INTRODUÇÃO. acesso em 05/10/2007. Idem. Idem.

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1 INTRODUÇÃO No ano passado, uma polêmica envolvendo um dos apresentadores do jornal de maior audiência da TV brasileira teve grande repercussão em sites e blogs do país. O editor-chefe e apresentador do Jornal Nacional, William Bonner, durante visita de professores de Comunicação à redação do jornal, mencionou uma pesquisa realizada pela Rede Globo, que identificou o perfil do telespectador médio do telejornal. Segundo a pesquisa, esse telespectador tem dificuldades para entender notícias complexas e pouca familiaridade com siglas como BNDES, por exemplo. Em função disso, foi apelidado, por Bonner, de Homer Simpson, personagem dos Simpsons, uma das séries dos EUA de maior sucesso na televisão, em todo o mundo. Pai da família Simpson, Homer adora ficar no sofá, comendo rosquinhas e bebendo cerveja. É preguiçoso e tem o raciocínio lento. De acordo com a apresentadora e editora-chefe do Jornal Hoje, Sandra Annenberg, o público do jornal das 13h15m, horário do almoço, é bem eclético, vai desde criancinhas até aposentados, passando por donas de casa, mulheres ativas, que trabalham fora, executivos, pessoas que estão em um bandejão almoçando 1. O Bom Dia Brasil é muito amplo tem todas as informações da madrugada, mas tem formato de revista e tratamento diferente porque começa o dia do telespectador 2, diz o editor-chefe e apresentador Renato Machado. O Jornal da Globo é o último do dia. Antes de sair da TV Globo, Ana Paula Padrão, responsável pelo telejornal, apontava que: temos por obrigação não só dar a notícia, mas dar a notícia mastigada, com análise, com furo, com reportagem especial, exclusiva, com muita informação 3. É nesse contexto de produção, distribuição e consumo de notícias que tal trabalho se desenvolverá. Segundo Marshall apud Carvalho (2006), a mídia jornalística inserida na indústria cultural e mercantilista passa a tratar a notícia não só como uma potência de conhecimentos e informação, mas também, e principalmente, como um produto de consumo, que deve ser aceito pelo público telespectador e pelos anunciantes publicitários. Este teórico define a mídia jornalística como produtora de um tipo de jornalismo transgênico, isto é, que 1 <http://globoreporter.globo.com/globoreporter/0,19125,vgc ,00.html> acesso em 05/10/ Idem. 3 Idem. 1

2 se modifica em função das leis de mercado, das novas tecnologias e do poderio econômico. E pode-se dizer, também, do público. A capacidade de integrar e articular vários gêneros discursivos espalhados pelos diversos tipos de programas oferecidos faz da TV o principal veículo de comunicação de massa do país. A alternância desses gêneros ocorre de tal forma que, para muitos telespectadores, é difícil identificar os limites entre realidade e ficção. O fim da barreira entre o real e o imaginário, que atinge toda a programação, inclusive as produções telejornalísticas, vai ocasionar a espetacularização. Com isso, a ordem é entreter e divertir para conquistar audiências cada vez maiores e, conseqüentemente, faturamento. Diante de tal realidade é estabelecido o foco de estudo desta pesquisa: a mídia jornalística televisiva, visto que nela ocorre o entrecruzamento de diversos gêneros discursivos, discursos e vozes, que se articulam de acordo com o público de cada telejornal. Para isso, desenvolveremos, no capítulo 1, o referencial teórico. Em um primeiro momento, será abordada a história do telejornalismo no Brasil, a fim de que se possa entender como os telejornais do país foram estruturando-se e modificando-se através do tempo. Logo em seguida, será realizado um levantamento histórico acerca da emissora responsável por veicular os telejornais analisados: a Rede Globo. Em um terceiro momento, a intenção é tentar desvendar os processos de produção das notícias através da história dos quatro principais telejornais da emissora: Bom Dia Brasil (BDB), Jornal Hoje (JH), Jornal Nacional (JN) e Jornal da Globo (JG). No capítulo 2, a intenção é discorrer acerca da Análise de Discurso Crítica, bem como dos estudos discursivos críticos desenvolvidos por Norman Fairclough (1989). O projeto de Fairclough (1989) investiga a importância da linguagem na vida social como mecanismo para sustentar e/ou transformar as relações de poder existentes. O seu foco são as práticas sociais e discursivas, que servirão de base para a busca da desnaturalização de ações ditas universais e naturais, introduzidas nas relações de dominância. Inserida na nova ordem socioeconômica, com uma linguagem peculiar, encontra-se o objeto de nosso estudo: a mídia telejornalística. No capítulo 3 será exposta a metodologia empregada, que se desenvolverá por meio de uma pesquisa qualitativa, descritiva, e explicativa. O corpus será delimitado: serão analisados o BDB, o JH, o JN e o JG do dia 04 de setembro de 2007, apenas. A base da metodologia utilizada vai se configurar no quadro tridimensional de análise desenvolvido por Norman Fairclough (1992), no qual três dimensões analíticas se inter-relacionam: o texto, a prática discursiva e a prática social. A proposta, então, será desenvolvida seguindo as três categorias trabalhadas nos estudos discursivos críticos, que se complementam: a descrição, a 2

3 interpretação e a explicação. No último capítulo, desenvolveremos a análise dos dados levantados na pesquisa. A princípio será feita uma análise geral das reportagens dos quatro principais telejornais da Rede Globo, de acordo com o tema e a duração. Logo em seguida, a análise se concentrará nas reportagens que mais se repetem no BDB, JH, JN e JG. Por último, a atenção é dada a algumas matérias que não se repetem nos jornais pesquisados de acordo com a editoria e o tempo de duração de cada uma. Pretende-se assim, através dos estudos discursivos críticos, analisar os quatro principais telejornais da Rede Globo: Bom Dia Brasil, Jornal Hoje, Jornal Nacional e Jornal da Globo. 3

4 CAPÍTULO 1: REFERENCIAL TEÓRICO 1.1 História do Telejornalismo no Brasil No dia 18 de setembro de 1950 chegava ao Brasil a TV Tupi, canal 6 de São Paulo, primeira estação de TV do país. Dois dias depois, ia ao ar o seu primeiro telejornal: Imagens do Dia. Com locução em off, um texto em estilo radiofônico, pois o rádio era o modelo que se tinha na época. Entrava no ar entre as nove e meia e dez da noite, sem qualquer preocupação com a pontualidade. O formato era simples: Rui Resende era o locutor, produtor e redator das notícias, e algumas notas tinham imagens feitas em filme preto e branco, sem som. (PATERNOSTRO, 1999: 35). Na década de 50, o Brasil passava por importante processo de desenvolvimento econômico, social e político. A indústria nacional crescia intensamente, os centros urbanos se transformavam com atividades comerciais, financeiras, de serviços e de educação. Na política, Getúlio Vargas assumia a presidência, substituindo o general Eurico Gaspar Dutra. O ambiente era favorável ao desenvolvimento da TV e, conseqüentemente, à consolidação do telejornalismo brasileiro. Em janeiro de 1952, outro noticiário é criado pela TV Tupi: o Telenotícias Panair. No mesmo ano, na Tupi do Rio, surge o telejornal considerado o mais importante da década de 50: o Repórter Esso. Apresentado por Gontijo Teodoro, o jornal era feito de notícias nacionais e internacionais. Em 1953, ele começou a ser transmitido, também, pela TV Tupi de São Paulo. A precariedade na produção dos telejornais era grande, uma vez que tecnologias ligadas à TV mal chegavam ao país, e a inexperiência dos primeiros profissionais procedentes do rádio era comum. Segundo Rezende (2000), os jornais eram feitos basicamente de notícias direto do estúdio, devido às dificuldades em se fazer coberturas externas. Em termos visuais, todos eram semelhantes: cortina de fundo, uma mesa e uma cartela com o nome do patrocinador. O Repórter Esso assimilava com propriedade as características marcantes dessa fase: [...] a herança radiofônica e a subordinação total dos programas aos interesses e estratégias dos patrocinadores (PRIOLLI apud REZENDE, 2000: 106). 4

5 Na década de 60, a TV se consolida no Brasil, e o telejornalismo começa a avançar. Além da chegada do videoteipe, como recurso para registrar a inauguração de Brasília, segundo Lima apud Rezende (2000), começa uma fase de criatividade e expansão intelectual. A TV assume seu caráter comercial, e a disputa pelas verbas publicitárias dá início a uma briga pela audiência, presente até hoje. Em 1962, a TV Excelsior passa a exibir o Jornal de Vanguarda, que traz jornalistas como produtores e cronistas, como Villas-Bôas Correia, Millor Fernandes e Stanislaw Ponte Preta, para apresentar as notícias. Para complementar, trazia locutores como Luís Jatobá e Cid Moreira. A origem dos que trabalhavam nos telejornais começa a mudar. No Jornal de Vanguarda, grande parte desses novos profissionais vinha, agora, não mais do rádio, mas sim dos jornais impressos. A qualidade jornalística desse noticiário causou um impacto enorme pela originalidade de sua estrutura e forma de apresentação distinta de todos os demais informativos [...] (REZENDE, 2000: 107). O Golpe Militar de 1964 põe fim à fase de expansão do telejornalismo. Após o Ato Institucional n 5 4, o Jornal de Vanguarda é extinto pela própria equipe. Os telejornais brasileiros passam a adotar o modelo norte-americano e dispensa-se a participação de jornalistas como apresentadores. Os noticiários voltam a ser conduzidos exclusivamente pelos locutores. Os avanços técnicos videoteipe, câmeras de estúdio mais ágeis, a lente zoom em substituição à torre de lentes (REZENDE, 2000: 108) e a mudança na linguagem atingiam principalmente as produções de entretenimento (novelas e shows de auditório). O telejornalismo e a produção das notícias permaneciam engessados devido às interferências políticas e à falta de estilo próprio. No entanto, em 1969/70, dois fatos vão dar início a uma nova fase no telejornalismo brasileiro: a criação do Jornal Nacional (JN), da Rede Globo, e o fim do Repórter Esso. Nessa mesma época, surge a Embratel Empresa Brasileira de Telecomunicações. A Embratel interliga o Brasil através de linhas básicas de microondas rotas e adere ao consórcio internacional para utilização de satélites de telecomunicações o Intelsat. Estava criada, então, a estrutura para as redes nacionais de televisão (PATERNOSTRO, 1999: 31). No dia 1 de setembro de 1969, às 19h56m, entrava no ar o Jornal Nacional, produzido no Rio de Janeiro e transmitido simultaneamente, ao vivo, para São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre e Brasília. O JN torna-se o primeiro noticiário em rede 4 O Ato Institucional nº 5 (AI-5) foi decretado pelo presidente Artur da Costa e Silva no dia 13 de dezembro de O AI-5 foi um instrumento de poder que deu ao regime militar poderes absolutos, fechando o Congresso Nacional por quase um ano. 5

6 nacional da TV brasileira. O objetivo do telejornal de integrar os 56 milhões de brasileiros da época, na verdade, escondiam interesses políticos e mercadológicos. Além de possuir um noticiário que lhe desse prestígio, a TV Globo queria competir com o Repórter Esso, da TV Tupi (REZENDE, 2000: 109). O Jornal Nacional nascia como o exemplo do progresso tecnológico nas comunicações e como um novo modelo de se fazer telejornalismo, com planejamento e produção rigorosos. Segundo Paternostro (1999), ele foi o primeiro a apresentar reportagens em cores e internacionais via satélite no instante em que os fatos ocorriam. Para manter o nível do noticiário na altura do avanço eletrônico que possibilita a formação da grande cadeia, as notícias e comentários serão escritos por redatores selecionados e não será permitida a improvisação [...] (VEJA apud REZENDE, 2000: 110). A linguagem, a narrativa, o formato e a figura do repórter de vídeo seguiam os padrões dos telejornais norte-americanos. No entanto, uma crítica perseguiria o Jornal Nacional e a TV Globo por anos: a afinidade ideológica com o Regime Militar. Na continuidade do noticiário, revelava-se também, sem subterfúgios, a verdadeira face de quem exercia o poder no país. O primeiro videoteipe na estréia do Jornal Nacional exibiu o então ministro da Fazenda, Delfim Neto, transmitindo uma mensagem de otimismo, após sair de uma reunião com a Junta Militar. Logo no seu nascimento, ficava claro que a originalidade do Jornal Nacional residiria apenas na qualidade técnica, uma vez que o conteúdo estava sacrificado pela interferência da censura. (REZENDE, 2000: 110). Enquanto o JN começava a ganhar espaço, importância e, principalmente, audiência entre os telejornais do horário nobre, o Repórter Esso, com 17 anos de tradição, encerrava suas atividades no dia 31 de dezembro de O apresentador Gontijo Teodoro, assim como os slogans o primeiro a dar as últimas e testemunha ocular da história passavam, a partir desse dia, a fazer parte da memória do telejornalismo brasileiro, colocando fim a um modelo dominante na área, baseado no rádio e subordinado aos interesses dos patrocinadores. Ainda em 1970, a TV Bandeirantes, de São Paulo, cria o jornal Titulares da Notícia. A TV Tupi, tentando recuperar seu telejornalismo após o fim do Repórter Esso, leva ao ar o Rede Nacional de Notícias, transmitido ao vivo para várias capitais do país. Porém, é o telejornal A Hora da Notícia, da TV Cultura de São Paulo, uma emissora pública, que vai trazer um novo jeito de se fazer telejornalismo no Brasil. O noticiário da TV Cultura dava prioridade aos problemas das comunidades ao preferir o depoimento popular. Com ele, o telespectador começou a ganhar importância na TV, mas esse novo jornalismo não combinava com a velha política brasileira imposta pelos militares. 6

7 Mas os tempos não eram fáceis. As razões que levaram o programa à liderança de audiência, a prioridade ao depoimento popular, não se coadunavam com os interesses políticos dominantes no país. Tanto que em sua gestão como diretor do departamento de jornalismo da TV Cultura, substituindo Fernando Pacheco Jordão a partir de 1974, Wladmir Herzog praticou seus ideais de jornalismo por muito pouco tempo e assim mesmo teve de pagar com a própria vida, no ano seguinte, vítima da intolerância política. (REZENDE, 2000: 112) No final dos anos 70 a TV Bandeirantes reformula o telejornalístico Os Titulares da Notícia, que passa, também, a dar voz ao telespectador popular e inova ao valorizar o trabalho do repórter, que deixa de ser apenas um locutor responsável por narrar as informações e começa a fazer parte diretamente da cobertura dos acontecimentos. Requisitos como aparência e voz bonita eram suprimidos pela importante tarefa de divulgar as notícias. A década de 70 vai marcar, também, pelo desenvolvimento e apuro técnicos. A Rede Globo é a que mais se aproveita disso e se desenvolve nessa época. O aperfeiçoamento da qualidade das produções, o apuro formal e o planejamento primoroso não ficavam restritos ao telejornalismo da emissora, mas sim, estendiam-se a toda sua programação. O chamado padrão Globo de qualidade é criado e passa a influenciar a TV brasileira. Claro que não foi a Globo que criou o telejornalismo, mas foi ela que eliminou o improviso, impôs uma duração rígida no noticiário, copidescou não só o texto como a entonação e o visual dos locutores, montou um cenário adequado, deu ritmo à notícia, articulando com excelente timing texto e imagem (pode ser que você não se lembre, mas com a Globo começamos a assistir a esta coisa quase impossível: os programas entrarem no ar na hora certa). (PIGNATARI apud REZENDE, 2000: ) Em 1973 é criado o Fantástico o Show da Vida, um programa que mistura jornalismo e entretenimento que muda a programação das noites de domingo. Paralelamente, os cuidados com o telejornalismo da TV Globo se intensificam, principalmente com o Jornal Nacional, demonstrando uma preocupação excessiva com a forma, mas nem tanto com o conteúdo. Para o então diretor-geral da emissora, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, boa aparência, voz firme e timbre bonito eram características que deveriam ser consideradas importantes para atrair o público feminino das telenovelas e evitar que na passagem da novela para o Jornal Nacional essa grande faixa de audiência mudasse de canal (REZENDE, 2000: 114). Seguindo essa linha de prioridades, Cid Moreira, profissional que havia se destacado no Jornal de Vanguarda, é escolhido para apresentar o JN e passa a ser o símbolo da filosofia do programa. (...) a presença diária de Cid é um exemplo raro de neutralidade no 7

8 sentido de constância, homogeneidade e monotonia (i.e., um único tom, sempre o mesmo) que ele imprime a qualquer notícia (REZENDE, 2000: 114). Ao lado de nomes como Sérgio Chapelin, Marcos Hummel, Celso Freitas, Carlos Campbel e de todos os repórteres da casa, Cid Moreira se encaixava em um modelo que pretendia passar a imagem de objetividade e isenção na divulgação dos fatos para, assim, conquistar credibilidade. Todos os locutores do Jornal Nacional tinham seu estilo próprio que se encaixava no padrão global. Conciliavam suas apresentações com a rigidez do cenário e um abundante uso de videoteipes e efeitos especiais (REZENDE, 2000: 115). Segundo Lins da Silva apud Rezende (2000), o objetivo era construir um modelo de apresentação que fosse requintado e frio, pretensamente objetivo. Na TV Globo, entretanto, a excessiva preocupação formal não se estendia ao conteúdo. A mordaça imposta pela Ditadura Militar, associada à despolitização e à vontade em não querer se indispor com os militares, acabou afastando a emissora da realidade brasileira. Os telejornais da Globo se mantiveram distantes dos grandes fatos políticos nacionais, levados aos jornais mesmo na época da rigorosa censura do governo Médici. Sobre política, a televisão foi omissa ou, como querem os produtores de seus noticiários, obrigada a ficar omissa, reservando os seus horários mais nobres para a lacrimonisidade das telenovelas e o riso non sense de seus shows milionários. (MAIA apud REZENDE, 2000: 115). O conteúdo permanecia pobre, também, devido à superficialidade no trato das notícias. A preocupação do Jornal Nacional era com a agilidade e com o perfil da audiência do programa. Parece ser importante dar ao telespectador que volta para casa depois de um dia inteiro de trabalho, um panorama breve do que aconteceu de mais significativo naquele dia [...] Este resultado é obtido transmitindo-se somente miniflashes das notícias selecionadas que para serem transmitidas devem obedecer a rigorosos critérios de clareza, rapidez e possibilidade de fácil absorção, de modo que se dê ao telespectador a ilusão de que foi bem informado.... (PEREIRA & MIRANDA apud REZENDE, 2000: 116) No início dos anos 80, com a anistia e a distensão política dos militares, a TV Tupi transforma o programa semanal Abertura em um espaço aberto às intervenções dos exilados que voltam ao Brasil, e também do cinegrafista Gláuber Rocha. Mas, com a falência e, conseqüentemente, com o fim das transmissões da Tupi, em agosto de 1980, o programa termina. Nesse mesmo mês, a Bandeirantes cria o Canal Livre, que seguia a linha do extinto Abertura, entrevistando personalidades que antes não tinham acesso à televisão. Mas nada disso ameaçava a supremacia do telejornalismo da Globo. Segundo Rezende 8

9 (2000), a estratégia de colocar o Jornal Nacional entre as novelas das sete e das oito programas de maior audiência da TV só aumentou a popularidade do telejornal. Em 1979, o JN alcançava a prodigiosa marca de 79,9% da audiência nacional, o que correspondia a mil televisores e mil telespectadores ligados no noticiário. (ÁVILA apud REZENDE, 2000: 117). Cada vez mais a emissora carioca investia em jornalismo, visto que essa área representava uma importante fonte de renda devido à publicidade. Telejornais como o Jornal Hoje, na hora do almoço, o Jornal da Globo, no fim da noite, (que antes recebeu nomes como Amanhã e Painel), e o Bom Dia São Paulo, no início da manhã, que seria o embrião para o Bom Dia Brasil, foram criados reforçando o departamento de jornalismo da Globo e, conseqüentemente, o departamento comercial. Ainda nos anos 70, a emissora cria o Globo Repórter, com linguagem de documentário e profundidade na abordagem de temas específicos; o Globo Rural, voltado para o homem do campo, com notícias agrícolas, dicas rurais, cotações agropecuárias e previsão do tempo; e o TV Mulher, programa feminino que tratava de temas que não se viam abertamente na TV: comportamento sexual, direitos e saúde da mulher. Teve entre seus apresentadores Marília Gabriela, Ney Gonçalves Dias, Ala Szerman, Marta Suplicy e Clodovil Hernandez, e apresentava compactos das telenovelas. Na década de 1980, vários programas de entrevistas e debates, seguindo a linha jornalística, surgem: Vox Populi, da TV Cultura, Encontro com a Imprensa, da Bandeirantes, Diário Nacional, da TV Record e Globo em Revista, da Rede Globo, este que durou pouco tempo. Em 1981, a Bandeirantes abre espaço na sua programação para uma série de programas jornalísticos. Toda essa revolução no modo de se fazer telejornalismo teve sucesso, em grande parte, devido ao sistema de redes consolidado nas décadas de 70 e 80. As emissoras criam a programação nacional a mesma programação da emissora-sede, na mesma faixa de horário, para todas as outras que pertencem à sua rede. Esse sistema suprimiu muitas emissoras regionais, beneficiando a programação realizada pelas grandes redes no Rio de Janeiro e em São Paulo e ditando uma óptica carioca e paulista para todo território nacional. Mas esse era, enfim, o resultado da política de integração nacional pela televisão programado pelo governo militar, em associação com a burguesia nacional e o capital estrangeiro. Conseguia-se a unidade nacional pelas telenovelas e noticiários, ao mesmo tempo que a uniformidade cultural pouco a pouco afetava as manifestações regionais. (REZENDE, 2000: 119). 9

10 Com o começo da distensão política no governo do general Geisel, entre 1977 e 1979, e a partir do governo do presidente João Baptista Figueiredo, o jornalismo brasileiro, principalmente aquele praticado pela Globo, passa a ter que lutar com a censura interna, ou seja, com a autosencura de profissionais e empresas que não estavam acostumados com a liberdade jornalística. A TV Globo, já especialista na técnica, precisava conquistar qualidade também no conteúdo. Para Armando Nogueira apud Rezende (2000), então diretor da Central Globo de Telejornalismo (CGJ), o conteúdo era suprimido, devido à marcação da ditadura, em função de uma preocupação com a técnica e a estética dos noticiários. Os jornalistas voltaram a ocupar uma posição de destaque nos telejornais. Repórteres como Sérgio Mota Melo, Carlos Monforte, Glória Maria, Antônio Brito e Belisa Ribeiro ganharam destaque no vídeo. A participação de comentaristas especializados Paulo Francis, Marco Antônio Rocha, Newton Carlos, Enio Pesce, Joelmir Beting enriquecia os noticiários com análises e entrevistas. Locutores consagrados como Cid Moreira e Sérgio Chapelin passaram a dividir a responsabilidade na apresentação dos jornais com jornalistas como Celso Freitas, Leda Nagle e Marília Gabriela. Em 1980, com a concorrência pública para venda dos canais da TV Tupi cassada pelo governo devido a problemas financeiros duas novas redes de televisão se formaram: o Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), do empresário, radialista e já conhecido apresentador da TV, Sílvio Santos; e a Rede Manchete, do grupo Bloch. Segundo Casoy apud Rezende (2000) o objetivo dos militares com as novas concessões era diminuir o poder político exercido pela Globo. A Rede Manchete traz idéias novas e audaciosas no telejornalismo e abre espaço para as produções independentes. O Jornal da Manchete é criado e prioriza o comentário e a análise dos fatos no horário nobre. O jornal consegue bons índices de audiência mesmo concorrendo com um dos maiores fenômenos de público da TV brasileira: a novela Roque Santeiro, da Globo. Em 1983, a nova emissora lança o Conexão Internacional, programa de entrevistas da produtora independente Intervídeo, comandado pelo apresentador Roberto D Ávila, com direção de Walter Salles Júnior. Em setembro de 1988, o SBT levava ao ar o Telejornal Brasil (TJ Brasil), primeiro noticiário brasileiro que traz a figura do âncora o jornalista que dirige, apresenta e comenta as notícias do jornal (PATERNOSTRO, 1999: 37) modelo importado dos telejornais norteamericanos. O jornalista Bóris Casoy, já consagrado no jornalismo impresso havia sido editor-chefe da Folha de São Paulo torna-se apresentador e editor-chefe do TJ Brasil e 10

11 imprime sua marca fazendo entrevistas e emitindo comentários pessoais sobre os fatos noticiados. O SBT era, até então, considerado incapaz de produzir jornalismo de qualidade. Ao longo da década de 1980, vários telejornais foram criados sem sucesso: Cidade 4, 24 Horas, Noticentro, Últimas Notícias. Segundo Rezende (2000), além da cumplicidade de Sílvio Santos com o poder dominante o SBT mantinha um quadro com o resumo da semana do presidente havia um descomprometimento com a informação e a crítica explícito em uma entrevista à revista Imprensa: [...] meu jornalismo vai ser imparcial, vai só elogiar, e não vejo razão para alguém ficar aborrecido comigo por só receber elogios [...] É para descobrir no ser humano as qualidades que ele tem. Quando não houver possibilidades de apontar essas qualidades, ou apontar as suas obras, suas realizações, nós vamos apenas dar a notícia. (SQUIRRA apud REZENDE, 2000: 126). O TJ Brasil surge em uma época em que o SBT se torna vice-líder de audiência da TV brasileira e faz parte de um projeto cujo objetivo era atrair os formadores de opinião e mudar a imagem do canal, considerado essencialmente popular. A presença de Bóris Casoy como âncora ajuda na conquista de credibilidade e faz com que o jornal anule a deficiência de recursos técnicos da emissora, além de levar os outros canais a reformular o formato de seus telejornais. A figura do âncora começa a fazer parte de vários telejornais. Em agosto de 1988, o ex-repórter Carlos Nascimento assume esse papel e passa a comandar uma equipe dividida em editorias de economia, política, internacional e geral à frente do Jornal da Cultura, da TV Cultura de São Paulo. No Jornal da Bandeirantes quem exerce esse papel é a jornalista Marília Gabriela, que já havia se consagrado pelo programa de entrevistas Cara a Cara. Para não ficar de fora das mudanças e também não fugir do padrão supostamente criado e consagrado pela audiência, o Jornal Nacional insere regularmente no seu noticiário, no início de 1989, análises sobre determinados assuntos com a participação de comentaristas especializados, como Paulo Henrique Amorim, Joelmir Beting, Lillian Witte Fibe, Alexandre Garcia e Paulo Francis. Eles contextualizavam e explicavam para os telespectadores, numa linguagem simples, as informações políticas e econômicas. (MEMÓRIA GLOBO, 2004: 188). Mas nem por isso a TV Globo deixa de ser criticada por sua posição extremamente governista. O JN é considerado uma extensão do Diário Oficial, que assume não apenas o noticiário acrítico como até uma euforia a favor do governo. (DIMENSTEIN apud 11

12 REZENDE, 2000: 128). Paralelamente às constantes mudanças que ocorriam no telejornalismo brasileiro na década de 80, o país passava também por transformações políticas. A campanha das Diretas já, conduzida por uma frente pluripartidária, reivindicava o voto direto para presidente da República e lutava por um governo civil depois de mais de vinte anos de Regime Militar. Porém, as emissoras de televisão, com destaque para a TV Globo, preferiram o silêncio da não cobertura do movimento ao clamor das multidões que lotavam as praças das grandes capitais brasileiras. (MELO apud REZENDE, 2000: 124). Segundo Rezende (2000), o primeiro grande comício das diretas realizado na Praça da Sé, em São Paulo, no dia 25 de janeiro de 1984, espelhou muito bem o boicote das emissoras ao evento. A TV Cultura era a única a realizar a cobertura direta do comício. Enquanto isso, a Rede Globo deu a notícia no Jornal Nacional referindo-se à manifestação como se ela fizesse parte das comemorações dos 430ª aniversário da capital paulista e não tivesse conotação política. No livro comemorativo dos 35 anos do Jornal Nacional, a Globo contesta afirmações desse tipo dizendo que o repórter responsável pela cobertura fala sobre o objetivo do evento. A emissora afirma que o mal entendido teria sido provocado devido a chamada lida pelo apresentador do JN: A origem da confusão foi a escalada do Jornal Nacional. Nela, não há referência ao comício, mas apenas ao aniversário da cidade. A cidade de São Paulo festeja os 430 anos de fundação. A chamada da matéria, lida pelo apresentador Marcos Hummel, referia-se ao comício como um dos eventos comemorativos do aniversário da capital paulista. De fato, havia a relação entre a manifestação e o aniversário da cidade. O comício tinha sido marcado para o dia 25 de janeiro justamente porque, sendo aniversário da cidade, a participação popular seria facilitada. O locutor leu a chamada: Festa em São Paulo. A cidade comemorou seus 430 anos com mais de 500 solenidades. A maior foi um comício na praça da Sé. E, em seguida, a reportagem de Ernesto Paglia relatou com todas as letras o objetivo político do evento: pedir eleições diretas para presidente da República. (MEMÓRIA GLOBO, 2004: 157). A questão é que as manifestações populares associadas às mobilizações dos próprios jornalistas e às pressões dos artistas vinculados à emissora carioca fizeram com que, não só a Globo, mas todas as outras redes de TV mudassem de postura com relação à Campanha das Diretas. Além disso, a não cobertura de um fato como esse poderia ocasionar a perda de audiência e de faturamento por parte dos canais. Foi nessa época também que o jornalismo brasileiro se vê amordaçado novamente pela censura. Na véspera da votação da emenda Dante de Oliveira, que tratava do restabelecimento 12

13 de eleições diretas para presidente da República, o general João Baptista Figueiredo decretou a adoção de medidas de emergência 5 no Distrito Federal e em dez municípios de Goiás. Foi determinada a censura prévia às emissoras de rádio e televisão, sendo proibida a transmissão ao vivo de qualquer informação sobre as medidas de emergência e sobre a votação da emenda à Constituição. O governo argumentava que era sua responsabilidade manter a ordem e a soberania do Congresso Nacional para que este pudesse decidir livremente. (MEMÓRIA GLOBO, 2004: 162). Após a não aprovação da emenda Dante de Oliveira, era a vez, agora, de as emissoras cobrirem o apoio popular à candidatura de Tancredo Neves na eleição indireta para presidente, via Colégio Eleitoral 6. A festa da vitória de Tancredo Neves e, principalmente, as notícias sobre seu falecimento foram consideradas uma das maiores coberturas jornalísticas dessa fase da TV: A festa da vitória de Tancredo celebrada pelas câmeras de TV durou pouco. Um dia antes da posse, Tancredo adoeceu e nos 37 dias de agonia até sua morte, dia 21 de abril, a TV brasileira realizou talvez a mais intensa e extensa cobertura jornalística de sua história, com vários plantões ao vivo. A democracia voltava ao vídeo como espetáculo de festa, dor e esperança. (REZENDE, 2000: 125) Em 1989, outro acontecimento vai marcar a história do telejornalismo no Brasil: a primeira campanha presidencial depois de 29 anos sem eleição direta para presidente. A repercussão da montagem que o Jornal Nacional exibiu do último debate entre os candidatos à presidência da República, Luís Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), e Fernando Collor de Mello, do Partido da Renovação Nacional (PRN), vai provocar mudanças no jornalismo da Rede Globo. Segundo o livro comemorativo dos 35 anos do Jornal Nacional (2004), a Globo apresentou duas edições do último debate, no dia seguinte à sua realização: uma no Jornal Hoje e outra no Jornal Nacional. O resumo do JN provocou grande polêmica. A Globo favoreceu o candidato do PRN tanto na seleção dos momentos como no tempo dado a cada candidato, já que Collor teve um minuto e meio a mais do que Lula. Esse episódio é relatado por Armando Nogueira, então diretor geral de telejornalismo da emissora, como um caso de ingerência política de setores ligados à candidatura Collor na Globo e, também, como um 5 As medidas incluíam a possibilidade de detenção de cidadãos em edifícios comuns, suspensão da liberdade de reunião e associação, além de intervenção em sindicatos e outras entidades de classe. 6 Instituição criada pelo Regime Militar, composta por deputados federais e senadores, que tinha como função selecionar o presidente da República. 13

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