RODA DE CONVERSA SOBRE PROFISSÕES

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1 RODA DE CONVERSA SOBRE PROFISSÕES Kátia Hatsue Endo Unesp Daniela Bittencourt Blum - UNIP Catarina Maria de Souza Thimóteo CEETEPS - 1 INTRODUÇÃO A proposta deste trabalho é apresentar as atividades de Roda de Conversa sobre Profissões, desenvolvidas durante o ano de 2010 entre adolescentes na faixa etária de 16 a 18 anos. As atividades, com os alunos da 3ª série do ensino médio de uma escola técnica estadual da cidade de Paraguaçu Paulista, permitiram a participação deles no esclarecimento de dúvidas em relação aos estudos, ao mercado de trabalho e ao futuro. Atualmente a opção profissional tem representado importante papel na vida dos jovens, pois o trabalho contribui para a construção de identidade do indivíduo. A orientação profissional (OP) apresenta grande relevância no ambiente escolar, pois durante a adolescência, os alunos vivenciam uma grande pressão social e da família quanto à escolha da profissão, um momento de indecisões que permeiam a vida do jovem a respeito do futuro. O papel da escola destaca-se pela necessidade de oferecer um auxílio aos alunos para a escolha profissional, sendo fundamental que proporcione o conhecimento e a troca de experiências sobre as diferentes profissões. A orientação profissional objetiva oferecer condições para que a pessoa reflita, com autonomia, sobre a escolha profissional. Entretanto, a orientação profissional não tem a função de direcionar a escolha profissional para cursos de nível superior ou para as profissões que a sociedade espera serem financeiramente gratificantes. Visto que alunos de escolas públicas geralmente apresentam condição socioeconômica baixa, é importante destacar que as escolhas continuam presentes, desta forma, os alunos podem decidir continuar os estudos mesmo vivenciando dificuldades financeiras ou estudar e trabalhar (Costa, 2007). A OP proporciona contribuições importantes não só na área da psicologia, mas também se configura como um instrumento de reflexão para questões do mundo do trabalho e do cenário atual da educação, pois a OP não deve apresentar a idéia equivocada de que o orientando teria características pessoais que se encaixam em uma

2 profissão, ou seja, está ultrapassado o modelo em que os indivíduos devem se encaixar para melhor servir ao conjunto social. Mas, infelizmente, ainda existe uma crença na OP de que o processo terá resultados mágicos e soluções para as angústias decorrentes da escolha de uma profissão (Costa, 2007). Segundo Sílvio Duarte Bock (2002), A escolha profissional resulta de um processo, mas é efetivada em determinado momento, estabelecido socioculturalmente. A ocasião da escolha profissional não acontece em função de um pressuposto amadurecimento biopsicológico do indivíduo, mas é determinada pela cultura educacional/profissional de uma classe social e/ou de uma sociedade (p. 179). Segundo Celso João Ferretti (1997), a escolha da profissão parece estar relacionada a uma decisão individual, mas essa questão envolve um conjunto de fatores, isto é, para que se decida é necessário avaliar fatores econômicos, sociais, políticos, culturais, familiares, que devem ser pensadas e conversadas com os jovens que se iniciam na escolha profissional, com a finalidade de permitir o conhecimento sobre as possibilidades e limites em relação a si mesmo e ao meio socioeconômico e cultural em que vivem. Nesse sentido, Silvio Duarte Bock (1995) afirma que as pessoas apresentam algum grau, por mínimo que seja, de possibilidade de intervenção em sua trajetória de vida. Nesse sentido, existe a possibilidade transformadora da orientação profissional. Para o professor e pesquisador Ferretti (1997), a orientação profissional deve se propor a criar condições para que o jovem reflita sobre a escolha profissional, assim como sobre o início em uma atividade profissional e no seu contexto na sociedade. O pedagogo Silvio Duarte Bock e a psicóloga Ana Mercês Bahia Bock esclarecem muito bem que: [...] a escolha profissional deve, a nosso ver, ser concebida como um processo de apropriação de informações e experiências que permitem a construção de significados pessoais e a orientação profissional deve ter como finalidade ser esse espaço que oferece, de modo sistemático, as informações e possibilidades de reflexão que reorganizam os elementos subjetivos permitindo

3 uma escolha que resolve os conflitos vividos pelo sujeito neste campo (2005, p.5,6). A OP visa auxiliar os indivíduos no processo de escolha profissional, para trabalhar com os alunos as questões inerentes à difícil fase da escolha profissional, procurando facilitar a compreensão do processo de escolha profissional que envolvem dúvidas e ansiedades, visando trabalhar esses desafios, no sentido de auxiliar os alunos nesse momento em que se faz necessária a opção por uma profissão. Bock (2002) explica que A melhor escolha profissional é aquela que consegue dar conta (reflexão) do maior número de determinações para, a partir delas, construir esboços de projetos de vida profissional e pessoal (p. 181), por isso, as atividades de roda de conversa procura orientar os alunos por meio de experiências vividas por outros profissionais. A diversidade de relatos pode levar o aluno a pensar sobre as possibilidades que são apresentadas a ele como escolhas. 2 JUSTIFICATIVA A Roda de Conversa sobre Profissões justifica-se por possibilitar momentos de diálogos entre alunos e profissionais da comunidade sobre experiências de trabalho, de escolha profissional, de mercado de trabalho, de vivenciar a saída da casa dos pais e outras questões familiares, entre outros aspectos. A orientação profissional é muito importante, principalmente para alunos que estão terminando o ensino médio, pois a maioria dos jovens tem dúvidas a respeito de qual profissão escolher. Essa questão deve ser trabalhada com os jovens para que eles possam conhecer as profissões, lidar com as influências financeiras, da família, de amigos, enfim, com os fatores que podem interferir no processo da escolha. 3 OBJETIVOS O objetivo geral da Roda de Conversa sobre Profissões foi realizar um processo de informação educacional e profissional. Mais especificamente: a) oferecer informações e esclarecer dúvidas sobre as profissões de interesse dos alunos; b) organizar visitas de profissionais da comunidade à escola.

4 4 METODOLOGIA Para atingirmos os objetivos propostos foi utilizada como metodologia a roda de conversa, que possibilitou abertura de um espaço de encontro, de escuta e de troca entre alunos, professores e profissionais convidados. Nesse espaço foram compartilhadas experiências de trabalho, de escolha profissional, dificuldades nesse processo de decisão. Segundo Coelho (2007), a roda de conversa é um método que cria espaços de diálogo, em que as pessoas podem escutar os outros e a si mesmos. Par ela, as trocas de experiências, conversas, discussão e divulgação de conhecimento constroem esse método. A roda de conversa consiste em uma participação coletiva de debates sobre as diversas profissões, por meio da criação de espaços de diálogo. Envolve a socialização de saberes e a reflexão sobre as experiências compartilhadas. Consiste em um espaço para se abordar questões sobre as profissões, as escolhas profissionais. A roda de conversa é trabalhada como uma proposta de OP para se compreender a aproximação ou o distanciamento do aluno em relação às profissões em função do que ele vive e viveu, de suas experiências diretas ou indiretas com as profissões e ocupações (Bock e Bock, 2005). A Roda de Conversa sobre Profissões tem o objetivo de informar os alunos, oferecer uma possibilidade de reflexão por meio de esclarecimentos e relatos sobre o conhecimento acerca de cursos, profissões, mercado de trabalho, enfim troca de experiências. 4.1 Local O presente trabalho foi desenvolvido na Escola Técnica Estadual Augusto Tortolero Araújo, localizada na cidade de Paraguaçu Paulista/SP. A opção por realizar as atividades nessa escola deve-se à nossa atuação profissional, pois trabalhamos na escola como orientadora educacional (psicóloga), coordenadora pedagógica e diretora. Atualmente a escola possui duas salas de 1ª, 2ª e 3ª séries do ensino médio, totalizando seis salas no período da manhã; quatro salas de ensino técnico, duas de agropecuária e duas de agroindústria no período da tarde; e mais seis salas de ensino

5 técnico no período da noite, uma turma de hospedagem, uma de agrimensura, duas de análise e produção de açúcar e álcool, e uma de agroindústria. 4.2 Participantes Os participantes foram alunos, de ambos os sexos, de duas salas da 3ª série do ensino médio, totalizando uma média de 75 alunos, na faixa etária de 16 a 18 anos. 4.3 Procedimentos Cada roda foi realizada em um auditório da escola. Verificamos os interesses profissionais dos alunos e organizamos visitas de profissionais da comunidade para participarem das atividades. Convidamos também alguns professores da escola. Cada roda teve a participação de três profissionais. As atividades foram realizadas durante o horário de uma aula, os professores foram avisados com antecedência de duas semanas para que houvesse possibilidade de organização dos horários e atividades em sala de aula. 5 RESULTADOS E DISCUSSÃO Realizamos cinco Rodas de Conversa sobre Profissões durante o ano de 2010 e pretendemos continuar com esse trabalho na escola, pois os alunos demonstraram muito interesse pelas discussões. Os profissionais convidados da comunidade foram: uma engenheira agrônoma, um professor de educação física, um promotor de justiça e um juiz de direito; e os profissionais da escola: um professor de matemática, uma orientadora educacional, duas professoras de cursos técnicos e um professor de história. As atividades promoveram reflexão sobre o mercado de trabalho, cursos de nível superior, atingindo assim, o objetivo de oferecer um espaço para amenizar os conflitos inerentes à definição profissional. Também promoveram o acesso a informações e a experiências, tornando possível uma reflexão sobre suas próprias referências. As rodas de conversa possibilitaram maior integração entre professores, profissionais e alunos, e ainda percebeu-se que muitas vezes, uma experiência relatada na roda pode ser fundamental para que os alunos possam pensar sobre suas próprias experiências, gerando a possibilidade de reflexão e mudança.

6 Os relatos dos profissionais contribuíram para se pensar e considerar os diferentes fatores que podem contribuir para a escolha ocupacional, como por exemplo, pensar a respeito de seus interesses e identificação com algumas áreas profissionais, os investimentos e a disponibilidade de cada um para o planejamento e realização de uma profissão. As atividades de roda de conversa puderam facilitar a tarefa central da OP que se constitui em favorecer o momento de escolha, pois os alunos compartilharam sentimentos parecidos com os seus, podendo não se sentir tão sozinhos na fase em que estão vivenciando, pois percebem que os profissionais convidados e seus professores também vivenciaram tais experiências de escolha profissional. Essa atividade, embora limitada em tempo e alcance, possibilita a percepção sobre si em relação aos outros, pois descobrem que seus professores e outros profissionais também vivenciaram algumas das dificuldades da escolha profissional. A roda de conversa permitiu aos alunos uma reflexão pessoal sobre a escolha profissional e a complexidade de fatores envolvidos na questão. Por meio das atividades de roda, os jovens conseguem visualizar possibilidades no futuro, o que resulta num processo de diminuição da ansiedade. Considera-se que os objetivos traçados para a atividade foram alcançados, apesar de terem sido realizadas poucas rodas de conversa, poderia também, oferecer mais espaço para debate, disponibilizando mais tempo de duração, pois cada roda de conversa teve duração de uma aula - 50 minutos. Apesar disso, houve possibilidade de oferecer aos alunos um espaço de reflexão e de informação, sendo que, obviamente em nenhum momento se direcionou a decisão sobre a profissão dos jovens. No transcorrer de todo o procedimento de elaboração desse trabalho, o cuidado e atenção no desenvolvimento das atividades propostas foram marcados pelo objetivo de promover o interesse dos alunos, para incentivar a participação e reflexão de todos sobre o que representa a escolha de uma profissão. A finalidade foi alcançada, pois contribuiu para que os jovens possam repensar nas informações e diálogos realizados, no sentido de perceber a realidade profissional e os fatores que envolvem a escolha de cada pessoa. Foi possível realizar uma reflexão acerca dos determinantes pessoais e sociais das opções profissionais, por meio dos relatos e trocas de experiências, sendo que foi possível também, oportunizar a discussão sobre aspectos inerentes à escolha da

7 profissão, auxiliar os alunos na escolha profissional, trazendo à tona os problemas relativos aos fatores que influenciam na escolha profissional Os professores e profissionais convidados relataram experiências bastante realistas, demonstrando as dificuldades vividas por eles na época de escolha profissional, podendo compartilhar que, apesar de não ter sido fácil a experiência de decisão ocupacional, eles estavam ali, diante de todos aqueles alunos, como profissionais formados, atuando em seus respectivos trabalhos. Os relatos puderam proporcionar aos alunos uma percepção de que existem pessoas que vivenciaram esta fase de decisão, e que outras pessoas também já viveram dificuldades e dúvidas semelhantes às deles. A oportunidade de compartilhar experiências com profissionais e professores pôde trazer aos alunos um pouco mais de conforto e menos ansiedade. E, também, os professores percebiam a roda de conversa como um espaço relevante de trocas e integração entre professor-aluno, sendo que a oportunidade oferecida aos professores e alunos era valorizada. Pois, os professores podiam relatar e se aproximar dos jovens por meio de suas vivências, assim os alunos podiam ter maior compreensão sobre os fatores relacionados à escolha profissional. Os alunos tiveram a oportunidade de ouvir os relatos dos adultos e relacionar, identificar com suas próprias experiências e dessa forma compreender melhor suas motivações relacionadas à escolha profissional, seus pensamentos e emoções. Apesar do tempo escasso de decisão dos alunos da 3ª série do ensino médio, a roda de conversa ofereceu aos alunos a oportunidade de conhecer melhor alguns de seus professores, entender as dificuldades envolvidas na decisão dos adultos que provavelmente poderiam ser identificadas com suas próprias dificuldades, podendo contribuir para a elaboração de conflitos dessa etapa de decisão, abrindo perspectivas para um trabalho mais informativo. Participar da roda permite que os alunos se sintam amparados e acolhidos, porque eles podem de alguma maneira de identificar, seja porque vivenciam parte das situações relatadas, ou porque tem as mesmas dúvidas ou curiosidades que os professores ou profissionais relataram. Por meio dos relatos dos profissionais e professores foi possível aos alunos que pensassem sobre eles próprios, suas potencialidades, seus limites, seus desejos, sua formação, sua realidade. A roda de conversa permitiu uma dinâmica de observação das dificuldades, opiniões, valores, interesses e projetos de vida do outro. Nesse processo,

8 são valorizadas a diversidade e heterogeneidade, assim pode-se perceber que não existe uma única verdade, ou um único caminho a seguir. REFERÊNCIAS BOCK, S. D. & BOCK A. M. B. (2005, março-junho). Orientação Profissional: Uma Abordagem Sócio-Histórica. Revista Mexicana de Orientación Educativa, 5(5). BOCK, S. D. (2002). Orientação profissional: a abordagem sócio-histórica. São Paulo: Cortez. BOCK, S. D. (1995). Concepções de indivíduo e sociedade e as teorias em Orientação Profissional. In: Bock A. M. B. et al. A escolha profissional em questão(2ª ed.). São Paulo: Casa do Psicólogo. COSTA, J. M. (2007, dezembro). Orientação profissional: um outro olhar. Psicologia USP, 18(4). COELHO, D. M. (2007). Intervenção em grupo: construindo rodas de conversa. Anais do XIV Encontro Nacional da Abrapso, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. FERRETTI, C. J. (1997). Uma nova proposta de orientação profissional. São Paulo: Cortez.

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