GABRIELA CHRISTINA WAHLMANN UM ESTUDO EXPLORATÓRIO SOBRE A ATIVIDADE DE CONTROLADORIA NAS MICROEMPRESAS NA CIDADE DE UBATUBA

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1 GABRIELA CHRISTINA WAHLMANN UM ESTUDO EXPLORATÓRIO SOBRE A ATIVIDADE DE CONTROLADORIA NAS MICROEMPRESAS NA CIDADE DE UBATUBA CARAGUATATUBA - SP 2003

2 GABRIELA CHRISTINA WAHLMANN UM ESTUDO EXPLORATÓRIO SOBRE A ATIVIDADE DE CONTROLADORIA NAS MICROEMPRESAS NA CIDADE DE UBATUBA Monografia apresentada para obtenção do título de Bacharel pelo curso de Ciências Contábeis pelas Faculdades Integradas Módulo. Orientador: Professor Ms. Ricardo Maroni Neto CARAGUATATUBA - SP 2003

3 Dedico este trabalho Às minhas filhas Alexandra, Karin e Christine, razões maiores de minha vida.

4 Agradecimentos Ao saudoso Professor Ms. Marcelo Francisco Almeida que não mediu esforços no sentido de reduzir nossa ignorância quanto aos Métodos e Técnicas de Pesquisa. Ao Professor Ms. Ricardo Maroni Neto pela paciente, dedicada e incansável orientação desde o grupo de iniciação científica até a elaboração do presente trabalho. Aos Professores Ms. Silas Sandoval Filho e à colega Marilia Lopes da Silvia Ferreira por terem se disposto a realizar a revisão de língua portuguesa. Aos Professores da Faculdade de Ciências Contábeis pela amizade, pelo apoio e conhecimento transmitido nas disciplinas componentes do curso. Aos colegas e amigos pelo carinho e incentivo demonstrado durante todo o período de curso. Às minhas filhas pelo amor e encorajamento sem limites.

5 Onde você está hoje é o resultado das suas decisões de ontem. Onde você estará amanhã dependerá das decisões que você estará tomando hoje. Carl Baker

6 R E S U M O Este trabalho está voltado para a conceituação da Controladoria, assim como para a caracterização da atividade de Controladoria existentes nas microempresas de Ubatuba, em virtude da problemática ligada aos elevados níveis de mortalidade empresarial neste segmento da economia. A pesquisa se realizou por meio de revisão bibliográfica, levantamento de dados estatísticos e pesquisa de campo. Os resultados obtidos, de um lado, apresentam a Controladoria como gestor de informações úteis ao processo decisório de administração, oriundas do ambiente interno e externo da empresa e, de outro, mostram a inexistência de uma atividade de Controladoria no setor e conseqüentemente de seus benefícios potenciais. Este fato se dá, principalmente, por motivo de capacitação insuficiente por parte do microempresário.

7 S U M Á R I O INTRODUÇÃO A CONTROLADORIA E SUAS ATRIBUIÇÕES A origem da Controladoria A Controladoria nos anos setenta e oitenta Tung 1972 A Controladoria no papel do guia e navegador da entidade Kanitz 1976 Conceito clássico Yoshitake 1984 Controle, eliminar o indesejável A Controladoria nos anos noventa A Controladoria segundo modelo GECON Mosimann e Fisch 1993 Redefinindo a Controladoria Catelli A Controladoria segundo a gestão econômica Outros autores atrelados ao modelo GECON A Controladoria segundo autores de visão empírica Oliveira Filosofia da excelência empresarial Perez Júnior, Pestana e Franco 1995 Decisão-ação informação-controle Autores contemporâneos Coronado 2002 Atacado e varejo Beuren 2002 A Controladoria e sua história Brito 2002 Instituições financeiras Oliveira; Perez Júnior; Silva 2002 Controladoria estratégica Peleias 2002 Gestão usando padrões Gientorsky 2002 Controladoria na gestão do conhecimento Padoveze 2003 Controladoria estratégica e operacional Comentários finais 46 2 A MICROEMPRESA E SEU PAPEL ECONÔMICO NA ECONOMIA NACIONAL Aspectos econômicos. 50

8 8 2.2 Aspectos jurídicos e fiscais Estatuto da microempresa e empresa de pequeno porte Simples federal Simples paulista Síntese dos critérios Perfil da microempresa Comentários finais 60 3 UBATUBA: ASPECTOS GEOGRÁFICOS E ECONÔMICOS Breve histórico do município Características geográficas Características econômicas Atividade empresarial Geração de empregos O problema da sazonalidade Comentários finais 75 4 PESQUISA DE CAMPO Procedimentos de pesquisa Definição da amostra Coleta de dados Resultados de pesquisa Perfil do empresário Perfil da empresa Característica do sistema de informação utilizado pela empresa Visão estratégica do empresário Forma de gestão Cálculo de custo e formação de preço Papel do contador Opinião do empresário em relação à Controladoria Comentários finais 92 CONSIDERAÇÕES FINAIS. 94 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 98 ANESXOS 102 Anexo I Questionário 102

9 LISTA DE TABELAS Tabela 2.1 Tabela 3.1 Tabela 3.2 Tabela 3.3 Participação das Microempresas na Economia Brasileira com dados de Área, população e densidade demográfica do Litoral Norte do Estado de São Paulo 64 População de Ubatuba conforme urbanização, sexo e idade no ano de Distribuição das empresas e empregos gerados por atividade no município de Ubatuba no ano de Tabela 3.4 Empregados conforme o porte do empreendimento 68 Tabela 3.5 Número de empregados formais conforme o grau de instrução 69 Tabela 3.6 Empregados conforme a sua remuneração 70 Tabela 3.7 Número de veículos que chegaram às cidades de Ubatuba e Caraguatatuba nos anos de 2000, 2001 e 2002 pelas rodovias de acesso (Tamoios, Osvaldo Cruz e Rio Santos) Tabela 4.1 Faixa Etária 81 Tabela 4.2 Formação Escolar 82 Tabela 4.3 Área de formação do empresário 82 Tabela 4.4 Atividade da empresa 83 Tabela 4.5 Informações mais importantes para o empresário no dia-a-dia 84 Tabela 4.6 Fonte de Informações 85 Tabela 4.7 Sistema de controle 85 Tabela 4.8 Perspectivas para o futuro 86 Tabela 4.9 Alterações necessárias na empresa 87 Tabela 4.10 Dificuldades de gestão 88 Tabela 4.11 Cálculo do custo 89 Tabela 4.12 Formação de preço 90 Tabela 4.13 Demanda por ferramenta de gestão 91 Tabela 4.14 Implantação de Sistema de Informações Gerenciais 91 Tabela 4.15 Demanda por serviços de consultoria 92 73

10 LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 3.1 Gráfico 3.2 Número de veículos envolvidos em acidentes nas rodovias de acesso ao Litoral Norte durante o ano de Consumo mensal de água em m3 no município de Ubatuba no ano de LISTA DE QUADROS Quadro 1.1 Síntese do levantamento bibliográfico 20 Quadro 1.2 Síntese das principais atribuições da Controladoria 47 Quadro 2.1 Síntese dos critérios de classificação de microempresa 58 Quadro 2.2 Características de diferenciação das pequenas empresas 59

11 INTRODUÇÃO A Controladoria constitui uma área das Ciências Contábeis composta por um conjunto de conhecimentos interdisciplinares oriundos da Administração de Empresas, Economia, Informática, Estatística e, principalmente, da própria Contabilidade. Nas organizações representa o segmento responsável por propiciar um processo decisório de qualidade mediante o fornecimento de informações previamente analisadas. A Controladoria é um importante instrumento do processo de gestão cujo objetivo de auxiliar na obtenção de melhores resultados econômicos e financeiros provenientes das diversas ações realizadas dentro das organizacionais de qualquer setor da economia. No entanto, o segmento econômico das microempresas não se beneficia deste tipo de instrumento por motivo de seus custos elevados, estrutura e organização insuficiente da empresa e principalmente formação gerencial inepta de seus administradores. A maioria das microempresas dispõe de serviços de contabilidade terceirizada, que apenas cuidam das obrigações fiscais das empresas e se encontram fisicamente distantes de todas as informações gerenciais. Para Tung (1972, p. 27), não há condições para a existência da Controladoria nas pequenas empresas, já que as diversas funções gerenciais são desempenhadas pela mesma pessoa, o que não ocorre nas empresas médias e grandes, nas quais os cargos são bem delimitados permitindo que uma pessoa possa executar poucas

12 12 funções. Somente neste ambiente a atuação da Controladoria é necessária para a Administração Financeira, pois serve como observadora e controladora dos gestores. Em contraposição, Yoshitake (1984, p. 29) defende que as funções da Controladoria podem ser exercidas tanto nas empresas de grande como de pequeno e médio porte. Em decorrência das dificuldades econômicas inerentes à sua estrutura organizacional, são estas últimas as que mais necessitam dos instrumentos de controle gerencial. Por meio da atividade de Controladoria, muitas decisões, até então tomadas intuitivamente, passam a ser embasadas por análises sistemáticas de possibilidades futuras. No entanto, existem fatores humanos que podem limitar ou até impedir sua aplicação, são eles: comportamento, motivação, fatores psicológicos, cultura, valores éticos e costumes sociais (YOSHITAKE, 1984, p. 15). Geralmente, os pequenos negócios são dirigidos por empreendedores com pouca capacitação gerencial, alguns até com preconceito em relação à consultoria externa e ao uso de qualquer técnica científica de gerenciamento, ou por gerentes de empresas maiores que resolvem abrir seu próprio negócio, mas não são empreendedores (KASSAI, 1997, p. 7). No caso das pequenas empresas familiares, as decisões muitas vezes são tomadas conforme o aprendido com os pais, sem mesmo conhecer e compreender suas causas e efeitos (KASSAI, 1997, p. 8). Conforme registros do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 98% das empresas existentes no Brasil são de micro e pequeno porte. Com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do IBGE e Relação Anual de Informações Sociais do Ministério do Trabalho e Emprego (RAIS/MTE) de 1994, 1995 e 1996, as micro e pequenas empresas mantêm em

13 13 torno de 60% das Pessoas Ocupadas no Brasil, estando incluídos neste cálculo: empregados, empresários de micro e pequenas empresas e os Conta Própria que constituem os negócios próprios sem empregados (SEBRAE, 2003). A Carta Magna Brasileira de 1988, ao definir a Ordem Econômica Financeira, relaciona em seu primeiro capítulo os Princípios Gerais da Atividade Econômica. O Artigo 170 da Constituição Federal, diz que a ordem econômica está fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tendo por fim assegurar a todos uma existência digna, conforme os ditames da justiça social. O Artigo 179 do referido capítulo determina que: A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios dispensarão às microempresas e às empresas de pequeno porte, assim definidas em lei, tratamento jurídico diferenciado, visando a incentivá-las pela simplificação de suas obrigações administrativas, tributárias, previdenciárias e creditícios, ou pela eliminação ou redução destas por meio de lei (CONSTITUIÇÃO FEDERAL, 1988). Sendo assim, estas empresas recebem um tratamento diferenciado por parte dos órgãos públicos e creditícios, visando melhor distribuição de renda e justiça social. Porém, os benefícios fiscais não impedem os altíssimos índices de mortalidade. Fontes do Cadastro Central de Empresas e do IBGE comprovam que, nos anos de 1997 a 2000, a mortalidade das empresas com ocupação de zero a quatro pessoas foi de 20-25%, as com 5-10 pessoas apresentou 7-9% de mortalidade, decrescendo nas várias faixas de pessoal ocupado até chegar a um percentual de 1-3% nas empresas com mais de 500 trabalhadores (SEBRAE, 2003). Percebe-se, portanto, que há problemas graves nas microempresas que se refletem diretamente em sua continuidade, fato este que traz conseqüências sérias nas áreas econômica e social do país.

14 14 Registros colhidos junto ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE e Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas - SEBRAE mostram que o quadro empresarial da cidade de Ubatuba, situada no Litoral Norte do Estado de São Paulo, é característico de uma Estância Balneária, e, como tal, praticamente ausente de empresas industriais, constituído em sua ampla maioria por pequenas empresas comerciais e de prestação de serviços, vinculadas direta ou indiretamente ao turismo. Este vínculo tem, por conseqüência, um comportamento sazonal de vendas. O comércio em geral convive anualmente com grandes variações entre o elevado faturamento nos meses de alta temporada e geralmente com um prejuízo nos meses de maio, junho e agosto, principalmente no caso de empresários que visam apenas o cliente turista. Aqueles que habitam a cidade e presenciam o dia-a-dia de todo ciclo anual são testemunhas de que muitos empresários, principalmente do setor comercial, chegam a fechar suas portas neste período e notam, também, o elevado número de empresas sendo abertas para pouco tempo depois serem encerradas ou abandonadas. Diante deste contexto, formula-se como problema da presente pesquisa a seguinte questão: Quais as características da atividade de controladoria nas microempresas de Ubatuba? Para permitir uma visão mais detalhada do problema de pesquisa, foram elaboradas as seguintes questões auxiliares: Quais as atribuições dadas à Controladoria? Quais informações gerenciais são utilizados no processo decisório das microempresas e como são coletados? O microempresário sente necessidade de aperfeiçoar seu processo de gestão, seja por conta própria ou com o auxílio de

15 15 terceiros? Como hipótese da pesquisa, tem-se que as microempresas em Ubatuba, em sua grande maioria, não fazem uso do potencial de benefícios oferecidos pela Controladoria para o melhor desempenho de seu processo gerencial, seja tanto para o planejamento estratégico e operacional, como para a execução e controle. O alto índice de mortalidade se dá principalmente pela falta de capacitação gerencial, ou seja, a não utilização de informações gerenciais que melhoram a qualidade do processo decisório com o objetivo de eficiência, eficácia e efetiva continuidade das empresas. Os objetivos gerais do trabalho são estudar as atribuições teóricas da Controladoria e a prática do processo de gestão para conhecer a existência dessa atividade nas microempresas da cidade de Ubatuba. Como objetivos específicos, tem-se a realização de uma revisão da bibliografia para relacionar as atribuições teóricas da controladoria e a investigação das microempresas para indagar sobre as informações gerenciais utilizadas e o processo de decisão. O presente trabalho, intitulado Um Estudo Exploratório sobre a Atividade de Controladoria nas Microempresas na Cidade de Ubatuba, desenvolve uma pesquisa sobre o tipo de informações que servem de suporte decisório nas microempresas de Ubatuba. A elaboração da pesquisa se justifica em razão de seus resultados e dos conhecimentos adquiridos que poderão nortear a realização de pesquisas posteriores visando a criação de um modelo de Controladoria que se adapte às condições reais das microempresas.

16 16 As comunidades beneficiadas são as dos profissionais da área e a dos estudantes, visto que o trabalho mostra como de fato ocorre a atividade de Controladoria nas microempresas, fornecendo a esses profissionais a forma de utilização das informações gerenciais no processo decisório. Desta maneira, proporcionaria um maior conhecimento das peculiaridades de seus clientes, facilitando a adequação de possíveis tipos de cursos, assessorias e consultorias. Para os estudantes, permite a comparação entre a teoria ministrada na academia e a realidade das empresas da região. O trabalho é desenvolvido com base no método dedutivo, quanto à pesquisa bibliográfica, pois, partindo do conhecimento amplo, busca verificar sua aplicação em uma situação específica. No que se refere à pesquisa de campo, é indutivo, onde parte da análise de dados de uma amostra representativa de uma população. Com relação à técnica de coleta de dados, emprega-se a pesquisa bibliográfica para o levantamento dos conceitos teóricos necessários, e questionário para a pesquisa de campo. Pode-se caracterizar esta pesquisa como qualitativa com relação aos tipos de dados, cuja fonte é primária para os dados coletados junto às empresas e secundária com relação à conceituação da Controladoria. A pesquisa tem uma finalidade exploratória realizada pelo método monográfico por estudar aspectos particulares, ou seja, as microempresas de Ubatuba. Seu objeto de estudo é restrito e o ambiente de pesquisa é o bibliográfico e de campo com um propósito de pesquisa empírica, por conciliar realidade e teoria. Trata-se de um resumo de assunto por síntese de trabalhos e concomitantemente original, por testar uma região específica.

17 17 O trabalho é composto de introdução, quatro capítulos e as considerações finais. Inicia-se o trabalho buscando no primeiro capítulo uma definição da Controladoria e de suas atribuições. Corresponde a uma revisão dos conceitos e seu desenvolvimento cronológico na literatura especializada brasileira dando uma visão histórica dos anos setenta até a atualidade. No segundo capítulo, o termo Microempresa é abordado, relacionando-o com a legislação competente e descrevendo sua posição na economia nacional. O terceiro capítulo caracteriza o quadro geo-econômico do município de Ubatuba, com ênfase no ambiente empresarial. O último capítulo descreve a realização de uma pesquisa de campo e a análise dos resultados obtidos.

18 1 A CONTROLADORIA E SUAS ATRIBUIÇÕES O objetivo deste capítulo é buscar uma definição para a Controladoria e suas atribuições conforme o seu desenvolvimento histórico na literatura especializada brasileira. Por atribuições, deve-se entender as competências pertencentes a um determinado assunto e expressas sob a forma de funções e características, que revelam a sua atividade e suas obrigações (FERREIRA, 1999). Para atingir o objetivo proposto procedeu-se da seguinte forma: identificação das obras conforme o objeto de estudo, análise da bibliografia quanto aos conceitos, aos objetivos, às características e às funções que cada autor atribui à Controladoria; organização e comparação das informações coletadas em ordem cronológica. 1.1 ORIGEM DA CONTROLADORIA Um levantamento histórico sobre as origens da Controladoria feito por Ricardino Filho (1999, p. 217) encontrou fontes anteriores ao século XV. O termo Controller provém do latim, sendo herdado e modificado pelo idioma inglês. Conforme Michelis (1998), control é traduzido do inglês como: regular; controlar; guiar; força; autoridade; direção; poder; verificação; fiscalização; instalação de controle; comando; alavanca; testar por comparação com padrão. Desde a referida época, as atividades do controller sempre foram de acompanhamento da atividade econômica tanto pública como privada.

19 19 Por volta de 1850, a função da Controladoria aparece nos Estados Unidos inicialmente no setor público, depois extende-se também às empresas privadas como a General Eletric e General Motors nas primeiras décadas do século XX (RICARDINO FILHO, 1999, p. 219). Seu principal objetivo: efetuar um controle centralizado e rígido nas grandes corporações, suas subsidiárias, filiais, departamentos e divisões espalhadas nos Estados Unidos e em outros países (BEUREN, 2002, p. 20). Beuren (2002, p. 20) atribui o desenvolvimento da Controladoria no início do século XX a três fatores: verticalização, a diversificação e a expansão geográfica das organizações, com o conseqüente aumento da complexidade de suas atividades. A função do Controller nasce no Brasil com a instalação das multinacionais norte-americanas, que enviavam profissionais para ensinar as teorias e práticas contábeis e a implementação de um sistema de informações capaz de atender aos diferentes usuários, além de manter o controle operacional das empresas (BEUREN, 2002, p. 20). Cada vez mais, a Controladoria passou a ocupar um lugar mais destacado no mundo dos negócios, especialmente a partir dos anos 60 (RICARDINO FILHO, 1999, p. 223). Em decorrência disto, também a literatura referente ao assunto se desenvolveu. No Brasil, as primeiras obras aparecem nos anos 70. Até os dias de hoje (março de 2003), uma pesquisa identificou dezenove livros específicos que contêm o termo Controladoria em seus títulos, além de cinco obras pertencentes a áreas afins como Sistema de Informações, Contabilidade Gerencial, Contabilidade de Custos e Administração Financeira, que comentam a atividade da Controladoria (MARONI NETO; WAHLMANN; SARRALHEIRO, 2003, p. 2).

20 20 O Quadro 1.1 apresenta as principais referências bibliográficas específicas relacionadas à Controladoria a serem abordadas no itens 1.2 a 1.5, constituídas por dezenove obras literárias e uma palestra ministrada em congresso. Quadro 1.1 Síntese do levantamento bibliográfico ANOS 70 E 80 ANOS 90 Tung (1972) Treuherz (1974) Treuherz; Santos; Silva (1975) Kanitz (1976) Yoshitake (1984) TRABALHOS CONTEMPORÂNEOS Nakagawa (1993) Campiglia; Campiglia (1993) Mosimann; Fisch (1993) Oliveira (1994) Perez Júnior; Pestana; Franco (1995) Marion (1996) Figueiredo; Caggiano (1997) Catelli (1999) Coronado (2001) Schmidt (2002) Oliveira; Perez Júnior; Silva (2002) Brito (2003) Peleias (2002) Padoveze (2003) Gientorsky (2002) Fonte: Adaptado de Maroni Neto, Wahlmann e Sarralheiro (2003, p. 3). 1.2 A CONTROLADORIA NOS ANOS SETENTA E OITENTA O levantamento bibliográfico identificou cinco obras referentes à Controladoria, oriundas dos anos de 1970 a 1989, sendo elas: Tung (1972), Treuherz (1974), Treuherz, Santos e Silva (1975), Kanitz (1976) e Yoshitake (1984). Observa-se que em algumas destas primeiras obras confunde-se o conceito de Controladoria com as características do controller, uma vez que o conhecimento da Controladoria ainda é distribuído em várias ciências. Algumas destas passagens se encontram citadas nos textos analisados a seguir. Seria o mesmo que apresentar a contabilidade como as atribuições do contador. O conhecimento existente na Controladoria é muito mais amplo do que atividade e o caráter daquele que a exerce.

21 21 Constatou-se que as obras de Treuherz, apesar de seus títulos conterem o termo Controladoria e seus conteúdos explicarem algumas ferramentas aplicadas ao tema, não apresentam uma abordagem conceitual. Na obra Controladoria por objetivos: estudo de um caso, o texto de Teuherz é redigido em forma de um diálogo, por meio do qual um diretor financeiro ensina um contador a desenvolver um sistema de apuração de informações extra-contábeis, usando como ferramentas o lucro bruto, a margem de contribuição e os pontos de equilíbrio global e setorial, além de demonstrar alguns modelos de relatórios gerenciais. O termo Controladoria aparece somente no título da obra não havendo conceituação teórica da palavra nem abordagem sobre suas características. Na obra Problemas de controladoria, contabilidade gerencial e finanças, Treuherz, Santos e Silva apresentam uma série de casos aplicáveis como exercícios. Portanto, a presente seção será dedicada apenas às obras dos restantes três autores: Tung, Kanitz e Yoshitake, textos estes que ainda não apresentam enfoque científico e estão embasados nas funções empíricas atribuídas ao Controller na literatura estrangeira da época Tung 1972 A Controladoria no papel do guia e navegador da entidade A obra, Controladoria financeira das empresas, de Nguyen H. Tung, economista, pós-graduado em administração, publicada em 1972, é a única que descreve a Controladoria através da visão de Gestão Financeira e a ela atribui a responsabilidade da aquisição e utilização plena de recursos necessários para que a organização seja eficiente e adaptada ao meio externo.

22 22 Para o autor, a Controladoria é um órgão de staff, instrumento da administração financeira, que aplica métodos próprios, com base em um conjunto de princípios flexíveis aplicados a todas as atividades da organização, desde o inicio do planejamento até o resultado final (TUNG, 1972, p. 27). A Controladoria objetiva o fornecimento de dados e informações para a tomada de decisão da cúpula, pesquisando e planejando, evidenciando os pontos de estrangulamento presentes e futuros, evitando as reduções nas margens de lucro (TUNG, 1972, p. 28). Para elucidar melhor o conceito, o autor Tung apresenta uma comparação entre a tarefa do controller, ou seja, aquele que exerce a Controladoria, com a atividade de navegação. Para Heckert e Willson 1 apud Tung, a tarefa da Controladoria é comparável ao navegador de uma embarcação que mantém informado o comandante quanto à distância percorrida, ao local em que se encontra, à velocidade e à resistência encontrada, aos desvios de rota, aos recifes perigosos e aos caminhos traçados nos mapas, para que o navio chegue ao seu destino em segurança (TUNG, 1972, p. 28). Conforme Tung (1972, p. 46), Para que haja o máximo aproveitamento dos sistemas de planejamento e de controle, é estritamente necessário que as interligações entre os vários grupos sejam definidas e suas responsabilidades e autoridades claramente determinadas. Conforme observado por Maroni Neto, Wahlmann e Sarralheiro (2003, p. 6), nota-se em vários trechos da obra que o autor confunde a conceituação da Controladoria com a descrição das atribuições e funções da pessoa que está no cargo de controller, o que pode ser comprovado nas seguintes passagens: 1 1. HECKERT, J. Brooks; WILLSON, James.D. Controllership. 2. ed. The Ronald Press: New York, 1963, p. 9.

23 23 [...] é tarefa do controller idealizar uma organização econômica que abranja setores de acessoria (TUNG, 1972, p. 47, grifo do autor); [...] as unidades anteriores que focalizaram as funções e os conhecimentos globais sobre a empresa, que o controller precisa possuir para poder desempenhar devidamente suas atividades (TUNG, 1972, p. 49, grifo do autor); [...] não há [...] diferença entre a organização do departamento (sic) do controller e a dos demais departamentos da empresa (TUNG, 1972, p. 83, grifo do autor) Kanitz 1976 Conceito clássico No livro de Stephen Charles Kanitz Controladoria: Teoria e estudo de casos de 1976, o autor traz para o Brasil, por meio de uma revisão na literatura estrangeira, alguns novos conceitos da época, que irão embasar a caracterização da controladoria a partir desta data. Kanitz (1976, p. IX) mostra que, devido ao aumento progressivo de tamanho e complexidade das empresas, a contabilidade, como instrumento para fornecer as informações necessárias aos administradores, [...] está evoluindo para um sistema chamado de Controladoria, cuja função é de avaliar o desempenho das diversas divisões da empresa fazendo parte dos Management Control Systems (sistemas de controle gerencial). A Controladoria é um órgão Administrativo diretamente subordinado à presidência, que necessita para seu bom desempenho dos conhecimentos de várias áreas diferentes tais como Contabilidade, Administração, Economia, Psicologia, Estatística. Matemática, Informática e outras relacionadas com o ramo de atividade da empresa. Conhecimentos estes que não só consideram dados quantitativos, mas também qualitativos (KANITZ, 1976, p. 6). Para o autor, O controller [...] a rigor não controla, mas presta assessoria na tarefa de controlar a empresa [...] o controlador, para poder desempenhar bem o seu

24 24 papel, deve se manter neutro, evitando aplicar as medidas corretivas, que emanam de seu departamento, ou seja, consiste em um órgão de staff (KANITZ, 1976, p. 8). É função de um sistema de controle zelar para que as coisas corram bem em termos de resultados finais, não como forma de poder autocrático, mas sim corresponde a mais um instrumento de administração que a crescente complexidade das empresas exige em troca de um bom desempenho. De acordo com o modelo descentralizado, delega-se poderes de decisão aos diferentes departamentos [...] em troca do direito de ser informado periodicamente, de criticar as decisões tomadas e de estabelecer alguns parâmetros para decisões futuras, [...] esse tipo de controle permite uma administração aberta, mais próxima dos problemas da empresa, e, ainda mais, valoriza os elementos humanos que nela trabalham (KANITZ, 1976, p. 2). O autor aborda a problemática de se criar um sistema eficaz de avaliação de desempenho dos administradores de um lado, e de outro, uma forma de avaliar o desempenho da organização sob o comando dos mesmos (eficiência e viabilidade organizacional) (KANITZ, 1976, p. 23). As empresas são consideradas sistemas abertos, isto é, sofrem influências das variáveis do seu ambiente externo como, por exemplo, as políticas econômicas, tecnologia, concorrência, clientes e fornecedores. Ao elaborar o sistema de informação, deve-se considerar o custo da informação selecionando-se apenas as relevantes e necessárias, evitando falta ou desperdício de maneira a compor um conjunto de informações quantitativamente suficientes e qualitativamente certas (KANITZ, 1976, p. 16, grifo nosso). Outro conceito fundamental, colocado por Kanitz (1976, p ), é a visão de centro de lucro no lugar de centro de custos como critério de avaliação das

25 25 subdivisões da empresa (departamentos ou setores), sendo este, um dos pontos, que transformam a gestão financeira em gestão econômica (grifo nosso). O controle, segundo Kanitz (1976, p. 2-6), é composto de três fases: a) Informação - enviar dados da unidade controlada para a unidade controladora. b) Análise comparar e interpretar resultados. c) Comunicação - transmitir o resultado da avaliação à unidade controlada. Kanitz relaciona seis principais atividades da Controladoria e diz: [...] a função básica do controlador consiste em dirigir, e na maioria dos casos, implantar os sistemas a seguir relacionados (1976, p. 6-8, grifo nosso): a) Informação constituído pelos sistemas contábeis e financeiros da entidade. b) Motivação influência sobre o comportamento dos componentes da empresa e previsão dos impactos nos mesmos quando da implantação de determinados sistemas de controle. c) Coordenação identificação precoce de eventuais problemas para alertar a administração e sugestões corretivas. d) Avaliação interpretação dos fatos através dos resultados por centro de resultado, por área de responsabilidade e desempenho gerencial. e) Planejamento avaliar o passado para planejar o futuro, fazendo análises comparativas entre a situação projetada e a atual, verificando a viabilidade dos planos e a possibilidade de servirem de base para futuras avaliações. f) Acompanhamento - verificação contínua da realização dos planos traçados e correção de eventuais desvios.

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