A QUESTÃO DA POBREZA NA SOCIEDADE DE CLASSES E SEU ACIRRAMENTO NO NEOLIBERALISMO

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1 A QUESTÃO DA POBREZA NA SOCIEDADE DE CLASSES E SEU ACIRRAMENTO NO NEOLIBERALISMO Maria Cristina de Souza ¹ Possui graduação em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas -PUCCAMP(1988), Mestrado em Política Social pela Universidade de Brasília-UnB (1997) e doutorado em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo -PUC-SP(2009). É coordenadora e docente no Departamento do curso de Serviço Social na Universidade Federal do Triângulo Mineiro - UFTM e membro do Grupo de Estudos Político-Sociais POLITIZA, do Programa de Pósgraduação em Política Social, do Departamento de Serviço Social, do Instituto de Ciências Humanas, da Universidade de Brasília (PPGPS/SER/IH/UnB), registrado no Diretório de Grupos de Estudos do CNPq. Este Grupo é liderado pela Profª. Drª Potyara Amazoneida Pereira Pereira - Resumo No capitalismo, a pobreza e as desigualdades estão associadas à produção de riqueza. Mas, em ambos os casos, a pobreza e as desigualdades sociais estão pautadas à divisão da sociedade em classes sociais e à existência da propriedade privada. No Neoliberalismo, há um acirramento do conjunto das expressões das desigualdades sociais, o que configura novos problemas políticos, sociais e econômicos. Porém, tal configuração deve ser vista como consequência do modelo de sociedade capitalista, reproduzida pelas relações de desigualdades entre as classes sociais. Palavras-chave Nolberalismo, pobreza, politicas sociais Corpo do trabalho Atualmente, o Neoliberalismo vem se colocando como um projeto político do grande capital em que preconiza e materializa uma diminuição da necessidade da força de trabalho ao privilegiar o capital especulativo como forma de acumulação de riqueza. 1

2 Então, o trabalhador, além de oferecer força de trabalho ao mercado, precisa ter essa força especializada e competitiva a fim de garantir sua inserção profissional; aos que não a têm, as alternativas de trabalho se apresentam de forma precária e temporária. Concordando com IVO(2004): Os novos requerimentos tecnológicos e os novos padrões de organização do processo produtivo sobrepõem às antigas e persistentes desigualdades uma segmentação cada vez maior entre setores crescentemente restritos de trabalhadores mais qualificados, mais valorizados e preservados em seus empregos, e uma maioria que não apresenta as habilitações exigidas pelo novo padrão produtivo, transitando entre o desemprego, o mercado informal e as velhas e novas formas de trabalho precário.( Ivo:2004,58) Essas situações, consequências da forma como está organizado o mundo moderno, são apresentadas como naturais e necessárias à criação de uma sociedade altamente tecnológica e adquirem contornos de um ideal quase hegemônico porque propicia bons resultados econômicos, mas, também, dificultam a discussão e a politização dos problemas sociais principalmente as questões da vulnerabilidade da classe trabalhadora e da pobreza, que crescem assustadoramente. Isso equivale a dizer que o Neoliberalismo dificulta a operacionalização de mudanças importantes no âmbito estrutural da sociedade, além de tolher a necessária compreensão das manifestações vigentes. Vemos crescer o individualismo e a competitividade, especialmente naqueles que têm, como preocupação principal, o desejo de ocupar o mercado de trabalho e de garantir a própria sobrevivência, e esses comportamentos têm determinado uma delicada crise global crise da ética em que se verifica estagnação do pensamento crítico e indivíduos desconectados e apolíticos diante das mudanças. Para muitos teóricos, o Neoliberalismo ressuscitou a raiz selvagem do capitalismo. Suas tendências propiciam um eixo econômico à contemporaneidade, mas camuflam um importante rebatimento da questão social do nosso tempo: a mortal injustiça praticada com a classe subalterna, que sobrevive da força de trabalho. Assim, em decorrência dos ganhos econômicos de poucos, as consequências sociais são reprimidas e/ou descaracterizadas, pois, na medida em que se modificam as formas históricas de respostas à questão social, alteram-se, também, as manifestações e se intensifica sua gravidade. Um exemplo disso é o fato de o aumento de riqueza social de alguns ser alcançado com ao aumento progressivo do desemprego, da precarização das relações de trabalho, da baixa remuneração etc. 2

3 O acesso aos meios de satisfação das necessidades básicas para sobrevivência, nas sociedades de mercado, é conferido, em primeiro lugar, pela renda que, para a grande maioria da população, advém do trabalho assalariado consequentemente do salário. A renda depende, no mínimo, da existência de oportunidades de emprego com remuneração suficiente (ABRANCHES, 1987,p. 18) o que nos permite afirmar que a penalização da classe trabalhadora, atualmente, tem contornos ainda mais graves, mais cruéis que em outros tempos. Estes agravantes se referem à capacidade de exploração e insegurança imposta pelo sistema capitalista. A diretriz neoliberal, que determina o viés economicista dessa sociedade, trouxe agravamentos na já existente fratura social uma vez que a relevância e espaço das discussões predominantes no âmbito das questões que dizem respeito ao mercado (subordinação ao mercado)colocaram a população em estado de pauperização e em um plano que ameaça a ordem social vigente. Consequentemente, é necessário que se discuta a pobreza não só como uma das maiores manifestações da questão social atual, mas, também, como forma de manter a estabilidade do sistema Outro aspecto básico da política neoliberal unificadora de todas as frações da burguesia, é a supressão e redução dos direitos sociais e trabalhistas. Há uma equação entre retração dos direitos sociais e trabalhistas de muitos e o aumento da riqueza de poucos. Tal evidência culmina com a degradação das condições de vida da maioria vitimizada pela redução de empregos e salários, com a concentração de renda e com a total desproteção oriunda da degradação dos serviços públicos; o que tem sido resguardado é a relativa qualidade dos serviços privados, mas somente para a população que pode buscá-los no mercado. essas reformas promoveram um novo capitalismo, mas tiveram como consequência a ampliação da concentração de renda, o aumento da pobreza, o desemprego e a exclusão social, a fragmentação cultural, a erosão nos níveis de confiança na democracia além de uma crescente percepção de mudança na sociedade sentida como um fenômeno de déficit de sentido que caracteriza a sociedade atual, concentrada no presente no aqui e agora (TEDESO, 2012, p. 13). A desigualdade e a pobreza sempre foram fundamentais para o funcionamento das economias capitalistas e as atuais transformações sociais no processo de acumulação de riquezas trouxeram acirramentos e novos segmentos à situação de pobreza. A pobreza nunca pareceu tão complexa, nem tão difícil de ser aceita, uma vez que se tornou pública, patente e estigmatizada. Por outro lado, se riqueza e pobreza sempre tiveram um caráter relativo, enquanto variáveis em função das necessidades vitais e sociais de cada grupo em 3

4 determinado momento de sua história, no mundo contemporâneo essa relatividade adquire outra proporção. A pobreza passa a existir em uma sociedade também em função das necessidades externas, engendradas por outros processos societários. Uma necessidade satisfeita por formas tradicionais de produção pode rapidamente transformar-se em carência, tão logo cheguem informações de novos bens e novos comportamentos criados no exterior (Cristina Costa Pág. 237). Para justificar uma necessidade ideológica de manutenção do sistema e de suas novas formas de acumulação, da-se à pobreza massiva várias explicações: em todas predominam as suas consequências e efeitos sociais em detrimento de suas raízes históricas. Desta forma, se discute muito a miserabilidade, a fome, o desemprego estrutural e muito pouco a organização social que os patrocina e aprofunda. Sabe-se que a pobreza é uma questão milenar que antecede o capitalismo. Em modos de produção pré-capitalistas, tanto a pobreza quanto as desigualdades sociais estavam intimamente ligadas à escassez e/ou ao baixo grau de desenvolvimento das forças produtivas e das relações de produção. Depois, a pobreza passou a ser explicada como situação problema de indivíduos e, nessa configuração, até os dias de hoje, nos deparamos com dificuldades para compreendê-la como complexa manifestação da questão social acirrada e imposta pelo capitalismo. Alguns autores destacam ainda que [...] as teorias Neoliberal e Terceira Via, tem em comum o diagnóstico de crise, cujo culpado é o Estado, mas propõem estratégias diferentes de superação: o Neoliberalismo defende a privatização; e a Terceira Via, o terceiro setor. Nos dois, o Estado não é mais o responsável pela execução das políticas sociais: um repassa par o mercado e o outro para a chamada sociedade civil sem fins lucrativos (PERONI, 2010, p.96). Assim, são expressivas as consequências desse modelo na tentativa de desmonte da proteção social fruto da luta da classe trabalhadora para o reconhecimento da fratura social e no insistente discurso de que o bem estar é possível de ser alcançado no mercado. É desse modo que se estabelece um estado mínimo no qual a sociedade, por meio de atitudes de solidariedade, resolve os problemas dos incapazes e/ou fracassados, e a filantropia acaba por ser retomada como base para o enfretamento da questão social, o que denota um retrocesso nas conquistas sociais dos trabalhadores já 4

5 que lhes resta, como alternativas, ou a possibilidade de recorrer aos serviços públicos sucateados, ou de buscar as iniciativas filantrópicas, convocadas pelo neoliberalismo a prestar solidariedade aos pobres. Referências bibliográficas 5

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