EDUCAÇÃO E RACISMO: O RACISMO VELADO DA SOCIEDADE BRASILEIRA PRESENTE NA ESCOLA BRASILEIRA

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1 EDUCAÇÃO E RACISMO: O RACISMO VELADO DA SOCIEDADE BRASILEIRA PRESENTE NA ESCOLA BRASILEIRA Miriã Anacleto Graduada em Licenciatura Plena pelo curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Resumo: Este texto trata do racismo velado existente na sociedade brasileira e presente em nossas escolas, as quais deveriam propiciar um ambiente de reflexão, problematização e transformação da realidade, quando estão reproduzindo o pensamento tradicional padrão da sociedade, fruto do mito da democracia racial, por meio da ausência de abordagem, da discussão e do conhecimento sobre a questão racial. Palavras-chave: Educação; Escola; Racismo; Racismo Velado.

2 EDUCAÇÃO E RACISMO: O RACISMO VELADO DA SOCIEDADE BRASILEIRA PRESENTE NA ESCOLA BRASILEIRA INTRODUÇÃO Racismo é um sentimento de superioridade de determinadas raças em relação a outras, que tem por base diferentes motivos, principalmente características físicas e outros traços do comportamento humano. Historicamente, o racismo era uma forma de justificar o domínio de determinados povos sobre outros, como se confirma no período da escravidão, do colonialismo e nos genocídios ocorridos ao longo da história, inclusive da história brasileira, cujo maior exemplo é a escravidão africana instituída em solo brasileiro. Mesmo sendo justificada por determinações de ordem religiosa, perpetuou-se a partir daí a ideia na qual uns (brancos) nasceram para mandar, e outros (negros) para obedecer. Paralelamente a esse período brasileiro acontece a miscigenação - mistura de raças, de povos de diferentes etnias, ou seja, relações inter-raciais (entre pretos, brancos e índios), contrária ao racismo, que coloca em xeque a questão se realmente somos ou não pertencentes a uma cultura racista. A miscigenação sustentava uma ideia aparentemente positiva em relação à mistura entre os povos aqui no Brasil, quando na verdade defendia o branqueamento da população, cuja tese era pautada na crença de que a partir da mistura entre brancos e negros, a raça branca (sendo superior) predominaria sobre a raça negra (inferior) e assim haveria um melhoramento genético da população, o que contribuiu para uma hierarquização das pessoas. Surge então nesse contexto o mito da democracia racial, criando uma falsa ideia de harmonia entre as raças na sociedade brasileira, de um povo misturado e tolerante as diferenças. Diante desse fato, discutir o racismo na sociedade brasileira é sempre um assunto complicado e controverso, afinal como um país miscigenado, multirracial, colorido, pode ser racista? O problema é que a miscigenação não exclui o preconceito, pelo contrário, o mito da democracia racial originou, no Brasil, a pior forma de racismo: o racismo velado, não reconhecido, escondido atrás das máscaras do liberalismo e do discurso democrático. Porém essa ideia de democracia enraizou-se em nossa sociedade, e segundo Nilma Lino Gomes (2005), até hoje o racismo ainda é insistentemente negado no discurso brasileiro, mas se mantém presente nos sistemas de valores que regem o comportamento da nossa sociedade, expressandose através das mais diversas práticas sociais (p. 148). E na escola? Será que o racismo, seja ele velado ou não, também se reflete no espaço escolar? Se sim, qual o tratamento que a escola tem dado a questão? Como os professores têm trabalhado a questão racial na escola? A educação é anti racista? Precisamos pensar, e se necessário repensar, a nossa escola. A EDUCAÇÃO FRENTE AO RACISMO De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), a escola é um espaço privilegiado para a promoção da igualdade e eliminação de toda forma de discriminação e racismo, por possibilitar em seu espaço físico a convivência de pessoas com diferentes origens étnicas, 393

3 MIRIÃ ANACLETO culturais e religiosas (SANTOS, 2001, p.105). Além do mais, a escola pode impulsionar uma transformação da sociedade por meio da transformação do indivíduo e de suas relações. Segundo Isabel Aparecida dos Santos (2001), a tarefa da escola é fazer com que a História seja contada a mais vozes, para que negros e índios, relegados, possam construir uma imagem positiva de si mesmos. Dessa forma a escola deve promover situações de discussão, de diálogo, de questionamento e o mais importante, o conhecimento de si mesmo no encontro com o outro, para poder tornar o racismo não um problema isolado, mas de todos. E ainda, podemos acreditar que a escola pode ser muito mais, a escola precisa ser um espaço de mudança, e deve problematizar a questão racial para que a educação formal, além de formar cidadãos críticos e conhecedores de seus direitos civis, políticos e sociais, possa formar cidadãos despretensiosos e livres de qualquer caráter discriminatório. Entretanto, é notável através de pesquisas e mesmo de singela observação que o cotidiano escolar tem apresentado um viés diferente do proposto acima. O próprio livro didático, por exemplo, apresenta míseras figuras de indivíduos não brancos, considerando que, segundo dados da Secretaria de Assuntos Estratégicos SAE, 51% da população brasileira é negra. Onde estão os cartazes e fotos dos negros pelo espaço escolar? É certo que existem, mas em quantidade consideravelmente inferior as figuras de brancos. E será que basta tratar da consciência negra no dia 20 de novembro? É lamentável saber que ainda hoje em sala de aula não se tem dado a devida importância à temática. Percebemos que indiretamente a escola não tem desempenhado uma educação anti racista, reproduzindo o padrão da sociedade, predominante nos meios de comunicação e na vida social, e isso precisa ser revertido. É claro que a escola sozinha não será capaz de reverter a situação de uma hora para outra, porém é certo que ao desempenhar um papel na construção de uma nova cultura, estimulando relações entre os diferentes e abrindo portas para o diálogo e abordagens quanto a reflexão sobre a questão racial, possibilitará o desenvolvimento de uma consciência mais plena acerca da diversidade cultural, indo além do espaço da escola e refletindo no dia a dia da comunidade escolar. A meta dos educadores deve ser levar ao espaço escolar a discussão sobre as desigualdades na sociedade. Discutir os problemas referentes a cada grupo social e reconhecer a existência desse problema racial na sociedade brasileira. Infelizmente, o que se tem notado é exatamente o racismo velado imperando também em nossas escolas. Este racismo velado se releva quando professores e alunos não se dão conta da extensão do problema ou simplesmente acreditam no discurso de que o Brasil é um país miscigenado, sem preconceito, como pregado pelo mito da democracia racial (cabe ressaltar que mito é uma realidade que não pode ser comprovada); quando creem na igualdade de direitos para todos, como direto ao trabalho, à moradia, à justiça e a permanência na escola, entre outros. Gomes (2005) propõe que uma melhor compreensão sobre o que é o racismo e seus desdobramentos poderia ser um dos caminhos para se pensar estratégias de combate ao racismo na educação. Muitos professores ainda pensam que o racismo se restringe à realidade dos EUA, ao nazismo de Hitler e ao extinto regime do Apartheid na África do Sul. Esse tipo de argumento é muito usado para explicar a suposta 394

4 EDUCAÇÃO E RACISMO: O RACISMO VELADO DA SOCIEDADE BRASILEIRA PRESENTE NA ESCOLA BRASILEIRA inexistência do racismo no Brasil e ajuda a reforçar a ambiguidade do racismo brasileiro. Além de demonstrar um profundo desconhecimento histórico e conceptual sobre a questão, esse argumento nos revela os efeitos do mito da democracia racial na sociedade brasileira, esse tão falado mito que nos leva a pensar que vivemos em um paraíso racial (p. 148). Assim, percebemos professores e educadores desinteressados, desinformados e mesmo despreparados para tal reflexão. Porém é necessário que sempre que houver uma reclamação ou qualquer evento em que ocorram discriminação e preconceito no espaço escolar deve servir de pretexto para reflexão e ação, afinal não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação reflexão (FREIRE, 1987, p.78), e como bem sabemos quem cala consente. EXPERIÊNCIA NEGATIVA Gostaria de trazer aqui uma experiência que pude presenciar que comprova essa ideia de racismo velado na escola e na educação em si. Como requisito estabelecido pelo curso de licenciatura em Ciências Sociais na disciplina de Estágio Supervisionado II, estou tendo a oportunidade de acompanhar aulas de Sociologia lecionadas no ensino médio num determinado colégio estadual aqui da cidade de Maringá. Em uma dessas aulas a professora, com as melhores intenções em relação ao aprendizado de seus alunos, propôs aos alunos do 2º ano um trabalho que abordasse o tema preconceito, ou seja, deveriam entrevistar pessoas que considerassem sofrer algum tipo de preconceito, seja ele sexual ou racial. A proposta foi feita, um questionário foi elaborado, o prazo para apresentação dos resultados foi dado e agora os alunos estavam livres para escolher trabalhar o tema relacionado ao aspecto sexual ou racial. Ao longo das apresentações dos trabalhos, um ponto importante estava se destacando, todos os trabalhos tratavam do preconceito sexual. Apresentações finalizadas e um fato surpreendente: 100% dos trabalhos apresentados em sala trataram do preconceito sexual. Todos os questionários voltados a homossexuais. Nenhum aluno preocupou-se em trabalhar a questão do preconceito quanto a raça de um indivíduo. Em outras palavras, preconceito racial não existe. Sinal de alerta! Racismo velado detectado. Entretanto outro problema, talvez maior ainda, foi detectado. A professora em questão ficou incomodada com o resultado e inclusive indagou a ausência da abordagem racial frente os questionários de seus alunos, porém ela indagou com a pessoa errada, questionou com a estagiária, comigo, e não com seus alunos. E o que foi feito sobre isso? Nada. O preconceito racial não foi problematizado, não houve uma reflexão sobre o assunto e muito menos uma ação, e tudo ficou por aquilo mesmo. Onde está o posicionamento do(a) professor(a) quanto a questão da discriminação racial? Seria desinteresse ou despreparo? Ou talvez faltasse tempo para abordar o assunto diante de um cronograma escolar apertado? N questões podem ser levantadas, mas uma coisa é certa, trabalhar 395

5 MIRIÃ ANACLETO a dimensão racial era necessária, e infelizmente não aconteceu. E mais, isso seria reflexo de uma mídia que não expõe a luta atual, e mesmo passada, do Movimento Negro? Afinal, o que vemos constantemente em nossos televisores ou meios de comunicação de massa é a luta de homossexuais para legitimação de seus direitos civis, legalização do casamento homoafetivo, entre tantos outros pontos. Mas e a legitimação dos direitos dos negros? Desinteresse midiático que se reproduz na escola e em seus alunos. Propor a temática preconceito racial ou sexual em sala de aula foi de excelente pretensão, porém quando detectada uma falha no conhecimento ou na abordagem, essa deve ser preenchida pela educação. Em outras palavras, não basta apenas propor o conhecimento do problema, mas estabelecer a discussão e reflexão sobre. CONSIDERAÇÕES FINAIS É importante e ao mesmo tempo triste admitir o fato de que nossas escolas têm reproduzido o racismo velado presente na sociedade brasileira. O mito da democracia racial afetou nossos cidadãos, nossos educadores e nossos alunos, deixando todos à mercê de um conhecimento mais aprofundado e menos infundado sobre o que é racismo e como ele tem mostrado suas caras em nossa sociedade. Os acontecimentos aqui destacados evidenciam a presença do problema racial no espaço escolar. A escola, que deveria ser um espaço de mudança, de transformação e de exemplo, tem reproduzido o padrão tradicional da sociedade, e ainda não se deu conta disso. É claro que vários educadores estão procurado reverter essa situação e até tem se mobilizado para tal, mas ainda é preciso muito mais conscientização e informação de outros educadores/professores para que a mudança ocorra de fato. A convivência cultural precisa ser vivenciada na escola, e mais, a discussão sobre a questão racial deve ser estimulada, afinal a ausência de iniciativas diante de conflitos raciais entre alunos e alunas mantém o quadro de discriminação. Diante desses conflitos, silêncio revela conivência com tais procedimentos (CAVALLEIRO, 2001, p.153). Ou seja, a escola não deve silenciar, mas pelo contrário, deve gritar, e gritar contra qualquer tipo de discriminação racial. Iniciativas concretas devem ser desenvolvidas e tratar de assuntos como: a cultura, a religião, a influência da mídia, a arte. E claro, é importante que essas abordagens não aconteçam somente nas datas comemorativas ou em semanas especificas para tal debate, mas todos os dias, no cotidiano escolar. Faz-se necessária a utilização de materiais anti racistas em sala de aula. Conteúdos eurocêntricos ou preconceituosos devem ser reavaliados ou até mesmo trabalhados, mas de uma forma que mostre o preconceito como um problema e não levar à sua confirmação. De acordo com Gomes (2005) os professores/educadores precisam entender que o processo educacional também é formado por dimensões como a ética, as diferentes identidades, a diversidade, a sexualidade, a cultura, as relações sexuais, entre outras, pois dessa maneira, poderemos construir coletivamente novas formas de convivência e de respeito entre professores, alunos e 396

6 EDUCAÇÃO E RACISMO: O RACISMO VELADO DA SOCIEDADE BRASILEIRA PRESENTE NA ESCOLA BRASILEIRA comunidade. É preciso que a escola de conscientize cada vez mais de que ela existe para atender a sociedade na qual está inserida (p.147). Não podemos deixar de lado o papel do professor de buscar o entendimento do que é racismo, discriminação racial e preconceito para poder trabalhar o tema com seus alunos, e quando surgirem questões sobre, estas possam ser sanadas ou mesmo debatidas. Não se esquecendo de trabalhar a questão racial baseada nas lutas, demandas e conquistas do Movimento Negro para que seus alunos compreendam a relevância deste movimento na história e na atualidade vivida pela sociedade brasileira. O certo é que o racismo precisa ser notado e superado. E a luta contra isso não é exclusivamente da população negra, a superação do racismo deve ser desejada pelos membros da comunidade como requisito primeiro para a plena recuperação da dignidade da condição humana (BERN, 1994, p.57). É necessário um comprometimento a fim de constituirmos uma democracia para todos, e a escola deve oferecer um ambiente propício para a realização dessa luta combativa, possibilitando a convivência positiva entre todos e a reflexão e ação acerca da discriminação racial. Num contexto social em que o racismo não é compreendido e nem debatido, o silenciar da escola e de seus professores significa inferioridade, desrespeito e desprezo pela questão racial, afirmando, inconscientemente, a harmoniosa relação das raças, fruto do mito da democracia racial e deixando ainda adormecido o discurso de que o Brasil não é um país racista, enquanto o racismo grita para ser superado. REFERÊNCIAS CAVALLEIRO, Eliane. Educação anti-racista: compromisso indispensável para um mundo melhor. In: Racismo e anti-racismo na educação: repensando nossa escola / Eliante Cavalleiro (organizadora). São Paulo: Selo Negro, FREIRE, Paulo. A pedagogia do oprimido. 29ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, GOMES, Nilma Lino. Educação e relações raciais: refletindo sobre alguns estratégias de atuação. In: Superando o Racismo na escola. 2ª edição revisada / Kabengele Munanga (organizador). [Brasília]: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, SANTOS, Isabel Aparecida dos. A responsabilidade de escola na eliminação do preconceito racial: alguns caminhos. In: Racismo e anti-racismo na educação: repensando nossa escola / Eliante Cavalleiro (organizadora). São Paulo: Selo Negro, TABORDA, Cleuza Regina Balan. O mito da democracia racial. In: recantodasletras.com.br/artigos/ Acesso em: 21 de julho de

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