetos de e-learning: contribuições segundo suas competências. Ed. rev. e ampl. São Paulo: ECA/ USP, Monografia (Trabalho de Conclusão de Curso). Orientação Prof. Dr. Marcos Luiz Mucheroni. Departamento de Biblioteconomia e Documentação. Escola de Comunicação e Artes. Universidade de São Paulo. Resumo: O desenvolvimento tecnológico ocorrido desde as últimas décadas do século XX até os dias atuais contribuiu para que profundas transformações se manifestassem em diversas esferas da vida em sociedade, dentre as quais as profissões e a educação. Entre as profissões, a Biblioteconomia é um exemplo disso, enquanto que em relação à educação é possível citar o surgimento e desenvolvimento do e-learning, plataforma educacional e de gestão do conhecimento. Diante disto, o objetivo deste trabalho é analisar as possíveis contribuições que o bibliotecário, segundo suas competências profissionais, pode oferecer à criação de projetos de e-learning, considerando os requisitos de elaboração deste último. Para tal, fez-se uma revisão de literatura, principalmente, das áreas de Educação, Biblioteconomia, Informática e Semiótica e uma análise do Chamilo, plataforma utilizada pelo projeto Campus Virtual. A conclusão a que se chegou é a de que o bibliotecário pode contribuir para a criação de projetos de e-learning, uma vez que possui competências que o credenciam para tal, tais como desenvolvimento e execução do processamento de documentos em distintos suportes e unidades, sistemas e serviços de informação segundo o contexto e o público, criação de demandas informacionais, gestão do fluxo informativo baseado no diálogo, entre outras. Desta feita, justifica-se o trabalho na medida em que este oferece a compreensão de novas possibilidades de inserção profissional dos bibliotecários. Palavras-chave: Competência profissional; Prática profissional; E-Learning; Educação a Distância; Biblioteconomia; Ciência da Informação; Semiótica; Comunicação. vi

7 Lista de Figuras Figura 1: Teoria Matemática da Informação...26 Figura 2: Página inicial do Moodle...38 Figura 3: Página inicial do TelEduc...39 Figura 4: Página Inicial do Campus Virtual, cuja plataforma é o Chamilo...40 Figura 5: Agenda disponibilizada pelo Campus Virtual, cuja plataforma é o Chamilo...41 Figura 6: Subcategoria Meus Arquivos, contida na categoria Rede Social disponibilizada pelo Campus Virtual, cuja plataforma é o Chamilo...41 Figura 7: Categoria Gerenciamento dos cursos disponibilizada pelo Campus Virtual, cuja plataforma é o Chamilo...42 Figura 8: Modelo de comunicação proposto por Jakobson...51 Lista de Quadros Quadro 1: Competências do bibliotecário divididas em quatro categorias...62 vii

8 Lista de Siglas e Abreviações AD Análise Documentária ARPA Advanced Research Agency AVA Ambiente Virtual de Aprendizagem BBC British Broadcasting Television CBD/ ECA/ USP Departamento de Biblioteconomia e Documentação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo CBI Computer-based instruction CBO Classificação Brasileira de Ocupações CCA Departamento de Comunicações e Artes da ECA/ USP CD Compact Disc CD-ROM Compact Disc Read-Only Memory CDD Classificação Decimal de Dewey CDU Classificação Decimal Universal CERN Conseil Européen pour la Recherche Nucléaire CI Ciência da Informação CMS Course Management System CRB 1 Conselho Regional de Biblioteconomia Região 1 DCA Defense Communication Agency EAD Educação a distância EJA Educação de Jovens e Adultos EUA Estados Unidos da América FAQ Frequently asked questions FID Federação Internacional de Documentação GNU General Public License HD Hard Drive HTML HyperText Markup Language HTTP Hypertext Transfer Protocol IBM International Business Machines IPTO Information Processing Techniques IUB Instituto Universal Brasileiro K7 Compact Cassette KB Kilobyte viii

9 KM Knowledge Management LD Linguagem Documentária LDB Lei de Diretrizes de Bases LMS Learning Management System LN Linguagem Natural LP Long-playing MARC Machine-Readable Cataloging MEC Ministério da Educação PCI Partito Comunista Italiano PUC-SP Pontifícia Universidade Católica de São Paulo RABCI Repositório Acadêmico de Biblioteconomia e Ciência da Informação SIBI/ USP Sistema Integrado de Bibliotecas da Universidade de São Paulo SRI Sistema de Recuperação da Informação TA Tradução do autor deste trabalho TCP/IP Transmission Control Protocol/ Internet Protocol TCT Teoria Comunicativa da Terminologia TIC Tecnologias da informação e comunicação TV Televisão UAB Universidade Aberta do Brasil UCLA University of California, Los Angeles UFPA Universidade Federal do Pará UnB Universidade de Brasília UNESP Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho UNICAMP Universidade Estadual de Campinas URL Unifor m Resource Locator URSS União das Repúblicas Socialistas Soviéticas USP Universidade de São Paulo VHS Video Home System VLSI Very Large Scale Integration WWW World Wide Web XML Extensible Markup Language ix

10 SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO Tema Problema Hipótese Justificativa Objetivos Objetivos gerais Objetivos específicos Metodologia Organização do trabalho EDUCAÇÃO Definições de educação História das práticas educacionais Teorias pedagógicas EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Definições de EAD História da EAD Modalidades de EAD E-LEARNING Informática: histórico e definições Internet: histórico e definições Definições de e-learning Requisitos necessários para a elaboração de e-learning Análise de um programa de e-learning e sua plataforma: Campus Virtual e Chamilo Outro modelo de aprendizagem a distância online: OER Commons BIBLIOTECONOMIA História da Biblioteconomia A Biblioteconomia enquanto campo científico A Biblioteconomia enquanto fazer profissional Competências do bibliotecário ATUAÇÃO BIBLIOTECÁRIA EM PROJETOS DE E-LEARNING CONSIDERAÇÕES FINAIS...75 REFERÊNCIAS...76 x

11 1. INTRODUÇÃO O desenvolvimento tecnológico ocorrido desde as últimas décadas do século XX até os dias atuais contribuiu para que profundas transformações em todas as esferas da vida em sociedade se manifestassem. Esta máxima pode ser confirmada tanto pela observação empírica do cotidiano, visíveis que são as mudanças ocorridas na maneira de comunicar-se e relacionar-se, na de adquirir e produzir informação e conhecimento, nas relações de trabalho e nas transformações intrínsecas e extrínsecas de diversas profissões, entre outras, quanto pela revisão da literatura acadêmicocientífica dos últimos anos, que comumente, como bem notou Lévy, aborda o impacto das novas tecnologias da informação sobre a sociedade e a cultura (LÉVY, 1999, p. 21). Este pensador, no entanto, ao invés de utilizar o termo impacto, que a seu modo sugere equivocadamente que as técnicas viriam de outro planeta, estranhas a toda significação e valor humano, quase como seres autônomos, separados da sociedade e da cultura (Idem, p ), prefere salientar que as técnicas, na verdade, carregam em si projetos, esquemas imaginários, implicações sociais e culturais variados, sobre as quais agem e reagem ideias, projetos sociais, utopias, interesses econômicos e estratégias de poder, significando, assim, que as técnicas são produtos de uma cultura, cuja sociedade se encontra condicionada (mas não determinada) por elas (Ibidem, p ). Em outras palavras, pode-se dizer que, em primeiro lugar, se as técnicas influenciam o meio social, ao mesmo tempo são produtos dele, e, em segundo, ao contrário do que pode parecer à primeira vista, as novas tecnologias não surgiram do nada como pragas a serem imediatamente extirpadas por tentarem subverter paradigmas estabelecidos mas são frutos de um longo percurso histórico, social, político, econômico e cultural, que, como disse Lévy em termos de internet e dos novos espaços de comunicação decorrentes, não resolverão num passe de mágica todos os problemas culturais e sociais do planeta, mas que ainda assim ou talvez até por isso devem ser explorados em suas potencialidades mais positivas nos planos econômico, político, cultural e humano (Ibidem, p. 11). Ao deter-se especificamente na revolução das tecnologias de informação e comunicação (TIC), pode-se afirmar que esta representa algo sem precedentes na história da humanidade. Não desmerecendo a importância de outros momentos de ruptura paradigmática da comunicação humana como do surgimento da escrita à evolução do uso do pergaminho ao do papel, dos copistas da Idade Média à imprensa de Gutenberg, do surgimento da eletricidade à invenção do rádio, do cinema e da televisão nenhum destes modificou tanto e em tão pouco tempo a comunicação, aquisição e produção de conhecimento quanto a internet e suas possibilidades. 1

12 Das inúmeras características possíveis de citação, capazes de corroborar a afirmação acima e demonstrar a singularidade do momento atual, sublinha-se aqui duas: o seu alcance global (e não restrito a uma determinada comunidade ou localidade), que interligou o mundo a uma só rede, permitindo a troca de dados a qualquer hora e em qualquer lugar (HOUSSAMI, 2005, p. 5 apud BARBUTO, 2002) 4 e as novas relações de troca que proporcionou, desta vez mais horizontais e interativas que as mídias anteriores (MUCHERONI, 2011a, p. 1), permitindo a qualquer um que tenha acesso a computadores ligados à internet a produção e transmissão de conteúdo informacional. A grande maioria dos indivíduos, portanto, deixa de ser apenas consumidor para se tornar também produtor de informação, possibilitando um novo espaço de comunicação que é inclusivo (LÉVY, 2003, p. 367). Neste contexto, a Biblioteconomia não fica à margem, na medida em que, assim como tantas outras áreas do conhecimento humano, recebe influência direta destes novos tempos não só enquanto área do conhecimento, como também enquanto fazer profissional ao mesmo tempo em que, de certa forma, contribui para que as mudanças se processem. Segundo Cunha, as múltiplas dimensões culturais/ políticas/ sociais contribuem para a modificação do conhecimento e do fazer humano ao longo dos anos, sendo a tecnologia a base dessas mudanças, a ponto de contribuir para o processo de fragmentação e dispersão do mundo do trabalho, ao mesmo tempo em que, a partir deste cenário, reorganiza-o, permitindo a inserção de novas formas de gestão, métodos e relações de trabalho, bem como novas práticas educacionais e formas de comunicação (CUNHA, 2006, p. 141). Exemplo disso é a série de debates com os quais a Biblioteconomia, enquanto campo científico, convive desde as últimas décadas acerca de definições de objetivos e demarcações disciplinares (SMIT; BARRETO, 2002, p. 10), momento em que a própria nomenclatura passou a ser questionada como disse Valentim ao propor a flexibilização do termo utilizado, quaisquer que sejam as fórmulas plurais (VALENTIM, 2002, p. 117). Já enquanto atividade profissional não há dúvida de que, se por um lado, com o surgimento da internet o registro, a busca e o acesso à informação ganharam um aliado, pois esta permitiu a quebra de barreiras espaço-temporais e o acesso à informação passou a ser mais simplificado e ágil, graças à criação de bibliotecas virtuais e digitais, open archives, dentre outros recursos informacionais que ampliaram a qualidade das buscas bibliográficas e dos mecanismos de recuperação da informação (HOUSSAMI, 2005, p. 6 apud LOPES, 2002; SANTOS, 2003) 5, por outro lado imensos desafios se apresentaram pois é inegável que engendram questionamentos, especificações e características próprias, ainda que seja 4 BARBUTO, Cláudio (edit.). Tecnologia da informação para todos. São Paulo: Bei Comunicações, LOPES, Ilza Leite. Estratégia de busca na recuperação da informação: revisão a literatura. Ciência da Informação, v. 31, n. 2, p , maio/ ago. 2002; SANTOS, Neide. Estado da arte em espaços virtuais de ensino e aprendizagem. Rio de Janeiro: Laboratório de Engenharia de Software/ PUC-Rio,

13 possível (e necessário) o aproveitamento de muitos conceitos e práticas voltados ao documento físico. Com isso, como continua Houssami, a atuação profissional do bibliotecário sofre alterações, pois deixa de ser apenas um agente facilitador na interação usuário presencial/acervo para também ser criador de ferramentas e recursos informacionais acessíveis em qualquer hora/ lugar (HOUSSAMI, 2005, p. 6). Diante deste cenário, vêm surgindo diversas pesquisas, discussões e trabalhos acadêmicos que buscam refletir sobre essas novas possibilidades de atuação e inserção profissional do bibliotecário no mercado de trabalho o que não significa, por seu turno, no âmbito da prática da atuação profissional, falta de identidade da área (bem como não o é na esfera teórica, já que o fato da Biblioteconomia ser interdisciplinar pode ocasionar equivocadamente, à primeira vista, ambiguidades em relação à sua legitimidade enquanto campo científico constituído). Pelo contrário, acredita-se que o estudo, a descoberta e o levantamento dessas novas possibilidades apenas demonstram o quão abrangente é, em termos de atuação profissional, a carreira de um bibliotecário e o quanto a interdisciplinaridade, em plano teórico, contribui para tal, na medida em que ambos não fixam o profissional a determinado espaço físico e/ou função. Independente de sua nomenclatura, o objeto com o qual este profissional trabalha é a informação e o objetivo é deter-se sobre os princípios e práticas de sua criação, organização e distribuição, bem como debruçar-se sobre o fluxo que permite sua transmissão à determinada comunidade de usuários (SMIT; BARRETO, 2002, p ), além de, também, refletir sobre como permitir que a comunicação se dê enquanto diálogo (COELHO NETTO, 2007, p. 204) e não de maneira, ainda que bem intencionada, arbitrária. Porém, o local, a comunidade beneficiada, a metodologia empregada e os instrumentos utilizados podem naturalmente variar e variam. Ainda neste sentido, crê-se que a sugestão de novos cargos/ ocupações/ funções/ possibilidades de trabalho é benéfica, razão pela qual não se encara tal ação como depreciativa da atuação do bibliotecário tradicional que atua em bibliotecas tradicionais, comumente desempenhando funções de tratamento técnico de documentos e/ou de serviços de referência e cujo suporte predominante é o livro. Pelo contrário, considera-se que a sugestão apenas demonstra, novamente, o quão promissora é a carreira, que frente às novas TIC s proporciona novos caminhos àqueles que quiserem experimentar outras formas de trabalhar com a informação com vistas a um público que, certamente, necessita delas (consciente ou inconscientemente) caminhos estes que apenas se somam às possibilidades já existentes. Além das profissões, deve-se ressaltar, ainda, outra esfera social que vem apresentando mudanças e se diversificando: a educação. Além das tradicionais e consagradas salas de aula dispostas em escolas, universidades, institutos e corporações, houve, com a popularização da 3

14 internet um aumento significativo do número de instituições ofertando cursos a distância, bem como o número de alunos envolvidos em iniciativas do tipo (RODRIGUES, 2006, p. 33). Aumento significativo é o termo correto, pois a educação a distância (EAD) já existe desde o século XVIII (NUNES, 2009, p. 2); a novidade em questão (talvez já nem tão nova assim) é que, com o desenvolvimento das TIC s nas últimas décadas, que permitiu que a comunicação humana passasse a ser mediada (também!) pelo computador, tornou-se possível a criação de plataformas de aprendizagem educacionais, cujo uso é crescente (TELES, 2009, p. 72) sendo o e-learning um exemplo destacado disto. É verdade que, naturalmente, junto a cada novo período histórico surge uma série de incertezas e indefinições, decorrente das dificuldades existentes de compreensão da essência e das características dos novos padrões que se difundem, quando por vezes algo que passa a ser considerado como um traço distinto da nova fase (modo) mostra-se, no futuro, como produto de um erro de interpretação (moda), sendo necessário, portanto, distinguir o modo da moda (LASTRES; CASSIOLANO, 2006, p. 1-2). No caso do e-learning, porém, desacredita-se na possibilidade de que este seja algo passageiro ou ainda algo que se assenta sobre um progressismo típico da modernidade (BOHADANA; DO VALLE, 2009, p. 556), pois, entre outras razões, tratase da variante de uma modalidade que já existe há séculos, cuja variação decorre do fato de que é adaptada para ser utilizada por computadores conectados à internet talvez os dois pilares das novas TIC s que só se expandem. E, mesmo que fosse passageiro, o fato é que o e-learning está presente na atualidade e que muitas pessoas se utilizam desta modalidade, o que por si só já significaria um estudo amplo da mesma a fim de permitir modelos de qualidade. É verdade, porém, que do futuro nada se sabe. Diante desta incapacidade, não se sabe dizer com certeza se o e-learning irá ou não substituir a sala de aula tradicional, bem como se deve ou não fazê-lo; continuando, não se pode afirmar também se, na esfera pública, o e-learning desvia recursos que poderiam ser investidos no ensino formal, impedindo se esta afirmação for verdadeira a abertura de novas vagas no ensino presencial; de maneira idêntica, não se pode precisar se o e-learning é um método de ensino deficiente em relação à sala de aula ou se, até mesmo, veio para revolucionar a forma como se pensa a educação. Embora sejam todas discussões pertinentes, das quais toda a sociedade deve participar, estas não poderão ser debatidas aqui deixando claro de antemão que, da mesma forma como não se adotará uma postura irrefletidamente entusiástica em defesa desta modalidade, não se adotará posições preconceituosas em relação à mesma com o intuito de denegri-la. Esta postura, por seu turno, não significa imparcialidade ; partindo-se do pressuposto de que o e-learning existe, de que significativa parcela da população mundial já se utiliza de seus recursos como forma de aprendizado e treinamento e de que, a cada vez mais, novas instituições e indivíduos se interessam pela mesma, crê-se que o e-learning deve 4

15 ser explorado em todas as suas potencialidades como sugere Capitani ao dizer que o e-learning não é ainda bem utilizado levando-se em conta suas potencialidades e especificidades (CAPITANI, 2011, p. 1) Tema Explorar o e-learning será justamente o objetivo deste trabalho. A partir do contexto exposto, escolheu-se determinado recorte para tal objetivo, a saber, a atuação bibliotecária em projetos de e-learning, a partir da consideração de suas competências profissionais, entendendo que este pode ser um campo de trabalho para os bibliotecários Problema A pergunta principal que dá norte ao trabalho é: levando-se em conta as competências profissionais daquele que se forma em Biblioteconomia, pode-se dizer que este é capacitado para atuar profissionalmente em projetos de e-learning? Em caso afirmativo, e considerando seu conhecimento adquirido, em que medida pode contribuir? 1.3. Hipótese Parte-se da hipótese de que: a) o e-learning é um programa de treinamento e aprendizado, e que, portanto, atua como veículo de transmissão de informações visando um determinado fim, cujo sucesso ou fracasso dependerá de alguns fatores tais como organização, clareza e objetividade das informações, conhecimento do público-alvo, recuperação precisa de informações, interatividade, atratividade (ROSENBERG, 2002, p ), podendo então ser caracterizando também como instrumento de gestão do conhecimento (RAUTENBERG et al, 2010, p. 176); b) os pontos listados acima são abordados em cursos de Biblioteconomia, cujo objetivo é formar profissionais capazes de propor soluções a problemas inerentes a estes tópicos (VALENTIM, 2002, p ) ainda que tradicionalmente voltados a suportes físicos de forma a, além disso, contribuir para a possibilidade efetiva de um sistema de informação e comunicação baseado no diálogo (COELHO NETTO, 2007, p.204). Neste sentido, este trabalho tentará responder se essa aparente correlação é de fato verossímil. 5

16 1.4. Justificativa Justifica-se este trabalho na medida em que o mesmo visa contribuir para a discussão sobre as novas possibilidades de inserção profissional do bibliotecário. Com isso, o objetivo é somente abrir novas perspectivas de atuação profissional, de forma a se somarem às já existentes, possibilitando assim mais opções de escolha aos profissionais e visando atender a outras comunidades de usuários informacionais Objetivos Objetivos gerais O objetivo geral, portanto, em conformidade com o exposto até aqui, é o de confirmar ou não a hipótese de que o bibliotecário é capacitado para atuar profissionalmente em programas de e- Learning segundo suas competências, a partir da reflexão sobre o que é educação, educação a distância e e-learning e o levantamento de quais são os requisitos básicos para que um projeto do gênero possa ser levado a diante, e a partir da análise da Biblioteconomia enquanto campo científico e sua relação com a prática do trabalho exercida por bibliotecários bem como o levantamento de quais são as competências profissionais gerais deste, suas funções atuais e as possibilidades futuras de atuação profissional Objetivos específicos Os objetivos específicos são refletir se e como o bibliotecário pode atuar na prática em programas de e-learning a partir de suas competências. Para tal, será feito um cruzamento entre os dados relativos às competências bibliotecárias e os requisitos básicos necessários para a criação, implantação, manutenção e atualização de projetos de e-learning. Além do percurso teórico, será feito também um estudo de caso, tomando-se como objeto o programa de e-learning Campus Virtual, que se utiliza da plataforma Chamilo Metodologia 6

17 Para tal, como dito, pretende-se fazer uma revisão de literatura acerca, principalmente, das seguintes áreas: Educação; Educação a Distância; Biblioteconomia; Ciência da Informação; e- Learning; atuação profissional do bibliotecário; Semiótica. Fora isso, será feito o estudo de caso de uma plataforma específica de e-learning, o Chamilo, que é utilizado pelo projeto Campus Virtual, com o objetivo de confrontar os requisitos de tal com as competências bibliotecárias, tentando encontrar em que medida este profissional pode se inserir na elaboração daquele Organização do trabalho O primeiro capítulo, como se viu, procurou contextualizar a problemática em questão; no segundo, por sua vez, far-se-á uma revisão histórico-conceitual da educação; no terceiro, outra revisão será feita, desta vez tendo por objeto a educação a distância ambas com o sentido de situar o e-learning espaço-temporalmente, assunto principal do quarto capítulo, que se inicia, porém, analisando as duas bases fundamentais desta modalidade de ensino e gestão do conhecimento, a informática e a internet, e que finaliza com o estudo de caso de um programa específico e sua plataforma. Em seguida, no quinto capítulo, a Biblioteconomia e a atuação profissional do bibliotecário estarão sob foco de análise, cujo objetivo será o de levantar as competências principais do bibliotecário e mapear suas possibilidades de atuação profissional, após um breve panorama histórico-conceitual. Já no sexto capítulo, procurar-se-á entrelaçar as conclusões feitas sobre o e- Learning e sobre as competências bibliotecárias com o objetivo de verificar se este profissional pode atuar profissionalmente em programas do tipo, levando em conta a exigências do mesmo. Finaliza-se, então, com as considerações finais e a relação de referências utilizadas. 7

18 2. EDUCAÇÃO Se o e-learning é também considerado como uma plataforma de aprendizagem, não resta dúvida de que uma explanação sobre educação faz-se necessária. Impossível será, no entanto, abordar todas as correntes de pensamento da Pedagogia neste trabalho de conclusão de curso, bem como uma descrição histórica precisa e detalhada; desta forma, limitar-se-á a exposição de alguns conceitos-chave de educação ou a ela relacionados, bem como um esboço histórico de suas principais variáveis ao longo do tempo praticadas no Ocidente, que contribuirão para a posterior compreensão do e-learning Definições de educação O Dicionário Houaiss fornece as seguintes definições para o termo educação: a) ato ou processo de educar-se; qualquer estágio deste processo; b) aplicação dos métodos próprios para assegurar a formação e o desenvolvimento físico, intelectual e moral de um ser humano; pedagogia, didática, ensino; c) o conjunto desses métodos; pedagogia, instrução, ensino; d) desenvolvimento metódico de uma faculdade, de um sentido, de um órgão; e) conhecimento e observação dos costumes da vida social; civilidade, delicadeza, polidez, cortesia; e) adestramento de animais; f) aclimação de plantas (HOUAISS, 2009). Nota-se, com esta definição, que o termo educação possui várias acepções, embora correlatas entre si o que indica o quanto o termo se alterou ao longo da história, a ponto até de fazer surgir questionamentos sobre se o que existe é, ao invés de educação, educações (BRANDÃO, 1995, p. 7), como este último refletiu: Em mundos diversos a educação existe diferente: em pequenas sociedades tribais de povos caçadores, agricultores ou pastores nômades; em sociedades camponesas, em países desenvolvidos e industrializados; em mundos sociais sem classes, de classes, com este ou aquele tipo de conflito entre as suas classes; em tipos de sociedades e culturas sem Estado, com um Estado em formação ou com ele consolidado entre e sobre as pessoas (Idem, p. 9). O mesmo conclui dizendo o seguinte: Existe a educação de cada categoria de sujeitos de um povo [...] Existe entre povos que submetem e dominam outros povos, usando a educação como um recurso a mais de sua dominância. Da família à comunidade [...] primeiro, sem classes de alunos, sem livros e sem professores especialistas; mais adiante, com escolas, salas, professores e métodos pedagógicos. A educação pode existir livre e, entre todos [...] Ela pode existir imposta por um sistema centralizado de poder, que usa armas que reforçam a desigualdade entre os homens, na divisão dos bens, do trabalho, dos direitos e dos símbolos (Ibidem, p. 10). 8

19 Relevante considerar, destas duas citações, dois princípios: primeiro, a ideia de que a educação se desenvolve em todas as sociedades; em segundo lugar, justamente pela presença em sociedades diversas, torna-se clara a noção de que ela serve a diferentes objetivos, já que é elaborada por diferentes classes de indivíduos para diferentes classes de indivíduos, não sendo incorreto, portanto, pensar em educações. Levando-se em conta todos estes fatores intrínsecos e extrínsecos a si mesma, a educação pode ser entendida como uma fração do modo de vida dos grupos sociais que a criam e recriam, entre tantas outras invenções de sua cultura, em sua sociedade (Ibidem, p. 10), de tal forma que não existe atividade, profissional, social, política, moral, que não dependa, em certo grau, da ação educadora (GAL, 1989, p. 1). Segundo Libâneo, o verbo educar descende do latim educare e significa conduzir de um estado a outro, definindo então o ato pedagógico como uma atividade de interação entre seres sociais, que se configura na ação exercida sobre sujeitos ou grupos de sujeitos, objetivando provocar mudanças capazes de torná-los ativos da própria ação exercida; neste contexto, presume a existência de três componentes: um agente (alguém, meio social), um educando (aluno, grupos sociais) e uma mensagem (conteúdo, métodos) (LIBÂNEO, 1985, p ). Assim, conclui-se novamente que a educação não pode ser compreendida fora de seu contexto histórico-social concreto, sendo a prática social seu ponto de partida e de chegada (ARANHA, 1989, p. 50). Gal diz que a educação é o fato que talvez melhor caracterize a espécie humana, pois é o que lhe permitiu perpetuar a evolução de sua espécie ao garantir a transmissão de todas as aquisições que puderam ser realizadas pelas gerações (GAL, 1989, p. 5-6), já que, diferentemente de outros animais, é diversa a ação do homem sobre a natureza e sobre si mesmo, pois ao reproduzir técnicas utilizadas por outros homens e inventar a partir disso outras, a ação humana se torna fonte de ideias e uma experiência propriamente dita (ARANHA, 1989, p. 2-4). O homem, assim, a partir de sua experiência, passa a existir no tempo e, graças à possibilidade de expressar-se por meio de símbolos, torna presente realidades com as quais já teve contato, bem como antecipar realidades ainda não realizadas (Idem, p. 4). Chega-se, assim, à conclusão de que, pela educação, torna-se possível a cultura esta entendida como transformação que o homem exerce sobre a natureza, mediante o trabalho, os instrumentos e as ideias utilizadas nessa transformação, bem como os produtos resultantes, o que permite a conclusão de que a condição humana não deriva dos instintos (Ibidem, p 4-5). Reciprocamente, no entanto, uma vez entendendo que a cultura é criação essencialmente humana, surgida da necessidade do homem de satisfazer suas necessidades e que para tal transforma o mundo natural e a si mesmo, instaurando o trabalho (e as divisões sociais que deste decorrem), que por sua vez se manifestam nas criações filosóficas, científicas, artísticas e espirituais, o 9

20 desenvolvimento desta só é possível pela transmissão dos conhecimentos adquiridos através das gerações, bem como pela assimilação dos modelos de comportamento valorizados, papéis estes que couberam à educação (Ibidem, p ;16). Desta forma, mais do que dizer que a educação pode assumir aspectos diversos, ela assume determinadas formas dependendo do contexto histórico ao qual está inserida, ao mesmo tempo em que ajuda (ou não) a perpetuá-lo ou destruí-lo. Importante mencionar, ainda que brevemente, que esta transmissão se dá sobretudo pela linguagem, e mais ainda pela língua, como fica claro quando Lotman e Uspensky dizem que [...] a língua é moldada dentro de um sistema de cultura mais geral e, junto com esta, constitui um todo complexo 6 (LOTMAN; USPENSKY, 1978, p. 213). Ou seja, a cultura imprime sua marca na língua, enquanto que esta na cultura relação dialética bem delimitada por Blikstein, quando, ao longo de seu livro, demonstra a importância da inclusão do referente nos estudos linguísticos e semióticos uma vez que a percepção e a significação destes dependem em grande parte da cultura, que, por sua vez, é definida pelos mesmos (BLIKSTEIN, 1985). O mesmo ocorre com a educação e, se for verdade que a educação varia de acordo com seu contexto e que, por conseqüência, dá-se por signos e suas combinações ela então é intimamente ligada a outros dois elementos: a política e a ideologia. Segundo Aranha, a educação não é e não pode ser é apolítica, bem como a escola, que está longe de ser um espaço neutro, à margem das divergências da sociedade e atuando apenas como um canal objetivo de transmissão da cultura universal (Ibidem, p. 27). Isso porque a educação reflete os confrontos de força que existem na sociedade e espelha os interesses da classe dominante, não sendo possível, portanto, pensar a escola (ou processos educacionais) como atemporal (Ibidem, p ). A ideologia, neste sentido, em termos amplos, seria entendida como conjunto de ideias, concepções ou opiniões sobre algo, sendo também possível conceituá-la como doutrina, isto é, corpo sistemático de ideias, e como teoria, ou seja, organização sistemática dos conhecimentos destinados a orientar a prática (Ibidem, p. 24). A função da ideologia seria não somente o de perpetuar uma determinada visão de mundo, mas também o de ocultar diferenças existentes no seio da sociedade, como as de classe, assegurando certa coesão entre os homens e a aceitação sem críticas de tarefas por vezes penosas (Ibidem, p. 25), decorrendo disso a impossibilidade de dissociar a educação do poder, cuja afirmação demonstrar-se-á como evidente durante análise de seu percurso histórico História das práticas educacionais 6 [...] language is molded into a more general system of culture and, together with it, constitutes a complex whole. (TA) 10

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