Projeto CELCOM: Uma alternativa tecnológica de baixo custo para desenvolvimento de EaD em comunidades rurais isoladas

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1 Projeto CELCOM: Uma alternativa tecnológica de baixo custo para desenvolvimento de EaD em comunidades rurais isoladas Jeferson Leite1, Marcel Cabral2, Edgleyson Nunes3, Francisco Müller4, Aldebaro Klautau5 Universidade Federal do Pará (UFPA) / 1 Universidade Federal do Pará (UFPA) / 2 Universidade Federal do Pará (UFPA) / 3 Universidade Federal do Pará (UFPA) / 4 Universidade Federal do Pará (UFPA) / 5 Resumo Este trabalho apresenta um projeto de telefonia celular comunitária de baixo custo, o CELCOM, e tem como objetivo oferecer, além de uma opção barata de telefonia móvel, uma alternativa de acesso à Internet através da tecnologia GPRS, podendo assim ser utilizada em aplicações de EaD (Educação à Distância) em comunidades isoladas das áreas rurais. Como será abordado ao longo do trabalho, existem diversos programas de inclusão digital que pretendem fornecer acesso à Internet banda larga para municípios das áreas rurais, no entanto, tais programas tem como alvo apenas as sedes desses municípios, negligenciando as comunidades mais afastadas que deles fazem parte, o trabalho aqui apresentando visa atender justamente essas comunidades isoladas, fornecendo não só uma alternativa para levar educação como também integrando-as ao resto do mundo. Palavras-chave: Hardware, GSM, GPRS, comunidades rurais, educação à distância. Abstract This paper presents project of a low cost mobile community telephony service called CELCOM, which aims to offer, beyond an inexpensive option of mobile service, an alternative of access to the Internet through the GPRS technology, it could be used in Distance Education (DE) applications in isolated communities in rural areas. As will be discussed throughout the paper, there are many digital inclusion programs that claim to provide broadband Internet access to cities from rural areas, however, such programs must target only the seats of these municipalities, neglecting the most remote communities that make them part, the work presented here aims to address precisely these isolated communities, providing not only an alternative to take education as well as integrating them with the rest of the world. Keywords: Hardware, GSM, GPRS, rural communities, distance education. 1

2 1. Introdução Um dos maiores desafios no cenário atual é levar educação às regiões mais remotas do país, mais especificamente às comunidades rurais que são parcial ou totalmente desprovidas de meio de comunicação com o mundo externo. Uma das alternativas usadas para integrar essas comunidades e promover essa inclusão social é o uso da Educação à Distância (EaD). Como o próprio nome já diz, a Educação à Distância (EaD) é uma modalidade de educação na qual professor e alunos estão separados espacial ou temporalmente no processo de ensino-aprendizagem, promovendo educação independente da distância. Graças às novas Tecnologias da Informação e Comunicação, a EaD é uma realidade que vem rapidamente tomando conta do cenário tanto nacional quanto global. Existem diversas plataformas que permitem usuários comuns compartilharem conhecimento ou aprenderem sobre os mais diversos campos. Além disso, instituições educacionais, dentre elas universidades e faculdades, oferecem diversos cursos com parcial ou sem a necessidade de aulas presenciais. Embora este tipo de ferramenta não venha de modo algum substituir o ensino presencial, seu advento e atual sucesso dá-se sobretudo devido às diversas alternativas que ela oferece tanto aos professores quanto aos alunos, permitindo um ensino muito mais dinâmico e interessante. Além disso, permite ao aluno construir conhecimento por si próprio, pois o professor, antes um orientador em tempo integral, passa a ser apenas um mediador ora a distância, ora em um ambiente físico, incentivando ao aluno a desenvolver competências e atitudes relativas ao estudo diferentes das adquiridas no ensino tradicional. No entanto, apesar de se tratar de EaD, existem inúmeras regiões afastadas sobretudo nas áreas rurais que não são alcançadas por esse tipo de iniciativa, o principal motivo é a indisponibilidade do acesso à banda larga nesses locais. Com o objetivo de amenizar tais carências existem projetos, no Brasil e no mundo, que visam promover a inclusão digital por meio da massificação do acesso à Internet. Contudo, como será visto, as ações existentes atualmente não preveem a disponibilização do acesso à Internet para regiões que estão localizadas afastadas até mesmo das sedes dos municípios, regiões essas que, devido ao seu próprio isolamento, carecem ainda mais de projetos de EaD, mas que não são atendidas, pois as suas baixas densidades populacionais não justificam os altos custos de levar um link de Internet a esses locais. Este trabalho apresenta uma opção barata, tanto para instalação quanto para manutenção do sistema, que pode, sobretudo em paralelo com os projetos atuais de popularização de acesso à banda larga, suprir a necessidade dessas comunidades isoladas. Essa alternativa que será detalhada mais adiante é o projeto CELCOM (telefonia CELular COMunitária) que pretende fornecer uma rede telefonia móvel e acesso à Internet para as comunidades rurais mais afastadas. As próximas seções estão organizadas da seguinte forma: na Seção 2, será feita uma análise do cenário atual da inclusão digital no Brasil. A Seção 3 apresenta o projeto CELCOM e uma descrição do funcionamento desse sistema. Na Seção 4, é feito um estudo dos custos envolvidos na implantação do projeto comparando-o às atuais soluções existentes. A Seção 5 2

3 apresenta um estudo de caso, mostrando a potencialidade do uso da solução proposta. Por fim, na Seção 6 são feitas as considerações finais a respeito do sistema proposto. 2. Cenário atual No dias atuais, o uso da tecnologia como meio de desenvolvimento e inclusão vem ganhando cada vez mais destaque no cenário mundial (Nungu et al, 2011) (Cecchini, 2012), governos de diversos países em desenvolvimento, como o Brasil e a Colômbia, vêm apresentando iniciativas buscando massificar o acesso à Internet. Em se tratando de Brasil, que é o maior país da América do Sul, devido sua extensão continental e suas diversas regiões com características bastante particulares e diversificadas, o desafio de disponibilizar Internet para todos é ainda maior, sobretudo quando se trata da região Norte, uma região que possui baixa densidade demográfica, gigantescas áreas florestais e dimensões geográficas enormes. Apesar disso, como é possível verificar na Figura 1, verifica-se que houve uma evolução ao longo dos anos no que diz respeito ao acesso à Internet no Brasil, ocorrendo um aumento considerável nos acessos banda larga e SCM (Serviços de Comunicação Multimídia) que englobam tanto acessos banda larga quanto banda estreita (menor que 64 kbps). Um dos fatores que permitiram essa evolução foi a expansão das redes das provedoras de acesso à Internet nos últimos anos. Como visto na Figura 2, as cinco maiores provedoras de Internet banda larga no Brasil possuem mais de 91% do mercado nacional no 4 trimestre de 2012 (Teleco, 2013). Assim, com o objetivo de incentivar a expansão das redes bem como a competição entre as provedoras de acesso à Internet e elevar a disponibilidade de acesso banda larga nas regiões rurais, governos federal e estaduais têm procurado desenvolver cada vez mais projetos voltados para a inclusão digital. A seguir, serão mostradas duas iniciativas nesse sentido que estão ocorrendo no Brasil, uma em âmbito nacional, o Programa Nacional de Banda Larga (PNBL), e outra a nível estadual, o Navegapará, aplicada no Estado do Pará localizado na região Norte do Brasil. 3

4 Figura 1 - Acessos SCM e banda larga no Brasil (Teleco, 2013). Figura 2 - Distribuição de banda larga no Brasil Programa Nacional de Banda Larga (PNBL) Em 12 de maio de 2010, através do Decreto n 7.715, foi criado o Programa Nacional de Banda Larga (PNBL) no Brasil. O objetivo do programa é proporcionar até 2014 acesso barato à banda larga de no mínimo 1 Mbps a mais de 40 milhões de brasileiros. O modelo de desenvolvimento do PNBL pode ser dividido em três níveis: 1. Nível nacional: consiste na expansão do backbone brasileiro através da ampliação da rede de fibra óptica tal como ilustrado na Figura 3, alcançando 4

5 diversas cidades que ainda hoje não possuem tal infraestrutura; 2. Nível regional: a partir da expansão da rede de fibra óptica, espera-se ampliar essa rede criando diversos backhauls para municípios localizados na região; 3. Nível local: a Telebrás juntamente com seus parceiros (responsáveis por levar o link de Internet até o cliente final caso haja deficiência de tais serviços na região) esperam fornecer acesso banda larga de no mínimo 1 Mbps por um preço de cerca de R$ 35,00. Portanto, o PNBL trata-se de um plano de inclusão digital que tem como objetivo aumentar a oferta do serviço de banda larga no Brasil, através da melhoria da infraestrutura da rede e incentivos fiscais, aumentando a velocidade de acesso em regiões afastadas e diminuindo o preço do serviço. Dessa forma, o governo federal espera atender 76% dos municípios brasileiros o que corresponde a 88% da população. No entanto, embora tal projeto tenha como previsão alcançar grande parte da população brasileira, quando se trata apenas das regiões mais afastadas dos grandes centros populacionais, a realidade é outra. Assim como mostrado na Figura 4, o PNBL pretende alcançar os 8 Estados pertencentes às regiões Norte e Centro-Oeste que possuem grande deficiência na cobertura banda larga no Brasil que são: Acre, Amazonas, Amapá, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. Contudo, apesar de alcançar todos esses Estados, ao contrário da média nacional, apenas 31% do municípios serão atendidos, o que corresponde a cerca 54% da população, deixando ainda uma grande parcela de pessoas à margem dos benefícios desse projeto. 5

6 Figura 3 - Expansão da rede de fibra óptica no Brasil prevista pelo Programa Nacional de Banda Larga. Figura 4 Estados da região Norte e Centro-Oeste com grande deficiência em acesso banda larga cobertos pelo Programa Nacional de Banda Larga. 6

7 2.2. Navegapará O Navegapará é um exemplo de programa de inclusão digital a nível estadual. Trata-se de um programa do governo do Estado do Pará que visa promover a democratização do acesso à Internet pelos órgãos do governo e pela sociedade, expandido o acesso à Internet para municípios que possuem deficiência ou que antes não eram atendidos por esse tipo de serviço. A infraestrutura do Navegapará é algo semelhante ao PNBL. O governo do Estado assinou um acordo de cooperação técnica com o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) e pode utilizar e expandir a rede óptica metropolitana de Belém (MetroBel). A infraestrutura da Metrobel é basicamente constituída de duas topologias: uma parte central com a topologia em anel (backbone) e a outra em topologia estrela na qual derivações ligadas diretamente ao anel central atendiam órgãos dele afastados, sendo que antes essa rede era utilizada apenas para serviços locais de telemedicina, EaD, videoconferência, acesso banda larga e etc. Como mostrado na Figura 5, com a adesão do governo, a rede que antes possuía cerca de 40 km de fibra óptica aumentou em cerca de 152 km de cabo de fibra óptica lançados (55 km de backbone e 97 km de derivações) (Navegapará, 2013), permitindo que diversos pontos agora possam usufruir dessa rede. Figura 5 Expansão da rede MetroBel com o desenvolvimento do Navegapará. Além disso, o projeto consiste na instalação de redes rádio de alta capacidade a fim de 7

8 distribuir o link do Navegapará em diversos municípios da região metropolitana e do Interior, as chamadas cidades digitais. Diferente do PNBL, o Navegapará não prevê distribuir acesso banda larga diretamente nas residências dos habitantes dos municípios por ele cobertos. Tratase de um programa voltado sobretudo para órgãos governamentais, sua política de inclusão digital está no fornecimento do acesso à Internet via pontos de acesso público localizados nas cidades digitais, além da instalação de infocentros nos quais os habitantes da localidade podem não só acessar à Internet como participar de cursos básicos de tecnologia. Embora não exista uma estatística de quantas pessoas já foram beneficiadas por esse programa, atualmente, o Navegapará já alcança cerca de 60 municípios tal como mostrado na Tabela 1 e continua em expansão, sendo que todos os municípios por ele alcançados possuem pelo menos um ponto de acesso público com velocidade de 2 Mbps. Quando comparado com as previsões do PNBL no Estado do Pará mostradas na Tabela 2 (PNBL, 2013), verifica-se que o Navegapará já chega a mais do que os previstos para serem cobertos pelo programa federal. Municípios já atendidos atualmente pelo Navegapará São Caetano de Odivelas São Domingos do Capim Abaetetuba Capanema Jacundá São João de Pirabas Acará Castanhal Marabá Primavera Alenquer Colares Maracanã Quatipuru São Francisco Algodoal Concórdia do Pará Marapanim Rurópolis São João da Ponta Altamira Curuçá Marituba Salinópolis São Miguel Ananindeua Goianésia Marudá Salvaterra Soure Augusto Côrrea Igarapé-Açu Moju Santa Bárbara Tailândia Barcarena Igarapé-Miri Santa Isabel Terra Alta Belém Inhangapi Santa Maria Tracuateua Benevides Irituia Pacajá Santarém Tucuruí Bragança Itaituba Paragominas Santarém Novo Uruará Bujaru Itupiranga Peixe-Boi Santo Antônio do Tauá Vigia Nova Timboteua Novo Repartimento Tabela 1 Lista dos municípios atendidos atualmente pelo programa Navegapará. 8

9 Municípios previstos (além da capital Belém) para serem atendidos pelo PNBL no Pará Ananindeua Garrafão do Norte Ponta de Pedras São Francisco do Pará Augusto Corrêa Inhangapi Primavera São João da Ponta Aurora do Pará Ipixuna do Pará Quatipuru São Miguel do Guamá Benevides Irituia Salinópolis São Sebastião da Boa Vista Bonito Limoeiro do Ajuru Bujaru Mãe do Rio Cachoeira do Piriá Marapanim Concórdia no Pará Moju Curralinho Muaná Dom Eliseu Nova Timboteua Santa Isabel do Pará Santa Luzia do Pará Santarém Novo Santo Antônio do Tauá São Caetano de Odivelas São Domingos do Capim Soure Terra Alta Tracuateua Ulianópolis Vigia Viseu Tabela 2 Lista com a previsão de municípios que serão atendidos pelo PNBL no Estado do Pará. 3. Projeto CELCOM Embora os projetos citados sejam promissores e estejam realmente contribuindo para a popularização do acesso à Internet, é importante destacar que, apesar de alcançar um grande número de municípios em regiões rurais afastadas, esses projetos resumem-se em atender as sedes desses municípios, deixando à margem de tais benefícios diversas comunidades afastadas por quilômetros dessas sedes, comunidades estas que sequer possuem serviços de telefonia móvel. O projeto CELCOM (Telefonia CELular COMunitária) surgiu como uma alternativa barata para suprir essa carência. Sua ideia principal é fornecer serviços básicos de telefonia móvel GSM (conversação e SMS) e acesso à Internet via GPRS (General Packet Radio Service) que fornece uma taxa média de 40 kbps (equivalente a uma conexão discada) sem custos para o usuário, dado que os moradores dessas comunidades não teriam recursos para pagar esses serviços. Ainda que a tecnologia GPRS forneça uma velocidade baixa comparada aos padrões atuais, essas comunidades rurais em sua maioria são desprovidas de qualquer rede de acesso à Internet e, devido suas distâncias das sedes das cidades e sua baixa densidade populacional, não tem qualquer previsão de evolução nesse sentido, na verdade, a própria dispersão geográfica nessas regiões dificulta a expansão das redes de telecomunicações de forma a 9

10 alcançar essas comunidades. Portanto, o CELCOM é uma opção válida para essa parcela da sociedade que, apesar de todos os projetos em vista, deve continuar digitalmente marginalizada Funcionamento do CELCOM O projeto CELCOM é um projeto de rede de telefonia móvel GSM baseado em software livre e hardware aberto, o que já torna nativamente seu custo menor. A Figura 6 mostra a estrutura básica do CELCOM assim como seus principais componentes. Figura 6 Estrutura básica de funcionamento do CELCOM (Range Networks, 2012). Conforme visto na Figura 6 a estação base ou BTS (Base Transceiver Station), que é o equipamento utilizado para fornecer o acesso à rede de telefonia móvel, é o openbts (Range Networks, 2011), este equipamento utiliza uma plataforma de software livre chamada GNU Radio (Fahnle, 2010) e um hardware aberto conhecido como USRP (Universal Software Radio Peripheral), somado a isso existe um servidor VoIP (usado para trafegar voz e dados sobre o protocolo de Internet IP) chamado Asterisk (Digium, 2013) que funciona tanto como núcleo da rede GSM como interface com as redes de telecomunicações externas. O funcionamento da rede é simples e objetivo. Tendo um aparelho celular GSM na 10

11 aérea de cobertura, a BTS irá identificá-lo e conectá-lo à rede, para isto basta mudar a configuração de rede do celular, escolhendo a operadora do CELCOM. Como se trata de uma rede comunitária, não há restrições de registro. Assim, todos os aparelhos que estiverem ao alcance do sinal transmitido pela BTS poderão se registrar, mas, caso seja necessário, o equipamento permite o cadastro dos usuários que poderão utilizar ou não o sistema. Como se trata de um sistema ainda simples, o mesmo possui algumas restrições, como a duração máxima de uma chamada ser de 72h e limitação de apenas 7 ligações simultâneas. Para as mensagens de texto o limite é de 84 SMS/minuto Utilização de GPRS Atualmente, o openbts possui uma versão avançada chamada openbsc que permite a transmissão de dados, provendo Internet móvel aos dispositivos celulares. Utilizando essa nova versão, uma vez que o usuário esteja conectado à rede GSM seria possível acessar à Internet via GPRS. Como dito anteriormente, a velocidade média obtida na prática com o GPRS é de 40 kbps comparável a uma conexão discada. Embora essa velocidade possa ser considerada lenta, seria suficiente para que comunidades isoladas tivessem acesso à Internet e pudessem usufruir de programas de Educação à Distância, por exemplo, integrando essas pessoas ao resto do mundo. 4. Estudo comparativo dos custos envolvidos Neste tópico aborda-se questões envolvendo custos de soluções tecnológicas para EaD abrangendo áreas isoladas. Como citado em tópicos anteriores, é necessário buscar soluções com a melhor relação custo benefício para implementar soluções de Internet em comunidades isoladas e carentes, onde há pouco ou nenhum interesse em se explorar economicamente o serviço Soluções de conectividade para o CELCOM A Tabela 3 abaixo mostra os valores estimados de custos para instalação do CELCOM usando GPRS, utilizando várias opções de backhaul (ou meio de acesso ou ainda meio de interconexão). O custo do equipamento GSM/GPRS é fixo (já otimizado para ser o menor possível), logo o custo variável é o enlace de acesso, onde os valores de enlaces exibidos na tabela são valores médios, pois modificam-se de acordo com a localidade que se deseja atender. 11

12 SOLUÇÕES DE INTERCONEXÃO PARA O CELCOM CAPEX (CUSTO FIXO: EQUIPAMENTO DO CELCOM) OPEX (MANUTENÇÃO + ALUGUEL DE BACKHAUL) TOTAL R$ 7.022,68 R$ 1.200,00 R$ 8.222,68 R$ 7.022,68 R$ 2.265,72 R$ 9.288,40 R$ 7.022,68 R$ 6.181,25 R$ ,93 R$ 7.022,68 R$ ,00 R$ ,68 CELCOM COM USO DE INTERCONEXÃO VIA E1 (2 Mbps) TERRESTRE CELCOM COM USO DE INTERCONEXÃO VIA RÁDIO PONTO A PONTO (PTP) CELCOM COM USO DE INTERCONEXÃO VIA FRAÇÃO DE E1 (512 kbps) SATELITAL CELCOM COM USO DE INTERCONEXÃO VIA E1 (2 Mbps) SATELITAL Tabela 3 Comparação estimada de custos de implantação do CELCOM. Observa-se que a solução mais barata é se utilizar o CELCOM com interconexão via E1 terrestre (enlace de 2 Mbps provido por fibra ótica ou outra tecnologia cabeada). Entretanto muitos municípios não possuem essa capilaridade das redes de telecomunicações cabeadas existentes (das operadoras comerciais ou mesmo da Telebrás com o mais recentemente lançado PNBL), o que em muitos casos inviabiliza técnica e economicamente a implantação do sistema com esse tipo de enlace. A segunda opção mais barata seria um enlace PTP (Ponto a Ponto) interconectando o CELCOM à Internet, onde há um acréscimo de custo de aproximadamente 13% com relação a solução por E1 terrestre. Contudo, o enlace PTP precisa ter capilaridade suficiente no seu backbone e um raio de alcance razoável para permitir que o sistema interconecte-se a rede mundial de computadores. Localidades isoladas, especialmente na Amazônia, muitas vezes estão envoltas por regiões de mata ou floresta densa ou ainda em regiões de alta / baixa altitude (exemplo: morros, serras, vales, etc), onde essas particularidades geográficas podem representar obstáculos de propagação e ao estabelecimento do enlace de rádio PTP. A solução ideal para essas regiões isoladas seria um enlace de satélite, cuja cobertura global pode alcançar as regiões mais remotas. Entretanto, como o objetivo do CELCOM é desenvolver um sistema de comunicação de baixo custo, o preço elevado de um E1 satelital torna inviável a utilização desta tecnologia. Com relação ao E1 terrestre o custo é quase quatro vezes maior. Pensou-se em utilizar frações de E1 (um E1 representa 32 canais de voz de 64 kbps cada, o que resulta em 2 Mbps), pois a banda mínima que o CELCOM necessita para funcionar é de 512 kbps (¼ de E1), posto que cada um dos sete canais GSM de 13 kbps na interface aérea será transformado em um canal VoIP de 64 kbps no Asterisk (7x64 kbps = 448 kbps, onde sobra um canal de 64 kbps para sinalização). Porém, mesmo se utilizando frações de E1 satelital o custo continua elevado (aproximadamente duas vezes maior que o E1 terrestre). 12

13 4.2. Soluções de conectividade para áreas isoladas Comparações entre tecnologias distintas não são triviais, pois o número de aspectos envolvidos é enorme. Alguns destes aspectos são discutidos a seguir. A tabela abaixo (Tabela 4) faz uma breve comparação entre o CELCOM e a tecnologia de rede sem fio (WIFI), pois a mesma seria uma outra alternativa de fornecimento de Internet em locais isolados. Pode-se imaginar que se o objetivo é prover, além de telefonia móvel, o serviço de GPRS (Internet) em uma localidade isolada, por que não utilizar a tecnologia de rede sem fio, pois poderia se utilizar o VoIP pelo WIFI? SOLUÇÃO DE INTERNET PARA COMUNIDADES ISOLADAS CELCOM (GPRS) + E1 TERRESTRE CELCOM (GPRS) + E1 SATELITAL CELCOM (GPRS) + PTP (NAVEGAPARÁ) CELCOM (GPRS) kbps SATELITAL WIFI + E1 TERRESTRE WIFI + E1 SATELITAL WIFI + PTP (NAVEGAPARÁ) WIFI kbps SATELITAL R$ 8.222,68 R$ ,68 R$ 9.288,40 R$ ,93 R$ 8.915,97 R$ ,97 R$ 9.981,69 R$ ,22 Tabela 4 Comparação de custos CELCOM vs WIFI. Ao analisar a Tabela 4 observa-se que o CELCOM ainda tem um custo menor comparado ao WIFI. Um equipamento WIFI profissional que tenha cobertura razoável para a comunidade (incluindo serviço de instalação) adicionado ao mesmo a interconexão por um E1 terrestre, resulta num custo um pouco superior ao CELCOM (cerca de 8% maior). Todavia, o problema da falta de capilaridade da rede de E1s terrestres inviabiliza o projeto em muitos municípios. O WIFI utilizando rádio PTP como meio de interconexão ainda resulta em um valor maior do que seria utilizar o CELCOM com GPRS para prover Internet a essas localidades (aproximadamente 8% também). Teoricamente haverá uma velocidade maior no WIFI, porém a um custo também maior. Entretanto, a tecnologia GPRS promete em condições ideais (ou bastante favoráveis) um alcance de velocidade de 144 kbps, com média de 40 kbps. Em uma região onde o acesso a tecnologias digitais é quase nulo, isso representa um avanço significativo, permitindo o uso de aplicações de EaD. Além disso, o WIFI trabalha com uma frequência mais alta que o GSM/GPRS (2,4 GHz no WIFI e 900 MHz no CELCOM), assim a região de cobertura do WIFI seria mais restrita, visto que quanto maior a frequência menor a área de cobertura da mesma. Os custos das soluções de interconexões satelitais tanto para o CELCOM quanto para o WIFI encarecem bastante o sistema, tendo como única vantagem a cobertura global. Mesmo assim, o CELCOM ainda é uma solução mais barata que o WIFI caso se decida investir em um enlace de satélite para operacionalizar o sistema. Deve-se também ter em mente que o custo de manutenção de um equipamento WIFI profissional é bastante superior ao apresentado pelo CELCOM. Este último pode ter sua 13

14 manutenção feita remotamente, o que representa um custo quase zero para se manter o sistema funcionando (excetua-se o caso de dano físico ao equipamento, onde seria necessária manutenção in loco). 5. Estudo de caso O município de Irituia localizado na região Norte do Brasil é um exemplo de área rural afastada que antes não tinha qualquer meio de acesso à Internet. Atualmente, esse município é atendido pelo programa Navegapará e conta, além de acesso à Internet para escolas e órgãos governamentais, com um ponto de acesso público a partir do qual qualquer pessoa com um computador ou celular pode conectar-se à rede mundial. Apesar disso, tais benefícios só podem usufruídos pelo moradores da sede do município. Conforme pode-se observar no mapa da Figura 7, a cidade de Irituia possui diversas comunidades ao redor de sua sede, sendo que dos habitantes do município (IBGE, 2013) apenas cerca de 21% estão na sede, enquanto os demais (mais de 78% da população) encontram-se espalhados pelas suas 48 comunidades que não tem qualquer previsão de serem atendidas pelos programas de inclusão digital já citados neste artigo. Figura 7 Mapa do município de Irituia e suas comunidades rurais. 14

15 A partir de uma visita à região, realizada em março desse ano, foi constatado que essas 48 comunidades, apesar de serem parte integrante do município de Irituia, são em sua maioria quase ou totalmente desprovidas de qualquer meio de telecomunicação. Em alguns poucos casos, existem telefones públicos, no entanto, a cobertura das duas únicas operadoras de telefonia móvel que atendem a localidade continua apenas alcançando a sede da cidade. Há uma torre de uma terceira operadora no entroncamento entre uma rodovia federal e uma rodovia estadual (Figura 8) que dá acesso ao município, porém esta dista de cerca de 14 km da sede do município e provê cobertura para a rodovia e não para o município em si. Figura 8 Operadoras comerciais que cobrem parcialmente o município de Irituia. Assim, a implantação de um projeto como o CELCOM forneceria meios viáveis e de baixo custo para atender essa população isolada, permitindo que os moradores desses locais se beneficiem tanto do acesso à rede de telefonia móvel quanto do acesso à Internet que, apesar de não se tratar de banda larga, já é um grande avanço para essas regiões que antes não tinham qualquer perspectiva de possuírem tais serviços. 6. Considerações finais Atualmente, projetos que visam a integração social e o acesso à informação têm ganhado cada vez mais importância no cenário mundial. No que diz respeito ao Brasil, existem tanto na esfera estadual quanto federal iniciativas buscando integrar e fornecer meios de acesso à informação para áreas rurais desprovidas desses recursos. Porém, devido à grande dispersão populacional de determinadas regiões, como é o caso da região Norte do Brasil, uma parcela 15

16 considerável da população deixa de ser atendida por esses programas e, portanto, permanece sem qualquer aproveitamento dos benefícios que estes possam vir a oferecer, tratam-se de regiões tão remotas que sequer possuem cobertura de telefonia móvel. O projeto CELCOM aqui proposto mostrou uma alternativa para prover telefonia celular de baixo custo em localidades remotas e acesso à Internet via a tecnologia GPRS. Portanto, as possibilidades do uso dessa tecnologia vão muito além da simples conversação (voz) e troca de mensagens de texto. Ela permitirá que, em regiões sem qualquer meio de comunicação com o mundo externo, seja possível oferecer serviços de telemedicina, chamadas de emergência, EaD, navegação da Internet, avisos por SMS entre outros, abrindo possibilidades para que muitas famílias se sintam social e digitalmente incluídas e amparadas. Referências NUNGU, A.; OLSSON, R; PEHRSON, B. On Powering Communication Networks in Developing Regions. 1st International Conference on e-technologies and Networks for Development (ICeND), Tanzânia, CECCHINI, S. Information and Communication Technology for Poverty Reduction. Lessons from Rural India. Poverty Reduction Group, The World Bank. IEEE Technology and Society Magazine, pp , TELECO. Estatísticas de banda larga no Brasil < Acesso: 09 de abril de NAVEGAPARA. Cidades Digitais < Acesso: 06 de abril de Disponível Disponível em: em: PNBL. Programa Nacional de Banda Larga (PNBL): municípios atendidos. Disponível em: < > Acesso: 06 de abril de RANGE NETWORKS. White paper: OpenBTS and the Future of Cellular Networks Disponível em: < Acesso: 05 de abril de FAHNLE, M. Software-Defined Radio with GNU Radio and USRP/2 Hardware Frontend: Setup and FM/GSM Applications. Bachelor Thesis. Hochschule Ulm University of Applied Sciences, Institute of Communication Technology, Ulm, Alemanha, DIGIUM. The Asterisk Company Disponível < >. Acesso: 06 de janeiro de em: RANGE NETWORKS. OpenBTS P2.8 User s manual, < Acesso: 01 de março de Disponível em: IBGE, Censo demográfico Disponível < Acesso: 11 de maio de em: 16

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