A legislação e a Orientação Educacional

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1 A legislação e a Orientação Educacional A legislação relacionada à educação no Brasil auxiliou o Orientador Educacional a fortalecer-se como profissional, muitas vezes embasado em pressupostos teóricos equivocados. Como já foi dito anteriormente, a prática da Orientação Educacional foi, inicialmente, calcada nos pressupostos da orientação vocacional, voltada, na maioria das vezes, para o encaminhamento dos jovens da classe trabalhadora ao ensino profissionalizante, por meio de testes psicológicos de inteligência, de personalidade e de interesses, capazes de detectar as diferenças individuais, tornando-se um modo e persuasão com o objetivo de convencer os alunos de que conseguir um emprego depende de sua capacidade, ajustando-o a este ou aquele curso. Tal prática contribuiu para a formação de mão-de-obra especializada e qualificada e para a manutenção do status quo das classes sociais mais privilegiadas. Afirma Grinspun (2006) que esse impulso na profissão ocorreu após a Reforma do Ensino Comercial, em 1931, feita por Francisco Campos que previa o Serviço de Orientação Profissional. Em 1933, Fernando Azevedo institui em São Paulo o Código de Educação do Estado, que prevê a formação de administradores escolares, técnicos e orientadores do ensino. Curiosidade Os técnicos daquele momento acreditavam que estavam fazendo o melhor para a sociedade brasileira. Para eles, era como colocar o homem certo no lugar certo, utilizando as técnicas de medidas e avaliação da Psicologia para alcançar esse objetivo. Após a promulgação da Constituição de 1937, o Ministro da Educação, Gustavo Capanema, apresentou um conjunto de Leis Orgânicas, entre elas a Lei Orgânica do Ensino Industrial que, pela primeira vez, instituiu a Orientação Educacional voltada para o atendimento e encaminhamento de alunos-problema e para a recreação e lazer. Esse campo era vinculado diretamente às necessidades profissionais das indústrias. Já na Lei Orgânica do Ensino Secundário, voltada para a educação da elite, a Orientação Educacional é apresentada com função específica de aconselhamento para escolha vocacional para o ensino superior e orientação para o lazer. A Lei Orgânica do Ensino Comercial reafirmou o caráter moralizador e de ajustamento do aluno à profissão. Também na Lei Orgânica do Ensino Agrícola, promulgada por Leitão Cunha, o caráter de ajustamento profissional é o mesmo. Em 1961, como relata Grinspun (2006), com a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) nº 4024, reconhece-se a Orientação Educacional, denominada lei de Orientação Educativa e Vocacional. Suas áreas de abrangência seriam a orientação escolar, psicológica, profissional, da saúde, recreativa, familiar, sendo caracterizada pelo aspecto preventivo e psicológico, tanto no ensino primário, como no ensino secundário.

2 Para ser Orientador Educativo do ensino primário era preciso ter formação específica no Instituto do Ensino Normal. Já para exercer a profissão no ensino médio, era preciso fazer curso de Orientação Educativa em Faculdades de Filosofia, que tinha ênfase principal em disciplinas relacionadas à Psicologia. Além disso, exigia-se um estágio mínimo de 3 anos no magistério para trabalhar como Orientador Educacional, já assegurado na LDB e reafirmado pela Lei 5564 em 1968, que regulamentou o exercício do profissional da Orientação Educacional, ainda dentro de uma linha psicológica e preventiva. Apesar de ter forte apelo à Orientação Profissional, mesmo na lei, a Orientação Educacional conseguiu abranger áreas como lazer, recreação, formação moral e na área da saúde. Grinspun (2006) afirma que isso aconteceu pelo fato de a Orientação Educacional ter sido bem aceita no ensino secundário particular... De característica elitista, propedêutico ao ensino superior, especialmente às carreiras liberais, o que sempre foi a aspiração da classe dominante. A Orientação Educacional trabalhava na escola média ajustando, prevenindo problemas e identificando diferenças individuais, para ajustar o ensino a elas. (p. 144) A Lei 5692/71 veio instituir a obrigatoriedade da Orientação Educacional, reforçando o foco no aconselhamento vocacional e no ajustamento ao ensino profissionalizante. A partir daí, houve adequação do currículo dos cursos de formação do Orientador Educacional, uma vasta bibliografia começou a ser produzida e foram realizados cursos e seminários nacionais e regionais para os profissionais que já atuavam nas redes de ensino, com o objetivo de adequar a função do Orientador Educacional às exigências da lei, regidas por um momento político e histórico em que era importante adequar a mão-de-obra ao mercado de trabalho. Tal movimento produzia no orientando uma sensação de que era ele quem decidia seu futuro profissional. Caso ele não tivesse aptidão para determinada profissão, seria ele, somente ele, o responsável pelo seu fracasso. Na realidade, adverte Grinspun (2006), mais uma vez o profissional Orientador Educacional é obrigado a agir de acordo com os interesses das classes dominantes. Em meio a esse conturbado cenário, surge o Decreto-lei em 1973 que regulamenta a lei 5564/68 sobre a profissão do Orientador Educacional, que, apesar de enfatizar a dimensão psicológica, trouxe benefícios, ampliando o mercado de trabalho do Orientador Educacional. Só a partir da década de 1980 a discussão em torno das funções do Orientador Educacional se amplia, agora numa realidade política mais democrática, trazendo à tona novos elementos e reflexões ao trabalho do Orientador, como: a questão da escola como reprodutora de um sistema social excludente; a compreensão do significado de liberdade e da autonomia, como atitude ética e social; a discussão sobre a interpretação da nova realidade do aluno, afastando-se da idéia de ajustamento; a busca de um trabalho integrado com os demais membros da escola etc. Com isso, o papel do Orientador Educacional começou a relacionar-se às mudanças sociais e com a educação das classes trabalhadoras, em busca da defesa de uma escola pública de qualidade. Garcia (2002) lembra que, a partir do final dos anos 1970, em Encontros e Congressos, realizados em várias partes do país, com o objetivo de discutir a

3 Orientação Educacional, começouse a buscar um novo referencial teórico que possibilitasse ao profissional compreender a sociedade concreta e refletir sobre sua relação com a escola. O Orientador Educacional é convocado a ser um agente de renovação. Curiosidade A partir de 1980, o Orientador Educacional começou a pensar em seu trabalho na escola de uma forma diferente, ampliando seus campos de atuação. Neste momento, segundo Collares (2006), ocorreram algumas mudanças, avanços e contradições na história da Orientação Educacional, mas os profissionais dessa área assumiram um papel mais político e comprometido com a sociedade, defendendo uma escola pública de qualidade e filiando-se à Federação Nacional de Orientação Educacional (FENOE), à Central Única dos Trabalhadores (CUT) e, mais tarde, à Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE). Contudo, nos anos 1990, extingue-se a FENOE, ocorrendo o enfraquecimento e a fragilização da identidade do Orientador Educacional. Na Lei 9394/96, o trabalho da Orientação Educacional não é mencionado como obrigatório, mas ao se tratar da formação de profissionais de educação, no artigo 64, o orientador educacional é mencionado e deve obter sua formação em nível superior ou pós-graduação. A educação profissional e a preparação para o trabalho são citadas na lei, mas sem mencionar um profissional específico para trabalhá-las. Dessa forma, a abrangência da prática da Orientação Educacional fica garantida, predominando aspectos da dimensão pedagógica. Ao refletir sobre o percurso do histórico do papel do Orientador Educacional na educação, Collares (2006) resume os vários períodos desse profissional, sistematizando-os da seguinte forma: Período Implementar: compreende o período de 1920 a 1941 e está associado à Orientação Profissional, preponderando a seleção e escolha profissional; Período Institucional de 1942 a 1961: caracterizado pela exigência legal da Orientação Educacional nos estabelecimentos de ensino e nos cursos de formação dos orientadores educacionais; nesse período há a divisão funcional e institucional; surge a Escola Pública; Período Transformador de 1961 a 1970: pela Lei 4.024/61, a Orientação Educacional é caracterizada como educativa, ressaltando a formação do Orientador Educacional e fixando as Diretrizes e Bases da Educação Nacional; Período Disciplinador de 1971 a 1980: conforme a Lei 5.692/71, a Orientação Educacional é obrigatória nas escolas, incluindo o aconselhamento vocacional. O Decreto /73, regulamentando a Lei 5.564/68, sobre o exercício da profissão de Orientador Educacional, disciplina os passos a serem seguidos; Período Questionador - de 1980 a 1990: o Orientador Educacional discute suas práticas, seus valores, a questão do aluno trabalhador, enfim, a sua realidade no

4 meio social; a prática da orientação volta-se para a concepção de educação como ato político; Período Orientador a partir de 1990: a orientação voltase para a construção do cidadão comprometido com seu tempo e sua gente, trabalhando a subjetividade, obtida através do diálogo. (p. 2) A partir da leitura da história e da legislação, iremos analisar outros fatores que se relacionam à atuação do Orientador Educacional no interior da instituição escolar. Pense e responda: Analisando as várias fases de atuação da Orientação Educacional, em qual delas podemos dizer que esse profissional tem um compromisso maior com o processo educativo e o trabalho coletivo na escola? 2.1 O enfoque filosófico, social, pedagógico e político da Orientação Educacional...Tanto os orientadores, como os professores, diretores, supervisores, sabiam que no SOE (Serviço de Orientação Educacional) encontrariam os testes, questionários, os sociogramas, os perfis das turmas e dos alunos etc. As mudanças foram ocorrendo e, hoje, a figura do orientador não está mais só vinculada ao SOE e sim a toda a escola, e, portanto, a sua prática ultrapassa os muros daquele Serviço. (GRISNPUN, 1994, p. 28) O estudo da Orientação Educacional remete-nos ao estudo da escola. Tanto uma como a outra demandam, além do exame da história, a reflexão sobre os aspectos filosóficos, sociais, políticos e pedagógicos da educação. Quando se pensa na função da educação escolar, não podemos deixar de responder a certas perguntas como: - Em que concepção de mundo acreditamos? - Que homem queremos formar? Que valores iremos trabalhar? - Quem é o meu aluno, hoje? - Em que realidade o aluno com quem trabalho está inserido? - Que tipo de cidadão desejo formar? - Que currículo poderá contribuir para a formação desse aluno? Que metodologia? Que tipo de avaliação? Tais perguntas estão diretamente relacionadas às dimensões filosófica, social e política do trabalho do Orientador Educacional. Curiosidade Pensar em educação significa pensar na atuação política, social e filosófica dos seus integrantes, incluindo o Orientador Educacional. Por exemplo, quando se pensa na concepção de mundo e na visão de homem que se tem, a dimensão filosófica da educação está sendo evidenciada e o Orientador, ao responder a essas questões, juntamente com os demais membros da escola,

5 deve relacioná-las ao tipo de conhecimento e aos valores que se quer construir com os alunos, à formação integral do indivíduo, às tendências educacionais e às práticas cotidianas de sala de aula. Esses conceitos devem, sempre que possível, ser revistos com o coletivo de educadores da escola, para que não se percam de vista as finalidades do trabalho educativo. Foto extraída do site: Verifica-se, dessa forma, que ao refletir sobre a dimensão política de sua atuação o Orientador deve promover situações e atividades (grêmios, representações de alunos) que permitam ao aluno tomar decisões e vivenciar as conseqüências de seus atos. Com relação à dimensão social da escola, a Orientação Educacional tem o papel fundamental de conhecer, interpretar e divulgar à comunidade escolar a realidade socioeconômica e psicológica do aluno, bem como a realidade na qual está inserido, identificando suas necessidades a fim de superar as dificuldades encontradas. A dimensão pedagógica da escola traduz-se pelas questões relativas ao currículo, como a seleção dos objetivos, conteúdos, metodologia e formas de avaliação. O Orientador auxiliará no planejamento desses aspectos ao lembrar, sempre que possível, aos educadores, o universo social, cultural, afetivo e cognitivo do aluno. De acordo com Placco (1998) cabe ao Orientador Educacional formar o cidadão responsável e transformador: O papel básico do Orientador Educacional será o de auxiliar o educando a tornar-se consciente, autônomo e atuante nessa tarefa, auxiliando também o aluno, na identificação de seu processo de consciência dos fatores sócio-econômico-políticoideológicos que o permeiam e dos mecanismos que lhe possibilitem superar a alienação decorrente desses processos, tornando-se, assim, um homem-coletivo: responsável e transformador (p. 115). A Orientação Educacional busca meios emancipatórios para atingir seus objetivos, assumindo um compromisso com o momento social e histórico e contribuindo para a formação de homens mais críticos, conscientes e participativos na sociedade. Essa tarefa não é nada simples, pois muitas vezes os educadores entram em conflito, porque os aspectos idealizados de uma escola desejada não condizem com a realidade concreta. A escola está inserida na sociedade, vivenciando os problemas

6 oriundos dessa, como a violência, a pobreza, o desemprego, a fome, a falta de moradia, os problemas de saúde, as drogas, entre outros, que têm reflexos explícitos no interior dessa instituição. Além disso, os profissionais da escola, não raramente, sentem-se frustrados por terem dificuldade em operacionalizar os objetivos e metas educacionais, ora por falta de conhecimento, ora por falta de recursos. A Orientação Educacional precisa, a todo o momento, auxiliar os educadores a relembrarem tais objetivos e finalidades e, juntamente com os demais membros da equipe técnica, buscar soluções pedagógicas e metodológicas, redescobrindo o papel da escola na formação do sujeito e na construção de cidadão. Nesse sentido, é na escola que o aluno aprende a conviver com o outro, a aceitar a diversidade cultural, a participar e lutar pelo bem comum, a conviver com dificuldades e contradições, a trabalhar com o diálogo, a defender seus direitos e a dialogar. Para Grinspun (2006), a escola é um espaço de conhecimento, crenças, mitos, razões e emoções. O grande segredo é descobrir o que é verdadeiro para a escola, como instituição e para seus protagonistas, como cidadãos. Para tanto, é importante conhecer a realidade da sala de aula, o que possibilitará ao Orientador Educacional caminhar junto com seus protagonistas. As dimensões sociais, filosóficas, políticas e pedagógicas da Orientação Educacional também estão contidas na questão da educação para trabalho, tanto em relação à orientação vocacional, mas principalmente no que se refere à discussão da relação trabalho/emprego. Pense e responda: Após ler sobre as dimensões sociais, filosóficas, políticas e pedagógicas do trabalho do Orientador Educacional, podemos concluir que essa função é significativa para a melhoria da qualidade de ensino...?

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