O EMPREGADO MIGRANTE E HIPOSSUFICIENTE: BREVE REFLEXÃO SOBRE A COMPETÊNCIA TRABALHISTA E O ACESSO À JUSTIÇA *

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1 O EMPREGADO MIGRANTE E HIPOSSUFICIENTE: BREVE REFLEXÃO SOBRE A COMPETÊNCIA TRABALHISTA E O ACESSO À JUSTIÇA * THE MIGRANT AND HYPOSSUFFICIENT EMPLOYEE: SHORT REFLECTION ABOUT WORKING COMPETENCE AND ACCESS TO JUSTICE RESUMO Luis Otávio Vincenzi de Agostinho Paulo Mazzante de Paula A competência trabalhista fixa que a propositura da ação é determinada pela localidade onde o empregado prestar serviços ao empregador, conforme regra geral do artigo 651 da Consolidação das Leis do Trabalho. O presente estudo preocupa-se com o empregado migrante que é contratado em outra localidade e não recebe os direitos trabalhistas. Caso pretenda ingressar judicialmente terá que propor a ação na Vara do Trabalho do local da prestação de serviço, diante da proibição existente quanto ao local da contratação. A jurisprudência vem tentando modificar e corrigir a situação, aplicando o princípio do livre acesso à justiça, previsto na Constituição Federal. A presente reflexão analisa sobre a necessidade de alteração da regra geral, permitindo assim que o trabalhador hipossuficiente tenha acesso ao Poder Judiciário, possibilitando a propositura da ação no lugar da contratação ou local da prestação de serviço. PALAVRAS-CHAVES: COMPETÊNCIA; MIGRANTE; JURISDIÇÃO; ACESSO À JUSTIÇA; PRESTAÇÃO DE SERVIÇO. ABSTRACT The working competence fixes that the commencement of action is determined by the place where the imployee is serviceable to the employer, according general rule of the 651 article of consolidation of the laws of the working. The present study worries about the migrant employce that is engaged in another place and doesn t receive the working rights. If he intends to move an action against someone he must propose the action in local jurisdiction where he had worked because there is a prohibition about the place of the contract. Jurisprudence is trying to modify and correct the situation, applying the free access to justice, foreseen on Federal Constitution. The present reflection analyses about the need of changing the general rule, permitting that the hypossufficient employee has access to Judiciary Power making possible the presentation of action at the engage place or at the place of work rendering. KEYWORDS: COMPETENCE; MIGRANT; JURISDICTION; ACCESS TO JUSTICE; WORK RENDERING. * Trabalho publicado nos Anais do XVIII Congresso Nacional do CONPEDI, realizado em São Paulo SP nos dias 04, 05, 06 e 07 de novembro de

2 INTRODUÇÃO O princípio da supremacia do interesse do empregado sempre foi defendido e reafirmado a cada artigo presente na Consolidação das Leis Trabalhistas. Aliás, protege o trabalhador frente ao capital, prevalecendo o princípio in dubio pro operario. A preocupação, evidentemente, deverá existir até mesmo quando o assunto trata da competência para propositura da ação trabalhista, sempre objetivando a inclusão social do empregado e o acesso à justiça. O presente estudo procura analisar a questão do empregado migrante e hipossuficiente, que é contratado em seu domicílio e presta serviço em outra localidade. No caso do inadimplemento das verbas trabalhistas terá que propor a ação no local da prestação de serviço, tomando-se por base a regra geral contida no artigo 651 da Consolidação das Leis do Trabalho. A jurisprudência timidamente vem tentando alterar a competência, mesmo que de forma contrária a lei, sob o argumento de que deve prevalecer o princípio constitucional do acesso à justiça, criando assim uma nova exceção ao dispositivo legal. Entretanto, salvante melhor juízo, há necessidade de alteração da regra geral, criando efetivamente uma nova ressalva ao citado ordenamento legal. Nota-se que o texto consolidado contém uma proibição de interpretação restritiva, ou seja, ainda que tenha sido contratado noutro local (art. 651 da CLT). O direito é mutante, exigindo mudança para a adequação da situação do trabalhador, que não pode ter o acesso à justiça negado ou dificultado. A decisão deve levar em conta a jurisdição constitucional e a aplicação do princípio da razoabilidade para o acesso à justiça do empregado. Portanto, tem o presente artigo o intuito de trazer à tona a discussão do caso do empregado migrante, contratado para prestar serviço em outra localidade e que não recebe os seus direitos trabalhistas. Por exemplo, a doméstica nordestina contratada em seu Estado para trabalhar na cidade de São Paulo, que não recebe os direitos trabalhistas e retorna à sua casa. Caso pretenda acionar judicialmente o empregador terá que retornar à capital do Estado de São Paulo, gastando, às vezes, quantia maior do que a própria verba reclamada em juízo. O artigo 651 da Consolidação das Leis do Trabalho deverá ser revisto para contemplar a proteção trabalhista e a defesa da garantia de seu acesso à justiça, nos termos do artigo 5º, inciso XXXV da Constituição Federal. 9185

3 1. Da Competência para a propositura da ação na Justiça do Trabalho Na sistemática processual trabalhista, o empregado possui legitimidade para impetrar ação contra o empregador no local da prestação de serviços. De acordo com a Consolidação das Leis do Trabalho, na seção atinente à jurisdição e competência: Art.651. A competência das Juntas de Conciliação e Julgamento é determinada pela localidade onde o empregado, reclamante ou reclamado, prestar serviços ao empregador, ainda que tenha sido contratado noutro local ou no estrangeiro. O legislador, nesta hipótese, considerou que a competência da Vara do Trabalho é determinada pela localidade da prestação de serviço, possivelmente para a facilitação da produção da prova. Pois bem, visível é a necessidade de prevalecer a supremacia da defesa do interesse do empregado, alterando a regra geral e propiciando alternativa ao trabalhador. Regra geral, a ação trabalhista deve ser ajuizada no último local em que o empregado prestou serviços ao empregador, posto que tenha sido contratado em outra localidade ou em outro país para prestar serviços no Brasil. (LEITE, 2008, p.280). No entanto, nem sempre a regra geral é a que ocorre no cotidiano das relações trabalhistas. Habitualmente se observa o empregado ajuizando ações trabalhistas em localidade distinta daquela em que trabalhou. O Juiz Federal do Trabalho, por sua vez, acolhe a exceção de incompetência apresentada por seu antigo empregador. Contudo, é fato de que em nosso país, inúmeros são os trabalhadores que saem de seus domicílios para trabalhar em locais distantes e, sendo dispensados, não possuem outra opção, senão voltar à sua terra natal, muitas vezes sem receber nem o próprio salário. Não é possível que a mesma lei sirva para o alto funcionário, como por exemplo, um empregado diretor de sociedade anônima, que recebe ótimos salários, e também para o empregado migrante, hipossuficiente e que percebe na maioria das vezes o salário mínimo. Portanto, a regra geral é que a ação trabalhista deve ser proposta no último local da prestação de serviços do empregado, ainda que o mesmo tenha sido contratado em outra localidade ou no estrangeiro (acerca deste particular, Súmula 207 do TST). Exemplo: Se o empregado foi contratado em Jacarezinho (PR), trabalhou em Londrina (PR) e, por último, em Maringá (PR), é nessa localidade (Maringá) onde a ação deverá ser proposta. Existem exceções à regra geral, conforme artigo 651, parágrafos 1º, 2º e 3º, da Consolidação das Leis do Trabalho. A primeira diz respeito ao empregado agente ou viajante comercial, onde prevalece para a propositura da ação trabalhista o local onde a empresa tenha agência ou filial e o empregado esteja subordinado. Na falta, será 9186

4 competente o Juízo do Trabalho da localidade em que o empregado tenha domicílio ou o local mais próximo. A segunda hipótese é do empregado brasileiro que labora no estrangeiro. As verbas trabalhistas serão analisadas com base na legislação estrangeira, embora a Justiça do Trabalho brasileira tenha competência para examinar a questão, se a empresa tiver agência ou filial no Brasil. O artigo 88 do Código de Processo Civil elucida tal hipótese: É competente a autoridade judiciária brasileira quando: I. O réu, qualquer que seja a sua nacionalidade, estiver domiciliado na Brasil; II. No Brasil tiver de ser cumprida a obrigação; III. A ação se originar de fato ocorrido ou de fato praticado no Brasil. Parágrafo Único: Para o fim do disposto no nº I, reputa-se domiciliada no Brasil a pessoa jurídica estrangeira que aqui tiver agência, filial ou sucursal. A jurisprudência estabelece: [ ] Contrato de trabalho realizado no Brasil e cumprido no exterior. Competência da Justiça Brasileira para processar e julgar reclamatória trabalhista. Acórdão regional reconhecendo a competência da Justiça Brasileira, em conformidade com o disposto no art. 651, 2º da CLT. (TST, CNC /91-2, rel. Ermes Pedrassani, Ac. SDI 1.477/91) Por outro lado, havendo tratado internacional disciplinando que o foro competente para a propositura da ação trabalhista é determinado país, não se aplicará tal regra ( 2º, art. 651 da CLT), mas a que o tratado prevê. Por fim, o 3ª do dispositivo trata da alternativa das empresas que promovem atividades fora do lugar do contrato. Exemplos: atividades circenses, artísticas, feiras, exposições, promoções, montadoras industriais, entre outras. (CARRION, 2007, p. 515) Em que pese a existência das hipóteses anteriores, seria razoável apresentar mais uma exceção à regra geral, incluindo um novo parágrafo ao ordenamento, permitindo que o empregado migrante e hipossuficiente possa propor a ação trabalhista também no próprio domicílio. Tal hipótese se demonstra totalmente defensável pela garantia dos princípios constitucionais aplicáveis ao Direito Processual do Trabalho. 9187

5 2. Princípio da proteção O princípio da proteção é afeto ao Direito Processual do Trabalho, conforme exposto adiante: Embora muitas outras fossem necessárias, algumas normas processuais de proteção ao trabalhador já existem, a comprovar o princípio protecionista. Assim, a gratuidade do processo, com isenção de pagamento de custas e despesas, aproveita aos trabalhadores, mas não aos patrões; a assistência judiciária gratuita é fornecida ao empregado, mas não ao empregador; a inversão do ônus da prova por meio de presunções favorece o trabalhador, nunca ou raramente o empregador; o impulso processual ex officio beneficia o empregado, já que o empregado, salvo raras exceções, é o réu, demandado, e não aufere proveito da decisão: na melhor das hipóteses, deixa de perder. (GIGLIO, 2000, p.67) Como princípio maior no Direito Processual do Trabalho, a proteção é aplicável em qualquer demanda trabalhista, de forma a garantir ao empregado o pleno acesso à justiça e a satisfação almejada quando de direito. Vários doutrinadores brasileiros defendem o princípio da proteção, salientando os diversos motivos para sua existência, como se nota nas palavras de Carlos Henrique Bezerra LEITE: A desigualdade econômica, o desequilíbrio para a produção de provas, a ausência de um sistema de proteção contra a despedida imotivada, o desemprego estrutural e o desnível cultural entre o empregado e empregador certamente são realidades trasladadas para o processo do trabalho. (2008, p.86) Ainda, nos argumentos do referido jurista, o que parece ser mais importante, ao estudar o tema, é atribuir ao referido princípio a função de buscar a compensação da desigualdade existente na realidade socioeconômica, através de uma desigualdade jurídica em sentido oposto. (2008, p.85) Nas lições de Letícia Godinho SOUZA, o Direito do Trabalho tem o papel de reduzir a disparidade entre o capital e o trabalho, protegendo sempre esse último. E complementa: 9188

6 No modelo legislado, portanto, os trabalhadores, para fazerem valer o direito, ou seja, para cobrar do empregador os custos do trabalho, podem depender da ação fiscal do Estado ou da Justiça do Trabalho. No contexto dos anos 1990, em que a capacidade de ação coletiva do trabalhador é amplamente enfraquecida, a Justiça do Trabalho passou a servir-lhe como válvula de escape. Passa a residir, dessa maneira, na Justiça do Trabalho, um importante foco da luta democrática no Brasil. (2006, p ) A autora, ainda, tece o seguinte comentário sobre as limitações e contribuições da Justiça do Trabalho perante a democracia social: O modelo legislado brasileiro se mostrou sensível às novas demandas. Embora de origem paradoxal, o corporativismo brasileiro mostrou-se uma instituição capaz de adaptar-se às circunstâncias históricas, promovendo resultados bastante positivos no que diz respeito à promoção de maior democracia social. Longe de constituir um modelo ideal, a Justiça Trabalhista brasileira, dentro de suas limitações, contribuiu de forma decisiva para incorporar setores historicamente marginalizados da sociedade brasileira. (2006, p.193) Aliás, bem avaliada é a Justiça à que a massa dos brasileiros tem acesso, a do Trabalho, considera a de melhor atuação por 41% dos entrevistados. (OPINIÃO, 2009, p.02) Evidentemente que, uma Justiça que protege o trabalhador hipossuficiente, fazendo valer os direitos laborais, não é bem vista pelo capitalismo, haja vista a tentativa patronal constante de flexibilização da lei, desregulamentação do ordenamento trabalhista ou até mesmo a extinção da Justiça Especializada Trabalhista. O capitalismo mais forte faz todo o tipo de propaganda negativa contra a Justiça Laboral, taxando o cidadão/empregado que recorre ao Poder Judiciário para a solução do conflito laboral e recebimento do crédito trabalhista de comunista, esquerdista ou subversivo, providenciando até mesmo uma lista negra entre os empresários para identificar o terrorista. A Consolidação das Leis do Trabalho merece atualização, visto que foi aprovada em 1º de maio de 1943, na época do governo de Getúlio Vargas, portanto não há que se falar em desregulamentação da lei trabalhista, mas em adaptação a nova realidade social do mercado de trabalho brasileiro. Destaca-se a importância da efetivação do Direito do Trabalho no Brasil para a concretização da democracia. Aliás, como instrumento fundamental para a inclusão social. O assunto é retratado por Maurício DELGADO no seguinte sentido: É chegado o momento de conferir-se ao Direito do Trabalho, no Brasil, seu papel fundamental, histórico, seu papel promocional da cidadania. (2006, p. 26). Esclarece, ainda, que: 9189

7 [ ] esse ramo jurídico é um dos principais instrumentos de exercício das denominadas ações afirmativas de combate à exclusão social, com a virtude de também incentivar o próprio crescimento da economia do país. (2006, p. 26). Possibilita, assim, a inclusão do trabalhador na sociedade e o desenvolvimento econômico do país. O autor faz uma comparação tomando-se por base a inclusão social das grandes massas populacionais dos países desenvolvidos, evidentemente antes da crise mundial, citando os casos de Alemanha e França, líderes do capitalismo, onde mais de 80% da população economicamente ativa daqueles países, já excluído o percentual de desempregados, insere-se no mercado laborativo capitalista com as proteções inerentes ao Direito do Trabalho. Assevera, em comparação, que menos de 30% do pessoal ocupado no Brasil corresponde, formalmente, a empregados. (2006, p. 26). Há necessidade, ainda, de proteger a figura do trabalhador, prevalecendo seu direito subjetivo à vida, à liberdade e à saúde. Considera-se dever do próprio Estado tal preservação humana, sob pena de divergência às garantias norteadoras do Estado democrático de direito, elencado no caput do art.1º da Constituição Federal. Nessa óptica de defesa dos direitos individuais, Norberto BOBBIO, ao definir direitos humanos, atinge o cerne da discussão: são coisas desejáveis, isto é, fins que merecem ser perseguidos, e de que, apesar de sua desejabilidade, não foram ainda todos eles (por toda a parte e em igual medida) reconhecidos. (2004, p. 35) Para Flávia PIOVESAN, a definição de direitos humanos aponta uma pluralidade de significados, destacando a chamada concepção contemporânea de direitos humanos que veio a ser introduzida com o advento da Declaração Universal de 1948 e reiterada pela Declaração de Direitos Humanos de Viena de (2007, p. 60) Ademais, segundo Reinéro LÉRIAS, existe a necessidade de inter-relação entre ética, moral, ciência e direitos humanos: Um sentido interdisciplinar e multidisciplinar, sem omitir o campo vertical do conhecimento que dá especificidade a cada uma destas palavras, conquanto sejam por excelência polissâmicas. Necessário se faz, portanto, quando se busca a compreensão e a dimensão que congregam cada um destes termos acrescentar um outro, horizontalização. Horizontalização da especificidade de cada área do conhecimento, buscando com isto contextualizar as ações humanas em um imenso complexo que convencionou-se denominar natureza em seu sentido mais amplo. Diante do efeito estufa, do ecocídio, da violência das mutações climatológicas é chegado o momento de os seres humanos repensarem `in totum o que pensam que sabem. (2007, p.126) 9190

8 O próprio Poder Judiciário tem que se preocupar com a efetivação e preservação da dignidade humana do trabalhador, que é um valor preenchido a priori, isto é, todo ser humano tem dignidade só pelo fato já de ser pessoa. Aliás, a busca da justiça deve ter como base o ser humano (NUNES, 2007, p. 129). Desta forma, considerando a hipótese específica do mencionado artigo e, valendo-se do princípio da proteção, será legítima a propositura da ação no local que for mais conveniente ao empregado, de forma a garantir, consequentemente, o direito fundamental do pleno acesso à justiça, como veremos adiante. A jurisprudência e a necessidade de mudança da regra geral Tem-se que a interpretação muitas vezes adotada pelos Tribunais, pauta-se na literalidade da lei. Em outras palavras, o juiz interpreta gramaticalmente a legislação e acata a exceção de incompetência proposta pelo empregador, com base nos artigos 799, 800 e 651 todos da Consolidação das Leis do Trabalho. A jurisprudência proclama: Exceção de incompetência ex ratione loci. Reclamação no foro de celebração do contrato art. 651, 3º, da CLT. A opção concedida ao empregado, entre o lugar da contratação ou de execução do trabalho (art. 651, parágrafo 3º), deve ser interpretada harmonicamente com o caput do mesmo artigo que aparentemente diz o contrário: o parágrafo é uma exceção que não revoga a regra geral do caput assim a opção do empregado só pode ser entendida na raras hipóteses em que o empregador desenvolve seu trabalho em locais incertos, eventuais ou transitórios, como é o caso das atividades circenses, artísticas, feiras, exposições, promoções, etc.. Portanto, o fato de o empregador promover a realização de suas atividades em várias outras localidades, que não a da contratação, não dá ao empregado o direito de escolha do local para promover a reclamatória, visto que é no local da prestação de serviços que reúnem-se as provas que instruirão o feito. (TST, SDI, RO-MS-24724/91.5, in DJU , p. 4868) Convém registrar que a competência em razão do local é relativa e deve ser arguida por exceção em peça apartada. Conforme súmula 33 do STJ a incompetência relativa não pode ser declarada de ofício. Assim, ocorre a prorrogação da competência da jurisdição da Vara do Trabalho quando não apresentada a exceção, por se tratar de competência relativa. Desta forma, desprestigia os princípios constitucionais da Carta Maior, e, principalmente, não se vale de uma hermenêutica constitucional, considerando o critério da hipossuficiência do empregado. Neste sentido: 9191

9 Uma teoria constitucional que se concebe como ciência da experiência deve estar em condições de, decisivamente, explicitar os grupos concretos de pessoas e os fatores que formam o espaço público (Offentlichkeit), o tipo de realidade de que se cuida, a forma como ela atua no tempo, as possibilidades e necessidades existentes. A pergunta em relação aos participantes da interpretação constitucional deve ser formulada no sentido puramente sociológico da ciência da experiência. Deve-se indagar, realisticamente, que interpretação foi adotada, a forma ou maneira como ela se desenvolveu e que contribuição da ciência influenciou decisivamente o juiz constitucional no seu afazer hermenêutico. (HÄBERLE, 1997, p.19-20) Interpretar a pretensão em seu viés constitucional permite legitimar a pretensão trabalhista ajuizada pelo empregado, reafirmando a supremacia de seus interesses e o princípio da proteção. De forma retraída e esporádica, começam a surgir posicionamentos contrários, firmados em relação à possibilidade de propositura da ação no domicílio do empregado, como opção alternativa do próprio empregado, com fundamento no 3º, artigo 651 da CLT: CONFLITO DE COMPETÊNCIA: Ajuizamento da ação no local de prestação de serviços ou da contratação. A competência para o dissídio individual trabalhista será a da localidade na qual o empregado tenha celebrado o contrato de trabalho ou prestado serviços, sendo uma faculdade do empregado ajuizar a ação em uma outra localidade. Entendimento inserto no art. 651, parágrafo 3º., da Consolidação das Leis do Trabalho. Na hipótese dos autos, após a resilição contratual o empregado teria voltado a se estabelecer em seu domicilio originário, o qual coincide com o local de celebração do contrato, sendo este, portanto, o Juízo competente para julgar o feito. Esse entendimento prestigia os princípios que norteiam o direito trabalhista, em especial o da proteção ao hipossuficiente, e leva em consideração a dinâmica do Processo do Trabalho (TST SBDI 2, CC no , Rel. Min. Emmanoel Pereira, j , v.u). EMENTA: EXCEÇÃO DE INCOMPETÊNCIA EM RAZÃO DO LUGAR. COMPETENTE JUÍZO DO LOCAL DA CONTRATAÇÃO. INTELIGÊNCIA DO PARÁGRAFO 3º. DO ARTIGO 651 DO DIPLOMA CONSOLIDADO. SEGURANÇA CONCEDIDA. O local onde o reclamante foi contratado e no qual reside, é o lugar mais acessível para ingressar em juízo para pleitear seus alegados direitos, embora diverso da prestação de serviços, tendo em vista a preservação de um dos mais relevantes princípios assegurados constitucionalmente, qual seja, o acesso à Justiça (TRT 2º região, Acórdão SDI 4762/2007-2, processo , MS, Rel. Vânia Paranhos, ). 9192

10 4. Problematização e defesa dos interesses do empregado migrante e hipossuficiente Acerca do processo de migração, vislumbrado no Brasil, bem salienta Valter SANTIN: [...] Traduz o fenômeno da movimentação territorial das pessoas. Comporta três divisões: migração, imigração e emigração. A migração é a movimentação dentro do mesmo território; imigração é o processo de chegada de pessoas de outros países; emigração é a saída dos nacionais para outro país. (2007, p. 132) Ao se analisar a situação do empregado migrante no território brasileiro, que foi contratado para trabalhar em Estado diverso de onde reside, e, por algum motivo, teve de voltar à sua residência após o período trabalhado, deixando verbas trabalhistas das quais tinha direito a receber, restando somente a via judicial para reclamá-las, tem-se hipótese que não é contemplada no artigo 651 da CLT. Em outras palavras, para propor ação contra o empregador, pleiteando seus vencimentos, verbas salariais, fundiárias, rescisórias e indenizatórias, o empregado necessitará ajuizar a peça inicial na Vara do Trabalho onde ocorreu a prestação de serviço. Para elucidar o assunto, renovamos outro exemplo, no sentido do trabalhador, pai de família, domiciliado no interior do Estado de Pernambuco, que na busca de melhores condições de vida, vem para o norte do Estado do Paraná, laborar em uma Usina de Açúcar. Ao término de seu contrato, o empregado volta para seu Estado de origem, sem ter recebido as verbas trabalhistas da qual tinha direito. Pela previsão do dispositivo celetista, na grande maioria dos casos hipossuficiente, o trabalhador não pode propor ação em seu domicílio, mas sim no local da prestação de serviços. O exemplo denota uma situação muito comum na realidade brasileira, o acesso à justiça do empregado migrante. Aliás, ao que parece, a legislação nos moldes atuais favorece, no caso do hipossuficiente e migrante, mais o capital do que o trabalho, ou seja, serve como incentivo ao empregador, e, consequentemente, como argumento desfavorável para o trabalhador não optar pelo ingresso judicial. Sobre o assunto: Como já lembrou Cappelletti, a demora excessiva é fonte de injustiça social, porque o grau de resistência do pobre é menor do que o grau de resistência do rico; este último, e não o primeiro, pode sem dano grave esperar um justiça lenta. Na realidade, a demora do processo é um benefício para o economicamente mais forte, que se torna, no Brasil, 9193

11 um litigante habitual em homenagem à inefetividade da justiça. Basta lembrarmos o que se verifica na Justiça do Trabalho, onde os economicamente mais fracos, desdenhando a justiça, apostam na lentidão da prestação jurisdicional, obrigando aos trabalhadores realizar acordos quase sempre desrazoáveis. Será que alguém ainda acredita que a justiça é efetiva ou inefetiva ou será que ela é sempre efetiva para alguns? (MARINONI, 2006, p. 55) O artigo 5º, inciso LXXVIII, da Constituição Federal, com a reforma promovida pela Emenda Constitucional 45/04, enuncia que a todos no âmbito judicial é assegurada a razoável duração do processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação. 5. O princípio do acesso à Justiça e o empregado hipossuficiente O artigo 5º, inciso XXXV, da Constituição Federal prevê o princípio da inafastabilidade do controle judiciário ou da proteção judiciária, motivo pelo qual garante que a lei ordinária não poderá excluir da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito. A lição de Celso Antonio Bandeira de MELLO atinge o desfecho da discussão: Princípio é, por definição, mandamento nuclear de um sistema, verdadeiro alicerce dele, disposição fundamental que se irradia sobre diferentes normas compondo-lhes o espírito e servindo de critério pra sua exata compreensão e inteligência, exatamente por definir a lógica e a racionalidade do sistema normativo, no que lhe confere a tônica e lhe dá sentido harmônico. [...] Violar um princípio é muito mais grave que transgredir uma norma qualquer. A desatenção ao princípio implica ofensa não apenas a um específico mandamento obrigatório, mas a todo o sistema de comandos. (MELLO, 1996, pp ) Decorre deste princípio, o acesso à justiça que não poderá ser negado aos cidadãos em nenhuma hipótese. Como o Estado trouxe para si o exercício do poder jurisdicional, investiu-se, portanto, na garantia do acesso à justiça de todos aqueles que se sintam ameaçados ou lesados em quaisquer direitos. Todos têm acesso à justiça para pleitear a tutela jurisdicional, motivo pelo qual se trata de um direito subjetivo, decorrente da assunção estatal de administração da justiça, conferindo ao homem para invocar a prestação jurisdicional, relativamente ao conflito de interesses qualificado por uma pretensão irresistível. (BULOS, 2002, p. 178) 9194

12 Portanto, o direito de ação possui natureza de direito público subjetivo, de forma que o Estado está obrigado a prestar a tutela jurisdicional. O princípio em voga, consagrado na Constituição Federal de 1988, busca vedar interpretação da legislação infraconstitucional que impeça o amplo acesso ao Poder Judiciário. No presente caso, referente ao dispositivo do artigo 651 caput da Consolidação das Leis do Trabalho, há uma limitação de caráter literal, ou seja, não contempla a propositura da reclamação em local diverso de onde ocorreu a prestação de serviço, mesmo sendo mais benéfico ao empregado, impedindo, desta forma, a efetivação de seu direito fundamental, portanto ofendendo o princípio constitucional do irrestrito acesso ao Judiciário, previsto constitucionalmente. CONSIDERAÇÕES FINAIS A conclusão seria promover a modificação da questão da competência para a propositura da ação trabalhista, conforme previsão do artigo 651 da Consolidação das Leis do Trabalho, incluindo uma nova exceção, no sentido que o empregado hipossuficiente e migrante teria a opção de ingressar judicialmente no local da prestação do serviço, conforme regra geral, ou, então, na Vara do Trabalho de seu domicílio, mediante criação de um novo parágrafo e alteração da atual jurisdição e competência da Justiça do Trabalho. A simples aplicação da Constituição Federal pelo Judiciário permite alcançar um maior crescimento da justiça social, visto que o próprio texto prevê o acesso à justiça, amparado pelo princípio constitucional. O empregado, obtendo o acesso ao judiciário, obteria, inclusive, sua inclusão social, permitindo efetivação da igualdade material. O critério adotado para a delimitação da questão da hipossuficiência, a título de sugestão, seria o valor da quantia igual ou inferior ao dobro do mínimo legal, com base no art. 14, 1º da Lei nº 5.584/70. Além do princípio do livre acesso à justiça, também seriam homenageadas a razoabilidade e proporcionalidade, evitando-se decisões contraditórias, insegurança jurídica e favorecimentos patronais. Considerando a tese defendida, sugere-se a redação hipotética para a criação de um parágrafo único a ser inserido no art. 651 da CLT: Quando for parte no dissídio empregado migrante e hipossuficiente, assim definido como aquele contratado em outro local da prestação de serviço e que perceba quantia igual ou inferior ao dobro do mínimo legal, terá a opção de propor a ação trabalhista nas seguintes localidades: a) no foro onde o trabalhador tenha domicílio ou estava domiciliado antes da contratação; b) no foro da celebração do contrato; c) no foro da prestação dos respectivos serviços. 9195

13 Dessa forma, a modificação retiraria a proibição constante do caput do artigo 651 da Consolidação das Leis do Trabalho, ou seja, ainda que tenha sido contratado noutro local, homenageando o princípio do livre acesso à Justiça do empregado em questão. A própria Consolidação das Leis do Trabalho, em seu artigo 8º, estabelece que nenhum interesse de classe ou particular poderá prevalecer sobre o interesse público. Assim, é necessário o respeito da hierarquia normativa, devendo prevalecer no caso vertente, o disposto na própria Constituição Federal, permitindo o livre acesso ao Judiciário, em detrimento ao contido no texto consolidado, visto que somente assim prevalecerá o interesse público e o princípio da proteção tutelar do trabalhador. Isto posto, pela garantia do acesso ao Poder Judiciário Trabalhista pelo empregado migrante e hipossuficiente, deve-se aceitar a propositura da referida ação em seu domicílio, de forma a garantir a concretização de seus direitos reclamados, tudo através da utilização de uma hermenêutica constitucional, que leve em consideração, principalmente, os princípios norteadores do Direito Processual do Trabalho. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BOBBIO, Norberto. A Era dos Direitos. Rio de Janeiro: Campus, BULOS, Uadi Lammêgo. Constituição Federal anotada. 4. ed. São Paulo: Saraiva, CARRION, Valentin. Comentários à Consolidação das Leis do Trabalho. São Paulo: Saraiva, DELGADO, Maurício Godinho. Direito do trabalho e inclusão social: o desafio brasileiro. Revista Magister de Direito do Trabalho. Porto Alegre, v. 15, pp , GIGLIO, Wagner D. Solução dos conflitos coletivos: conciliação, mediação, arbitragem, resolução oficial e outros meios. Revista LTr, v. 64, n. 3, p.207 et seq, mar HÄBERLE, Peter. Hermenêutica Constitucional. Tradução de Gilmar Ferreira Mendes. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris,

14 LEITE, Carlos Henrique Bezerra. Curso de Direito Processual do Trabalho. 6 ed. São Paulo: LTr, LÉRIAS, Reinéro Antônio. Ética, moral, ciência e direitos humanos. Revista Jurídica Argumenta, Universidade Estadual do Norte do Paraná, Jacarezinho, n. 07, p , MARINONI, Luiz Guilherme. Efetividade do Processo e Tutela de Urgência. Porto Alegre: Sérgio Antônio Fabris, MARTINS, Sérgio Pinto. Direito Processual do Trabalho. São Paulo: Atlas, MELLO, Celso Antonio Bandeira de. Curso de Direito Administrativo. 8. ed. São Paulo: Malheiros, NUNES, Rizzato. A Dignidade da Pessoa Humana e o Papel do Julgador. Revista do Advogado, AASP, São Paulo, n. 95, p.129, dez OPINIÃO. Uma nova Justiça. Folha de S. Paulo, São Paulo, 07 de maio de PIOVESAN, Flavia. Direitos sociais, econômicos, culturais e direitos civis e políticos. Revista do Advogado, AASP, São Paulo, n. 73, SAAD, Eduardo Gabriel. Consolidação das Leis Trabalhistas Comentada. 41. ed. São Paulo: LTr, SANTIN, Valter Foleto. Migração e discriminação de trabalhador. Revista Jurídica Argumenta. Universidade Estadual do Norte do Paraná, Jacarezinho, n. 07, p ,

15 SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. 23. ed. São Paulo: Malheiros, SOUZA, Letícia Godinho. Direito do Trabalho, Justiça e Democracia: o sentido da regulação trabalhista no Brasil. São Paulo: LTr,

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