UNIVERSIDADE ESTADUAL DE FEIRA DE SANTANA PROGRAMA DE PÓS GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA MESTRADO EM HISTÓRIA

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1 UNIVERSIDADE ESTADUAL DE FEIRA DE SANTANA PROGRAMA DE PÓS GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA MESTRADO EM HISTÓRIA RAFAELA GONZAGA MATOS EXPERIÊNCIAS DE FERROVIÁRIOS E LEGISLAÇÃO TRABALHISTA NA BAHIA ( ) Feira de Santana 2011

2 RAFAELA GONZAGA MATOS EXPERIÊNCIAS DE FERROVIÁRIOS E LEGISLAÇÃO TRABALHISTA NA BAHIA ( ) Dissertação apresentada ao Programa de Pós Graduação em História, Mestrado em História da Universidade Estadual de Feira de Santana, como requisito para obtenção do grau de Mestre em História Social. Orientador: Profº Dr. Iraneidson Costa. Feira de Santana 2011

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4 RAFAELA GONZAGA MATOS EXPERIÊNCIAS DE FERROVIÁRIOS E LEGISLAÇÃO TRABALHISTA NA BAHIA ( ) Dissertação apresentada ao Programa de Pós Graduação em História, Mestrado em História da Universidade Estadual de Feira de Santana. Aprovada em 31 de agosto de Banca Examinadora Iraneidson Costa Orientador Doutor em História Social pela Universidade Federal da Bahia Universidade Federal da Bahia Aldrin A. S. Castellucci Doutor em História Social pela Universidade Federal da Bahia Universidade do Estado da Bahia Maria Elisa Lemos Doutora em História Social pela Universidade Federal de Pernambuco Universidade do Estado da Bahia

5 À minha avó Antônia Barros Gonzaga, pelo amor e dedicação de uma vida.

6 AGRADECIMENTOS Expressar em palavras todo o apoio e ajuda que recebi durante este tempo é difícil. Sem o apoio e solidariedade que recebi não seria possível terminar este trabalho. Essa dissertação é dedicada a minha querida avó e mãe Antônia Barros Gonzaga que infelizmente não está fisicamente presente para partilhar as conclusões desse estudo. Aos meus pais, em especial à minha mãe, Joselita Gonzaga Matos, reconheço todo o esforço que fez e faz pela minha realização. Obrigada pelo apoio incondicional. Ao meu irmão Mateus pela paciência e pelo auxílio nas transcrições de algumas entrevistas. Muito Obrigada! Agradeço às contribuições de Iraneidson que, além de ser meu orientador, tornouse um amigo. À professora Elizete da Silva, minha eterna orientadora. Sua dedicação e compromisso são admiráveis. A Eurelino Coelho, pelo empréstimo de livros, pelas dicas e pela disposição em ajudar sempre. Agradeço também ao professor Francisco Antônio Zorzo pelos textos, documentos e fichamentos que me disponibilizou. Ao professor José Camelo Filho, mais conhecido como Zuza, que com carinho e atenção, se dispôs a discutir meus textos e pesquisas. No tirocínio que realizei com a professora Maria Aparecida Sanches pude trocar experiências e eu agradeço as contribuições e sugestões de leitura. Ao professor e amigo Robério Souza, sempre disponível à leitura dos meus textos. À professora Maria Elisa Lemos pelas informações acerca dos processos. A Emmanuel Oguri que se dispôs a conhecer essa pesquisa e a dar sugestões. Aos sujeitos dessa pesquisa, os ferroviários, que me concederam entrevistas, Leopoldo Cardoso de Jesus e João Ferreira da Silva. Não tenho como expressar a satisfação em ter ouvido as suas histórias. Às minhas tias Antônia e Raimunda, e especialmente às suas famílias em Salvador que, além de me acolherem por longos períodos em suas casas, cuidaram de mim como uma filha. Muito obrigada! À minha tia em Alagoinhas, Celiane, dedicada e amorosa, que me ajudou até na busca dos meus entrevistados. E nesta procura foi de fundamental importância a ajuda

7 de Maria, também conhecida como Maroca. Maria dispôs do seu dia para ir comigo até a casa de vários ferroviários em Alagoinhas, bem como até a Associação dos Ferroviários. Aos meus amigos/as pelas palavras de incentivo. Aos funcionários dos arquivos, em especial, Seu Luís da Biblioteca Pública do Estado da Bahia, pela gentileza e ajuda constante em todas as minhas visitas a essa instituição. Aos funcionários do Arquivo Público do Estado da Bahia, em especial a Djalma, por me auxiliar na busca dos documentos. Aos amigos/as do Laboratório de Memória da Esquerda e das Lutas Sociais (LABELU), apesar de ter estado freqüentemente ausente, esse trabalho tem a essência de vocês por terem me ensinado o valor da solidariedade e das discussões em grupo. Preciso agradecer individualmente ao meu amigo David pelas indicações de leitura, pela digitalização de documentos, pela leitura e pelas palavras amigas nas horas difíceis. A Luciane, Darliton, Ludymilla, Manuela, Flaviane, Mayara e Leonardo pelas contribuições e disponibilidade. Agradeço a Ísis, especialmente: sem sua ajuda nas digitalizações dos processos de acidentes de trabalho eu não conseguiria fazer o levantamento no tempo necessário. Obrigada pela sua disposição e solidariedade. A Ana Patrícia, pelo auxílio em todo o percurso dessa trajetória. Agradeço aos funcionários do mestrado, em especial, a Julival que, com paciência e atenção, sempre me ajudou a resolver os meus diversos problemas de ordem burocrática. Agradeço à FAPESB e à CAPES, instituições de pesquisa que possibilitaram que este estudo pudesse se concretizar.

8 RESUMO A dissertação visa discutir a legislação trabalhista na Bahia e a experiência ferroviária entre os anos de 1932 e Com base em estudos realizados sobre as greves ferroviárias na Bahia durante a década de 1930 pode-se destacar as lutas que estes operários travaram contra os patrões da estrada de ferro Bahia ao São Francisco. O período denominado de Estado Novo e de ditadura varguista, somado ao fato destes trabalhadores terem se tornado funcionários públicos, acarretaram modificações no modo de se mobilizarem, pois os ferroviários entraram na justiça diversas vezes reivindicando indenizações por conta de acidentes ocorridos no trabalho. Esses ferroviários buscaram reclamar, na justiça, as condições precárias de trabalho encontradas na referida estrada. As leis e decretos que regularam a matéria relacionada aos acidentes de trabalho, como o decreto lei 7.036, representaram de fato ganhos aos operários? Analisar-se-ão as leis e a sua eficácia na vida destes ferroviários que lutaram por melhores condições de trabalho e de vida. Palavras- chave: Ferroviários; Lutas Operárias; Legislação Trabalhista.

9 ABSTRACT The paper aims to discuss the labor legislation and railway experience in Bahia between 1932 and Based on the study concerning railway strikes in Bahia in 1930, it is possible to highlight the struggles waged by the workers against the bosses of the San Francisco railroad. The period named as the new state and Vargas dictatorship added to the fact that these workers had become civil servants, brought about changes in the way of mobilizing when the railroad employees started appealing to courts several times claiming damages due to accidents at work. This workforce sought justice to complain about the poor working conditions found in that road. The laws and decrees that regulated the matter related to accidents at work, as the act 7.036, represented, indeed, the workers actual benefit? The research sought to examine the laws and their effectiveness in the life of those who fought for better working conditions and life. Keywords: Railroad; workers' struggles; Labor Legislation.

10 LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1. Operários trabalhando na obra de remodelação do Pátio da Calçada (1935)..35 Figura 2. Comissão de ferroviários em Aramari (1935) Figura 3. Carros restaurantes da Leste (1938) Figura 4. Trabalhadores da Leste fazendo as refeições (1945) Figura 5. Acidente Ferroviário ocorrido em

11 LISTA DE TABELAS Tabela 1. Demonstrativo das despesas na Estrada de Ferro ( )... Erro! Indicador não definido. Tabela 2: Carga horária dos encarregados na conservação das linhas (1935)...37 Tabela 3: Receitas da Viação Férrea Federal Leste Brasileiro ( )...38 Tabela 4: Ferroviários vítimas de acidentes segundo a cor ( )...49 Tabela 5:Motivações das requisições da V.F.F.L.B ( ) Tabela 6: Resultado dos Processos movidos pelos ferroviários da Viação Férrea Federal Leste Brasileiro Tabela 7: Instância Jurídica dos Processos de Acidentes de Trabalho ( ) Tabela 8: Concessão de Indenizações segundo a instância jurídica do processo ( )

12 SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO 13 CAPÍTULO I: MUNDO DE TRABALHO FERROVIÁRIO O impacto da implantação dos trilhos na Bahia e a construção da Estrada de Ferro Leste Brasileiro Ainda outros estrangeiros Entre estrangeiros e brasileiros: O caso da Leste Características do trabalho na ferrovia: a encampação e problemas Ferroviários pobres e negros: o caso baiano 48 CAPÍTULO II - OS FERROVIÁRIOS BAIANOS E A EXPERIÊNCIA DE EXPLORAÇÃO NO TRABALHO O Trabalho na Leste: mudanças e resistência operária Alimentação e Salários Saúde: Ferroviários doentes, acidentados e mortos Organizações dos Ferroviários 82 CAPÍTULO III - ACIDENTES DE TRABALHO E LEIS TRABALHISTAS: UM DESENCONTRO Lei de Acidentes de Trabalho: processos antes de CAPÍTULO IV - PROCESSOS TRABALHISTAS EM 1940: BENEFÍCIOS ATRELADOS A UMA LEI AMBÍGUA Acidentes ferroviários: o palco das tragédias No campo dos conflitos Resultados das ações 140 CONSIDERAÇÕES FINAIS 157 FONTES 160 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 162 Anexo 1 Causa e consequências dos Acidentes de Trabalho dos Ferroviários ( ). Erro! Indicador não definido. Anexo 2 - Resultados dos Processos movidos pelos Ferroviários da Viação Férrea Federal Leste Brasileiro ( ) Erro! Indicador não definido.

13 INTRODUÇÃO No dia 3 de outubro de 1947, às 16h 40min, no km 442 da Ferroviária Leste Brasileiro, entre a estação de Iramaia e Lapinha, faleceu, em conseqüência das queimaduras sofridas durante o exercício do trabalho, o ferroviário Crispim Alves dos Santos. Em virtude do falecimento do seu esposo, Maria de São Pedro Batista dos Santos entrou na justiça na Vara dos Feitos da Fazenda Nacional em 30 de agosto de Esse e inúmeros outros casos foram movimentados na justiça durante meados da década de 1940 e início de 1950 visando adquirir as indenizações pelas fatalidades no desempenho do serviço. Este estudo pretende apresentar os ferroviários acidentados, reconstituindo os acidentes desses trabalhadores e o modo como entraram na justiça visando adquirir indenizações. Através da análise das ações também se pode conhecer as esposas desses operários, bem como seus pais e familiares que, em diversos momentos, recorreram à justiça solicitando a indenização a que tinham direito. Conforme se pode observar através da análise de processos anteriores a 1930, a movimentação de processos antecedeu o período do governo de Getúlio Vargas e houve uma continuidade e aumento nas ações em 1940 e meados da década seguinte. Esse aumento foi atestado não somente na Bahia, como também em São Paulo, conforme análise de John French 2. Edinaldo Souza, em sua pesquisa sobre experiências de trabalhadores do Recôncavo Baiano na arena judicial, também destacou ações movimentadas antes de 1930, referindo-se a esses episódios como fenômenos isolados, mas a pesquisa acerca dos ferroviários baianos possibilita compreender que muitas outras ações ocorreram nesse período, não se tratando de processos estanques, uma vez que diversos sujeitos acessaram a justiça em busca dos seus direitos: Ainda que se tratem de episódios isolados, tais iniciativas, ao menos, sugerem possíveis continuidades históricas na relação dos trabalhadores com a justiça no início do século XX. Contudo, essa 1 APEB. Seção Judiciária. Auto Cível I. Ação de Acidente de Trabalho: Crispim Alves dos Santos. Cx: 142/141/16. 2 FRENCH. John. Afogados em Leis: a CLT e a cultura política dos trabalhadores brasileiros. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo,

14 hipótese ainda precisa ser testada em futuros estudos sobre a história do trabalho no início da República. 3 A presente dissertação pretende analisar a experiência ferroviária baiana entre os anos de 1932 e 1952, na ferrovia Bahia ao São Francisco, posteriormente denominada de Leste Brasileiro. O recorte temporal corresponde ao início das manifestações grevistas pós 1930 e se encerra na análise dos processos de acidentes de trabalho utilizados nesta pesquisa. A opção pelo tema esbarrou nas dificuldades em se definir uma única localidade, haja vista a variação dos espaços dos acidentes. Por conta disso, o enfoque da pesquisa centrou-se nas ações judiciais e seus meandros sem, porém, concentrar-se na análise de cada espaço, optando por relacionar o contexto de entrada na justiça com o que ocorria na Bahia da época. Com base em estudo 4 realizado sobre as greves ferroviárias ocorridas durante a década de 1930 foi possível elaborar uma análise da ação desta categoria englobando as relações estabelecidas entre os ferroviários, com os patrões e com o governo. A partir do estudo acerca destas mobilizações, pode-se reconstituir a atuação coletiva dos ferroviários durante as greves e suas lutas por melhores salários e condições de trabalho. A atuação e demonstração de luta e participação ativa destes operários nas greves de 1932, 1935 e 1937 nos levam a reconhecer uma espécie de ruptura nas mobilizações grevistas a partir de Contudo, não se pode perder de vista que 1938 já corresponde a vigência do Estado Novo deflagrado por Getúlio Vargas e todo o silenciamento que este golpe provocou na imprensa. Buscamos compreender a experiência de tais sujeitos para além das mobilizações grevistas, tentando captar sua atuação através do acesso à justiça. De acordo com as fontes 5, parece haver um descenso nas lutas operárias após um período de ascenso e este estudo pretende problematizar as formas de luta colocadas em prática pelos ferroviários nesta conjuntura marcada por inúmeras particularidades, 3 SOUZA. Edinaldo. Lei e costume: experiências de trabalhadores na Justiça do trabalho (Recôncavo Sul, Bahia, ) Dissertação (Mestrado em História). Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2008, p MATOS, Rafaela Gonzaga. Viver para trabalhar e trabalhar para viver na década de Greves Ferroviárias na Bahia. Monografia (Graduação em História). Universidade Estadual de Feira de Santana, Os materiais utilizados são periódicos do Setor dos Jornais Raros da Biblioteca Pública do Estado da Bahia (BPEB), além de Relatórios da Viação Férrea Federal Leste Brasileiro referente ao período em estudo. Além desses periódicos, outros documentos, como Autos Cíveis da seção Judiciária, foram identificados no (APEB). 14

15 abarcando o início do governo de Getúlio Vargas, passando pelo golpe de 1937 até o governo de Eurico Gaspar Dutra. Os processos trabalhistas encontrados no Arquivo Público do Estado da Bahia (APEB) dando notícias de ações judiciais encaminhadas pelos ferroviários baianos comprovaram o quanto estes operários continuaram atuantes e sofrendo a exploração e os riscos do mundo do trabalho na empresa Ferroviária Leste Brasileiro. Os processos esclarecem sobre aspectos da mão-de-obra que trabalhava nesta estrada de ferro e permitem a discussão sobre a legislação trabalhista na Bahia. As ações impetradas na justiça eram densas e permitem reconstituir o cenário onde se desenvolveram as lutas entre a categoria ferroviária e seus patrões. Conflito, contradição e ambigüidade são palavras que descrevem com precisão os casos de acidentes movimentados na justiça. Estas ações foram analisadas partindo-se da premissa de que representaram mais uma das formas de luta destes operários para adquirir direitos e garantir a sua sobrevivência. Assim, o problema que se estabelece é desvendar estas ações ferroviárias obscurecidas após o Estado Novo, discutindo a própria legislação no período através dos processos trabalhistas interpostos pelos trabalhadores da Leste. As leis criadas e reformuladas no governo de Getúlio Vargas teriam sido capazes de dissipar as lutas travadas anteriormente? Teriam se colocado passivamente ao lado do Estado detentor das ferrovias baianas e parado de se mobilizar? A estas perguntas a análise das fontes atestou que este momento não se constituiu em tranqüilidade, apesar de representar um descenso nas mobilizações grevistas observadas anteriormente. Denúncias foram feitas em meados da década de 1940 nos jornais da época, em especial no periódico O Momento, órgão vinculado ao Partido Comunista, que em inúmeras matérias trouxe queixas relatadas pelos próprios ferroviários, suas entrevistas apontaram as precárias condições de trabalho, jornadas, salários, condições de saúde, higiene e alimentação oferecidas pela empresa ferroviária. As notícias do O Momento 6 também atestaram a participação dos ferroviários em comícios organizados pelo Partido Comunista levantando pistas para a análise do envolvimento da bancada nas lutas ferroviárias travadas neste período. As ações para que as leis fossem cumpridas aparecem em inúmeras falas de ferroviários, o que retrata 6 Este periódico foi analisado de e se encontra localizado na Seção de Jornais Raros da Biblioteca Pública do Estado da Bahia. O jornal foi criado em 1945 no período de término do Estado Novo. 15

16 que muitos possuíam conhecimento dos seus direitos. As queixas no jornal foram seguidas, muitas vezes, de comentários a respeito da legislação trabalhista, reivindicando leis já vigentes no governo de Getúlio Vargas e que no governo de Eurico Gaspar Dutra permaneceram sem cumprimento. O governo, ao encampar as ferrovias, teria resolvido os problemas deixados pela administração francesa? Como procedeu a administração do Governo? E os ferroviários, como se relacionaram com os novos patrões? Os documentos indicaram que uma série de mudanças foi desencadeada com a transferência de patrões, mas o modo como estas medidas se relacionaram com as condições de vida dos trabalhadores aparece nos relatórios de modo muito peculiar. Além disto, entrevistas com aposentados ferroviários da Leste foram realizadas em Alagoinhas, permitindo esboçar aspectos do mundo do trabalho destes ferroviários representantes desta categoria ampla que engloba sujeitos nas mais distintas funções. Concomitantemente, analisam-se as lutas na arena do judiciário através do uso da legislação trabalhista, tratando-se de investigar como ocorreu este processo na Bahia, entrecruzando informações de estudos que se debruçaram sobre este tema em outros espaços do Brasil. A análise de Ângela Gomes centrada nas ações dos representantes do governo e de Getúlio Vargas nesse período avança por compreender que as relações entre Estado e classe trabalhadora não eram relações de submissão, mas baseavam-se na reciprocidade e no jogo de interesses de cada lado envolvido na situação. 7 Sem questionar a originalidade com que Gomes tratou do tema das relações entre Estado, patrões e classe trabalhadora desde a Primeira República, se faz necessário destacar que a atuação e reação dos operários às medidas do governo ainda ficou à margem do seu estudo. Uma série de manifestações grevistas de distintas categorias em várias partes do Brasil, suas repercussões, a forma como os próprios trabalhadores interagiram com as medidas impostas pelo Estado poderiam ter ênfase em sua pesquisa o que não ocorre sendo que nas palavras da própria autora seria objetivo do seu estudo. A maneira pela qual este processo histórico de constituição da classe trabalhadora como ator político teve curso no Brasil é o que se deseja estudar neste trabalho. 8 O período abordado por essa pesquisa foi investigado por vários historiadores/as que elaboraram as suas análises tomando como referência, às vezes, a postura do Estado 7 GOMES, Ângela de Castro. A invenção do Trabalhismo. Rio de Janeiro: FGV, GOMES, A. C. A invenção do Trabalhismo. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2005, p

17 e das classes dominantes, ou a partir dos trabalhadores. Este estudo privilegiou e tentou fazer uma leitura a partir dos trabalhadores ferroviários baianos através da análise das suas condições de vida e formas de luta que englobou ações na arena judicial. A metodologia constou do levantamento de dados em diferentes Instituições de pesquisa, com a elaboração de fichamentos, e posterior análise dos materiais, entre os quais se destacam os seguintes periódicos do setor dos jornais raros da Biblioteca Pública do Estado da Bahia (BPEB): O Diário de Notícias, o Diário da Bahia, O Estado da Bahia, O Correio de Alagoinhas, O Imparcial e O Momento que dava notícias das mobilizações destes trabalhadores e que possibilitou a montagem do palco onde se desenvolveram as lutas operárias. Somam-se a estas fontes os Relatórios da Viação Férrea Federal Leste Brasileiro e Documentos Ministeriais e os Relatórios do Ministério de Viação e Obras Públicas encontrados em Center For Research Libraries (CRL). Brazilian Government Document Digitization Project disponíveis para consulta em http: //www.crl. Edu/contet.asp. O leque de processos judiciais disponíveis para a pesquisa foram 57 ações judiciais encontradas no Arquivo Público do Estado da Bahia (APEB) sendo relacionadas a pedidos de indenização por causa de acidentes de trabalho e uma destas ações referente a esposa de um passageiro que viajava na locomotiva da Leste que sofreu o acidente. O estudo destaca as estratégias intentadas pelos sujeitos dentro dos processos visando garantir os seus interesses. Grande parte das pesquisas que trataram do direito e das leis na História seguiram os passos e as orientações teórico-metodológicas do historiador inglês Edward Palmer Thompson acerca do uso das leis e do costume para assegurar direitos aos trabalhadores ingleses. Uma série de pesquisas vem florescendo neste campo, englobando uma gama de estudos que tratam das mais diversas temáticas como a escravidão, questões de gênero entre outras e que tem como cerne para sua elaboração o uso de documentos da justiça. As possibilidades que estas fontes permitem são inúmeras e as contribuições para a História Social vão desde a reconstituição das representações e à compreensão de mundo tanto dos agentes responsáveis pela elaboração e desenrolar do processo como dos sujeitos que também atuavam dentro dos limites possíveis através de suas práticas cotidianas para que houvesse uma efetiva implantação das leis. No bojo das discussões acerca do acionamento das leis sociais nos processos movimentados pelos trabalhadores junto à Justiça do Trabalho tem sido demonstrado 17

18 como os operários reconheciam as relações de poder que envolviam a ativação da legislação na busca do reconhecimento dos seus direitos. Em sua pesquisa acerca da Lei Negra de 1723 Thompson discute o uso das leis e do direito e as possíveis motivações e relações de poder que envolveram a sua elaboração. De acordo com ele, em Senhores e caçadores 9, que retrata a criminalidade no século XVIII na Inglaterra, havia por parte das autoridades uma preocupação no que tange à propriedade por conta da invasão dos chamados negros em partes da floresta de Windsor consideradas propriedades dos nobres. Os caçadores ilícitos sempre foram tolerados pelos guardas florestais mantendo uma negligência salutar ou saudável que tolerava dentro de alguns limites a caça aos cervos, sendo inaceitável a caça destes em espaços que não fossem previamente delimitados e de acordo também com os dias já estipulados. Contudo, a lei negra estudada por Thompson visava mudar a relação costumeira estabelecida e estabilizar a caça, combatendo os ataques à propriedade. De acordo com o autor, a nova lei foi motivada pela preocupação dos juízes com o deslocamento do poder, haja vista o apoio crescente da comunidade da floresta apoiando a caça clandestina. Sendo assim, Thompson analisou do ponto de vista do conflito as leis e o direito: A lei negra só podia ter sido formulada e decretada por homens que tinham formado hábitos de distância mental e frivolidade moral em relação à vida humana ou, mais especificamente, em relação às vidas do tipo de gente desregrada e desordeira. Precisamos explicar não só uma emergência que agia sobre a sensibilidade desses homens, para quem a propriedade e o status privilegiado dos proprietários vinham assumindo, a cada ano, um maior peso nas escaladas da justiça, até que a própria justiça não passava, aos seus olhos, das fortificações e defesas da propriedade e seu concomitante status. 10 Por isto, os estudos deste autor têm servido de referência para muitas pesquisas que tratam das leis e do direito na busca de perceber a lei como um campo de conflito e as motivações que teriam proporcionado o seu surgimento. Alexandre Fortes 11 faz uma ampla discussão a partir das noções de direito, lei e costume especialmente a partir da obra Senhores e Caçadores. Fortes compreende que 9 THOMPSON, E. P. Senhores e Caçadores: a origem da lei negra, Rio de Janeiro: Paz e Terra, THOMPSON, E. P. Senhores e Caçadores: a origem da lei negra. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987, p FORTES, Alexandre. O Direito na Obra de Thompson. Dados - Revista História Social. Vol. Nº 2, Campinas: 1995, p

19 Thompson contribuiu para os estudos em História Social ao analisar do ponto de vista do conflito entre as classes sociais as leis e o direito investigando as motivações que estavam por trás das atitudes dos sujeitos. Pesquisadores(as) das mais diversas áreas das ciências humanas têm bebido na interpretação elaborada por Thompson da luta pela manutenção do direito costumeiro e das formas tradicionais de sobrevivência em contraposição ao que foi imposto pela classe dominante no final do século XVIII. Apropriando-se da interpretação thompsoniana e das suas concepções acerca dos códigos costumeiros e da lei como uma definição da efetiva prática, existe a pesquisa de Edinaldo Antonio Oliveira Souza 12. O autor discute em um dos capítulos da sua dissertação de que forma os trabalhadores do Recôncavo baiano, seus sujeitos de pesquisa, empregados nos mais diversos estabelecimentos, fizeram uso da justiça de trabalho criada em 1939 e dos decretos publicados posteriormente, dando ênfase a algumas leis que regularam os acidentes de trabalho durante o período. Edinaldo Souza se dedica ao estudo dos processos trabalhistas movidos por distintos operários (as) que recorreram à justiça por conta de questões relacionadas ao trabalho, a exemplo de dispensa injustificada, remoção de função ou de localidade de trabalho, ou até por conflitos envolvendo agressões físicas entre empregados e patrões. O autor destaca que as lutas se desenrolavam de um modo conflituoso a partir da entrada do processo judicial, por isso que inicialmente se tentava a conciliação entre as partes, o que era o mais aconselhado aos envolvidos no processo, pelos advogados, juízes, reclamantes e reclamados. Contudo, nem sempre a solução por conciliação resolvia as questões e quando isso ocorria era necessário recorrer à decisão arbitral. Não se pode perder de vista que o autor chama atenção para as incompletudes da legislação trabalhista e ambigüidades que permitiam uma interpretação dúbia dos casos. Souza cita diversos exemplos onde a Comarca declarou-se incompetente para julgar tais questões inicialmente, mas, passados alguns anos, acabou resolvendo o caso. Além de destacar artimanhas patronais e dos trabalhadores para conseguirem que as questões fossem solucionadas cada parte em seu favor. O estudo sobre os ferroviários baianos problematizou, a partir da análise dos processos encontrados no APEB, como as ações judiciais movidas por estes 12 SOUZA. Edinaldo. Antônio Oliveira. Lei e costume: experiências de trabalhadores na Justiça do trabalho (Recôncavo Sul, Bahia, ) Dissertação (Mestrado em História). Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal da Bahia, Salvador,

20 trabalhadores foram tratadas pela justiça, evidenciando a luta desses sujeitos para garantir seus direitos na esfera jurídica. O primeiro capítulo toma como referência a formação da empresa ferroviária e seu processo de implantação quando se situam as mudanças ocorridas com o processo de encampação da empresa pelo governo federal e a posterior passagem dos ferroviários a funcionários públicos. Posteriormente, no segundo capítulo, busca-se fazer uma análise das condições de vida e trabalho destes operários, não enquanto algo externo ou separado das outras esferas da vida destes operários, mas compreendendo suas condições de moradia, salários e trabalho na própria ferrovia no período, o que foi imprescindível para que se pudesse ter uma visão dos acidentes ocorridos e situar os operários neste mundo de trabalho cheio de riscos. O terceiro capítulo apresenta a legislação trabalhista desde 1919 e a regulação dos acidentes de trabalho. Percebe-se que a análise de algumas ações judiciais do período ao lado desta legislação facilitou a compreensão das mudanças que se processaram posteriormente. Buscou-se uma discussão bibliográfica acerca do entendimento dos autores no que tange à implantação das primeiras leis do trabalho em 1919 e seus desdobramentos posteriores na vida dos operários. No quarto capítulo, discute-se o período em que estas ações judiciais foram movimentadas (isto é, pós-1940) na visão de alguns autores, na perspectiva de possíveis encontros interpretativos ou análises particulares sobre o caso da Bahia e seus processos de acidentes. Para tanto, destaca-se a análise de alguns estudos que se debruçaram sobre esta conjuntura ao lado das ações judiciais. Foi possível reconstituir os acidentes de trabalho e apresentar algumas histórias destes operários e de suas famílias no campo da justiça. O texto produzido foi o resultado de um trabalho de investigação em fontes pouco exploradas visando entender a História dos ferroviários como parte de toda uma conjuntura histórica com suas singularidades e movimentos próprios. 20

21 CAPÍTULO I: MUNDO DE TRABALHO FERROVIÁRIO O impacto da implantação dos trilhos na Bahia e a construção da Estrada de Ferro Leste Brasileiro. As estradas de ferro no Brasil datam da segunda metade do século XIX, quando o Brasil passava por profundas modificações em diversos setores da sociedade. A economia era ancorada na exportação do café, com a utilização da mão-de-obra livre coexistindo com o trabalho escravo. As ferrovias brasileiras tiveram importância política, econômica e geográfica e representaram um dos maiores acontecimentos ocorridos no Brasil no decorrer da segunda metade do século XIX. As estradas de ferro foram construídas para transportar matérias-primas, desenvolver o comércio e dinamizar a economia, além de permitir a interiorização do território. Nas palavras de José Camelo Filho, A construção das primeiras estradas de ferro no Brasil está diretamente ligada ao setor agrário exportador, tanto nas províncias do Centro Sul quanto no Nordeste, onde as estradas foram projetadas para estabelecer a integração e ocupação do território brasileiro, cujas primeiras seções também tinham relações com o setor agrário. 13 A ferrovia é originária da Inglaterra e contribuiu para integrar o seu território. Este invento se espalhou pelo mundo e contribuiu com a integração dos territórios dos Estados Unidos, França para depois serem implantadas no Brasil, uma vez que era visto como símbolo de modernização e progresso. Francisco Foot-Hardman em sua obra Trem-Fantasma: a modernidade na Selva 14 trata da construção da estrada de ferro Madeira-Mamoré, localizada em Rondônia e que teve funções políticas e estratégicas de povoamento. Hardman destaca que entre as novidades que chegaram ao Brasil estavam as estradas de ferro. E sua análise combina 13 CAMELO FILHO, José V. A Implantação e Consolidação das Estradas de Ferro no Nordeste Brasileiro Tese (Doutorado em História). Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2000, p HARDMAN, Francisco Foot. Trem-Fantasma. A ferrovia Madeira - Mamoré e a modernidade na selva, São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p

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