RECURSOS HÍDRICOS URBANOS - PROPOSTA DE UM MODELO DE PLANEJAMENTO E GESTÃO INTEGRADA E PARTICIPATIVA NO MUNICÍPIO DE MANAUS - AM.

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1 RECURSOS HÍDRICOS URBANOS - PROPOSTA DE UM MODELO DE PLANEJAMENTO E GESTÃO INTEGRADA E PARTICIPATIVA NO MUNICÍPIO DE MANAUS - AM. Andréa Viviana Waichman* João Tito Borges** INTRODUÇÃO Nas últimas décadas a Região Amazônica passou a ser motivo de um grande interesse por parte do governo na tentativa de sua incorporação ao modelo de desenvolvimento econômico nacional e de sua ocupação. Desta forma, o governo desenhou um conjunto de programas e planos visando ao estabelecimento, em nível nacional, de um equilíbrio geopolítico interno. Uma das estratégias adotadas foi a de implantação de grandes projetos industriais que se constituiriam em pólos de crescimento em torno dos quais iriam surgir centros motores da economia regional. Assim, atraídos por uma política de incentivos fiscais, diversos projetos foram implantados a partir do final da década de 60. Uma das características destes projetos foi a alta tecnologia empregada, o alto grau de organização na exploração dos recursos naturais e o grande volume de produção. Um dos primeiros projetos implantados na região foi a Zona Franca de Manaus, criada em 1967, por meio do Decreto-Lei n. o 288, cujo objetivo foi desenvolver um pólo industrial, comercial e agrícola no Estado do Amazonas, servindo de pólo de desenvolvimento para a Amazônia Ocidental. Entre 1970 e 1974 foram investidos 523 milhões de dólares para a instalação de 321 projetos. Embora criada em 40

2 1967, a Zona Franca de Manaus somente começou a funcionar em 1972, ocasião da conclusão das obras do Distrito Industrial. A instalação da Zona Franca de Manaus gerou um movimento migratório que levou a um rápido crescimento populacional nos principais centros urbanos da região. Este processo aumentou a pressão poluidora sobre os sistemas hídricos urbanos, com impactos que se evidenciam no contexto ecológico, econômico e social, refletindo-se na perda de qualidade de vida, prejuízos econômicos e mudanças drásticas nas características dos ecossistemas e da paisagem de Manaus. A ZFM se constituiu num pólo atrativo de mão de obra barata acentuando o fluxo migratório fazendo com que a população passasse de habitantes em 1970 a em Este crescimento demográfico, e a conseqüente expansão urbana, não foram acompanhados de investimentos em obras de infra-estrutura, principalmente no setor de saneamento básico. A área do Distrito Industrial de Manaus possui um ordenamento para uso e ocupação do solo sendo que a Resolução 520 da SUFRAMA (Superintendência da Zona Franca de Manaus) traz disposições sobre o controle da poluição. Enquanto as áreas destinadas à implantação das indústrias foram planejadas para prover a infra-estrutura e serviços adequados para o seu funcionamento, as moradias dos trabalhadores foram estabelecendo-se na periferia da cidade, sem nenhum planejamento. A classe menos favorecida estabeleceu-se em áreas menos valorizadas para suas moradias, entre elas, as margens dos igarapés. Ressalta-se o fato de que o sistema de tratamento de efluentes unitário (tratamento de todos os efluentes em uma só estação) previsto no projeto inicial de instalação do Distrito Industrial não fora executado. No ano de 2003, o que existem são sistemas de tratamento de efluentes sob a responsabilidade das próprias empresas, o que propicia uma maior dificuldade de fiscalização e controle por parte dos órgãos de controle ambiental. Além de estarem sendo utilizados para moradia da população de baixa renda sobre suas superfícies, os igarapés de Manaus se constituem em lixeiras e receptores de esgotos sanitários e industriais (Figura 1). Neste contexto, a bacia do Igarapé do Quarenta, compondo grande parte de sua área dentro do distrito industrial, é uma das bacias urbanas mais degradadas no município (Figuras 2 e 3). Essa degradação é resultado do desmatamento de suas margens com posterior ocupação por palafitas e conjuntos residenciais, lançamento de lixo, esgotos sanitários e da carga despejada pelas indústrias. Os governos municipal e estadual vêm implementando ações que se concentram principalmente na retirada de resíduos sólidos dos igarapés e na canalização dos leitos. Porém, esta medida não tem sido suficiente, pois, em pouco tempo o cenário volta a ser o mesmo devido à descontinuidade das ações, evidenciando, portanto, a necessidade de um modelo de gestão integrado e participativo dos recursos hídricos urbanos que seja adequado à realidade local e replicável ao nível regional. PROPOSTA PARA O PROBLEMA APRESENTADO A partir do problema exposto, um grupo de pesquisadores da Universidade do Amazonas (UFAM), juntamente com a Fundação Centro de Análise, Pesquisa e 41

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4 mananciais de água doce e garantir a sua existência para as futuras gerações. Esse processo só é possível a partir do envolvimento da sociedade e do estado nas diferentes instâncias de planejamento do desenvolvimento e de elaboração de políticas públicas para o setor. Além disto, a água pode ser vista pela sociedade de várias formas, dependendo do nível de decisão, influência e necessidades dos diferentes grupos sociais. Entender essas diferentes percepções é relevante porque elas condicionam a maneira de se realizar o planejamento e gestão dos recursos. Sendo assim, a água pode ser tratada como uma mercadoria (commodity), uma necessidade social e de sobrevivência humana ou um recurso estratégico ou ecológico. O planejamento e a gestão não podem ser vistos como a organização prévia e rígida dos diversos recursos disponíveis em função de objetivos e metas estabelecidas por instituições e técnicos. Ao contrário, deve surgir da interação dos atores sociais, coordenando os esforços e em função de objetivos estabelecidos em comum. Assim, a criação do modelo e sua implantação se darão a partir da ampla participação da sociedade. Esta é uma das lições que foram aprendidas depois dos insucessos na gestão de recursos hídricos nas últimas décadas, onde a população local somente pagava pelo uso, pela degradação realizada ou pela recuperação de áreas impactadas. Para o sucesso da gestão será necessário que todos os usuários reconheçam que a participação não é simplesmente uma nova forma de discutir as mesmas soluções, mas sim, um fórum no qual deve-se incentivar a proposição de novas estratégias para garantir a conservação dos recursos hídricos. Isto não é muito fácil, pois o processo participativo não implica em deliberações ou discussões isoladas. Ele demanda uma profunda mudança na postura de gestão, onde os tomadores de decisão se aproximam da sociedade e consideram suas necessidades, vivências e experiências. A participação implica no trabalho conjunto para o estabelecimento de critérios, para o manejo sustentável, identificando prioridades e superando entraves. A equipe técnica do projeto que está coordenando o processo de planejamento vem realizando as articulações institucionais e identificando os diferentes atores sociais que devem fazer parte do processo, como as associações de moradores, associações industriais e comerciais, sindicatos, lideranças formais e informais, prefeituras municipais, órgãos públicos estaduais e federais. A articulação entre os diferentes atores deverá gerar um processo de cooperação e de arranjo institucional que permitirá o fluxo contínuo de informações, de trocas de serviços e de apoio mútuo. Entende-se que a cooperação implementada possibilitará o intercâmbio de saberes, a valorização de habilidades, enfim a instituição de um rico processo de crescimento, onde cada entidade em sua esfera se fortaleça na força coletiva e se exercite um avanço no exercício da excelência e da participação cidadã. O modelo de gestão vislumbrado deve ter na informação a matéria-prima essencial para o planejamento, a formulação de políticas e a tomada de decisão. Desta forma, as metas estabelecidas no projeto incluem a identificação dos usuários com a definição de seus principais problemas e prioridades e a coleta de dados qualitativos (qualidade da água) e quantitativos dos recursos hídricos (dados de vazão, área inundada e outros) em escala temporal e espacial, de dados sócio-econômicos e da 43

5 A Biodiversidade no Estado do Acre: Conhecimento Atual, Conservação e Perspectiva avaliação dos impactos provocados pelas formas de ocupação. Essas informações deverão ser atualizadas e disponibilizadas através de uma rede integrada pelos diferentes agentes sociais envolvidos, viabilizando sua manutenção. O processo de criação do modelo irá promover a integração dos diversos usuários para a análise dos problemas e elaboração das soluções possíveis. O grande desafio, após a criação do modelo será o envolvimento dos diferentes setores na implementação e no monitoramento das ações propostas. Conclusão A gestão dos recursos hídricos e a revitalização de bacias urbanas de Manaus devem ser baseadas na criação de uma nova consciência de interação entre os elementos comportamentais e tecnológicos, haja vista a forte identidade simbólica do povo amazônico com a água. Desta forma, a identificação dos interesses dos diferentes setores e a incorporação das oportunidades e limitações dos ambientes, da sociedade e da economia, são princípios que estão sendo considerados no processo de elaboração do modelo de planejamento e gestão integrada e participativa dos recursos hídricos, que promovam a melhoria da qualidade de vida da população e a recuperação dos igarapés, reintegrando-os à paisagem urbana. recursos hídricos, sendo um deles o projeto Um modelo de planejamento e gerenciamento de recursos hídricos urbanos para cidades amazônicas do Fundo Setorial de Recursos Hídricos do MCT. Universidade Federal do Amazonas. **João Tito Borges Doutor em Engenharia Civil, na área de concentração em Saneamento e Ambiente pela UNICAMP. Professor do CESF- FUCAPI nos Cursos de graduação na disciplina de Gestão Ambiental e funcionário do CETAF (Centro Tecnológico Ambiental da FUCAPI) e professor em cursos de especialização na UFAM, UTAM e Nilton Lins. *Andréa Viviana Waichman Doutora em Biologia Aquática e Pesca Interior pelo INPA. Desde 1995 vem pesquisando os impactos antrópicos nos igarapés de Manaus. Coordena vários projetos relacionados à gestão de 44

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