Os fundamentos do juízo: a faculdade do juízo e a conformidade a fins

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1 2. Os fundamentos do juízo: a faculdade do juízo e a conformidade a fins As considerações iniciais deste capítulo dizem respeito à faculdade do juízo, elemento sem o qual não é possível entender o fundamento daquilo que pretendemos tratar nesta dissertação, a saber, como é possível a validade universal do juízo sobre o belo, sendo ele um juízo singular e sua validade, subjetiva. O primeiro passo a ser dado nesse caminho é o primeiro não só no sentido cronológico, mas também primeiro no sentido lógico, por ser o mais fundamental. Só assim será possível fincar os pés em um terreno firme para tratar do julgamento acerca do belo. Neste primeiro momento nos concentraremos na exposição das bases nas quais Kant fundamenta os juízos reflexivos estéticos A faculdade do juízo Para descrever a faculdade 3 do juízo precisamos, primeiramente, analisála em seus elementos para, em seguida, fornecer os meios segundo os quais ela é válida no âmbito da estética e finalizar mostrando como ela se especifica no juízo estético do belo. A faculdade do juízo, nas palavras de Kant, é a capacidade de subsumir a regras, isto é, de discernir se algo se encontra subordinado à dada regra ou não. (KANT, 1994, B 172 p. 177). Podemos observar que em cada Crítica o autor procura se ocupar desse tema e de suas aplicações: teórica, prática e estética/teleológica. Nessa dissertação o foco está na aplicação estética, à qual Kant se dedicou na primeira parte da CFJ. 3 Faculdade em alemão Vermögen e é derivado do latim facultas e do grego dynamis. Dynamis significa poder, e facultas significa a capacidade para realizar algo. A relação existente entre essas palavras nos mostra que faculdade é a potência que o sujeito possui para uma realização.

2 13 A faculdade do juízo em geral é a faculdade de pensar o particular como contido sob 4 o universal. No caso de este (a regra, o princípio, a lei) ser dado, a faculdade do juízo, que nele subsume o particular, é determinante (o mesmo acontece se ela, enquanto faculdade transcendental, indica a priori as condições de acordo com as quais apenas naquele universal é possível subsumir). Porém, se só o particular for dado, para o qual ela deve encontrar o universal, então a faculdade do juízo é simplesmente reflexiva. (KANT, 2008, B XXVI p. 23). A faculdade do juízo concerne à capacidade de pensar o particular como contido no universal. Nessa passagem, que pertence à Introdução publicada da CFJ, além de dar a conceituação geral da faculdade do juízo, Kant estabelece a distinção entre os juízos determinantes e os juízos reflexivos. O critério de distinção está na maneira segundo a qual o particular e o universal se relacionam entre si. Esta relação, possível de ser realizada pela faculdade do juízo, possui duas formas: uma em que o universal encontra-se disponível e para o qual o sujeito deve encontrar o particular. A essa maneira de relacionar universal e o particular, Kant chama de juízo determinante. Na outra, apenas o particular está disponível e o sujeito busca o universal. Essa outra maneira de relacionar particular e universal é chamada por Kant de juízo reflexivo. O juízo determinante é a faculdade de pensar o particular como contido no universal, quando o universal é dado e subsume 5, sob ele, o particular. É o tipo de juízo no qual uma faculdade legisla sobre a outra, quando duas delas se relacionam entre si. O juízo de conhecimento é determinante, por exemplo, quando há relação entre a imaginação e o entendimento sob legislação do entendimento. Nesse juízo há uma espécie de coerção entre as faculdades, pois uma determina a outra. Quando a razão determina a vontade, o juízo também é determinante, portanto, o juízo determinante do qual estamos tratando não é o único caso. O juízo reflexivo é a faculdade de pensar o particular como contido no universal, quando só o particular é dado e para o qual ele deve encontrar o universal. Desse modo, o juízo reflexivo é aquele que, a partir de fenômenos, procura um conceito por meio da reflexão. O conceito é buscado para que o objeto dado possa ser pensado. O que se busca é um meio de se lidar com o 4 Visto que o termo usado no alemão é unter, a melhor tradução é sob o universal. 5 Subsumir é considerar um fato como aplicação de uma lei, ou seja, quando se conhece o universal e assim se concebe o particular a partir de sua lei.

3 14 particular dado e não, determinar o objeto para se saber o que ele é, nesse sentido sua validade é subjetiva, pois precisamos do conceito para lidar com o objeto. O Juízo pode ser considerado, seja como mera faculdade de refletir, segundo um certo princípio, sobre uma representação dada, em função de um conceito tornado possível através disso, ou como uma faculdade de determinar um conceito, que está no fundamento, por uma representação empírica dada. (KANT, 1995, B 16 p. 47). No caso do juízo determinante, se ele é um juízo de conhecimento, as faculdades cognitivas se relacionam por meio do esquema da imaginação de modo a que os dados sensíveis sejam determinados. O entendimento, por meio dos conceitos, determina os dados da sensibilidade em relação aos quais, a imaginação exerce um papel mediador, formando um esquema que possibilitará que haja um acordo entre a universalidade do conceito e a singularidade dos dados sensíveis. A determinação dos dados sensíveis pelo conceito do entendimento é possível por meio de uma coerção entre as faculdades cognitivas do sujeito, pois o entendimento, por meio do conceito determina a imaginação, que, por sua vez, determina os dados sensíveis. Diferentemente, o juízo reflexivo não parte de nenhum conceito. Ele parte de um dado singular para o qual é preciso encontrar o conceito universal para pensar sobre o dado. O conceito de juízo reflexivo ou reflexionante, se o consideramos como uma das espécies de juízo mencionadas acima, tem, sob si, três sub espécies de juízo: o juízo reflexivo teleológico 6, que diz respeito à finalidade da natureza, mas dessa espécie não procuraremos dar conta nessa dissertação; o juízo reflexivo estético 7, que diz respeito à representação com relação ao sentimento de prazer e desprazer; e o juízo reflexivo que possibilita a formação de conceitos e leis empíricas, ao qual também não vamos dar conta na presente investigação. 6 O juízo reflexivo teleológico apesar de ser reflexivo não tem ligação com prazer e/ou desprazer e sim com a finalidade. É possível arriscar uma interpretação de que esse juízo envolve uma espécie de prazer reflexivo, mas não pretendemos tratar desse tema. 7 Para distinguir se algo é belo ou não, referimos à representação, não pelo entendimento ao objeto em vista do conhecimento, mas pela faculdade de imaginação (talvez ligada ao entendimento) ao sujeito e ao seu sentimento de prazer e desprazer. (KANT, 2008, B 4 p. 47).

4 15 Para realizar sua função, o juízo reflexivo é compelido a ascender do particular na natureza para o universal e por isso ele necessita de um princípio. Como o juízo reflexivo parte de um objeto dado, é preciso um princípio em função do qual o objeto pode ser pensado. Faz-se necessária uma lei para buscar o universal em vista do particular. Quando exerce a função reflexiva, a faculdade do juízo deixa de ser simplesmente coadjuvante e toma a dianteira em relação ao entendimento, pois na função determinante o entendimento é que tem a dianteira e o juízo é regrado pelo conceito puro do entendimento. No entanto, a multiplicidade da natureza e a multiplicidade da experiência vão além daquilo que o entendimento pode determinar. Segundo Kant, as exigências racionais levam o sujeito a encontrar na própria razão princípios em função dos quais o ser humano tenha condições de lidar com esta multiplicidade, para que ele possa pensá-la como constituindo um todo. Deleuze 8 observa que Kant faz uso do termo faculdade em dois sentidos. No primeiro sentido, faculdade remete para as diversas relações de uma representação em geral [...] num segundo sentido, faculdade designa uma fonte específica de representações. (DELEUZE, 1994, p. 15). Deleuze nos esclarece que em ambos os sentidos, faculdade é um poder a priori, isto é, cada uma dessas faculdades deve ser capaz de uma forma superior. Logo, Deleuze nos possibilita entender que a faculdade é superior quando relaciona as representações a priori, isto é, aquela que apresenta a relação entre as representações de forma universal e necessária. Uma faculdade tem uma forma superior quando ela acha em si mesma a lei do seu próprio exercício, (mesmo que desta lei decorra alguma relação necessária com outra faculdade) a fim de que funcione com validade universal. Sob sua forma superior, uma faculdade é autônoma, ou seja, é guiada por uma lei, ou melhor, por um princípio 9 próprio, se ela é capaz legislar sobre os objetos que lhe são submetidos. 8 Essas considerações foram feitas por Deleuze em sua obra: A filosofia crítica de Kant. 9 Um princípio é um começo ou um ponto de partida que possui, classicamente, características ontológicas e lógicas. Um princípio puro é distinto do empírico e alinhado com o a priori. É considerado como a possibilidade de conhecimento a priori. É uma condição universal. Os princípios têm tanto uma função constitutiva quanto regulativa. Os constitutivos entendem dever submeter a existência das aparências a regras a priori (KANT, 1994, B 222 p. 210), e os

5 16 Como a faculdade do juízo relaciona faculdades diferentes entre si, as representações correspondentes se relacionam de forma sintética (ou, em outras palavras: o que acontece é uma conexão entre as representações). No que concerne à faculdade de desejar, ela atua de forma superior quando a vontade não é determinada pelo prazer esperado, mas pela simples forma da lei, a saber, quando ela é determinada pela razão. Percebemos dessa maneira que uma faculdade é autônoma na medida em que exerce suas funções de forma a priori e encontra-se suprida por um princípio que possibilita um procedimento reflexivo dessa faculdade. A faculdade do juízo reflexiva, que tem a obrigação de elevar-se do particular na natureza ao universal, necessita por isso de um princípio que ela não pode retirar da experiência, porque este precisamente deve fundamentar a unidade de todos os princípios empíricos sob princípios igualmente empíricos, mas superiores e por isso fundamentar a possibilidade da subordinação sistemática dos mesmos entre si. (KANT, 2008, B XXVII p. 24). Esse princípio do qual estamos tratando é chamado por Kant de conformidade a fins <Zweckmässigkeit>, e trata-se da possibilidade de vislumbrar uma unidade nas leis empíricas da natureza. Tal princípio é regulativo. Um princípio regulativo nos dá os meios de lidar com a natureza de modo a que possamos interagir com ela. Ele possibilita, por exemplo, pressupor que há uma continuidade na natureza de modo a que possamos formar conceitos e leis empíricas. Na Primeira Introdução Kant afirma que é preciso que se pense a natureza com uma finalidade porque ela forma uma conexão sistemática das leis empíricas, então, é considerável pensar todo o agregado de experiências particulares como sistema das mesmas. (KANT, 1995, B 8 p. 38). É preciso pressupor uma continuidade na natureza para que seja formada uma conexão sistemática de leis empíricas. Essa continuidade só pode ser pensada em função de um princípio, pois a soma das leis particulares não dá conta sozinha de unificar a multiplicidade de experiências. Este princípio opera como se 10 a regulativos são aqueles que oferecem regras segundo as quais uma unidade da experiência deverá resultar das percepções. (KANT, 1994, B 222 p ). 10 Como se tem, nesse caso, caráter analógico, pois afinal o princípio da conformidade a fins não determina nada na forma do entendimento. É como se determinasse a forma como entendemos o mundo, mas na verdade é apenas uma regra para a reflexão. É a condição sem a qual não se pode

6 17 natureza se deixasse determinar pela nossa faculdade da razão. No entanto, ele nada determina na forma do entendimento, seu aspecto reflexivo visa resguardar apenas uma lei para o juízo, que é contingente em relação à natureza. É que, sem pressupormos isso, não teríamos qualquer ordem da natureza segundo leis empíricas e, por conseguinte nenhum fio condutor para uma experiência e uma investigação das mesmas que funcione com estas segundo toda a sua multiplicidade. (KANT, 2008, B XXXVI p. 29). Na Introdução publicada na CFJ Kant faz uma referência implícita ao princípio regulativo. Ele se refere à possibilidade de se pensar a conformidade a fins da natureza. Tal princípio é então, uma condição que o sujeito admite a priori quando tem necessidade de dar conta daquilo que a natureza lhe oferece. Por meio de tal princípio é possível supor uma ordem para a natureza. Por isso a faculdade do juízo possui um princípio a priori para a possibilidade da natureza, mas só do ponto de vista de uma consideração subjetiva de si própria, pela qual ela prescreve uma lei, não à natureza (como autonomia), mas sim a si própria (como heautonomia) para a reflexão sobre aquela, lei que se poderia chamar da especificação da natureza [...]. (KANT, 2008, B XXXVII p ). O princípio da conformidade a fins, possível de ser pensado em função do princípio regulativo, é subjetivo, pois não determina nada em relação aos objetos da natureza, mas sim dá a regra para que eles possam ser pensados. Tal princípio possibilita que se julgue a natureza como podendo especificar suas leis universais e empíricas em conformidade com um sistema lógico e único em função do juízo (KANT, 1994, A / B p ). Kant estabelece esse princípio sabendo que a lei garantidora da unidade da natureza é dada a priori pela razão. E assim, é possível atribuir à natureza um sistema e não tomá-la como um mero agregado. É como se a razão desse a condição de possibilidade para que a natureza seja considerada como um sistema, em função de uma exigência lógica. O juízo reflexivo juntamente com o princípio da conformidade a fins pensar universalmente o princípio de finalidade, pois não se pode demonstrá-lo, afinal é um princípio regulativo e não constitutivo. É uma hipótese, é como se a natureza fosse final para o homem, mas não se sabe de fato se ela é. Através do princípio será possível pensar a natureza como um sistema e não como um mero agregado.

7 18 pretendem fornecer uma regra para se pensar o particular diante do universal indisponível. Este princípio tem a função de guiar o sujeito em seu julgamento sobre a natureza para que ele possa lidar com ela de uma forma que faça sentido. O juízo reflexivo fornece, portanto, as condições para que seja possível tratar dos dados particulares da natureza, dados que escapam aos conceitos do entendimento. A conformidade a fins (ou princípio de finalidade) é dada por uma exigência lógica da razão de ordenação da natureza. Existem duas definições que Kant dá à conformidade a fins: na primeira, um fim é o conceito de um objeto enquanto encerra, ao mesmo tempo, a base da realidade desse objeto. (KANT, 2008, B XXVII p. 24); na segunda, fim é o objeto de um conceito, enquanto este é considerado como a causa daquele (a base real da possibilidade do objeto). (KANT, 2008, B 32 p. 64). A conformidade a fins não é o mesmo que fim, a conformidade a fins é um princípio e fim tem a ver com um conceito de um objeto, e pode ser tomado também como objeto. Em nenhum dos dois casos está dito que fim é um princípio. Podemos estabelecer uma relação entre o princípio de finalidade e o conceito de fim, pois afinal o conceito de fim pode tornar mais evidente o principio de finalidade. As definições de fim se relacionam com o princípio de finalidade através da noção de causa final. A conformidade subjetiva é o poder de julgar discernindo a possibilidade de um fim. A partir desses conceitos é possível observar que, por meio do princípio de finalidade, os juízos reflexivos podem ser tidos como estabelecendo uma sintonia entre o sujeito e as coisas, o que possibilita ao sujeito pensar a natureza como final para ele. É como se a natureza fosse feita para o homem, porque o princípio da conformidade a fins opera como se a natureza se deixasse compreender como um todo pela experiência. Esse princípio possibilita lidarmos com a natureza como se ela fosse final para nós. Admitir essa homogeneidade na natureza nos possibilita formar conceitos para os particulares da natureza. Por meio do princípio de finalidade consideramos a natureza como se fosse feita para interagirmos com ela. É preciso ter um critério para hierarquizar conceitos, ou seja, um critério capaz de por em ordem tudo que conhecemos através do entendimento. E tais juízos que procedem desse princípio, não têm a pretensão de determinar a natureza, mas

8 19 apenas regulá-la. A partir desse princípio o homem pode admitir uma sistematicidade, através da qual ele é capaz não só de interagir com o meio em que ele vive, mas também de pensá-lo como um todo. Concentrar-nos-emos agora na proposta da CFJ, segundo a qual a faculdade do juízo tem como principal função estabelecer as relações entre o sentimento de prazer e de desprazer e as faculdades cognitivas. Percorreremos a partir de agora o caminho que pretende analisar a relação entre a conformidade a fins e o sentimento de prazer e desprazer. O problema a ser resolvido é como o princípio de finalidade se liga ao sentimento de prazer e/ou desprazer. Kant indica no primeiro momento da Analítica que esse sentimento é a condição para o juízo estético. É preciso provar a condição estética dos juízos reflexivos estéticos, para descrever a possibilidade deste princípio transcendental do gosto A conformidade a fins como princípio transcendental do gosto Após essa aproximação acerca do princípio que pretende fundar os juízos estéticos, agora começaremos o tratamento dos juízos estéticos e sua ligação com esse princípio. O elemento central dos juízos estéticos é o prazer que está ligado à representação, que de forma nenhuma pode se reverter em conhecimento. Na verdade, através deles nada conheço no objeto da representação, ainda que eles possam ser até o efeito de um conhecimento qualquer. (KANT, 2008, BXLIII p.33). Diz Kant, o objeto só pode ser designado conforme a fins, porque sua representação está imediatamente ligada ao sentimento de prazer. (KANT, 2008, B XLII p. 33). Quando o sujeito sente prazer em sua relação com a natureza, ele pode identificar uma espécie de finalidade que resulta nesse sentimento, pois se o sujeito sente prazer é possível atribuir esse sentimento a um indício de que a natureza foi feita para lhe dar prazer. A finalidade do juízo estético é uma finalidade sem fim (trataremos com mais atenção desse tema no segundo capítulo, no tópico 3.1), porém o sentimento de prazer é um indício da conformidade a fins.

9 20 Por isso um objeto só pode ser designado conforme a fins, porque a sua representação está imediatamente ligada ao sentimento de prazer; e esta representação é ela própria uma representação estética da conformidade a fins. (KANT, 2008, BXLII p. 33). Podemos expor o argumento da seguinte forma: na medida em que a conformidade a fins é apenas uma pressuposição do juízo reflexivo e nada diz de objetivo, a não ser enquanto possibilidade de regrar a maneira de pensá-lo, assim é certo afirmar que ela não é um princípio para os juízos determinantes. A conformidade a fins e esse sentimento encontram-se em conexão na medida em que ambos participam do momento estético da reflexão sujeito-objeto, momento que precede o ajuizamento reflexivo. (TROMBETTA, 2000, p. 85). Se o prazer está ligado à conformidade a fins e esta é um princípio transcendental (necessário, mesmo que subjetivo), o juízo de gosto que é fundamentado no prazer tem o direito a essa base transcendental que concede assim necessidade e universalidade. Desta forma o prazer não pode mais do que exprimir a adequação deste objeto às faculdades de conhecimento que estão em jogo na faculdade do juízo reflexiva e por isso, na medida em que elas aí se encontram, exprime simplesmente uma subjetiva e formal conformidade a fins do objeto. (KANT, 2008, B XLX p ). Na verdade, como o fundamento do prazer ou desprazer é colocado simplesmente na forma do objeto para a reflexão geral, por conseguinte em nenhuma sensação do objeto, é também colocado sem relação a um conteúdo que contenha uma intenção qualquer, é apenas a legalidade no uso empírico da faculdade do juízo em geral (unidade da faculdade da imaginação e do entendimento) no sujeito com que a representação do objeto na reflexão concorda. As condições dessa reflexão são válidas a priori de forma universal. (KANT, 2008, B XLV p. 34). O que salta aos olhos nesse momento é o caráter a priori e universal da reflexão presente no juízo estético, o qual não se encontra determinado em algum conteúdo. Por outro lado, a universalidade não está pautada numa validade a priori, enquanto necessidade objetiva fundada em conceitos, mas no sentimento ligado à conformidade a fins. A partir de agora podemos entender que o caráter universal da reflexão dos juízos de gosto não está presente em um conteúdo determinado, pelo contrário, podemos localizá-lo em suas condições de possibilidade.

10 21 Ora, este conceito transcendental de uma conformidade a fins da natureza não é nem um conceito de natureza, nem de liberdade, porque não acrescenta nada ao objeto (da natureza), mas representa somente a única forma segundo a qual nós temos que proceder na reflexão sobre os objetos da natureza com o objetivo de uma experiência exaustivamente interconectada, por conseguinte é um principio subjetivo (máxima) da faculdade do juízo. (KANT, 2008, B XXXIV p. 28). A operação reflexiva, que tem sua origem no ajuizamento estético, possui uma ligação indissociável com o sentimento de prazer e o estado de ânimo. Para esclarecer um pouco mais o juízo reflexivo estético vamos nos dedicar a ele no próximo tópico deste capítulo O juízo reflexivo estético Nessa parte trataremos do ajuizamento 11 reflexivo estético, o qual diz respeito ao sujeito e ao seu sentimento de prazer e/ou desprazer. Este prazer ao qual o juízo estético está ligado se dá pela presença de objetos formalmente aptos, que originam um operar das faculdades cognitivas, diferente do juízo de conhecimento. É justamente por não determinar nada em relação ao objeto que a dimensão estética é aquela que diz respeito apenas ao sujeito e seu sentimento de prazer ou desprazer. Aquilo que na representação de um objeto é meramente subjetivo, isto é, aquilo que constitui a sua relação com o sujeito e não com o objeto é a natureza estética dessa representação. [...] Aquele elemento subjetivo numa representação que não pode de modo nenhum ser uma parte do conhecimento é o prazer ou desprazer. (KANT, 2008, B XLII p ). Existem duas espécies de juízo estético: o juízo sobre o belo e sobre o sublime. Não pretendemos dar conta nesta dissertação do juízo sobre o sublime. Nossa investigação concentrar-se-á no juízo reflexivo estético sobre o 11 A tradução de Beurteilung por ajuizamento e de Urteil por juízo. O segundo expressa união de dois conteúdos representacionais, e o primeiro é a relação da consciência ajuizante com o objeto representado, não ampliando o conhecimento, mas expressando aprovação ou desaprovação. (KANT, 2008, B 4 p. 47 nota do tradutor).

11 22 belo que é denominado juízo de gosto. É através da análise desse juízo que vamos lidar com a validade universal do sentimento acerca do belo. Nos juízos reflexivos estéticos sobre o belo, as faculdades cognitivas, imaginação e entendimento, se relacionam através de um jogo livre, que tem como efeito o estado de ânimo que gera o sentimento de prazer. As faculdades do sujeito neste momento não estão determinando nada em relação ao objeto, estão na verdade experimentando um sentimento ao se relacionarem com tal objeto. Tal prazer estético tem a pretensão de revelar se algum objeto é ou não belo, de acordo com o estado de ânimo do sujeito perante tal objeto. Sabendo que é através do jogo harmonioso entre suas faculdades que o sujeito pode sentir prazer e, em função desse sentimento, julgar esteticamente o objeto. Torna-se preciso analisar agora uma questão fundamental acerca desta classe de juízos: se é o prazer que precede o juízo, ou se é o juízo que precede o prazer? Nesse momento nos deparamos com a questão-chave da CFJ; se o sentimento de prazer precede o ajuizamento estético ou se é este ajuizamento que precede o prazer? Kant nos responde que: Se o prazer no objeto dado fosse o antecedente e no juízo de gosto somente a comunicabilidade <Mitteilbarkeit> 12 universal do prazer devesse ser concedida à representação do objeto, então um prazer não seria nenhum outro que o simples agrado na sensação sensorial e, por isso, de acordo com sua natureza, somente poderia ter validade privada, porque dependeria imediatamente da representação pela qual o objeto é dado. (KANT, 2008, p. 61 B 27). É na resposta para essa pergunta que encontramos a chave para abrir a questão que buscamos fundamentar, a saber, a capacidade dos juízos reflexivos estéticos terem validade subjetiva e universal apesar de serem juízos singulares. Se o prazer antecede o juízo, este consistiria apenas na comunicação do sentimento, então tal prazer seria resultante de um simples agrado na sensação sensorial. De tal modo que só possuiria validade privada. No entanto, se é o ajuizamento estético que como condição subjetiva de gosto, tem que jazer como fundamento do mesmo e ter como consequência o prazer no objeto, (KANT, 2008, p. 61 B 27) então não pertence a simples sensação do sujeito, mas resulta a reflexão. Desse modo poderemos entender 12 O verbo mitteilen possui o significado de compartilhar, e Kant faz uso desse termo como uma harmonia comunicativa.

12 23 aquilo para o que Kant chama a nossa atenção: que o juízo antecede o prazer, pois o juízo se dá no momento do acordo entre duas faculdades cognitivas. O prazer se dá depois do juízo, pois o juízo é o próprio jogo livre entre imaginação e entendimento. Ao entender que o juízo reflexivo implica em como o sujeito sente a si mesmo da maneira que ele é afetado pela representação do objeto e que esse sentimento fundamenta-se na harmonia entre as faculdades do sujeito, e como as faculdades têm um estatuto transcendental, podemos admitir que todos os sujeitos que foram afetados pelo mesmo objeto possam sentir a harmonia interna de suas faculdades. E assim podemos comunicar nossa avaliação sobre o objeto fundandonos na harmonia sentida. Pela comoção, isto é, pelo jogo livre entre as faculdades é possível admitir a validade da universalidade do juízo singular reflexivo estético. Mesmo dependendo de um sentimento de prazer por parte do sujeito, a validade universal se torna possível porque é um sentimento que não se atém à sensação sensorial. A universalidade acerca do juízo sobre o belo se dá em função das faculdades cognitivas de todos os sujeitos. O juízo estético de sensação também só é possível em função das faculdades cognitivas do sujeito. Ele precisa da sensibilidade para sentir e do entendimento para saber o que ele está sentindo. Entretanto no juízo reflexivo estético as faculdades cognitivas estão se relacionando livremente e harmonicamente. Ora, qualquer sujeito está apto para o julgamento do belo, se um objeto provoca o livre jogo entre as faculdades cognitivas do sujeito. Então, este objeto pode provocar o mesmo estado de ânimo em qualquer sujeito. Analisar a faculdade do juízo, a conformidade a fins e o juízo reflexivo estético nos ajuda a esclarecer os fundamentos da proposta kantiana. Vamos seguir adiante para apresentar o âmbito do juízo sobre o belo mais precisamente. É necessário justificar a legitimidade desse juízo segundo suas condições de possibilidade. Tal juízo deve ser considerado por todos como universalmente válido, pois possui um fundamento a priori para seu exercício.

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