A ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DO COMÉRCIO

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1 A ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DO COMÉRCIO Fabíola de Moura Sérvulo 1 RESUMO A Organização Mundial do Comércio é a principal organização internacional para questões de comércio. Ainda que não seja uma agência especializada das Nações Unidas, a OMC trabalha em conjunto com ela no intuito de promover e fomentar o comércio global e utilizá-lo como ferramenta para o desenvolvimento dos países. PALAVRAS-CHAVES Organização Mundial do Comércio. Acordos Comerciais. Negociações Comerciais. Cooperação Internacional. Políticas de Comércio. Disputas Comerciais. 1 INTRODUÇÃO A Organização Mundial do Comércio é uma das mais recentes organizações internacionais, ainda que uma instância de propósitos similares tenha sido prevista em 1994, na Conferência de Bretton Woods. Daquela Conferência surgiram o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (BM), instituições econômicas de referência até os dias atuais. Uma terceira organização proposta na época, a Organização Internacional do Comércio, não foi consenso entre os países e não conseguiu ser estabelecida. De forma a se preencher a necessidade de uma instância de cooperação na área do comércio internacional, ainda que de uma forma menos institucionalizada, foi assinado o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (Gatt), que entrou em vigor em Inicialmente com 23 países, o Gatt logrou êxito em sua proposta de reduzir as tarifas comerciais entre países durante suas diversas rodadas de negociações. Entre 1948 e 1994, foram realizadas oito rodadas do Gatt, que lidavam principalmente com tarifas. A última delas, denominada Rodada do Uruguai, e ocorrida entre 1986 e 1996, tratou de uma série de questões não tarifárias (barreiras não tarifárias, produtos agrícolas e têxteis, serviços e propriedade intelectual) e abriu as portas para a criação da Organização Mundial do Comércio, em Mestranda pela Universidade Católica de Brasília UCB, Especialista em Direito Público (UNIFOR), Especialista em Ciências Criminais (UFPI), Professora do Curso de Graduação em Direito da Faculdade das Atividades Empresariais de Teresina FAETE, Assistente Judiciário Municipal de Timon-MA.

2 Costuma-se alegar que a criação da OMC não representou [...] uma ruptura no regime internacional do comércio, e sim sua ampliação para novas áreas, e sua maior institucionalização. 2 De fato, os temas debatidos na Rodada do Uruguai do Gatt foram incorporados integralmente na agenda da nova organização. As decisões na OMC são tomadas nas Conferências Ministeriais, que se realizam periodicamente. Elas ocorreram em Cingapura (1996), Genebra (1998), Seattle (1999), Doha (2001), Cancun (2003) e Hong Kong (2005). 2 ESTRUTURA DA OMC A Organização Mundial do Comércio possui, hoje, 149 Estados-membros, mais de 30 em processo de adesão (e que possuem status de governos observadores). Esses membros se encontram no principal órgão deliberativo da OMC, a Conferência Ministerial, que se reúne em uma base bienal e toma decisões tradicionalmente por consenso. Abaixo da Conferência há o Conselho Geral, também representado por todos os membros e responsável pelas funções executivas da organização. Ele coordena o trabalho dos Conselhos Setoriais, que se dividem nas áreas de Comércio de Bens, Comércio de Serviços e Propriedade Intelectual. A OMC encontra-se sediada em Genebra (Suíça), onde ordinariamente funcionam o Secretariado da Organização e os demais Comitês encarregados de velar pela implementação dos acordos multilaterais firmados pelos Estadosmembros, a exemplo do Acordo de Marraqueche (Gatt 1994). 3 PRINCIPAIS FUNÇÕES DA OMC As principais funções da Organização Mundial do Comércio são: administrar os acordos comerciais; atuar como um fórum para negociações comerciais; resolver disputas comerciais; avaliar políticas nacionais de comércio; 2 HOFFMAN, Andrea; HERZ, Mônica. Organizações Internacionais.

3 assistir países em desenvolvimento em assuntos de políticas comerciais, por meio de assistência técnica e programas de treinamento e qualificação; cooperar com outras organizações internacionais em direção de seus objetivos. 3 4 OBJETIVOS INSTITUCIONAIS E PRINCÍPIOS Pode-se dizer que as atividades da OMC são balizadas pelos seguintes postulados: a) elevar os padrões de vida dos indivíduos (as relações comerciais estabelecidas entre os Membros da OMC devem se pautar pela elevação dos padrões de vida de seus povos); b) assegurar o pleno emprego; c) fomentar o crescimento do volume real de trocas internacionais; d) expandir a produção e o comércio de bens e serviços; e) compatibilizar esses anseios com a promoção do desenvolvimento em nações menos favorecidas (isto é, atentar para as diferenças necessidades que os Membros de diferentes níveis de desenvolvimento possuem); f) velar pela proteção ambiental e pelo desenvolvimento sustentável (otimizar o uso dos recursos naturais, em consonância com a promoção de um desenvolvimento sustentável, promovendo e protegendo a preservação do meio ambiente). Para alcançar esses objetivos, a OMC rege-se por diversos princípios, que evidenciam a orientação liberal da organização, cuja criação somente se tornou possível como o fim do socialismo real e a consagração do capitalismo como único meio de garantir crescimento econômico e bem estar social aos indivíduos. Os princípios do sistema multilateral de comércio, tais como incorporados no Tratado de Marraqueche, derivam, em sua maior parte, daqueles que constituíram os fundamentos do GATT Comércio sem discriminação é um dos princípios fundamentais, o qual tem sua aplicação garantida através das várias cláusulas inseridas nos tratados multilaterais sobre comércio de bens (GATT), serviços (GATS) e propriedade intelectual (TRIPS). 5 COMÉRCIO SEM DISCRIMINAÇÃO a) Cláusula da Nação-Mais-Favorecida: 3 Adaptado do site oficial da OMC: <

4 A Cláusula da Nação-Mais-Favorecida (NMF) constitui a pedra angular do sistema comercial multilateral desde sua previsão pelo GATT Nesta época, as partes contratantes do antigo sistema objetivavam a garantir as demais nações um tratamento não menos favorável do que o oferecido a determinado país (as vantagens comerciais concedidas a um país deveriam, portanto, automática e imediatamente, estender-se a todos os demais) 4. Os membros da OMC absorveram a mesma sistemática anteriormente vigente, o que pode ser depreendido do disposto nos artigos 1º do GATT 1994, art. 2º do GATS e 4º do TRIPS. b) Tratamento Nacional: O princípio do Tratamento Nacional condena qualquer discriminação porventura estabelecida entre produtos e serviços nacionais e estrangeiros e entre detentores de direitos relativos à propriedade intelectual nacionais ou estrangeiros. O GATT 1994 e o Acordo Relativo a Direitos de Propriedade Intelectual e Comércio (TRIPS) prevêem a aplicação do princípio do Tratamento Nacional como um de seus compromissos fundamentais. Desta forma, os produtos importados, uma vez pagos os impostos e as taxas alfandegárias devidas, devem receber o mesmo tratamento que os produtos nacionais em matéria de encargos, taxas e demais exigências de cunho administrativo (previsão contida no art. 3º do GATT) 5. Em atenção aos direitos relativos à propriedade intelectual, ressalvadas as exceções regularmente previstas nos competentes tratados internacionais, os membros da OMC comprometeram-se a assegurar aos estrangeiros direito não menos favorável àqueles que sejam estabelecidos para seus nacionais. Contudo, tendo em vista as peculiaridades que revestem o comércio de serviços, art. XVII (Parte III Compromissos Especiais) prevê a negociação de concessões e o estabelecimento de condições especiais relativas a essa matéria. 4 O GATT 1947 consagra este princípio da seguinte forma: Art.I.1 Qualquer vantagem, favor, imunidade ou privilegio concedido por uma parte contratante em relação a um produto originário de ou destinado a qualquer outro país, será imediata e incondicionalmente estendido ao produto similar, originário do território de cada uma das outras partes contratantes ou ao mesmo destinado. Este dispositivo se refere aos direitos aduaneiros e encargos de toda a natureza que gravem a importação ou a exportação, ou a elas se relacionem, aos que recaiam sobre as transferências internacionais de fundos para pagamento de importações e exportações, digam respeito ao método de arrecadação desses direitos e encargos ou ao conjunto de regulamentos ou formalidades estabelecidas em conexão com a importação e exportação bem como aos assuntos nos 1 e 2 do art. III 5 GATT 1947, art. 3.1: Os produtos de qualquer Parte Contratante importados no território de outra Parte Contratante serão isentos da parte dos tributos e outras imposições internas de qualquer natureza que excedam aos aplicados, direta ou indiretamente, a produtos similares de origem nacional. Além disso, nos casos em que não houver no território importador produção substancial de produto similar de origem nacional, nenhuma parte contratante aplicará tributos internos novos ou mais elevados sobre os produtos de outras partes contratantes com o fim de conceder proteção a produção de produtos, diretamente competidores ou substitutos, não taxados de maneira semelhante; os tributos internos dessa natureza, existentes, serão de negociação para a sua redução ou eliminação.

5 6 TRANSPARÊNCIA O Acordo da OMC também prevê o estabelecimento de notificações indispensáveis e requisitos mínimos para o funcionamento do Órgão de Exame das Políticas Comerciais com o objetivo de garantir a mais ampla transparência na condução da analise das políticas comerciais dos países membros, no que tange a bens, serviços e propriedade intelectual. O art. 10 do GATT 1994 prevê a publicação e a implementação de regulamentos comerciais aos Membros, ao passo que o art. 3º do GATS estabelece dispositivos relativos a transparência como uma das obrigações do acordo. O Acordo de TRIPS estabelece previsão semelhante em seu art.3º. 7 LIVRE ACESSO AOS MERCADOS A constante e crescente liberalização dos mercados para produtos e serviços consiste em princípio essencial no contexto histórico de criação da OMC. Este princípio faz-se observar através de vários preceitos normativos que asseguram a segurança, previsibilidade e continua liberação do comércio internacional. 7.1 LIBERAÇÃO DO COMÉRCIO DE BENS No que tange o comércio de bens, o postulado fundamental do GATT consiste em que os Membros devem utilizar apenas restrições de índole tarifária para proteger a indústria doméstica, sendo condenável o recurso a qualquer outro artifício que vise a obstar o livre trânsito de mercadorias. Ademais, as tarifas devem ser previsíveis e estáveis. a) Consolidação tarifária

6 Segurança e previsibilidade no comércio de produtos são conseguidos através da consolidação tarifária. Consolidar uma tarifa implica estabelecer compromisso de não se elevá-la acima de determinado patamar previamente negociado. A elevação de uma tarifa torna-se lícita, portanto, desde que seja procedida nos limites fixados pelos compromissos, isto é, desde que não ultrapasse os parâmetros traçados. b) Proibição de restrições quantitativas Regra geral, o estabelecimento de quotas de importação é vedado no sistema do GATT 1994, contudo, em alguns casos específicos, exceções podem ser feitas e restrições de ordem quantitativa podem ser estabelecidas desde que obedecidos os estreitos limites para sua aplicação (é o caso dos produtos têxteis). c) Negociação de tarifas: progressiva redução do protecionismo Entre 1947 e 1994, as negociações comerciais para a redução de tarifas eram promovidas periodicamente pelo GATT. Essas negociações, mais conhecidas como rodadas, serviram para reduzir progressivamente o nível de proteção tarifária em muitos países, hoje membros da OMC. A negociação de tarifas ainda ocupa espaço de destaque na agenda da OMC, entretanto, as formas contemporâneas de protecionismo são bem mais sutis e difíceis de serem combatidas, o que tem exigido da OMC um renovado e bem mais sofisticado arsenal normativo. 7.2 LIBERALIZAÇÃO DO COMÉRCIO DE SERVIÇOS O Acordo Geral sobre Comércio de Serviços (GATS) estabelece uma base multilateral de princípios e normas para o comércio de serviços com a finalidade precípua de promover sua expansão sob condições de transparência e crescente liberalização. Através da estipulação de obrigações e princípios gerais, negociação de compromissos específicos e o aceno para com rodadas de negociação regulares, o GATS objetiva estabelecer um sistema comercial estável de livre acesso aos mercados consumidores.

7 8 CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao contrário das disposições do GATT, no qual apenas dois artigos regulavam os procedimentos de disputas comerciais (artigos XXII e XXIII), a OMC instituiu normas processuais, adotou uma estrutura organizacional de caráter judiciário para resolver os litígios e controvérsias decorrentes da aplicação das normas estabelecidas pelo Acordo e recomendações. O avanço em relação ao sistema do GATT é significativo, haja vista a maior confiabilidade um mecanismo que se encontrava demasiadamente fragmentado e fragilizado em virtude de sua dispersão. O Órgão de Solução de Controvérsias (OSC) enfatiza a importância da solução consensual das disputas comerciais, exigindo que um Membro acene positivamente as negociações em até trinta dias após formulada a consulta por outro Membro. Se, após sessenta dias (contados a partir da consulta feita pelo Membro prejudicado), não houver acordo entre os envolvidos, a parte reclamante poderá requerer o estabelecimento de um Painel. Contudo, se as consultas preliminares sequer tiverem sido respondidas, a parte reclamante poderá requerer imediatamente a formação do Painel, geralmente composto por três expertos não-nacionais dos países envolvidos com comprovada experiência na condução de litígios internacionais. O OSC possui regras e prazos específicos para a formação do Painel e proferimento de suas decisões. As regras-padrão são aplicadas em todos os casos, salvo se as partes concordarem com outra forma alternativa de procedimento, que deverá ser comunicada ao Diretor Geral até o vigésimo dia de implantação do Painel. Também cabe ao Diretor Geral deliberar sobre eventuais impugnações aos membros do painel, as quais deverão ser feitas nos vinte primeiros dias após seu estabelecimento. Um prazo de seis meses é previsto para a conclusão do Painel, porém, em hipóteses de comprovada urgência, esse limite poderá ser reduzido pela metade. As decisões do Painel são, então, encaminhadas ao Órgão se Solução de Controvérsias (OSC), para homologação, em vinte dias após serem proferidas, devendo ser cumpridas até o limite máximo de sessenta dias. A possibilidade de se recorrer da decisão do Painel é uma característica inovadora da OMC, haja vista possibilitar que outro órgão colegiado (Órgão de

8 Apelação), composto por sete membros, manifesta-se sobre a interpretação legal da decisão ou sobre matérias de direito suscitadas pelo Painel. Os procedimentos do Órgão de Apelação não devem ultrapassar os sessenta dias (contados da data em que a parte formalmente notifica a decisão de recorrer) e a sua decisão deve ser aceita incondicionalmente pelas partes em trinta dias. Sendo adotada a decisão do Órgão de Apelação, a parte em desfavor de quem ela foi proferida deve notificar a OMC sobre sua intenção de implementá-la ou não. Se a decisão não puder ser prontamente cumprida, as partes poderão negociar um prazo razoável, a fim de que as medidas cabíveis sejam implementadas, sendo o seu cumprimento observado, até o encerramento definitivo da matéria. O objetivo central é evitar que membros da OMC tomem decisões unilaterais e imponham medidas que, visando apenas a beneficiar setores deficitários da indústria doméstica, infrinjam a política de livre comércio e violem os princípios consagrados em seus tratados multilaterais. O OSC tem o seu funcionamento detalhado no Entendimento sobre Solução de Controvérsias e é aplicável a todas matérias envolvendo países membros da OMC. A criação da Organização Mundial do Comércio representou um avanço significativo na consolidação da segurança e previsibilidade das relações econômicas internacionais. Dotada de estrutura funcional permanente e detentora do status de organização internacional, a OMC representa a possibilidade de crescente e constante liberalização dos mercados de seus membros. Liberalização esta que não se restringe apenas ao comércio de bens, mas abrange ainda o comércio de serviços e a harmonização das regras de proteção da propriedade intelectual. Com a criação da OMC, o tripé institucional concebido por Johns Maynard Keynes durante a Conferência de Bretton Woods foi finalmente concluído. Entretanto, isso somente foi possível quando o mundo reconheceu o capitalismo como único sistema de produção viável, através do qual seria possível garantir prosperidade econômica e desenvolvimento social aos indivíduos. É inegável, portanto, o fundamento liberal que sustenta e orienta os acordos da OMC. Todas as normas em seu bojo partem do pressuposto de que mais comércio é melhor que menos comércio e que as barreiras à livre circulação de bens e serviços, sejam elas tarifárias ou não-tarifárias, devem ser gradualmente eliminadas como forma de

9 aumentar a riqueza do mundo e garantir aos consumidores o acesso a produtos melhores e mais baratos. ABSTRACT The World Trade Organization is the leading organization for issues of international trade. While not a specialised agency of the United Nations, the WTO working together with it in order to promote and boost global trade and use it as a tool for the development of countries. KEYWORDS Trade Agreements. Trade Negotiations. International Cooperation. Policies of Commerce. Commercial Disputes. REFERÊNCIAS ALMEIDA, P. R. de. Relações internacionais e política externa do Brasil: dos descobrimentos à globalização. Porto Alegre: UFRGS,1998. BARRAL, W. O. Dumping e comércio internacional: a regulamentação antidumping após a Rodada Uruguai. Rio de Janeiro: Forense, DI SENA JÚNIOR, R. Comércio internacional e globalização: a cláusula social na OMC. Curitiba: Juruá, HERZ, Mônica; HOFFMAN, Andréa. Organizações internacionais: história e práticas. Rio de Janeiro: Campus/Elsevier, STELZER, Joana. Introdução às relações do comércio internacional. Itajaí: Universidade do Vale do Itajaí, WORLD Trade Oganization. WTO website. Disponível em:< Acesso em: 4 set

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