Sobre o coaching ontológico Epílogo do livro El Arte de Soplar Brasas: Coaching, de Leonardo Wolk

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1 Sobre o coaching ontológico Epílogo do livro El Arte de Soplar Brasas: Coaching, de Leonardo Wolk Rafael Echeverría, Ph.D. Presidente da Newfield Consulting Comemoro o lançamento deste livro sobre coaching, de Leonardo Wolk. Trata-se de uma contribuição importante para o desenvolvimento desta disciplina emergente. Muitos se perguntam: Para que serve o coaching? Em que consiste? As propostas de coaching são todas equivalentes? Essas e outras questões similares são abordadas pelo próprio Wolk. Entretanto, acho interessante não dá-las por encerradas prematuramente, pois as respostas que elas suscitam estão longe de esgotar tudo o que pode ser dito sobre o papel que, no futuro, assumirá a prática do coaching. A rigor, são perguntas abertas cujas respostas acabam surgindo simultaneamente ao crescimento da própria disciplina. À medida que o coaching se expande, descobrimos formas diferentes de respondê-las, enquanto novas perguntas aparecem. Como sucede em outras áreas, o coaching nos surpreende, ao evoluir, mostrando aportes e facetas que inicialmente éramos incapazes de observar. O coaching ainda é uma disciplina em pleno processo de invenção de si mesma. Cada nova contribuição, cada novo livro nessa área traz consigo a possibilidade de modificar nosso olhar sobre o assunto. A origem do coaching O coaching nasce na área do esporte, em que tem uma longa história. O coach esportivo é o responsável por um esportista ou por uma equipe esportiva e seu objetivo é chegar ao máximo de desempenho nas respectivas modalidades de atuação desses atletas. Quantas vezes já não vimos o que parece ser um milagre resultante do trabalho de um coach esportivo? Algum tempo depois de ter se encarregado de um indivíduo ou de uma equipe de desempenho medíocre sob qualquer ponto de vista o coach os leva a exibir extraordinários desempenhos, muito acima do esperado, metas que antes pareciam impossíveis de se alcançar. É dessa experiência que surge o coaching como disciplina genérica, como um ofício que extrapola os esportes, buscando levar a diferentes áreas o tipo de resultados que, em seu terreno, gerava o coach esportivo. O que faz exatamente o coach esportivo? Qual o caráter de sua intervenção? Isso é bastante simples. Trata-se de uma intervenção a serviço da geração de resultados precisos, seja a superação de uma marca, seja garantir uma vitória frente a um adversário. Após identificar os fatores que interferem no resultado a ser alcançado, o coach esportivo procura desenvolver as condições e competências que facilitem tal proeza. Essa é uma primeira e adequada definição da tarefa de todo coach. 1

2 Para realizá-la, o coach esportivo corrige alguns hábitos inadequados que obstruem o desempenho daquele que está sob sua responsabilidade e desenvolve um conjunto de competências individuais como a coordenação de ações entre os membros de uma equipe, por exemplo. Também desenha estratégias defensivas e ofensivas para enfrentar o adversário e, sobretudo, busca elevar a autoconfiança e a motivação de seus esportistas visando atingir os resultados esperados. As intervenções do coach esportivo são concretizadas através do treinamento. Assim como um regente de orquestra usa os ensaios para aperfeiçoar o desempenho de seus músicos, o coach prepara pacientemente seus esportistas para garantir-lhes novos padrões de comportamento e uma disposição emocional propícia para alcançar os objetivos propostos. Como o regente, o coach esportivo tem alguns elementos a seu favor: O desempenho que se busca está definido no tempo e no espaço, já que os resultados esperados têm de ocorrer num tempo e num lugar delimitados. O resultado deve ser atingido num jogo fechado, com regras claras e fixas. Como é curto o tempo de desempenho exigido, a motivação necessária para alcançar os objetivos só precisa ser mantida durante o jogo, focalizada na forma como ele joga. A competição, inerente ao mundo dos esportes, ajuda o trabalho do coach e facilita a motivação. Como disciplina genérica, o coaching praticado além das fronteiras dos esportes busca imitar e repetir em outras áreas os resultados que costuma exibir o coach esportivo. Porém, quanto maior a distância do campo dos esportes, maiores são os novos desafios enfrentados pelos coaches. É importante advertir que vêm surgindo muitas modalidades diferentes de coaching fortemente apegadas ao padrão do coach esportivo, com resultados efêmeros e superficiais. Quando o objetivo é alcançar resultados mais profundos e estáveis em âmbitos de maior complexidade e extensão, o modelo do coaching esportivo apresenta severas limitações, apesar de mostrar um caminho a seguir. À procura de um coaching genérico Seguindo o caminho dos coaches esportivos, começa-se a explorar um tipo de atividade que, fora do mundo dos esportes, permita levar indivíduos, equipes e organizações a superarem de maneira significativa seus níveis de desempenho e a direcionarem suas ações rumo a novos espaços de possibilidades. Como atividade genérica, o coaching busca constituir-se numa disciplina capaz de servir à identificação e dissolução dos obstáculos que os seres humanos costumam encontrar na realização de suas aspirações. Nas empresas e, em geral, nas organizações, o coaching procura incrementar o desempenho de seus membros, equipes e processos: se gerentes e dirigentes aplicassem as competências do coach em suas próprias equipes poderiam desencadear níveis de desempenho inimagináveis. Entretanto, as competências necessárias para manter um desempenho bastante mais complexo, como o que exige a organização, precisa de um nível de 2

3 profundidade que o coaching esportivo não é capaz de propiciar. A motivação necessária para acompanhar desempenhos que devem durar 8 horas ou mais, todos os dias úteis do ano, não é exatamente a mesma que o coach esportivo consegue fomentar numa partida de 2 horas de duração Ao se aplicar linearmente uma prática desenhada para um contexto muito diferente, os problemas acabam se multiplicando e as frustrações, aumentando... Além do âmbito das organizações, o coaching também começa a ser visto como um caminho para a superação das múltiplas limitações que os indivíduos encontram em suas vidas. A existência costuma nos confrontar com inumeráveis obstáculos na realização de nossas aspirações: é bastante comum a sensação de não saber como fazer as coisas para chegar aonde queremos e alcançar o nível de satisfação e de felicidade possível. Os exemplos são infinitos, facilmente encontrados na relação conjugal, na relação com os pais, filhos e amigos; nas relações com nossos chefes, colegas e subordinados. E o mais importante e profundo: encontramos esses obstáculos na relação que estabelecemos com nossa própria vida e com a gente mesmo. Há ocasiões em que nossa vida parece perder o sentido e nos sentimos desorientados, sem saber o que fazer, nem para onde ir. Se houvesse alguém para nos mostrar por que chegamos a esse ponto e como sair dali... Antes, o padre nos ajudava a re-encontrar o caminho e, depois, o psicólogo. Hoje, duvidamos de sua capacidade para nos dar as respostas adequadas e vamos atrás de um coach. Será ele capaz de nos ajudar? Nós, os coaches, seremos capazes de responder a essas demandas? O coaching ontológico As questões anteriores levantam importantes desafios, que têm sido enfrentados das mais diversas maneiras, produzindo uma ampla e variada gama de propostas de coaching. Estou inserido numa corrente autodenominada coaching ontológico, cujo ponto central reside no pressuposto de que, para responder adequadamente a essas questões, é necessário reapresentar, de forma radical, a pergunta sobre o significado de ser um ser humano. Chamo essa pergunta, seguindo o filósofo alemão Martin Heidegger, de a pergunta ontológica. Essa pergunta já havia sido respondida há cerca de 25 séculos, na antiga Grécia, por um grupo de filósofos, entre os quais se destacam Sócrates e, mais particularmente, Platão e Aristóteles que inauguraram um tipo de resposta que configura o que chamo de o programa metafísico. Desde então, nos mantivemos fundamentalmente fiéis às premissas estabelecidas nessa resposta. Mas, de algum tempo para cá, acho que se tornou necessário voltar a se fazer essa pergunta e revisar criticamente as premissas oferecidas pela proposta metafísica. Fazemos parte de uma ampla corrente, inaugurada por Friedrich Nietzsche, que considera ter a história da humanidade chegada a uma encruzilhada, demonstrando o esgotamento do programa metafísico. Seria preciso, então, encerrá-lo para assim inaugurar um período bem distinto, sustentado numa interpretação totalmente diferente sobre o fenômeno humano. Com isso, abre-se um novo ciclo na história da humanidade, por mim denominado de o período do programa ontológico. 3

4 Do meu jeito, articulei a nova resposta à pergunta pelo sentido do humano num discurso que chamei de ontologia da linguagem. Muitas outras propostas, apresentadas com outros nomes, apontam em direção similar. A corrente de que faço parte está tratando de implodir um antigo edifício, de maneira sustentada, para construir um outro, alternativo, em seu lugar. Não há mudança mais importante na historia da humanidade do que aquela que transforma de maneira radical nossa concepção sobre nós mesmos. Da interpretação que sustentemos sobre como somos resulta todo o resto do que pensamos e fazemos. Não é o caso de desenvolver neste texto minha resposta particular à pergunta ontológica. Basta simplesmente destacar algumas de suas premissas e mencionar algumas das pessoas envolvidas em sua construção. Os seres humanos, como já apontara Martin Buber, são seres conversacionais. O tipo de ser que somos se constitui nas conversações que mantemos com outros, com a gente mesmo e com o mistério da vida. Quem tem acesso a nossas conversações consegue entrever o domínio misterioso e insondável da alma humana. Nas conversações encontramos, portanto, as chaves para compreender melhor como são, por que temos determinados problemas, quais são as raízes de nossas alegrias e sofrimentos e como podemos, eventualmente, localizar a saída para uma vida de maior sentido e plenitude. A linguagem, um dos componentes básicos de toda conversação, define e delimita uma forma particular de vida, como apontou Ludwig Wittgenstein, inaugurando uma nova corrente na filosofia: a filosofia da linguagem. Era necessário, porém, ir ainda mais longe e corrigir o papel passivo e meramente descritivo que a proposta metafísica conferia à linguagem, ao subordiná-la ao predomínio da razão e a sua busca de verdades absolutas. Uma contribuição decisiva veio do filósofo da linguagem J.L. Austin ao reconhecer que a linguagem, longe de ser passiva e descritiva, é ativa e geradora. Através de nossas conversações transformamos o mundo e criamos novas realidades. As conversações participam da construção de nossas identidades, da formação de nossas relações pessoais, da criação de possibilidades e de futuros diferentes. Fernando Flores, por sua vez, fortalece a relação entre a pergunta ontológica colocada por Heidegger e o desenvolvimento da filosofia da linguagem. Dado o caráter ativo e gerador da linguagem, os seres humanos estão em permanente transformação. Mais importante do que conhecer ou descobrir a si mesmo por mais relevante que isso possa ser é participar ativa e responsavelmente do processo de nossa própria invenção. O coaching ontológico está a serviço desse processo. A noção de competências genéricas A proposta da ontologia da linguagem implica o reconhecimento de um conjunto de competências genéricas como parte da arte da conversação. Não importa onde, quando ou com quem a gente conversa, não importa qual o assunto tratado nem o idioma utilizado, toda conversação se sustenta num conjunto delimitado de competências. Nossas competências ou incompetências conversacionais não só incidem nos resultados que alcançamos através dessas conversações, mas, sobretudo nos constituem no tipo de ser humano que somos 4

5 condicionando o tipo de vida que nos cabe esperar. Aqui parafraseamos Heráclito nosso caráter é nosso destino e dizemos que a forma particular de ser de cada indivíduo condiciona sua existência. Além das respectivas competências técnicas específicas, os seres humanos funcionam a partir de determinadas competências genéricas que se expressam na forma de conversar, muitas das quais abordadas no texto de Leonardo Wolk. Ao se introduzir a noção de competências genéricas, o interessante é que nelas descobrimos a raiz de muitos dos obstáculos encontrados em nosso desempenho e na busca por dar sentido a nossa vida. O trabalho do coach ontológico, portanto, consiste em indagar e intervir nesse substrato de competências genéricas conversacionais, o que estabelece a diferença entre este tipo de coaching e muitas outras modalidades de coaching não ontológicas. Claro que o processo de indagação e de intervenção do coaching ontológico não se resume apenas a esse ponto: é bastante mais complexo e exige outras noções igualmente fundamentais. O princípio do caráter não linear do comportamento humano Um dos grandes saltos que permite inaugurar bases sólidas para um coaching genérico, capaz de transcender o coaching esportivo, é o reconhecimento de um princípio que batizei com o nome de o princípio do caráter não linear do comportamento humano. O quero dizer com ele? Sustento que os seres humanos encontram limites em sua capacidade de ação e de aprendizagem. Entre as atividades mais interessantes das que são capazes os seres humanos está a competência de aprendizagem: a mãe de todas as demais competências. A aprendizagem é uma ação dirigida a incrementar nossa capacidade de ação. Quem aprendeu a aprender pode aprender muitas outras coisas. Portanto, se existe alguma competência verdadeiramente importante essa é a competência de aprender. O coach ontológico é, sobretudo, um grande facilitador da aprendizagem. Sua tarefa é contribuir para facilitar a aprendizagem entre aqueles que não sabem como fazê-lo. Nesse sentido, o coach ontológico é um facilitador dos processos de transformação de outros seres humanos, de seus processos de reinvenção de si mesmos. Enquanto Sócrates, com sua maiêutica, se concebia como um parteiro que apontava para o desentranhamento do ser, seguindo a trilha proposta por Parménides, o coach ontológico, ao contrário, caminhando pela trilha sugerida por Heráclito, é um parteiro do vir-a-ser. O princípio que proponho sustenta que os seres humanos não podem incrementar linear e indefinidamente sua capacidade de ação nem aprender linearmente quaisquer coisas que desejem. A capacidade de ação e de aprendizagem não é contínua nem homogênea: os seres humanos deparam-se com limites e obstáculos que os impede de alcançar determinados resultados. Quando nos perguntamos pelos fatores que incidem no comportamento dos seres humanos, podemos apontar facilmente para o que chamamos de os fatores visíveis do comportamento humano, entre os quais cabe mencionar: 5

6 1. Determinadas predisposições biológicas. Alguns, por exemplo, nascem com talento para a música, a matemática, a comunicação, a pintura, etc. 2. Competências técnicas adquiridas através da aprendizagem. Quem quer ou precisa saber tudo sobre a utilização de um novo software pega o manual correspondente e tenta aprender. 3. Ferramentas e tecnologia. Mudando de ferramenta, podemos alcançar resultados que antes não nos eram possíveis. 4. Fatores emocionais, que podem ser agrupados no que chamamos de motivação. Não há dúvida de que o grau de motivação incide no desempenho de indivíduos e equipes. Tudo isso faz pensar que se encontramos dificuldades em obter determinados resultados, bastaria mexer em alguns desses fatores para dissolvê-las. Mas não é assim que funciona. Muitas vezes nos vemos diante de sérias dificuldades para atingir certo resultado e intuímos que a solução não passa por nenhum desses fatores. Acontece que esses problemas são quase sempre os que mais afetam nossa existência, os que mais nos importam. Vejamos um exemplo. Levo vários anos arrastando uma relação bem ruim com meu filho. Duvido que tenha a ver com uma predisposição biológica, tanto minha como dele. Venho tentando mudar vários aspectos de meu comportamento, bem como aprender novos modos de relação, mas nada funcionou até agora. Vejo que outros pais têm uma boa relação com seus filhos e digo a mim mesmo que isso é possível. E motivação é o que não me falta. Estaria disposto a perder um braço se tivesse a opção de melhorar essa situação, que afeta tão profundamente minha vida. E, no entanto, não sei o que fazer. Estamos diante de um caso típico em que se abre a possibilidade de uma interação com um coach ontológico. Postulo que além desses fatores visíveis que afetam o comportamento, existem outros fatores, normalmente invisíveis ao olhar espontâneo, com papel determinante em nosso desempenho. Eu os chamo de os fatores ocultos do comportamento humano, que são basicamente dois: o tipo de observador que somos e os sistemas aos quais pertencemos. Observador e sistema. Cada ser humano dá sentido ao que acontece de uma certa maneira, ou seja, interpreta o mundo a seu modo, do seu jeito: seu comportamento é determinado pelo sentido que ele confere ao acontecer. Dada a interpretação que faz do que está acontecendo, vai atuar de uma ou de outra forma, excluindo uma ampla gama de ações de seu panorama de possibilidades. Ninguém interpreta o acontecer exatamente da mesma forma. Quando olhamos o mundo ou a nós mesmos, observamos o que vemos com as lentes peculiares do tipo de observador que somos. Nosso olhar espontâneo, contudo, assume que estamos observamos o que está ali e não costuma reconhecer que esse olhar está condicionado pelo tipo de observador que somos. De fato, observamos o mundo não só de acordo como ele é, mas também de acordo como nós somos. Uma premissa fundamental do olhar ontológico consiste em reconhecer a noção de observador e em aprender a observar não só o acontecer do mundo, mas também o tipo de observador que somos tanto no que se refere a si próprio como aos demais. Sem a noção do observador, o olhar ontológico se fecha. Um dos principais obstáculos que, portanto, delimita nossa capacidade de 6

7 desempenho é o tipo de observador que somos: os fatores linguísticos, emocionais e corporais a partir dos quais observamos o mundo. Enquanto não modificar o tipo de observador que sou hoje, vão continuar existindo coisas que, para mim, serão impossíveis de realizar. Um dos objetivos mais importantes do coaching ontológico é superar os obstáculos que hoje afetam minha capacidade de desempenho através da mudança do tipo de observador que sou. Esse novo observador, contudo, logo encontrará seus próprios limites e vai se ver novamente desafiado a dissolvê-los. Inexiste observador que não tenha limites. Além de nossa capacidade de ação estar condicionada pelo tipo de observador que somos, estamos condicionados pelos sistemas de que participamos e pelas posições que neles ocupamos. Todos nós participamos de múltiplos sistemas e cada um deles contribui para nos constituir em um tipo específico de observador, propiciando a realização de certas ações e inibindo outras. Assim, ao mudar de um sistema para outro, é comum a gente ver surgir comportamentos inimagináveis no sistema anterior e/ou desaparecer comportamentos até então habituais. Os sistemas a que pertencemos têm papel determinante em nosso comportamento. Tanto a noção de sistema como a noção de observador não fazem parte de nosso olhar espontâneo que costuma observar acontecimentos, sequencias de eventos e até relações entre uma ocorrência e outra, mas não percebe a estrutura que molda a específica configuração de relações dos sistemas dos quais participamos. Como ocorre com a noção do observador, o olhar sistêmico também precisa ser cultivado, pois é raro ele aparecer espontaneamente entre a grande maioria dos seres humanos. Se desejamos remover obstáculos em nosso comportamento e, sobretudo, se buscamos estabilizar esses novos padrões de comportamento, nem sempre basta transformar o tipo de observador que somos. É também necessário fazer mudanças nos sistemas que frequentamos de modo que nossas mudanças pessoais não sejam de curta duração. Parte importante do olhar ontológico é ter na mira a mudança do observador, bem como a transformação do sistema. O olhar ontológico, portanto, não só introduz um observador do observador, mas também um observador sistêmico, atento ao fato de que os indivíduos se constituem no conjunto de relações das quais participam e em sua configuração ou estrutura específicas. Ao introduzir a noção de sistema, corremos o risco de cair num determinismo estrutural asfixiante. Se o sistema determina nosso comportamento, como podemos desfazer esse nó? Estaríamos condenados a ser do jeito que o sistema nos impõe? De modo algum. Um dos princípios básicos da proposta ontológica postula que o condicionamento exercido pelo observador e pelo sistema em cada ser humano costuma, por sua vez, permitir ações que levam à modificação tanto do observador como do próprio sistema. Ao realizar tais ações e transformações, os seres humanos conseguem gerar possibilidades que até então lhes estavam fechadas. Isso é parte central da prática do coaching ontológico. 7

8 O modelo m do observador, sistema, ação e os resultados Tudo o que foi dito até agora está contido num modelo marca registrada de nossa proposta batizado de o modelo do observador, sistema, ação e os resultados, graficamente apresentado da seguinte maneira: Sistema Avaliação Observador Ação Resultados Aprendizagem transformacional Aprendizagem de primeira ordem Aprendizagem de segunda ordem Aprendizagem Trata-se de um modelo-guia para o trabalho que o coach ontológico deve empreender. O modelo é lido de trás pra diante e sustenta que qualquer resultado obtido em nossa vida, seja no âmbito pessoal ou profissional, remete às ações que levaram a esse resultado. Então, se desejamos entender ou modificar resultados, temos de relacioná-los às ações geradoras correspondentes. Entre os múltiplos fatores que incidem nas ações que realizamos, alguns podem ser facilmente identificados: são os fatores visíveis do comportamento humano. Outros, porém, costumam ficar bem escondidos: são os fatores ocultos do comportamento humano. Esses últimos nos permitem reconhecer que nossas ações não são arbitrárias, mas sim fruto do tipo de observador que somos e dos sistemas de que participamos. Ao atuar, um observador gera resultados e, como bom observador que é, observa os resultados obtidos e, em seguida, os avalia. A avaliação pode conduzi-lo por distintos caminhos. Se os resultados o satisfazem, é bem possível que continue atuando do jeito que sempre fez. Mas se os resultados não o satisfazem, abrem-se diversas alternativas. A primeira é simplesmente resignarse: Que se há de fazer..., Não há nada que eu possa fazer para modificálos..., etc. A segunda, que muitas vezes é um ingrediente da primeira, consiste em buscar uma explicação para o resultado negativo, o que é, sem dúvida, uma atitude positiva. Ao dispor de uma explicação, pode-se abrir o caminho para a correção. Mas isso nem sempre acontece: é bastante comum a tendência de converter as explicações encontradas em justificativas. Diferentemente das explicações, que em geral são neutras, as justificativas acabam legitimando o 8

9 resultado negativo e funcionando como um tranquilizante Ao descobrir a causa do resultado insatisfatório e apegar-se a uma justificativa, o observador fica resignado: Com o chefe que tenho, como poderia esperar algo diferente..., Sendo como sou, que outra coisa poderia fazer..., etc. A terceira opção surge quando assumimos o compromisso de modificar o resultado negativo. Abre-se, assim, o domínio da aprendizagem que, por sua vez, apresenta diferentes caminhos: Aprendizagem de primeira ordem 1 especialmente destinada a expandir repertórios de ação e dirigida, portanto, ao âmago da ação no interior do modelo. Sendo uma das modalidades mais habituais de aprendizagem, busca uma resposta direta para a pergunta O que devo fazer para obter um resultado diferente? ou, ao contrário, O que não devo mais fazer? Aprendizagem de segunda ordem sem intervir diretamente no nível da ação, é dirigida ao âmago do observador: para modificar as ações, é preciso antes transformar o tipo de observador que somos. Isso pode implicar muitas coisas, como alimentar o observador com um conjunto de novas distinções para que possa ver o que hoje não vê e, a partir daí, realizar as ações que hoje não pode. Esse é um procedimento habitual na prática do coaching ontológico. Mas, cuidado! Este tipo de aprendizagem pode também ser bastante superficial. Na universidade, por exemplo, onde realizamos uma aprendizagem de segunda ordem, nos ensinam novas distinções que nos permitem ver coisas que antes não víamos e atuar de uma maneira que antes não podíamos. Quando aprendemos a usar um novo software ou quando nos ensinam um novo jogo, também costumamos adquirir novas distinções o que produz uma certa mudança do observador. Aprendizagem transformacional ao penetrar no núcleo duro do observador, ocorre a mudança de suas coordenadas habituais. Em geral muito estável, o núcleo duro do observador que somos é constituído por diversos elementos (distinções, juízos, emoções, posturas, etc.) que definem uma maneira peculiar de estar-no-mundo, de se posicionar na vida, de dar sentido ao que acontece e da qual derivam padrões estáveis de comportamento. Além da nossa estrutura de coerência, reside no núcleo duro o que chamamos de alma humana: essa forma particular de ser que caracteriza cada indivíduo e que levamos conosco de uma situação de vida à outra. Modificar o núcleo duro, alterar nossa estrutura de coerência, tocar e ajudar a mudar a alma de outro ser humano é o grande objetivo do coaching ontológico. A interação de coaching, contudo, nem sempre nos conduz até esse ponto. Muitas vezes, os problemas que o coach deve enfrentar podem se resolver sem a necessidade de atingir um nível tão profundo. Outras vezes, o próprio coach limita o alcance de sua intervenção por circunstâncias diversas. Em algumas ocasiões, é o coachado quem estabelece esses limites. Mas, ao menos teoricamente, na interação de coaching esse é um objetivo possível e às vezes até necessário. Nenhuma outra modalidade de coaching, além do coaching ontológico, tem a capacidade de chegar tão longe Neste ponto, seguindo Chris Argyris, a quem Leonardo Wolk se refere várias vezes em sua obra. 9

10 Com isso termina o trabalho do coach ontológico? De jeito nenhum. Como disse anteriormente, a mudança do observador, em seus diferentes níveis de profundidade, pode ser tão-só um primeiro passo, condição exigida para uma mudança ainda maior: a transformação do sistema, necessária para estabilizar a transformação do observador. Se o sistema não for tocado, é bem possível que as mudanças alcançadas no nível do observador acabem dando em nada e regredindo... O sistema pode forçar o retorno dos comportamentos que se buscava alterar. Esse tem sido o destino de muitos programas de capacitação nas empresas, onde as mudanças introduzidas no nível do observador duram uma ou duas semanas para, em seguida, tudo voltar a funcionar como antes. O debate sobre a aprendizagem transformacional O termo aprendizagem transformacional já tem uma história relativamente longa. Um de seus pioneiros é o destacado professor da Universidade Harvard, Edgar Schein, que na década de 50 inaugurou esse novo campo de pesquisa. Seus estudos começaram explorando as experiências de lavagem de cérebro que chineses e norte-coreanos haviam praticado nos soldados americanos durante a Guerra da Coreia Quando libertados, muitos desses prisioneiros tinham se tornado defensores apaixonados de seus carcereiros e também do regime político que antes combatiam. Como haviam conseguido tamanha transformação? Como tinham produzido mudanças tão radicais nos indivíduos? Essas foram as perguntas iniciais de Schein. A Harvard Business Review, de março de 2002, traz uma interessante entrevista com o título de Edgar Schein: The Anxiety of Learning. Após quase 50 anos de pesquisas durante os quais muitos outros estudiosos se incorporaram ao caminho aberto por ele Schein chega à seguinte conclusão: a aprendizagem transformacional resulta de um processo inevitavelmente doloroso, muito difícil ou quase impossível de alcançar. Parecia então que o programa da aprendizagem transformacional havia fracassado. Compartilho a conclusão de Schein? De forma alguma. E para argumentar contra sua conclusão é conveniente relembrar as célebres palavras do filósofo francês, Gaston Bachelard: um problema sem solução costuma ser um problema mal formulado. A chave, como diz Bachelard, está no observador. Aqueles que conhecem meu trabalho "sabem" que as conclusões de Schein são questionáveis. Muitos deles tiveram uma experiência de aprendizagem transformacional, assim como passaram por ela vários outros a seu redor. Toda essa gente sabe, portanto, que é possível: puderam vê-la. Também estão cientes de que o processo de aprendizagem não foi traumático, embora nem sempre tenha sido fácil, exigindo de cada um, certos momentos difíceis em que foi preciso olhar para dentro de si mesmo sem dó nem piedade. Trata-se, pelo contrário, de um processo normalmente exuberante, marcado pelo entusiasmo e o assombro. E sabem os envolvidos que isso é parte inseparável de sua experiência, pois eles / elas a viveram intensamente. Mas para entender o processo, há que se colocar em questão algumas das premissas da proposta "oficial" da aprendizagem transformacional, como, por exemplo, o papel dos fatores emocionais e a importância da positividade na 10

11 aprendizagem. Nossa proposta nessa área sustenta-se numa experiência oposta à que desencadeia as pesquisas de Schein e que segue a trilha da privação e da negatividade. Trazemos, sim, a presença do corpo à experiência: não para torturá-lo ou discipliná-lo, mas para liberá-lo do cativeiro imposto por nós mesmos. Aprofundamos as noções do observador e do sistema. Reconhecemos o caráter não-linear da ação humana e da própria aprendizagem. Buscamos sustentar essas aprendizagens nos quiebres do próprio aprendiz, nas situações que ele próprio (e não outros) percebe como limitantes, obstrutivas, e no impulso que ele (e só ele) é capaz de conferir à possibilidade de realizar seus sonhos. Nesse sentido, nossa proposta procura mobilizá-lo para elevar seu nível de aspirações e desenvolver uma maior ambição relativa à conquista de suas próprias metas. Trata-se, portanto, de uma prática que convida o aprendiz a gerar um tipo de trabalho, um tipo de relações pessoais e um tipo de vida melhores, acompanhado pela figura amorosa do coach que atua a partir do respeito e da construção da confiança. Não inclui, com certeza, a figura sinistra do "torturador", do interrogador do campo de prisioneiros ou do disciplinador impositivo que busca dissolver os limites orientadores e contidos nos atos de vontade de todo indivíduo (figuras todas centrais da aprendizagem transformacional de Schein e há que dizê-lo em voz alta de algumas outras correntes da própria prática do coaching). A importância do espaço ético emocional Impossível terminar esta reflexão sem abordar o tema que o ponto anterior antecipa. Não há nada mais importante na prática do coaching ontológico que promovemos do que o caráter do espaço ético emocional a partir do qual a interação de coaching tem de se realizar nem nada mais urgente que a reiteração desse ponto. A proposta da ontologia da linguagem busca instaurar uma nova ética de convivência entre os seres humanos. A diferença fundamental entre o espaço metafísico e o espaço ontológico não é cognitiva, por mais importantes que sejam as diferenças em seus pressupostos conceituais. A diferença fundamental está no âmbito da ética: já o disse uma vez ou outra e aqui o digo uma vez mais. A diferença fundamental reside na maneira como nos relacionamos com os demais e na maneira como nos relacionamos com a gente mesmo. É central no espaço ontológico a noção do respeito aos outros, o respeito às diferenças. Conversar relativamente bem com alguém meio parecido conosco sempre foi mais fácil, já que a comunicação funciona (e não sem problemas) quanto maior for aquilo que temos em comum com nossos interlocutores. Mas não sabemos conversar e nos comunicar com quem é ou pensa de modo muito diferente de como somos ou pensamos. A diferença vem nos conduzindo historicamente pelo caminho da mútua desqualificação e invalidação, para dizer o mínimo. E, quando a conversa torna-se impossível, entram em campo inevitavelmente as múltiplas modalidades da violência, numa lógica que tem guiado até agora a história da humanidade. Se queremos, porém, evitar a destruição de nossa espécie e do planeta, temos hoje a obrigação de retificar 11

12 esse caminho, pois o potencial de violência acumulada é capaz de aniquilar todos nós. Em certos momentos parece que nos precipitamos rumo a um final apocalíptico. Temos que nos deter. A chave para fazê-lo está no respeito, entendido como a aceitação do outro como diferente, legítimo e autônomo seguindo livremente Humberto Maturana. A partir daí é que se realiza o coaching ontológico. Seu grande poder e sua capacidade para produzir surpreendentes resultados residem no reconhecimento da importância desse espaço ético emocional. Para tanto, é indispensável contar com toda a disposição que o coachado é capaz de oferecer ao processo de transformação; do contrário, o poder da proposta ontológica estará, direta ou indiretamente, comprometido. As distinções e competências ontológicas são, sem dúvida, muito poderosas. Mas nada garante que esse poder não possa ser utilizado para maltratar, humilhar ou manipular os outros. Infelizmente, os exemplos são abundantes. Há quem use o linguajar ontológico e algumas das distinções e competências que esta proposta desenvolve para seu próprio engrandecimento, brilho pessoal ou para impor aos demais seus próprios pontos de vista. Quando isso acontece, prejudicam e comprometem o conjunto da proposta. Na verdade, continuam apegados a uma lógica metafísica, buscando impor aos outros suas supostas verdades, utilizando para isso a embalagem ontológica. São ontológicos por fora e metafísicos por dentro. O perigo não está apenas no dano que causam, mas também no fato de que comprometem a esperança inerente à proposta ontológica. O poder maior da proposta ontológica, portanto, não está em suas distinções, postulados, princípios, fundamentação teórica e desenvolvimento de competências. O maior poder dessa proposta encontra-se na capacidade de construir com o outro um espaço ético emocional baseado no respeito, na confiança e no compromisso irrestrito de serviço. A prática do coaching ontológico é algo fundamentalmente ético, em que não há nada mais importante do que a preservação irrestrita do espaço ético, requisito indispensável para sua realização. Qualquer fator que possa interferir no compromisso de respeito do coach com o coachado precisa ser corrigido. Por ser precisamente uma prática ética, o coaching ontológico é amoral: o coach ontológico não está ali para julgar ou condenar o coachado segundo seus critérios morais particulares. Está ali buscando dar sentido ao outro, tentando compreendê-lo, apesar das diferenças individuais que existam entre ele e o coachado. Está ali para ajudá-lo a alcançar suas frustradas e profundas aspirações, com uma única exigência: os objetivos que o coachado pretende alcançar com sua própria transformação devem, por sua vez, expandir o respeito como modalidade de convivência. (Texto traduzido por Helena Oliveira). Weston, 15 de setembro de

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