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1 BuscaLegis.ccj.ufsc.br Flexibilização das leis trabalhistas Marcelo Dias Aguiar * 1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS A necessidade de proteção ao trabalhador com vistas a se alcançar "justiça social" vem sendo defendida ao longo da história. Sucede que o passar dos anos acabou testemunhando a crescente e excessiva rigidez das normas de proteção ao trabalhador de tal maneira que se chegou à necessidade de se flexibilizarem alguns direitos como mecanismo para tornar possível um controle relativo sobre um dos problemas sociais mais graves deste fim de século, o desemprego. O desemprego, com a explosão e expansão do fenômeno chamado de globalização, passou a ser palco dos mais diversos discursos e debates suscitados nos fóruns mundiais, pois se trata, atualmente, do tema mais dificultoso e complexo que um país tem de enfrentar. O Brasil, não longe de tal realidade, com a abertura do mercado ainda na década de 90, instituída pelo então governo Collor, seguido pela política neoliberal do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, enfrenta, talvez, a maior crise laboral desde sua descoberta no século XV. De fato, as entidades governamentais e não governamentais buscam cada vez mais encontrar saída para o desmando do desemprego. A maneira encontrada para muitos foi a flexibilização de nossas leis trabalhistas. Entretanto, há muitas controvérsias no tema, pois há vários pontos divergentes a respeito, ou seja, correntes a favor e outras contra a flexibilização da C.L.T., nas quais iremos expressá-las alguns pontos mais diretos. 2. FLEXIBILIZAÇÃO DAS LEIS TRABALHISTAS Antes de tudo, deve-se entender o significado da palavra "flexibilização" e o que se pretende com esse vocábulo bastante falado no mundo da das relações de trabalho. Sergio Pinto Martins(1) expõe em uma de suas obras excelente conceito: "a flexibilização do direito do trabalho vem a ser um conjunto de regras que tem por objetivo instituir mecanismos tendentes a compatibilizar mudanças de ordem econômica, tecnológica ou social existentes na relação entre o capital e o trabalho." As mais diversas idéias de flexibilização coadunam-se com as mudanças de ordem econômica. Em virtude disso, existem os que julgam ser esse processo a solução de todos

2 os males como os que a encaram como mera estratégia neoliberal, em benefício dos interesses do capital. A parceria entre o capital e o trabalho, com uma maior ou menor intervenção do Estado garante direitos e impulsiona a economia, trazendo uma real melhora na qualidade de vida das pessoas. A Reforma Trabalhista não há como tratá-la sem modificar o texto consolidado sem trazer à tona a discussão acerca da flexibilização das leis trabalhistas. Como consta no Minidicionário Silveira Bueno(2), flexibilizar é "tornar flexível", que, por sua vez, é algo "que se pode dobrar ou curvar, maleável, dócil, complacente, submisso". Ao pretender flexibilizar as normas trabalhistas, busca-se possibilitar que os direitos por ela trazidos sejam "dobráveis", "moldáveis" aos interesses das partes. Perguntas a serem feitas são: será que é realmente necessário reformar, por meio da flexibilização, as relações de trabalho? Estarão estas inflexíveis a ponto de se considerar a Justiça do Trabalho e todas as instituições correlatas espécimes jurássicas no tempo presente? Flexibilizar seria algo como tornar flexíveis os controles da jornada de trabalho? Seria algo contrário à defesa da redução legal da jornada de trabalho? Suprimir o terço constitucional das férias e o 13º salário ou coisa que o valha? Não é apenas a reforma flexibilizadora das relações de trabalho que caminha sem destino certo. Também os governos, por seus turnos, entendem que a reforma trabalhista é necessária para modernizar as relações de trabalho, mesmo que não esteja muito claro o que significa modernização das relações de trabalho. Do lado do empresariado, a reforma trabalhista é necessária para diminuir o potencial passivo trabalhista. De forma mais concreta, a proposta de reforma, até o momento, apenas tratou de discutir o problema do sindicalismo brasileiro, mesmo porque a reforma da CLT já vem ocorrendo ao longo dos anos. Como apontado pelo jurista Alcídio Soares Junior(3), a flexibilização tem, como causalidade última, a continuidade de inserção do Brasil no sistema global de produção e troca de mercadorias ditada pelos países do assim chamado Primeiro Mundo. O Congresso Nacional nos últimos anos vêm passando um dos piores momentos perante as forças sindicais trabalhistas. Entra governo, sai governo, todos os anos, passa-se por novo ano legislativo, e todo ano são apresentados inúmeros Projetos de Lei com o intuito de modificar nossas leis trabalhistas. Por volta de 2001, os ânimos acirraram-se no Congresso Nacional entre congressistas e organizações sindicais. Foi apresentado Projeto que modificava apenas alguns dos artigos da C.L.T. O mais polêmico ponto de atrito era em relação ao artigo 618 da mesma lei. Trata-se de um projeto de lei, onde os acordos coletivos prevalecem sobre as leis trabalhistas, ou seja, opção por formas mais flexíveis de disciplina das relações de trabalho, isto é, troca da lei pela convenção ou acordo coletivo. Destarte, há duas correntes a respeito de tal situação, ou seja, uma a favor e outra contra.

3 Estudiosos do assunto, dizem ser uma proposta inconstitucional, pois fere diretamente três incisos do artigo 7º de nossa Carta Maior(4): VI - redução de salário, XIII - alteração na jornada de trabalho e XIV - flexibilização dos turnos ininterruptos de revezamento. Para o Poder Judiciário Trabalhista, isso veio apenas a prejudicar o trabalhador, pois no mundo real do trabalho, não há equilíbrio de forças entre empregador e empregado, e com esse projeto de lei, a situação se agrava, ainda mais. Cada vez mais os trabalhadores terão redução de seus direitos, gerando ainda mais o desequilíbrio entre as partes, ou seja, a flexibilização das leis trabalhistas é extremamente prejudicial ao trabalhador, pois direitos garantidos constitucionalmente, poderão ser alterados a bel prazer do empregador, mediante acordo ou convenção coletiva. Tal corrente teme que a flexibilização da C.L.T. torne-se um caos, visto que, para eles, o índice de desemprego poderá aumentar mais ainda. No entanto, a outra corrente, favorável à flexibilização, afirma que nossas Leis estão ultrapassadas e que só haverá mais facilidade a mobilidade geográfica e profissional dos trabalhadores e a suspensão e a cessação dos contratos de trabalho. Com efeito, os contratos trabalhistas, mais "flexíveis", tendem a manter uma maior proximidade do empregador-empregado, tendo nesse contato, um entendimento de suas situações, não causando ônus para nenhum. Assim, o ex-presidente do TST, Ministro Almir Pazzianotto(5), conclui sobre o fato: As partes conhecem melhor e mais de perto as realidades que administram. (...) Sabem, melhor que ninguém, o que lhes interessa. Não havendo afronta direta à lei, a direitos de que o trabalhador não pode abrir mão, nos sentimos obrigados a valorizar a negociação. Diz-se com freqüência que rigidez de nossa C.L.T. impede que sejam concluídos vários contratos empregatícios, e que por esse mesmo motivo, os empregadores passaram a desempregar mais, com receio dos encargos decorrentes (da formalização do contrato: anotação na CTPS), das vultosas indenizações decorrentes das rescisões, da demora nas decisões judiciais quando posta à questão perante a Justiça do Trabalho, etc. 3. EFEITOS A flexibilização tem sido pregada como uma saída para o desemprego. o argumento é que se o contrato de trabalho for flexibilizado e o Estado deixar de intervir com normas tão rigorosas nas relações de emprego, mais postos serão criados. Assim, se for permitido flexibilizar a jornada de trabalho para meio turno, dois trabalhadores poderão desenvolver suas tarefas em vez de apenas um. Se for permitida uma redução de salário, com o excedente a empresa pode contratar outro. Caso se diminua a carga tributária e os gastos sociais com os empregados, a empresa pode investir em si própria criando mais postos de trabalho.

4 Entretanto, o que se vem notando em outros países que adotaram tais medidas, isto é, que flexibilizaram suas leis trabalhistas, como o Japão e a Europa de um modo geral, a realidade é bem diferente. Os resultados alcançados de fato não foram os prometidos pela doutrina flexibilizante. As mais diferentes vozes afirmam que o modelo, como está implantado, tem trazido prejuízo aos trabalhadores. O desemprego continua alto, o nível salarial tem baixado muito, e os empregos têm um grau de precariedade maior do que os que deixam de existir. A flexibilização não é idéia dos trabalhadores, mas das classes dominantes. Não se imaginem que estas não fariam pensando no bem estar dos menos favorecidos. Se, como visto acima, os trabalhadores têm perdido empregos, salários e garantias, alguém ganha, e o ente beneficiado é o capital. Com o aumento do desemprego, as empresas têm mão-de-obra barata à sua disposição. O aumento do número de trabalhadores desempregados, o chamado exército de reserva, deixa os capitalistas em posição confortável diante da necessidade de utilização desses trabalhadores. Oferecem pouco, por pouco tempo e sem muitas garantias, aumentando suas margens de lucro. Com a diminuição dos recolhimentos previstos pela legislação social, utilizados pelo Estado para garantir algum benefício aos trabalhadores, perdem estes e ganham os empresários que passam aumentar sua margem de lucro. O enfraquecimento dos sindicatos leva os trabalhadores a negociarem diretamente nas empresas, reduzindo seu poder perante os empregadores. A entidade que sempre defendeu seus filiados contra a exploração passa a ter que fazer concessões para poder sobreviver. Os empregadores ficam mais livres para impor suas condições. Os contratos temporários, que como mencionado são como uma afronta ao princípio da continuidade, não trazem maiores responsabilidades para o empregador. Se a margem de lucro cai, reduz o número de empregados; se aumenta, contrata-se mais. O trabalhador inseguro, com medo de perder seu emprego, é mais fácil de ser dominado. Com efeito, essa possibilidade faz com que ele se integre cada vez mais à empresa em que trabalha, tornando-se mais afastado de seu ambiente externo. A conseqüência de tudo, claro, é uma concentração cada vez maior de capital nas mãos da classe dominante. CONSIDERAÇÕES CONCLUSIVAS Entende-se assim que, acima de tudo, é necessária uma conscientização para esta nova postura frente aos fatos relacionados às relações laborais, com a pujança de um ideal perene de justiça social, pois não se combate as mazelas sociais referentes aos conflitos laborais sem antes erradicar suas raízes, há muito tempo encrostadas nos desmandos políticos dos governantes e na mentalidade anacrônica da minoria privilegiada que se recusa suprir as necessidades elementares da pessoa.

5 A flexibilização da C.L.T., como já foi dito antes, não era de hoje que estava precisando uma reforma, ou seja, uma atualização de acordo com a vivencia atual. Na verdade, nota-se que ela servirá, e muito, para uma nova tentativa de geração de empregos, desvinculando o medo dos empregadores de contratar o empregado. A rejeição da nova Lei por parte dos trabalhadores-sindicatos é de que esta só irá maltratá-los mais ainda. Com toda razão essa preocupação. Embora nada certo ainda que irá realmente acontecer, pois o país é irregular, passando diariamente por altos e baixos em sua economia, tornando o capital mais escasso ao empregador e com isso, como se diz "a corda quebra sempre para o lado mais fraco", ou seja, o do trabalhador. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AMADOR, Paes de. CLT Comentada. São Paulo: Saraiva, BRASIL. Constituição da República Federativa do. Promulgada em 05 de outubro de BUENO, Silveira. Minidicionário da Língua Portuguesa. São Paulo: FTD, CLT. Consolidação das Leis Trabalhistas. Ed. Saraiva, LIMA, Francisco Meton Marques de. Manual Sintético de Direito do Trabalho. São Paulo: LTr, MARTINS, Sérgio Pinto. A Terceirização e o Direito do Trabalho. 3 ed. São Paulo: Malheiros, MARTINS, Sergio Pinto. Fundamentos de Direito do Trabalho. São Paulo: Atlas, PINTO, Rodrigo César Rebello. Teoria Geral da Constituição e Direitos Fundamentais. São Paulo: Saraiva, SOARES JÚNIOR, Alcídio. A Flexibilização no Direito do Trabalho enquanto Instrumento de Mudanças nas Relações de Trabalho. Disponível em Acesso em Notas: 1 - MARTINS, Sérgio Pinto. A Terceirização e o Direito do Trabalho. 3 ed. São Paulo: Malheiros, BUENO, Silveira. Minidicionário da Língua Portuguesa. São Paulo: FTD, 2000.

6 3 - SOARES JÚNIOR, Alcídio. A Flexibilização no Direito do Trabalho enquanto Instrumento de Mudanças nas Relações de Trabalho. Disponível em Acesso em BRASIL. Constituição da República Federativa do. Promulgada em 05 de outubro de PAZZIANOTO, Almir apud SOARES JÚNIOR, Alcídio. A Flexibilização no Direito do Trabalho enquanto Instrumento de Mudanças nas Relações de Trabalho. Disponível em Acesso em * Especialista em Direito Privado e em Direito Público pela UFPI. Procurador Municipal. Disponível em:< https://secure.jurid.com.br/new/jengine.exe/cpag?p=jornaldetalhedoutrina&id=39467 > Acesso em.: 22 ago

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